resgate e cidadania

Violência do Estado contra comunidade Pinheirinho em 2012 vira projeto de documentário

Em 2012, a brutalidade da Polícia Militar no despejo de 5.500 pessoas na comunidade do Pinheirinho dos Palmares chocou o mundo. Agora, a história pode virar filme através de financiamento coletivo

arquivo/ebc
No dia 22 de janeiro de 2012, 2 mil policiais executaram uma ação de despejo com grande violência contra os mais de 5.500 moradores. A comunidade contava com comércio ativo, igrejas, escolas, cultura e vida própria

São Paulo – “A violência praticada pelo Estado contra as pessoas que viviam no Pinheirinho lhe causa indignação?”, provoca a pré-produção do projeto de documentário Pinheirinho dos Palmares. Ontem (1º) foi dada a largada para o financiamento coletivo, via Catarse, para a arrecadar fundos que viabilizem a execução do longa-metragem que contará a história daquela que foi a maior ocupação urbana organizada do Brasil.

A história da comunidade começa em fevereiro de 2004, quando trezentas famílias ocuparam um terreno em São José dos Campos, principal cidade do chamado Vale do Paraíba, em São Paulo. A área – abandonada – fazia parte da massa falida da empresa Selecta S/A, do mega investidor financeiro Naji Nahas, cujo interesse no terreno de 1 milhão de metros quadrados era apenas por prever ganhos com a especulação imobiliária.

Porém, mal pagador de impostos e tributos, Nahas acumulava dívidas de mais de R$ 16 milhões com o município de São José dos Campos. Até o ano de 2010, as famílias conseguiram uma série de vitórias na Justiça para garantir a função social da propriedade, em vez do mal uso para especulação de um criminoso, já que anos antes ele havia sido condenado por corrupção. Entretanto, a história ganhou tons de tragédia em 2012.

Pinheirinho, a tragédia

Naquele ano de 2012, no dia 22 de janeiro, 2 mil policiais militares – sob comando do então governador Geraldo Alckmin (PSDB) – executaram uma ação de despejo com extrema violência contra os mais de 5.500 moradores da ocupação.

Com o passar do tempo, a comunidade havia se estruturado. Contava com comércio ativo, escolas, cultura, esporte, igreja e vida própria. “A ação chocou pela violência, reconhecida como um dos maiores crimes de Estado contra os direitos humanos pós ditadura (civil e) militar. Há relatos de feridos, agressões sexuais e, pelo menos duas mortes, além do registro de desaparecidos. As casas foram saqueadas e destruídas, e onde havia vida restou um cenário de terra arrasada”, afirma a organização do projeto.

A comunidade foi desestruturada e vidas tiveram suas bases destruídas. “Hoje, 1.400 dessas famílias estão instaladas em casas de 46 metros quadrados, no Conjunto Habitacional Pinheirinho dos Palmares. Essas 1.400 famílias conquistaram suas casas, distantes aproximadamente 18 quilômetros de onde moravam, trabalhavam, estudavam, tinham suas vidas estabelecidas.”

Lançamento

Para resgatar a história do Pinheirinho e contá-la em filme foi aberto o financiamento coletivo, que contou com uma live na noite de ontem sobre o tema. Participaram o vereador de São Paulo Eduardo Suplicy (PT), o coordenador do Movimento Urbano Sem Teto (MUST), Marrom do Pinheirinho, e Amélia Naomi, vereadora de São José dos Campos (PT). Também participaram Celso Renato Maldos, Everton Rodrigues e Lucas Lacaz Ruiz, da equipe de produção do documentário.

“Devemos trabalhar para reverter a situação tão difícil daqueles desabrigados pela remoção do Pinheirinho. Deixo meus parabéns pela iniciativa à toda a equipe e todos que estão realizando este trabalho”, disse Suplicy em sua intervenção. O vereador, na época senador, participou ativamente na defesa das famílias e na denúncia da violência policial.

Celso Renato, roteirista, destacou que a produção “não apenas resgata a história do Pinheirinho, resgata vários aspectos. De alguma forma apontar também para uma ideia de construção. Quando penso na história do Pinheirinho lembro da história do Contestado e da violência do Estado, do massacre aos pobres, da violência armada”.

Amélia Naomi também reafirmou a importância do projeto. “Falar do Pinheirinho é muito duro. Destruíram a vida das pessoas e as histórias (…) A polícia se achava no direito de fazer o que fez. Esse registro vai ser muito importante (…) Utilizaram de um método fascista. Tivemos a cidade e a imprensa contra nós. Mas também tivemos a solidariedade do Brasil e do mundo”, disse.

Assista ao encontro completo: