"Aqui Não Entra Luz"

Cineasta faz campanha para concluir filme sobre ‘a escravidão do quarto de empregada’

Financiamento coletivo termina neste sábado (11). Na voz das trabalhadoras domésticas, documentário revela relação com a senzala. “Ninguém melhor do que elas para contar essa história”, diz Karoline Maia

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Campanha de financiamento coletivo do "Aqui não entra luz" está no site da Benfeitoria. Seis trabalhadoras contam suas histórias e o que elas dizem sobre o passado

São Paulo – “A história de empregada doméstica não é bonita de se contar não”, tentou advertir Marcelina, moradora de Salvador, à cineasta e fotógrafa Karoline Maia. Palavra de trabalhadora doméstica. Karol, como é chamada, rodava o país para gravar seu primeiro longa-metragem. Encontrava raízes e reunia um Brasil contemporâneo que teima em manter seu passado escravocrata.

Na adolescência, Karol sonhava em ser escritora. No seu trabalho de cineasta, e já formada em Rádio e TV, foi encontrar na exatidão das imagens uma forma de transpor um incômodo de anos. Queria exibir sua investigação histórica sobre a relação da antiga senzala com o quarto de empregada dos dias atuais. 

O elo entre o Brasil dos tempos coloniais e o “moderno” apareceu ainda em sua infância, ao acompanhar a mãe, a também trabalhadora doméstica Miriam Mendes, às “casas das patroas” próximas ao Jardim Helena, na zona leste de São Paulo. Por causa disso, em parte, quando dona Marcelina perguntou à equipe do filme o porquê de fazê-lo e, mais ainda, “se tinham esperança de que algo havia mudado”, Karol não hesitou ao confirmar sua falta de expectativa. 

Mas é também verdade que tamanha certeza vinha acompanhada de memórias de dores e racismo. Karol é uma mulher negra. E confirmou no preconceito de uma ex-chefe o que os livros de História ainda faltam dizer. “Ela me mandou dormir no quarto de empregada, a senzala, que tinha dentro da casa dela”, contou a cineasta à trabalhadora, compartilhando dores.

Já na entrevista com Marcelina, em meados de 2019, Karol tinha em mãos um roteiro “amadurecido” há pelo menos três anos. É uma longa pesquisa teórica desenvolvida pela historiadora e educadora em questões étnico-raciais Suzane Jardim. Mas a cineasta de fato sentiu que “toda a história fazia sentido, que ela se amarrava” quando teve a oportunidade de conversar com muitas mulheres, todas trabalhadoras domésticas. 

Aqui não entra luz 

Pelo menos seis delas darão as vozes e as caras a todo esse material histórico em seu primeiro longa, o Aqui não entra Luz. E a ajudar a compreender que “não existe o espaço em si, o espaço pelo espaço. Se os espaços significam o que eles significam é porque eles foram ocupados por um certo tipo de pessoa. E quem são essas pessoas? São pessoas negras”, destaca Karol à RBA

No país onde a cor da pele importa, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calculou, em 2018, que 6,2 milhões de pessoas tinham como ocupação o serviço doméstico remunerado. Desse total, 92%, o equivalente a 5,7 milhões, eram mulheres. E mais da metade – 3,9 milhões – negras. 

O último dado do IBGE, de maio, mostra que a categoria também sofreu com a pandemia. No período de um ano, o número de trabalhadores domésticos caiu de 6,2 milhões para 5 milhões. A imensa maioria, 3,6 milhões, sem carteira assinada. E com rendimento médio abaixo de um salário mínimo.

Até 2018, era uma atividade que vinha em recuo desde 1995. Mas ao longo de todo esse período o que jamais se modificou era o fato de que mulheres negras continuam a ser a maioria entre as trabalhadoras domésticas. 

O mesmo enredo

Ao percorrer, no ano passado, São Paulo, Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais – eixos de movimentos migratórios forçados –, a cineasta reconhecia que quarto de empregada e senzala se mantêm como alegorias de um país que segue racista. Mudava o local, não o enredo. Na individualidade de cada trabalhadora, havia ainda horrores e cicatrizes desse passado.

“As histórias se repetem. Existe um padrão e esse padrão consiste em muitas mulheres que começaram a trabalhar ainda criança e, nessa experiência, não recebiam salário, eram abusadas e deixaram de estudar”, comenta Karol. “Muitas famílias mandavam ao trabalho porque não tinha o que comer em casa. Até na expectativa de que assim tivessem também uma educação melhor do que poderiam dar. E elas foram trabalhar na casa de pessoas que definitivamente não respeitavam nenhum direito. Se não respeitam agora com a PEC, imagina naquela época.”  

A PEC à qual ela se refere é a proposta de emenda à Constituição aprovada no Congresso em abril de 2013, durante o governo de Dilma Rousseff (PT). Tornou-se a Emenda Constitucional 72, garantindo aos trabalhadores domésticos os direitos dos demais.

Mulher a serviço

O desafio era fazer a relação entre o quarto da empregada doméstica do Brasil da dita Constituição Cidadã, “muitas vezes sem janela e sem ventilação, onde, consequentemente, não entra luz”, com as senzalas de um Brasil colonial, em nada preservadas ou mantidas como espaços críticos à escravidão. 

“Essa foi uma dificuldade, sim. Nós fomos a muitos lugares que a senzala tinha virado banheiro, cozinha, escritório, e eu entrei em desespero. ‘Meu Deus, como eu vou fazer um filme disso, se não preservaram?'”, descreve a cineasta. “Então a Suzane começou a considerar na pesquisa dela que senzala era o lugar onde escravizado dormia. Nessa dinâmica, a gente conseguiu abranger um pouco mais esse olhar, de não esperar encontrar a senzala do Projac (o local dos cenários da TV Globo), mas encontrar outros formatos de senzalas”, explica. 

As imagens capturadas revelaram o quanto de colonial a arquitetura contemporânea ainda tem. Principalmente quando a escada por onde passavam as pessoas escravizadas davam acesso direto à porta de serviço. Não muito diferente da estrutura de prédios, casas e condomínios visitados pelo filme, que destinavam o elevador, a portaria e o adendo fechado ao lado da cozinha, a quem iria servi-los. “Tudo confirmava a nossa tese que o quarto de empregada é uma herança da senzala”, ressalta Karol. 

Pseudo-afeto

Mas de frente aos rostos do trabalho doméstico, a cineasta também viu uma relação de “afeto”. Ou “pseudo-afeto”, termo que ela considera ser mais próximo da realidade. E da complexidade que aproxima as empregadas domésticas dos patrões, de modo diferente de qualquer outra dinâmica de trabalho. 

“Todas as histórias têm um pouco disso, mas também tem o ‘ponha-se no seu lugar’. Porque por mais que a família possa dizer ‘ela é quase como se fosse da família’, mas ‘usa essa loucinha separada, esse é o seu copo, esse é o nosso'”, exemplifica, prosseguindo: “‘Usa aquele banheiro ali, não usa o nosso aqui dentro de casa não. Come na cozinha, não come na mesa com a gente’. A família sabe qual é o lugar onde eles querem que a empregada esteja”. 

Sem memória e sem incentivo 

A cineasta chegou a 2020 com um filme pronto. Mas depois de visitar um passado e notar que este é um país pouco interessado na preservação de memórias críticas a ele, encontrou também um Brasil alheio ao incentivo à cultura.

Até então, todo o processo de gravações e viagens, além do início da pós-produção, foi bancado com recursos do edital Rumos 2017-2018, do Itaú Cultural, que selecionou o projeto. Mas faltavam investimentos para montagem, tratamento de cor e som, arte final, criação de trilha sonora, identidade visual, produção de legendas e distribuição. 

A saída foi lançar uma campanha de financiamento coletivo no site da Benfeitoria. As doações on-line se encerram neste sábado (11). O objetivo é garantir a finalização do longa, com previsão de lançamento para 2021. 

Karol ressalta que não é a primeira cineasta negra a contar a história do trabalho doméstico em um documentário. Lembra dos filmes Mucamas, produzido em 2015 pelo Coletivo Nós, Madalena, e Filhas de Lavadeiras, de 2019, assinado por Edileuza Penha de Souza. Sua proposta, contudo, é “colaborar mais um pouco” nesse processo de registro, ao lado de outras mulheres da equipe e suas colegas da produtora audiovisual Pujança – coletivo formado por ela e pelas fotógrafas Camila Izidio e Carol Rocha, também negras.

“Quando contamos essa história juntas, a gente ressignifica contar a história de pessoas negras, porque não é mais uma pessoa branca contando, agora somos nós, mulheres, mulheres negras, que estão tomando a linha de frente”, destaca. “Tudo isso é muito importante para eu inclusive continuar acreditando nesse filme, porque não é facil fazê-lo. Ele é bastante dolorido para mim também”, revela Karol, sobre o que Marcelina já havia advertido. 

“Fui começando a me enxergar no filme, eu mesma, Karoline Maia, filha de uma trabalhadora doméstica. E fiz a escolha de optar só por manter as domésticas no filme. Por isso que eu chamo elas de especialistas, porque ninguém melhor do que elas para contar essa história”, garante.

Parte da equipe do longa-metragem “Aqui não entra luz”

Ferida aberta

São essas vozes que o Aqui não entra luz procura trazer à realidade o que seria difícil de contar até em ficção, mas é revelador da sociedade brasileira. Com um enredo que reconhece os direitos das domésticas apenas em 2015. Ou que leva a ter em uma trabalhadora do setor o primeiro óbito registrado em um Estado na pior crise sanitária da história. E tem, em plena pandemia, seu filho morto por negligência da patroa. Além de uma senhora que exercia seu trabalho como doméstica em condições análogas à escravidão

“É uma ferida aberta, sem dúvida. Nas últimas semanas a gente está sendo bombardeado por várias notícias que só deixam mais claro que a gente precisa falar desse assunto e precisa tocar nessa ferida. Meu desejo é que o filme colabore para essa discussão. E que a gente pare de fugir desse assunto, que coloque ele na roda dos nossos amigos, famílias. E eu digo amigos e famílias brancas, porque as pessoas negras já estão discutindo isso há muito tempo”, destaca a cineasta. 

Parte do dinheiro arrecadado será destinado a um fundo emergencial de apoio às trabalhadoras domésticas do documentário, que perderam o emprego ou tiveram a renda reduzida por conta da pandemia. A campanha chega nesta quarta-feira (8) com quase 90% da meta de R$ 130 mil batida.

Naquele 13 de junho, ao anunciar o financiamento coletivo em seu Instagram, Karol relatou “sentir medo, mas também esperança”. Agora, afirma perto da reta final ter “um pouco mais de fé nas pessoas”. Mas ainda faltam R$ 14 mil. Então lembra de cobrar daqueles, os brancos, que se empenham em divulgassem antirracistas. “Ser antirracista é também sobre colocar a mão bolso. A gente sabe quem é a maioria que tem dinheiro e quem é a minoria que não tem dinheiro no Brasil”, adverte. 

“Às pessoas brancas, eu as convido a colocar a mão no bolso e apoiar projeto de pessoas negras.” 

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Edição: Fábio M. Michel