análise

Esquerda que discrimina protestantes esquece ensinamentos de Marx

Doutor em Ciências da Religião avalia que ascensão de religiosos ao poder não é novidade no Brasil e forças progressistas precisam se aproximar de grupos protestantes

Valter Campanato/ABr
Para pesquisador, não há novidade na ascensão de grupos religiosos ao poder e é preciso dialogar com os evangélicos

São Paulo – A ascensão de políticos e outras lideranças protestantes no governo de Jair Bolsonaro tem causado preocupação e, mesmo, alguma surpresa por essa denominação religiosa, antes minoritária, ter chegado ao poder no Brasil. E essa situação tem despertado também uma reação refratária e preconceituosa em parte da esquerda. Para o doutor em Ciências da Religião Gedeon Freire de Alencar, no entanto, não há surpresa e é urgente que a esquerda passe a ouvir e dialogar com representantes evangélicos, cuja maioria dos seguidores são mulheres e negros pobres das periferias. “É um anacronismo dizer que só agora, por conta da presença pentecostal, tem uma ameaça à laicidade, uma presença político-religiosa ou um confessionalismo político”, apontou Alencar, em entrevista ao jornalista Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual.

“A esquerda sempre foi preconceituosa, não só contra os evangélicos, mas contra a religião. Isso é um dado. A esquerda de alguma forma jogou todo esse contingente religioso nas mãos dessa direita estúpida que está aí”, acrescentou.. Usa esse chavão marxista babaca de que a religião é o ópio do povo, mas esquece quando o próprio (Karl) Marx diz que é também o suspiro dos oprimidos. Uma manifestação desse grupo, que precisa ser ouvido e tem uma função social extraordinária. Basta ver as ações de agregamento, entrosamento, de articulação social que essas igrejas têm na periferia. Onde tem ausência do Estado, falta de políticas públicas, você tem as igrejas protestantes dando um mínimo de sociabilidade.”

Segundo pesquisa do instituto Datafolha, houve aumento entre a população que se declara protestante, chegando a 30% dos brasileiros. Os católicos são 50%. “O que mais me chamou atenção não foi um dado. Foi a observação que entre boa parte das mulheres e dos negros prevalece uma opinião divergente daquela que predomina na igreja. São os segmentos mais críticos ao governo. Estereotipadamente, sempre se trabalha com a ideia de que se trata de um grupo homogêneo, que todo mundo diz a mesma coisa. Mas o que a pesquisa demonstra é que essas mulheres e esses negros são extremamente críticos ao governo”, afirmou o pesquisador.

Para Alencar, parece haver uma elite religiosa entre os protestantes que combina e aceita acriticamente tudo que o governo Bolsonaro está fazendo. E tem um grupo crítico nesse universo, que está principalmente nas periferias. “Tem esse chavão de que os pentecostais estão apoiando o governo. Isso é verdade. Do ponto de vista da moralidade isso é muito óbvio. No discurso pentecostal isso é muito recorrente. Mas é a liderança chamada reformada, como a Igreja Presbiteriana do Brasil,  que tem dado o principal apoio ideológico. Os principais quadros no governo Bolsonaro e no Ministério das Mulheres, que são os principais assessores da Damares (Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), são exatamente ideólogos presbiterianos reformados.”