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Jovens que ‘ficaram para trás’ foram cooptados pelo conservadorismo

Conquistas sociais dos governos petistas mudaram a realidade de parte da juventude, mas os que não foram alcançados cultivaram ressentimentos e apostam em individualismo
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
17:05
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Mesmo sem crer que o Brasil esteja no rumo certo, parcela da juventude espera melhorar de vida baseada apenas no esforço individual

São Paulo – Para o ex-secretário nacional de Juventude (governo Dilma) Gabriel Medina, as organizações de esquerda não estão presentes como deveriam nas periferias das cidades brasileiras. Esses territórios foram dominados pelas igrejas evangélicas e pelas facções criminosas, o que explicaria a adesão dos jovens às ideias conservadoras, tendo o apoio dessa faixa etária sido decisivo na eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo ele, uma parcela dos jovens da periferia conquistou direitos, como acesso ao ensino superior, que antes eram “impensáveis”, mas foram conquistas “parciais”, que não alcançaram a todos, o que colaborou para o crescimento de sentimentos de rancor e ressentimento, o que também explica em parte a opção política à direita de uma parcela da população.

Também faltou avançar mais em políticas nas áreas de segurança, transporte e saúde, para atender as demandas ampliadas dessa parcela da população que vivenciou a ascensão social durante os governos petistas. “Essas conquistas parciais não alcançaram todas as dimensões da vida. E não atingiram o conjunto de toda uma geração. Um setor conseguiu ascender, enquanto outros ficaram para trás”, afirmou Medina em debate realizado nesta segunda-feira (30) no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, na região central da capital paulista.

Ele também afirmou que a inclusão ao mercado de consumo promoveu a identificação dos jovens das periferia com os anseios da classe média, historicamente mais conservadora. Outra novidade que marca a juventude atual, segundo Medina,  é o medo da morte, em especial entre os jovens negros e pardos – que são mais de 70% das vítimas de homicídios no país.

Além dos avanços em políticas de mobilidade e segurança, que garantam o direito de ir e vir dessas populações, Medina defendeu que as organizações de esquerda e movimentos sociais devem estabelecer conexões com iniciativas criadas nas periferias, prestando assistência e facilitando o acesso a serviços. “Somente uma frente ampla e plural, democrática e inovadora será capaz de enfrentar o fascismo neoliberal, em curso no mundo e no Brasil, para reconquistar a esperança da juventude.”

Perfil

Mais conectados e mais instruídos, os jovens brasileiros têm hoje um perfil mais fragmentado e menos linear que há duas décadas. De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva, eles citam o trabalho como o aspecto mais importante na construção de suas identidades, mas seguido de perto pela própria identidade de gênero. Em sua maioria, acreditam que o Brasil não está no rumo certo, mas acham que suas vidas vão melhorar, no próximo ano, baseado no esforço individual. São mais suscetíveis a apoiar bandeiras, em vez de ideologias.

Segundo o presidente do instituto, Renato Meireles, não é possível dialogar com esses jovens sem tentar se colocar no lugar deles. “Falar para os jovens e com os jovens significa, além do protagonismo necessário a ser respeitado, além da empatia para entender as suas dores, ser capaz de lidar com a não linearidade e a não coerência ideológica”, destacou.

A única característica que permanece constante, segundo ele, é a rebeldia dos jovens que se converte num sentimento “antissistema”, o que explica o apoio dessa faixa do eleitorado à eleição do presidente Bolsonaro. “Esse governo foi eleito porque se consolidou como antissistema. Hoje a gente tem a situação surreal de uma pessoa do sistema, que defende o sistema privado mais do que qualquer outro, fazendo discurso antissistema”, disse Meireles.

Ele destacou que, diferentemente das gerações anteriores, os jovens de hoje não conheceram, por exemplo, o período de hiperinflação, e cresceram já familiarizados com políticas de acesso à educação, como o ProUni. Vivem num país marcado pela desigualdade social, em que metade das famílias vive com renda mensal inferior a R$ 2.300, enquanto os 10% mais ricos tem renda superior a R$ 6.750. Os jovens também são os mais afetados pelo desemprego, lembrou Meirelles. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, 41,8% da população de 18 a 24 anos estava desempregada ou desistiu de buscar emprego, no primeiro trimestre.

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Jovens passaram a ter medo da morte e acreditam menos em ideologias