São Paulo

Especialista critica Plano de Segurança Viária de Covas: ‘Medíocre’

Projeto apresentado após dois anos de elaboração decepcionou quem acompanha o tema e reivindica mudanças drásticas para melhorar a segurança no trânsito

Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress
plano de segurança viária

Acidentes de trânsito são a segunda maior causa de morte entre jovens no país, segundo a OMC

São Paulo – Os acidentes de trânsito são a segunda maior causa de mortes de jovens no Brasil, atrás apenas da violência interpessoal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Após dois anos de elaboração, o prefeito da capital paulista, Bruno Covas (PSDB), lançou o Plano de Segurança Viária de São Paulo, no último dia 17, com o objetivo de “transformar São Paulo em uma das cidades com tráfego mais seguro do mundo”. Mas a proposta está longe de alcançar essa meta, na avaliação de Aline Cavalcante, diretora da ONG Ciclocidade. “Uma cidade tão violenta no trânsito, que tem tanto recurso, parceria internacional, cooperação técnica. Está tudo tão alinhado que não pode vir um planinho medíocre como esse”, criticou.

A principal crítica é que o plano não tem detalhamento das ações. Não é possível visualizar onde as ações serão realizadas e quais os impactos esperados. Além disso, ações relacionadas às estratégias mencionadas por Covas no lançamento do plano – a Visão Zero e os Sistemas Seguros – são descaracterizados pela manutenção da velocidade máxima das vias e a falta de intervenções físicas, por exemplo. Entre as propostas da gestão estão a criação de áreas calmas e a proibição de circulação de motoqueiros na pista expressa da Marginal Pinheiros, como já ocorre na Marginal Tietê.

“É um plano muito tímido para o problema que a gente tem na cidade. Tem uma área inteira de gestão de velocidade. Mas em nenhum momento cita a redução das velocidades, somente o acompanhamento das velocidades máximas permitidas. De certa forma, contradiz a visão zero e os sistemas seguros. As áreas calmas não são novidade na cidade e são tímidas. Só menciona, sem explicar a proposta, se vão ser feitas intervenções. Não adianta só pintar o chão, colocar placas”, criticou Aline. A gestão Covas apresentou o plano em reunião do Conselho Municipal de Trânsito e Transportes (CMTT) na última quinta-feira (25).

O plano também não cita legislações já existentes na capital paulista, como os planos Municipal de Mobilidade Urbana e o Cicloviário. A única citação às vias expressas é a retirada dos motoqueiros das marginais. Sequer é citado o projeto Marginal Segura, lançado quando o ex-prefeito e atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB), aumentou os limites de velocidades nas marginais.

“O programa foi construído ouvindo os especialistas. Não é um plano do prefeito, é um plano da cidade de São Paulo. A pressão das pessoas e o quanto elas se apropriam disso é que vai garantir a perpetuação dele”, disse Covas.

Apesar disso, o Comitê de Segurança Viária, criado para acompanhar as ações do plano, não tem participação da sociedade civil, só representantes do governo municipal. A plataforma Vida Segura, que organiza e expõe dados de ocorrências de trânsito, acidentes e mortes na cidade, está desatualizada e não dispõe de dados de 2018.

“É uma gestão que assumiu com o discurso do ‘acelera’, aumentou as velocidades das marginais, tentou implantar o programa Marginal Segura, que é um fiasco. Não tem resultados concretos sobre a segurança, ao contrário. Onde estão os planos? Se cada vez que uma gestão for iniciar um programa tiver uma proposta totalmente nova, a gente nunca vai avançar em nada. Não adianta ficar criando coisas sem avaliar e melhorar o que tem”, afirmou Aline.

Mortes no trânsito

A prefeitura destinou R$ 35 milhões para intervenções de segurança viária que estão entre as estratégias prioritárias do novo plano em 2019. Terão início as licitações para Áreas Calmas em Santana (Zona Norte) e São Miguel Paulista (Zona Leste), a implantação de Vias Seguras na Avenida Belmira Marin e na Estrada de Itapecerica, ambas na Zona Sul, e uma Rota Escolar Segura em Itaquera, na Zona Leste. Além de Santana e São Miguel, o Programa de Metas prevê a implantação de mais três Áreas Calmas no Biênio 2019-2020 e de quatro Rotas Escolares Seguras no mesmo período, começando por Itaquera.

A capital paulista teve 884 mortes no trânsito em 2018. Apenas uma a menos que em 2017, quando foram registrados 885 óbitos, segundo dados do Infosiga. A estagnação nos números, após sucessivas quedas, preocupa e é reveladora da paralisação das políticas de acalmamento de tráfego na gestão Covas.

A maior parte das mortes é de pedestres, com 42% dos casos. No entanto, houve queda de 5,8% nos casos, em 2018, na comparação com o ano anterior. Os motociclistas são o segundo maior grupo, com 41% dos casos. E o dado alarmante é que houve alta de 18% nas mortes desse grupo, entre 2017 e 2018. Entre os ciclistas, houve 22 mortes.

“Estamos há dois anos parados no tempo, sem nenhum investimento em ações para a segurança de pedestres e ciclistas. E a tendência é o número de mortes aumentar. Esperávamos que fosse haver uma compensação dessa estagnação. O maio amarelo – mês de ações de segurança no trânsito – vai ser focado nos motoqueiros. Esquece pedestre, esquece ciclistas. Precisamos de respostas imediatas. Mas essa que foi apresentada é absolutamente insuficiente. Tudo fica no discurso, na prática não acontece nada. Você não consegue enxergar as mudanças agora, as pessoas estão morrendo hoje”, concluiu Aline.