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Condepe defende que criança sobrevivente de ação da PM deve ser ouvida pela Justiça

Para Ariel de Castro Alves, é 'impossível que uma criança desta idade tenha condições de abaixar, fechar os vidros do carro, dirigir e, ao mesmo tempo, atirar contra os policiais com as duas mãos'

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Ariel: ‘É muito possível que tudo o que ocorreu tenha sido uma montagem’

São Paulo – “O garoto de 11 anos que sobreviveu aos policiais foi ameaçado de morte após a ocorrência e depois, novamente, para que gravasse um vídeo confirmando a versão dos policiais”, afirmou Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana (Condepe), em entrevista hoje (20), para a Rádio Brasil Atual. No dia da ocorrência, duas crianças foram abordadas pela PM após roubarem um carro. Uma delas foi baleada, Ítalo, de dez anos.

O caso aconteceu na região do Morumbi, zona sul de São Paulo, no dia 2 deste mês. De acordo com a versão dos militares, Ítalo dirigia o carro enquanto disparava contra a viatura. Essa história, entretanto, contém lacunas, de acordo com Ariel. Para o membro do Condepe, a criança sobrevivente deve ser ouvida em uma brinquedoteca da Justiça, uma estrutura que já é realidade no Fórum da Barra Funda.

“É muito possível que tudo o que ocorreu tenha sido uma montagem. Os policiais teriam colocado uma arma dentro do carro, depois teriam simulado disparos na mão da criança que morreu para que ficasse com resíduos de pólvora. O indício disso é que os resíduos aparecem nas duas mãos da criança”, afirmou. “Colocam nas duas mãos pois eles não sabem se a pessoa que morreu era destra ou canhota.”

O membro do Condepe ressaltou a importância de oitivas adequadas, pois uma criança de dez anos manusear uma arma, efetuando disparos, enquanto dirige um carro em fuga é uma história controversa. “É impossível que uma criança desta idade tenha condições de abaixar, fechar os vidros do carro, dirigir e, ao mesmo tempo, atirar contra os policiais com as duas mãos.”

De acordo com Ariel, tudo indica que a criança que sobreviveu à ação, assim o fez porque “não estava em um local ermo. É um local de muito trânsito, com muita frequência de pessoas, senão, essa criança, de 11 anos, teria sido uma queima de arquivo”. Entretanto, mesmo com o acontecimento em um local movimentado, parte da população saiu em defesa dos militares.

Moradores do bairro do Morumbi receberam os policias como heróis, inclusive realizando um pequeno ato no dia 11, em apoio aos supostos assassinos. “Um ato de insanidade”, define Ariel. “Terrível, como essas pessoas não têm um pingo de solidariedade diante de uma criança de dez anos que foi assassinada (…) Essas pessoas gostariam que a favela fosse eliminada. Gostariam que as crianças da favela fossem assassinadas (…) Pessoas sem nenhum padrão civilizatório. Só podem ser neonazistas”, disse.