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Movimentos iniciam série de atos contra violência e impunidade policial

Para ativistas, estrutura militarizada do aparato estatal de segurança mantém práticas criminosas contra populações pobres e periféricas
Publicado por Gisele Brito, da RBA
16:42
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Divulgação/Moinho Vivo
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Parentes e vítimas de crimes com indícios de participaçãa de PMs deram depoimentos de sua dor e luta por justiça

São Paulo – Familiares e vítimas da violência do Estado relataram hoje (2) suas histórias na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, no centro da capital, onde representantes de vários movimentos sociais voltaram a pedir a desmilitarização da polícia e a exigir a investigação de crimes cujos principais indícios recaem sobre policiais. A data para a realização do ato marca os 21 anos do massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos na então maior casa de detenção do país.

Durante toda a semana, manifestações de rua e eventos culturais deverão criticar a permanência de práticas criminosas contra as populações pobres e periféricas, por aparelhos policiais militarizados, mesmo após a redemocratização do pais. Para os ativistas, o Estado se contradiz ao operar de maneira “terrorista” diante de Constituição Federal que, teoricamente, serviria como garantia de direitos dos cidadãos – a Carta Magna completa 25 anos no sábado (5).

“Nós temos ira. Nós não somos da paz, nós somos do ódio”, afirmou Débora Maria Silva, uma das coordenadora do Mães de Maio, movimento que luta pelo reconhecimento dos crimes de maio de 2006, quando 493 pessoas morreram, quase todas elas com indícios de participação de PMs de São Paulo que buscavam revanche em função da morte de colegas de farda.

“Mataram meu filho, mataram os nossos filhos. Nós queremos respostas da incompetência da instituição policial, da nossa Justiça, que vê e arquiva. Temos casos nos crimes de maio que são absurdos. Uma mãe grávida de nove meses e o inquérito foi arquivado. Temos de fazer uma faxina. Desmilitarizar a polícia e fazer a reforma do Judiciário”, disse.

Danilo Dara, também do Mães de Maio, chama atenção para a blindagem do Judiciário, fechado como uma “caixa preta”, que não se submete ao controle social, subjugando principalmente a população “preta, pobre e periférica”.

Para Débora, a falta de investigação e punição faz com que a ela continue e aumente, o que também engrossa as fileiras do movimento.

Uma das mais recentes integrantes do grupo é Maria Helena Teles Pina. Ela se associou ao Mães de Maio há menos de um ano, depois de seu filho José Rodrigo Pina ser assassinado, em 7 de outubro de 2012, em Santos, litoral sul paulista.

“Meu filho foi executado às duas da madrugada; o sargento Marcelo Fukuhara, que era chefe de uma grupo de extermínio formado por policiais, à meia noite. Eles vieram fazendo a rapa e encontraram meu filho”, conta, ainda abalada pela perda do caçula. “Nunca fui chamada lá para depor, nada. Se eles quisessem investigar, tinham investigado. Porque eu investiguei e descobri quem foi”, diz. Ela não conta o nome do autor dos disparos, por medo.

Elvira Ferreira da Silva também está na luta há pouco tempo. Seu filho Ricardo Ferreira foi morto em frente a sua casa, em Santos, horas depois de ser espancado por policiais militares acusados formalmente de lesão corporal.

Ricardo era funcionário terceirizado na Universidade Federal da Baixada Santista e não conseguiu convencer alunos que filmaram as agressões que sofreu a entregar a ele as imagens. A família acredita que, apesar de não haver denúncia formal, esse tenha sido o motivo da morte.

“Depois que ele voltou do hospital para casa, eles (policiais) foram lá. Entregaram maconha para ele, pediram desculpa, me pediram desculpa. São falsos”, afirma Elvira. Ela diz que acabou agora de pagar um tênis comprado em três parcelas pelo filho único, mas não teve dinheiro para refazer sua prótese dentária, que se quebrou ao cair de sua boca durante o choro diante do corpo de Ricardo. “Sou pobre. Não tive dinheiro para refazer.”

Longa data

A violência do Estado contra populações pobres e periféricas tem bases no processo escravista e mais recentemente nos resquícios da ditadura, que deixou como legado a Polícia Militar, criada para garantir a ordem ditatorial.

Mas, para os ativistas, em vez de diminuir com a progressiva democratização do país, as práticas autoritárias e repressivas teriam se intensificado – ao ponto de às vezes ser transmitida ao vivo, como lembrou o fotojornalista Sérgio Silva. Ele foi atingido por uma bala de borracha durante a manifestação pela redução da tarifa do transporte público no dia 13 de junho, em São Paulo, e perdeu a visão do olho esquerdo. “A violência do Estado me colocou desse lado da mesa”, disse ele, ao tratar de seu estranhamento em ser o entrevistado e não um dos profissionais trabalhando na cobertura da coletiva.