Recomeço

Para Haddad, São Paulo não teve vontade de acolher população de rua

Prefeito afirma que é preciso combater desigualdade na cidade, que adere a política nacional com quatro anos de atraso e começa a oferecer cursos para 200 moradores de rua este ano

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Haddad afirmou que a cidade, famosa por acolher gente de todas as partes, tem de combater a intolerância

São Paulo – O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), afirmou ontem (28) que a cidade não se preparou para o atendimento à população em situação de rua. “Muitas vezes não se preparou porque não quis se preparar, porque não havia a disposição efetiva”, disse. A prefeitura e o governo federal assinaram o termo de adesão à Política Nacional para a População em Situação de Rua, no Senai Brás, onde 200 moradores de rua irão compor doze turmas de diversos cursos de formação profissional. A ideia é que até o final de 2014 sejam 2 mil pessoas beneficiadas.

A adesão à política foi comemorada pela população de rua. Desde 2009, a cidade deixava de receber recursos da política nacional para a questão por falta de interesse dos gestores. “Sempre São Paulo encontra um jeito de acolher as pessoas do mundo todo. Nós temos que fazer dessa característica da nossa cidade uma força de políticas públicas no combate da intolerância na busca de igualdade de oportunidade. Temos que ter políticas que combatam a desigualdade e celebre a diversidade, pois o fato de sermos diferentes uns dos outros também faz parte da explicação da força de São Paulo”, acrescentou o prefeito.

O Comitê Intersetorial para a População de Rua, constituído em 23 de março, é formado por integrantes da sociedade civil e do governo, e terá a obrigação de formular uma política municipal para o setor. Segundo a prefeitura, alguns grupos já iniciaram os cursos profissionalizantes, casos das formações de eletricista instalador predial de baixa tensão e de almoxarife. Nos próximos dias começarão as aulas de pedreiro e auxiliar administrativo.

“Nós estamos contribuindo para o sonho de termos uma nação desenvolvida, onde repartimos a renda e asseguramos o direito a todos, como uma responsabilidade efetiva dos governantes em todas as esferas”, disse a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário “Vocês são a principal inspiração do Brasil para superar todas as formas de opressão e construir de agora, até o próximo natal uma belíssima formatura.” Ela ainda elogiou o esforço da prefeitura para melhorar o relacionamento entre a população de rua e a Guarda Civil Metropolitana.

Segundo Anderson Miranda, presidente do movimento nacional de pessoas em situação de rua, em cinco meses da gestão Haddad, nenhum morador de rua foi morto, uma mudança em relação à gestão de Gilberto Kassab (PSD), famosa por tratar os moradores com jatos de água suja e por recolher os pertences.

O ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que chegou a afirmar que Kassab era responsável por uma política higienista, disse estar emocionado. “Vocês não sabem como é bom ver vocês, em vez de estar levando jato de água fria, expulsos do centro, sendo acolhidos em uma sala como essa”, disse.

Para o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, a formação e a recolocação no mercado de trabalho são apenas duas das políticas necessárias para resolver os problemas da população de rua. “Essa é uma das respostas, mas não é a resposta. A população de rua não se esgota nessa questão. Mas existem as pessoas com transtornos mentais, com deficiência, existem as famílias, as mulheres com crianças. Existem várias situações, então as respostas têm que ser complexas”, afirmou.

Haddad, no entanto, se mostrou otimista: “Essa escola é importante. É uma escola do Senai que forma 16 mil trabalhadores por ano. É uma escola que formou um presidente da república. De maneira que o próximo pode ser um de vocês”, cogitou. “Não sabemos o destino de cada um quando a transformação está em pauta.”

Segundo o secretário municipal de Direitos Humanos, Rogério Sottili, os primeiros formados serão auxiliados pela prefeitura para encontrar trabalho. “A diretriz é que não estamos preocupados em tirar pessoas da rua. A política vai passar por construção de oportunidades, construção da cidadania, o que o próprio prefeito frisou muito. Então nós vamos construir oportunidades, oferecendo moradia, assistência social, saúde, educação. Para que a população de rua se sinta com autonomia”, afirmou.

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