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Livro traça retrato singelo e profundo de Paulo Moura

por guibryan1 publicado 22/12/2011 00h00

Há duas leituras possíveis, e igualmente prazerosas, do livro de edição bilíngue “Paulo Moura – Um Solo Brasileiro”, que vem acompanhado de um CD com dez composições inéditas do compositor, arranjador, saxofonista e clarinetista de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, que morreu em 2010. A autora do livro é a psicanalista carioca Halyna Grynberg, que foi casada com ele por 26 anos.

A primeira leitura é a revelação da intimidade de Paulo Moura, um dos maiores músicos brasileiros. A proximidade com a música surgiu em função de o pai e os irmãos serem músicos, tanto que, aos nove anos, ele já tocava num grupo de baile na cidade-natal e, aos 19 anos, embarcou para a primeira turnê internacional, com a orquestra Ary Barroso.

Logo a família toda mudou para o Rio de Janeiro e a atividade musical se tornou ainda mais intensa, com passagens pelas orquestras das rádios Globo, Nacional e Tupi, e também da TV Tupi, entre outras, até ter seu próprio conjunto. O maestro Radamés Gantalli também foi marcante na trajetória dele, a ponto de ganhar um álbum dedicado pelo aprendiz.

Claro que o fato de ser negro dificultou muito o desenvolvimento de Paulo Moura num país de preconceito velado como é o Brasil. “Meu apego à escrita da música erudita era como um hobby secreto. Isso vinha como desejo desde quando eu estudava na Escola Nacional de Música, com o professor Jayoleno dos Santos – ele me transmitiu essa aspiração. Tinha de considerar como hobby porque, na verdade, haviam me alertado de que seria muito difícil, no Brasil, um regente negro se realizar; ou melhor, certamente era difícil na época em que eu o pretendia, nos anos 1960. E, mesmo depois, pelos anos 1970, li numa entrevista que uma cantora e pianista americana pretendera se tornar uma concertista de piano e que, por ser negra, também percebeu que isso não seria muito fácil. Mesmo assim, nunca deixei de estudar música erudita e contemporânea.” Ao mesmo tempo, quando começou a ser reconhecido, ele viu ficar mais difícil a possibilidade de gravar e se tornar um solista, como tanto sonhava.

É incrível a descrição que faz de um método próprio que desenvolveu para tocar os instrumentos de sopro, denominado “moto perpétuo”, nome de uma composição de Paganini, e que o tornou reconhecido. Para isso, ele explica a diferença entre tocar com os dentes e com os lábios. “O ‘Moto perpétuo’ não para; são aquelas notas todas, não sei quantas, são quase cinco minutos de música ininterrupta – outro dia nos disseram que são mais de 2.700 notas em sequência, lembra? Aí fiquei assustado de novo, que coisa! Não para. Para tocar todas essas notas sem tirar o instrumento da boca, do início ao fim, e, assim, não interromper o sopro, fui experimentando aumentar a quantidade de notas que eu tocava enquanto soltava o ar das bochechas. Essa foi a inovação: tocar várias notas, não uma só, ao mesmo tempo em que solto o ar das bochechas e, dessa forma, manter o sopro contínuo. Para isso interrompo a passagem do ar que vem do pulmão, acumulando-o nas bochechas. É nessa hora que faço a respiração.”

A segunda leitura é observar o excelente método de entrevista desenvolvido por Halyna Grynberg, que insere diversas impressões e sensações entre as centenas de perguntas e respostas. “Nada é como parece ter sido. Divagações estéticas adornam suas lembranças pessoais e a memória desenha paisagens de harmonias rigorosas quando reflete sobre sua arte: a música”, anuncia logo no primeiro parágrafo. A partir daí, ela descreve, por exemplo, a fantástica coleção de chapéus dele, e vai, aos poucos, penetrando no mais profundo da intimidade de Paulo Moura, numa linda declaração de amor ao homem e artista com o qual conviveu tão de perto.

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