história

Alertas, fiascos e significados dos 100 anos do fim da Primeira Grande Guerra

A 'Grande Guerra' foi muito mais do que um prelúdio, foi o fim de um mundo. Nas comemorações do centenário de seu fim, além do perigo iminente de um novo conflito mundial, as inconveniências de Trump

John Warwick Brooke
Primeira Guerra Mundial

Usando táticas de guerra do século 19, mas com armamentos do século 20, a Primeira Guerra Mundial foi um desastre militar

No último fim de semana, em Paris, líderes de pelo menos 70 países comemoraram, em Paris, o fim da 1ª Guerra Mundial (28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918). A comemoração foi marcada por alertas e fiascos. Os alertas falaram da paz mundial em perigo, de como a situação de hoje lembra a do começo do século 20 e mesmo a da Segunda Guerra (1939-1944), com a emergência de disputas nacionalistas e as políticas de fomento à pobreza e à recessão, além da xenofobia.

Os fiascos ficaram – surpresa? – por conta de Trump, suas danças e contradanças. Atacou o anfitrião, Emanuel Macron, por este ter falado num hipotético “Exército Europeu”. Não foi à homenagem aos soldados norte-americanos mortos na defesa da França. Não foi à sessão de pronunciamentos de líderes mundiais sobre os perigos da situação atual em relação à paz. Esnobou-os, com desculpas pífias. Bom, esnobou também a memória dos soldados norte-americanos. Os que votaram nele nos Estados Unidos que engulam isto.

Mas a Primeira Guerra Mundial está longe de ser compreendida pelos jovens de hoje.

Comumente se pensa nela como um prelúdio da Segunda Guerra. Claro: no cinema, por exemplo, a exposição desta é muito maior. Também é difícil compara-las numericamente, embora todos os algarismos sejam espantosos.

Por exemplo: total de mortos na Primeira Guerra: 17 milhões, 10 milhões de militares e 7 milhões de civis; na Segunda Guerra, 73 milhões, 24 milhões de militares e 49 milhões de civis.

Armamentos: modernos e deslocando as táticas antigas na Primeira Guerra; na Segunda, letalidade beirando o genocídio (sem falar no Holocausto), cujo ápice foram as bombas atômicas lançadas contra o Japão.

Mas a Primeira Guerra foi muito mais do que um prelúdio.

Foi o fim de um mundo. Quatro impérios soçobraram nela: o alemão, o austro-húngaro, o otomano e o russo. O britânico se aguentou nas pernas, mas saiu avariado, começando a perder a liderança mundial para os EUA.

Foi o começo de outro: pela primeira vez desde as invasões muçulmanas a maciça presença de exércitos de outros continentes foi decisiva em batalhas na Europa. A saber, a dos norte-americanos, com tropas frescas diante dos esgotados exércitos europeus, a partir de 1917.

A aventura comunista começava na então futura União Soviética. Haveria um realinhamento ideológico geral.

Militarmente, o desastre foi enorme. Os exércitos lutavam com táticas herdadas das guerras do século 19 mas com armamentos do século 20: metralhadoras, bombardeios à distância, aviação, armas químicas. Resultado: a estagnação nas trincheiras. Milhares de mortos entre lama, fome, ratos, piolhos, pulgas, doenças, cargas inúteis. Mortos e feridos aos milhares sem que se ganhasse um palmo de terreno.

Quando terminou a guerra, o descrédito nas instituições era total. Houve a tentativa da revolução spartakista na Alemanha, com sua sufocação sangrenta pelos Freikorps, inaugurando o caminho que levaria às SA e SS do futuro. Fundou-se a Liga das Nações, que logo afundou nas suas contradições.

Uma curiosidade: a herança literária e artística imediata da Primeira Guerra, do ponto de vista temático, é relativamente pequena, dado o alcance do conflito. A reação mais imediata veio da proliferação dos movimentos de vanguarda, detonando os valores artísticos consagrados desde o Renascimento, a consagração do verso livre (sem métrica), anti-melódico, branco (sem rimas, nesta altura é bom explicar), o uso da respiração e de suas pausas naturais como condutora do ritmo poético, a implosão das estruturas narrativas tradicionais, a definitiva consagração do teatro como um reino diverso da literatura, em que a dramaturgia é apenas mais um acessório, por vezes até dispensável.

Para completar: o Brasil entrou na Guerra, depois do torpedeamento, por submarinos alemães, de alguns navios nacionais no Atlântico. Enviou uma equipe de saúde e alguns militares observadores à Europa, escoltados por navios britânicos. Mas o momento marcaria um turning point da diplomacia brasileira, aproximando-se mais dos Estados Unidos.

E o resto é história…