oriente médio

As dificuldades do combate ao Estado Islâmico

Isis perdeu controle de Raqqa, cidade síria escolhida como 'capital' do grupo extremista, mas interesses locais conflitantes e intervenção de grandes potências torna o jogo imprevisível

TELESUR/reprodução
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Derrota do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria, desperta voracidade de grupos com interesses distintos

Neste começo de semana, as Forças Democráticas da Síria (FDA) – corporação formada basicamente por militares e militantes curdos e árabes, com apoio aéreo, logístico e de 500 militares in loco dos Estados Unidos – comemoraram a retomada completa da cidade de Raqqa, que fora proclamada capital do califado do Estado Islâmico.

O derradeiro, desesperado e sangrento combate se deu em torno e dentro de um estádio desportivo – bastião escolhido pelas poucas centenas de militantes remanescentes do E. I. para ser seu reduto final na cidade que haviam tomado em 2013.

É necessário avaliar com cuidado o alvo e os desdobramentos desta comemoração. Raqqa era uma cidade de 300 mil habitantes. Destes, apenas 3 mil ainda estão por lá. A zona urbana está arrasada; não há água potável nem eletricidade. A última padaria remanescente foi destruída algum tempo atrás. O ataque final, por terra e apoiado por bombardeios aéreos dos EUA, começou em 6 de junho e terminou oficialmente em 17 de outubro deste ano. Neste meio tempo 570 ataques pelo ar despejaram 3 mil bombas sobre ela. 900 civis morreram em consequência destes ataques. A cidade é considerada inabitável no momento, e não há previsão para sua reconstrução, ou para o retorno de seus habitantes – aqueles que quiserem e puderem. As FDA gastam 13 milhões de dólares diariamente para se manterem em ação, o que quer dizer que não têm fundos para mais nada.

E há os problemas da frente política. As FDA formaram um “Conselho Civil” para a cidade. Mas a Coalizão Síria Nacional, força rebelde anti-Damasco com sede e apoio na vizinha Turquia, formou um “Conselho Provincial” para a região. Os curdos – força principal nos combates contra o E. I. na região e também decisiva no Iraque – têm planos próprios para a região, que denominam de “Rojava”. Ainda que à distância, o governo de Damasco, a Rússia e o Irã observam tudo atentamente, bem como a Turquia (nada distante) e a Arábia Saudita. A vitória militar vai abrir espaço para um confronto político, que também envolverá as inúmeras tribos e etnias locais, de contorno e consequências imprevisíveis. Ao fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, dois grandes mantos recobriam e organizavam vencedores e vencidos: os Estados Unidos e seus aliados, de um lado, e a União Soviética, do outro, com algumas poucas dissidências de monta – as forças de Tito na Iugoslávia, os guerrilheiros albaneses no futuro lado oriental e os comunistas gregos no futuro lado ocidental. Aqueles lograram defender sua autonomia; estes foram vencidos e dominados. Já na Síria, a coalizão formada para derrotar (lembrando que esta guerra ainda não terminou) o Estado Islâmico está mais para uma colcha de retalhos do que para qualquer ideia de um grande manto, ou mesmo dois.

No vizinho Iraque a situação não está melhor. Como na Síria, os curdos são um elemento decisivo na luta contra o E. I., mas depois de seu recente plebiscito sobre a independência em relação ao governo de Bagdá a desavença com este se aguçou, quase chegando a um confronto militar. O governo iraquiano deu ordem para que os curdos entregassem o controle de aeroportos, poços de petróleo e postos de fronteira com a Síria, a Turquia e o Irã. Na sequência, ordenou a retomada À força de territórios sobre controle curdo, a começar pelos poços de petróleo e a cidade de Kirkuk, ao norte de Bagdá. O Peshmerga, como é conhecido o exército curdo, não ofereceu resistência, limitando-se a recuar para outras posições. Grande parte da população da cidade abandonou-a. As forças iraquianas avançaram mais, ocupando outras cidades: Bashiqa, Khanaqin e Sinjar.

Apesar do exército do Iraque não ser uma potência, o Peshmerga não tem condição de enfrentá-lo. Este possui apenas equipamentos de combate considerados “leves” ou de médio porte. Chega a ter alguns tanques e armas anti-tanques, além de anti-aéreas, e ate mesmo dispor de Urutus e outros carros blindados de fabricação brasileira, mas dificilmente poderiam sustentar uma luta aberta contra forças armadas regulares que desfrutassem inclusive de apoio aéreo. De qualquer modo, o recuo do Peshmerga (formado a partir de 1920) desagradou facções curdas e expôs também as divisões dentre elas.

Os Estados Unidos estão envidando esforços para evitar que o confronto degenere em luta armada (o que poderia envolver até a Turquia, contra os curdos). Têm várias dívidas políticas em relação a estes, como o auxílio na localização e na captura de Saddam Hussein, no combate à Al-Qaïda e até na localização do paradeiro de Osama Bin-Laden no Paquistão. Além disto, como já foi dito, não haveria sucesso na luta contra o E. I. sem a participação dos curdos tanto no Iraque quanto na Síria. Mas o EUA não podem tampouco desprezar seus aliados iraquianos nem desafiar abertamente a Turquia, apoiando os curdos: aqueles e aquela são parceiros importantes para conter a influência russa, iraniana e de Damasco na região, o mesmo acontecendo com a Arábia Saudita, tradicional aliada dos norte-americanos, que também age na Síria e vigia o Iraque, além de intervir no Iêmen, onde Washington tem importante base naval…

O que vai resultar deste imenso imbróglio, que se parece com uma colcha de retalhos ou um labirinto no tempo? É cedo para saber. O que é certo é que cresce, a cada dia, o ressentimento dos curdos em relação aos Estados Unidos e ao Reino Unido (que também participou da invasão do Iraque), pois se consideram traídos e abandonados por eles.