Pressão internacional

Empresas cobram Inglaterra sobre importação de produtos com origem no desmatamento

Em carta, setor alimentício demanda leis mais duras para evitar a entrada de produtos ligados à devastação ambiental, legal ou ilegal. Se cumprida, sugestão será entrave para a exportação brasileira

Arquivo EBC
Empresas não querem ser "associadas ao desmatamento no Brasil", cometa geógrafo da USP sobre aumento da pressão internacional contra política de Bolsonaro

São Paulo – A pressão de empresas do setor alimentício sobre o governo da Inglaterra pode afetar a exportação de soja e da pecuária brasileira. Desde segunda-feira (5), redes de supermercado e restaurantes e fabricantes de alimentos cobram que o país adote leis mais duras contra o desmatamento em florestas tropicais, como a Amazônia. Em carta enviada ao governo britânico, cerca de 20 companhias exigem que a importação de produtos envolvidos com desflorestamento, legal ou ilegal, seja barrado pelas autoridades britânicas. 

Entre as empresas que assinam o documento estão a fabricante de alimentos Unilever e Nestlé, a rede de fast food McDonalds, e a multinacional varejista Tesco. Na carta, elas reivindicam que seja comprovada a origem de produtos como carne, cacau, soja, borracha e óleo de palma. De acordo com a agência de notícias Reuters, a legislação britânica hoje trata apenas do desmatamento ilegal no país de origem. Mas, para as empresas, a medida não é suficiente para impedir a perda dos ecossistemas. Segundo o diretor do grupo Mighty Earth no Reino Unido – organização global que trabalha na defesa de florestas tropicais – as leis atuais “continuam a permitir o desflorestamento crescente em países como Indonésia e Brasil”, cita. 

A data de divulgação da carta coincide, aponta o site da Exame, com o encerramento de consulta pública sobre uma nova legislação a respeito do tema no país. O professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), Wagner Ribeiro, ressalta que a iniciativa está também ligada ao interesse dessas empresas em responder aos consumidores. 

Nova pressão

Desde o anúncio do aumento do desmatamento, sobretudo no Brasil, que a indústria de alimentos é alvo de críticas por seu papel no destruição de florestas tropicais. Na semana passada, por exemplo, uma loja do supermercado Tesco foi palco de protestos do Greenpeace contra a política ambiental do governo de Jair Bolsonaro. Em um telão, a líder indígena Sônia Guajajara alertava os consumidores sobre os incêndios criminosos no Brasil e a importância de boicotar a indústria que está por trás da devastação. 

“Na verdade, o que estamos vendo é uma resposta ao mercado. Quando você tem mais de 70 mil pessoas dizendo que não querem mais comprar produtos que tenham origem no desmatamento, elas (empresas) estão na verdade querendo garantir os seus clientes. Não é uma atitude que tem que ser vista de maneira inocente, se trata na verdade de garantir os seus consumidores. Mas não deixa de ser também mais um eixo de pressão junto ao governo”, observa o geógrafo da USP em sua coluna no Jornal Brasil Atual

Já em junho, um grupo de 29 investidores globais assinaram uma carta aberta ao Brasil, expressando também preocupação com a devastação ambiental e sobre as ameaças aos direitos humanos. Mais recentemente, uma coalizão de 230 empresas enviaram um documento ao governo federal, elencando seis propostas para a redução do desmatamento.

Mercado do desmatamento

Bolsonaro, contudo, ainda insiste em negar as evidências científicas, descredibilizando ainda mais o Brasil, na avaliação de Ribeiro. De acordo com ele, nem todas as empresas envolvidas estão de fato estão comprometidas com o meio ambiente. É o caso, por exemplo, da JBS que, em 2017, contava com 32 frigoríficos na Amazônia. Mesmo assim, para o professor, esse movimento “é mais uma pressão sob o governo” para impedir a continuidade de uma política de devastação. 

“Mudanças climáticas, ameaças às comunidades originárias, toda a perda da biodiversidade e concentração de terra. Tudo isso que a gente tem assistido, essas empresas não querem estar associadas. E isso pode afetar drasticamente o mercado, a maneira de produzir soja e a pecuária brasileira. É de fato mais um alerta. Primeiro foi o setor financeiro, em países europeus, agora são empresas alimentícias que lançam campanhas para não serem associadas ao desmatamento no Brasil”, destaca. 

Confira a entrevista

Redação: Clara Assunção. Edição: Glauco Faria