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MOBILIZAÇÃO NAS ESTRADAS

Trapalhada de Eunício irrita Congresso, governo e caminhoneiros

Senador resolveu “pular” a quinta e sexta-feira de trabalho e, com isso, atrasou votação de proposta sobre reoneração que inclui discussão para zerar PIS/Cofins sobre o diesel, principal reivindicação dos caminhoneiros
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 24/05/2018 17h31, última modificação 24/05/2018 19h42
Senador resolveu “pular” a quinta e sexta-feira de trabalho e, com isso, atrasou votação de proposta sobre reoneração que inclui discussão para zerar PIS/Cofins sobre o diesel, principal reivindicação dos caminhoneiros
Jane de Araújo/Agência Senado
Eunício de Oliveira

Presidente do Senado anda meio desligado

Brasília – O movimento dos caminhoneiros é espontâneo? Consiste num trabalho articulado dos empresários para reduzir o valor dos combustíveis? É estratégia de grupos de direita para conseguir atrapalhar ainda mais o ambiente político do país, faltando quatro meses para a eleição, e estimular uma intervenção militar?

Desde que foi deflagrada a mobilização dos caminhoneiros estas perguntas não param de ser feitas e especuladas. E agitaram o Congresso Nacional e Palácio do Planalto, nos últimos dias. Mas, numa ação inusitada e desastrada, o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), colocou ainda mais fogo na caldeira e desviou todas essas discussões para ele.

Os caminhoneiros não aceitaram a proposta feita ontem pelo governo e pedem a votação imediata do projeto que reduz a desoneração da folha de pagamento para 28 setores da economia. O texto foi aprovado pela Câmara e seguiu para o Senado.

Inclui, em seu teor, um item segundo o qual a PIS/Cofins fique zerada para óleo diesel até dezembro. A expectativa e pressão dos representantes da mobilização era para que a votação no Senado acontecesse esta semana. Mas, na noite de ontem, Eunício pegou um avião para o Ceará. Argumentou ter compromissos políticos no seu estado e suspendeu o trabalho legislativo da semana no Senado.

O plenário continua funcionando para pronunciamentos e debates e a tramitação de matérias segue com agenda até amanhã, nas comissões técnicas da Casa, mas a proposta tão esperada não tem mais previsão de ser votada esta semana.

A descoberta da viagem antecipada do presidente do Senado para sua terra natal não somente levou à reação irritada das entidades de caminhoneiros como de parlamentares da oposição. Diante de tanta pressão, Eunício pegou um avião de volta para a capital do país e, segundo assessores, está em voo neste momento.

Só que o desgaste já aconteceu e não se sabe se haverá quórum suficiente para que o Senado realize alguma sessão extraordinária até amanhã. Antes de ser convencido por integrantes do Palácio do Planalto a voltar a Brasília, o senador disse a jornalistas que não recebeu nada da Câmara sobre o texto, oficialmente, para que pudesse colocá-lo em votação.

Além de ter providenciado um voo, ele pediu ao senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), segundo no comando da Casa, para que entre em contato com todos os líderes. O intuito é organizar um retorno de quem já foi para seus estados para realização de uma sessão extraordinária na manhã desta sexta-feira (25).

Representantes de duas entidades que encampam a greve dos motoristas, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) e a Confederação Nacional dos Caminhoneiros Autônomos, que estão reunidos com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, para tratar do tema, entraram no encontro dizendo que a mobilização só vai parar quando for votado o texto pelo Senado. Ou se o Executivo decidir a questão (zerar a PIS/Cofins) por meio de alguma resolução ou outro instrumento.

“Se o presidente do Senado viajou para o Ceará, é porque quer ver o circo pegar fogo mesmo. Aí não é só presidente da República e o ministro da Casa Civil que vão ser responsáveis por isso, mas ele também”, afirmou, referindo-se a Eunício, no final da manhã, o presidente da Abcam, José Fonseca Lopes.

Lopes destacou a reivindicação como uma ação espontânea dos caminhoneiros e declarou que a greve só vai ser interrompida depois que a redução do PIS/Cofins sobre o diesel for publicada no Diário Oficial da União. Conforme disse ele em entrevista à Rádio CBN, essa redução pode tirar até 14% do preço do diesel nas bombas dos postos de combustíveis.

“A Câmara dos Deputados já fez a parte dela. Falta o Senado votar. Como o presidente do Senado se esquivou do problema, acreditamos que o presidente da República tem poder para resolver tudo com a força da sua caneta. É isso que estamos esperando, daqui por diante”, afirmou.

‘Resposta urgente’

No Congresso, senadores da oposição tomaram a dianteira para reclamar da confusão que atribuem ter como culpado o Executivo. O líder da Oposição no Senado, Humberto Costa (PT-PE), cobrou uma resposta urgente do governo, que chamou de “incompetente e inerte” e responsabilizou o presidente Michel Temer pelo que chamou de “tragédia vivida hoje pelos brasileiros”.

Costa disse que a situação atual é resultado da política econômica nefasta do governo para os combustíveis, “orquestrada pelo presidente da Petrobras, Pedro Parente, e pelo ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (MDB), que Temer teve a audácia de lançar como candidato à sua sucessão”.

“É urgente que se encontre uma solução para o fim dessa greve e, principalmente, que se reduza de maneira sensível o preço dos combustíveis para restaurar a normalidade no abastecimento em todo o território nacional”. “Em vez de estar preocupado em salvar a própria pele e de fazer campanha eleitoral para amigos, era disso que esse presidente aparvalhado deveria se ocupar”, afirmou o senador.

O senador Roberto Requião (MDB-PR) disse que a proposta feita ontem pelo Executivo é “irrisória”. “Não tem como prosperar (a pequena redução prometida). É contraditório ver o país numa situação dessas quando, por termos o Pre-Sal, o Brasil deveria ser um dos lugares com o combustível mais barato do mundo”, reclamou, ao criticar ações observadas nos últimos anos do Governo Temer. “Em sua maior parte, voltadas para entrega do patrimônio nacional ao capital estrangeiro, levando a desarranjos desse tipo”.

Atualmente, reunião com parlamentares, representantes dos caminhoneiros e ministros do Executivo está sendo realizada no Palácio do Planalto. A greve já dura quatro dias.