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Filha de Che diz que Venezuela não está preparada para avaliar o 'chavismo'

Entrevista
por Borja García de Sola Fernández, da EFE publicado 05/05/2013 20h18, última modificação 05/05/2013 20h19
Entrevista
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No Chile, Aleida Guevara foi recebida por dirigentes políticos e debateu a liberdade em Cuba

Santiago do Chile A pediatra cubana Aleida Guevara March, filha mais velha do segundo casamento do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara, considerou em entrevista à Agência Efe que a Venezuela não está "totalmente" preparada politicamente para avaliar as mudanças introduzidas pelo "chavismo".

Membro do Partido Comunista de Cuba, esta médica de 52 anos, que está de visita no Chile, prefere "não pôr na boca" de seu pai declarações que o guerrilheiro "não falou", mas não hesita em falar em primeira pessoa sobre a situação política na Venezuela.
"Eles continuaram a marcha mesmo depois da morte de (Hugo) Chávez. Podia haver perigo de se perder algo porque ainda, apesar destes anos de revolução, não é um povo totalmente preparado do ponto de vista político e cultural", afirmou Aleida.
Segundo a pediatra, "as pessoas pouco a pouco vão tomando consciência do poder real que têm" e "começam a reagir", mas para "manter essas mudanças é preciso seguir construindo o socialismo". Nas eleições de três semanas atrás, Nicolás Maduro saiu vencedor das eleições presidenciais da Venezuela com 50,61% dos votos contra 49,12% de Henrique Capriles.
Para a cubana, o alto número de votos colhidos pelo governador da província de Miranda significa que a Venezuela "ainda é um povo ignorante politicamente" porque "tem que perceber as mudanças que estão vivendo". "O problema é que, se durante toda a vida lhes ensinam que, casar-se com um rico, melhora sua vida, o que essas pessoas aspiram? Casar-se com o rico. Têm que aprender que essa não é a solução, que a solução não é que eu melhore, mas que melhoremos todos", declarou.
"Escutei tanta bobagem que às vezes a paciência se esgota. Podemos discutir um montão de coisas, mas não estupidezes", ressaltou. Como, por exemplo, indicou a filha de Che, "falar de modificar o poder do povo, de como fazer as eleições", mas não do "direito a uma saúde pública" ou a uma educação na qual não seja necessário "ter um dinheiro acumulado no banco para que os jovens possam ir à universidade". Da mesma forma que na Venezuela, ainda falta muito por conquistar também em Cuba, apesar dos "54 anos de revolução", sobretudo pelo bloqueio americano, considerou Aleida. "É a coisa mais cruel que houve na humanidade nos últimos anos, mas parece que as pessoas não tomam consciência disso", opinou.
Quando questionada pela liberdade em seu país, Aleida riu e continuou: "Somos um povo valente, um povo muito digno, lutamos muitos anos por essa liberdade. Nós somos talvez o país mais livre deste planeta". "De que liberdade estamos falando? Liberdade é quando um povo é culto, pode pensar por si mesmo e analisar as coisas. Liberdade é quando os jornalistas não repetem como papagaios o que dizem as grandes transnacionais, mas tentam investigar e buscar essas verdades", acrescentou energicamente.
Sobre as críticas procedentes de organismos como Anistia Internacional pela presença de jornalistas e dissidentes em prisões, Aleida Guevara negou tais informações. "Em Cuba não há jornalistas presos por expressar suas opiniões. Em Cuba há pessoas presas por vender informação ao inimigo de seu povo. São mercenários", garantiu. "Temos o direito e a soberania de defender-nos. Se alguém nos ataca, se tenta prejudicar nosso povo, terá que responder às nossas leis", completou.
Segundo Aleida, Cuba tem "a melhor" democracia que conhece porque - segundo a origem grega da palavra - tem "poder do povo". "O povo elege diretamente desde as bases. Eles são os que denominam diretamente os candidatos. Por isso acho que é muito democrático (o sistema)", explicou, ressaltando que prefere não falar da blogueira Yoani Sánchez pelas "barbaridades que escreve e diz".
"Vamos falar de coisas sérias", alfinetou. A filha de Che Guevara chegou quinta-feira ao Chile procedente da Colômbia para apresentar o livro "Evocación, mi vida al lado del Che", escrito por sua mãe Aleida March. Além disso, aproveitou sua visita, que terminará nesta segunda-feira, para apresentar vários projetos editoriais, reunir-se com estudantes e, entre outras atividades, visitar o povoado de Santa Anita, ex-acampamento Che Guevara, situado em Santiago.
Ali, várias dezenas de pessoas receberam Aleida, a grande maioria de idade avançada, alguns deles antigos membros do GAP (Grupo de Amigos Pessoais), a segurança pessoal de Salvador Allende. "Estou muito emocionada, essas pessoas são parte da história de meu continente, eles fizeram o que puderam como pessoas para proteger seu presidente porque sabiam que estava fazendo coisas muito boas para seu povo", declarou.
Após cantar "Hace falta un guerrillero" ("É preciso um guerrilheiro"), da cantora chilena Violeta Parra, e autografar vários livros, Aleida Guevara disse à Efe sentir-se "honrada" por conhecer estas pessoas. "Sou a filha de um homem muito especial, isso é certo, mas eles são a história viva", concluiu.