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TRADIÇÃO SEM OSTENTAÇÃO

Festas juninas sofrem atrasos e até adiamentos em muitas cidades do Nordeste

Municípios da Paraíba, Pernambuco e Bahia passam por escassez de recursos, desabastecimentos e até recomendações do MP para evitar gastos, mas procuram se virar para manter suas programações
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 10/06/2018 10h32, última modificação 10/06/2018 12h21
Municípios da Paraíba, Pernambuco e Bahia passam por escassez de recursos, desabastecimentos e até recomendações do MP para evitar gastos, mas procuram se virar para manter suas programações
Rafael Lima/Prefeitura de Caruaru

Santo Antonio, São João e São Pedro são louvados durante todo o ano pelo povo nordestino, que a eles costuma recorrer em busca de ajuda espiritual para resolver problemas e melhorar a vida

Brasília – Em todo o Nordeste a época é de festas juninas, que chegam, em várias cidades, a durar o mês inteiro e a movimentar em cerca de R$ 200 milhões a economia de municípios cujos eventos são mais famosos, como Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco. Mas faltando poucos dias para a primeira das festas, a de Santo Antônio, na terça-feira (12), mesmo com bandeirolas colocadas, fogueiras sendo montadas, quadrilhas organizadas, shows contratados e a proximidade dos jogos da Copa do Mundo (que costuma esquentar ainda mais estes eventos) a programação promete não ter a mesma animação de anos anteriores.

Os motivos poderiam ser apenas a crise econômica, mas passam pelo desânimo de muitas pessoas com a situação do país, a política e políticos, os altos preços dos combustíveis e, até mesmo, com a seleção brasileira.

A primeira questão diz respeito à parte estrutural, complicada para ser contornada por muitos gestores públicos. Na Paraíba, as comemorações tiveram de sofrer atrasos em função do desabastecimento provocado pela greve dos caminhoneiros em maio, que fez com que até mesmo equipamentos de som tivessem prazos descumpridos para chegar nos seus destinos.

Também pesou nessa ameaça de diminuição da festa uma ação para impedir a execução judicial de músicas nas ruas de Campina Grande, que tem o São João mais famoso do estado. Decisão liminar concedida por uma magistrada poucas semanas atrás, determinou multa diária de R$ 30 mil em caso de descumprimento da determinação – o que a prefeitura conseguiu rever dias depois.

Caso essa medida estivesse em vigor hoje, só poderiam ser permitidos os sons das sanfonas e zabumbas em Campina, conhecida por oferecer shows de portes grandiosos e músicas juninas em todos os lugares, neste período. Mas um recurso apresentado pelo município garantiu a livre execução das músicas até o julgamento completo do processo. Isso, claro, depois de a notícia ter tumultuado e provocado preocupações quanto à festa entre a população, comerciantes e rede hoteleira locais.

O responsável pela confusão foi o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que cobra 10% do valor do contrato firmado entre a prefeitura de Campina Grande e a empresa Aliança Ltda, responsável pela organização da festa em 2017 e também este ano. A cifra, quando calculada, chega a perto de R$ 600 mil e envolve shows de estrelas como Wesley Safadão, Aviões do Forró, Elba Ramalho e Luan Santana, entre vários outros artistas.

“Todos os anos são criados milhares de empregos diretos e indiretos com esta festa, que é tradicional no país e na qual os estabelecimentos de Campina Grande, entre hotéis e restaurantes, aproveitam a época para contratar novos funcionários. O nosso São João é conhecido e não é justa essa cobrança, nem essa determinação judicial nas vésperas do evento”, afirmou em nota, o prefeito do município, Romero Rodrigues.

Além desse motivo, Rodrigues adiou a abertura do São João, que estava prevista para o último dia 1º e atrasou a data final do evento, por conta de falta de gasolina e gás de cozinha, bem como outros produtos. Mas as datas dos shows foram mantidas e a maior parte da cidade está esperançosa que a volta da normalidade seja rápida, sem atrapalhar o que foi planejado desde o ano passado.

Rooswet Pinheiro/ABR
Apesar dos atrasos na organização das festas, já há animação por parte do povo com os forrós e shows esperados ao longo do ano

Liberação do FPM

Na Paraíba como um todo, mediante um acordo entre governos estadual e federal, com a participação de muitos parlamentares junto ao Executivo em Brasília, parte do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) foi liberada ontem (8), de forma antecipada, para garantir a comemoração em cidades onde as prefeituras ameaçavam não ter recursos para bancá-la em 2018.

No total, foram repassados valores referentes ao primeiro decênio, no montante bruto de R$ 135,2 milhões. O que representa 32,6% a mais que o repassado no mesmo período do ano passado.

Para se ter ideia  do clima de pessimismo que vinha assolando as cidades paraibanas quanto às festas, o prefeito de Patos, município também conhecido por ter um São João animado, procurou a imprensa para negar boatos publicados em várias redes sociais de que as festas juninas não seria mais realizadas lá.

Dinaldinho Wanderley, o prefeito, atribuiu as informações a Fake News e disse que pediu investigação policial para identificar os autores das notícias inverídicas. 

Na Bahia, a estimativa, segundo parlamentares e integrantes do governo estadual, é de cerca de 34 municípios não terem São João promovido pelo poder público até o final do mês. No caso das cidades baianas, além da crise de abastecimento, pesaram também as fortes chuvas no interior do estado e a queda de arrecadação nos últimos meses.

“Podemos até não deixar de ver comemorações, fogueiras e quadrilhas nas frentes das casas, mas em muitos locais os arraiais com shows diversos vão ser mantidos com dificuldades, fora os que já estão cancelados há mais de um mês”, contou o produtor cultural Jório Capistrano, com atuação no Oeste do estado. 

O presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Eures Ribeiro, confirmou que a paralisação dos caminhoneiros atrapalhou bastante os preparativos nos municípios, o que obrigou os gestores a encurtar ou, até mesmo, acabar de vez com as festas. “Tivemos registro de queda de 25% e 30% de arrecadação em apenas nove dias de greve”, explicou ele, ao destacar que não vai ser da noite para o dia que a situação se normalizará.

Até os primeiros dias de junho, a orientação repassada pela UPB aos prefeitos foi para que cortassem despesas, de forma a garantir, ao menos, o pagamento dos servidores e a manutenção dos serviços essenciais.

Fatores diversos

A entidade ainda não tem o número de prefeituras baianas que optaram por desmarcar as festividades, mas já se sabe que os principais cancelamentos foram observados nos municípios de Porto Seguro, Amargosa e Simões Filho.

Em outros locais como o município de Senhor do Bonfim, foi montada uma comissão de trabalho para tentar encontrar alternativas e manter a programação, o que ainda não está confirmado se será possível. Para se ter ideia, segundo informações da prefeitura de lá, somente o palco principal demora 15 dias para ser montado e na última semana a estrutura ainda não tinha tido sua preparação iniciada.

A prefeita de Porto Seguro, Cláudia Oliveira, lamentou a falta de festa de São João na cidade e disse que não foi apenas um fator que levou a isso, mas vários, como as fortes chuvas que caíram na região. “Tivemos um conjunto de adversidades que nos fizeram tomar esta decisão. Sabemos da importância da festa para a população como um todo, mas o momento é difícil. Precisamos focar nos trabalhos de infraestrutura que a cidade precisa”, justificou-se.

Em Pernambuco, os municípios tiveram de enfrentar contratempos e não se sabe se em pelo menos 63 deles, que receberam recomendação do Ministério Público para reverem as festas, o São João será realizado. Em locais como Caruaru, Recife, Limoeiro e Vitória de Santo Antão, porém, as atividades estão garantidas.

Em Recife a tradição será cumprida com preponderância de mais apresentações culturais e menos shows públicos com nomes famosos. Foram montados 36 arraiais e programadas 739 atrações locais, a partir do dia 12. Fazem parte dessa lista, apresentações de grupos de coco, ciranda, xaxado, concursos de quadrilhas, procissões e as chamadas caminhadas de forró. “Cultura popular precisa ser prioridade no Nordeste”, afirmou o prefeito, Geraldo Júlio.

“Não podemos deixar que aconteça por aqui o que a gente vê em outras cidades onde os gestores escolhem a cultura para fazer seus primeiros cortes orçamentários. Para nós, o São João é a vida de muitas pessoas, não se pode achar que essa festa seja algo supérfluo para os nordestinos”, acrescentou Júlio.

Já em Petrolina, outro local com um São João tradicionalmente conhecido, nova saia justa foi observada por meio de recomendação do MP. Isto porque a prefeitura decretou estado de calamidade na cidade, diante da falta de produtos por conta da paralisação dos caminhoneiros. E o MP considera incoerente o uso de gastos, nesta situação, com festividades juninas.

O prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, afirmou na última quinta-feira (7) que foi criado um plano de contingenciamento e um comitê gestor da crise para reduzir os transtornos no município e permitir a realização do São João. Mas não deu detalhes sobre que verbas vai remanejar e sua atitude está sendo vista como um descumprimento ao MP.

Em Caruaru, a prefeitura - que se prepara com antecedência para a festa – resolveu tomar uma decisão ousada e saiu na frente em número de participantes durante a abertura, no início do mês, que foi considerado maior do que o do ano anterior. Isto porque, ao contrário da cidade com quem mais rivaliza, Campina Grande (PB), em Caruaru os eventos tiveram início no dia exato em que estavam programados.

Resta saber como as prefeituras das cidades alertadas pelo MP vão explicar no final do ano, nas suas prestações de contas, se cumpriram com o  oferecimento dos serviços básicos à população e o que foi priorizado por cada gestão.

Divulgação/Ministério do Turismo
Segundo gestores, há muita dificuldade para manter os arraiais com shows diversos. E muitos deles já foram cancelados há mais de um mês

Ânimo X Questionamento

Apesar de bastante divulgadas na mídia e entre quem se esmiúça nos quadros de dotações orçamentárias e dificuldades, tais situações se misturam num ambiente de empolgação, sem que nada mais importe para muitos dos nordestinos. E, de um outro lado,  também de questionamentos sobre a situação do país.

Mesmo com os atrasos, é difícil passear por alguma cidade da região e não ver animação por parte do povo com os forrós e shows esperados ao longo do ano para o período. Da mesma forma, é igualmente difícil não encontrar um depoimento de alguém que ligue as festas com a crise política e econômica e afirme estar menos estimulado que nos outros anos.

“Quanto à Copa do Mundo, vemos de fato uma empolgação menor, mas no interior o São João continua o mesmo”, contou o estudante de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Ozair Cavalcanti Neto, do município de Vertentes, para quem o pique de sempre será mantido nas festividades.

De acordo com ele, até mesmo municípios pernambucanos cujas festas de São João não têm repercussão, este ano estão ecoando por todo o estado, como é o caso de Limoeiro e Vitória de Santo Antão. “Antes só se falava em Caruaru e Campina Grande. Agora vejo as pessoas se programando para as festas em cidades menores, que também estão animadas”, comemorou Ozair Neto.

Em direção contrária, a professora da rede privada de ensino de João Pessoa, Cátia Leandra Nascimento, disse que embora a capital paraibana se movimente em torno da programação junina, não consegue se voltar totalmente para o São João e os jogos da Copa dentro do cenário que os brasileiros estão vivendo.

“Meus irmãos mais novos e filhos estão comemorando e até fazendo roupas para o São João, mas eu, meus amigos não conseguimos pensar assim. Como é que dá para brincar totalmente vendo políticos presos, tantas denúncias de corrupção, a economia em crise, uma situação em que a gente não sabe o preço de nada, o dólar nas alturas e o país sem governo?”, reclamou Cátia. “Tenho conversado com muitas pessoas que pensam da mesma forma”, acrescentou.

Os dois lados têm bons argumentos, tanto para refletir sobre o país como para descansar um pouco das preocupações nos locais onde a festa está definida. “Essa dicotomia traduz, de certa forma, as tantas contradições típicas do Brasil e dos brasileiros,  avaliou a professora.

Pesa também para a realização das festividades o ano eleitoral, que faz com que parlamentares interessados na reeleição estimulem os prefeitos que apoiam para criar oportunidades de encontros com suas bases. 

E pesa, mais ainda, uma das principais características católicas do povo nordestino, que tem devoção firme a Santo Antonio, São João e São Pedro. Santos a quem louvam durante o ano inteiro e a quem costumam recorrer em busca de ajuda espiritual para resolver problemas e melhorar a vida.