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Montadoras discutem carros sustentáveis, mas esquecem mobilidade urbana

por Tadeu Breda, da RBA publicado 28/05/2012 17:48, última modificação 28/05/2012 19:50
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São Paulo – Para quem vive em cidades cada vez mais enfrascadas em engarrafamentos pode soar a paradoxo o termo “Automóvel e Sustentabilidade”. Mas foi este o mote de um seminário realizado hoje (28) em São Paulo por iniciativa da editora Autodata, especializada em indústria automobilística, com apoio da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que congrega as principais montadoras instaladas no país.

“Na Rio+20, discutiremos teorias. Aqui vamos discutir o que está sendo feito na prática para garantir uma economia sustentável”, anunciou Fred Carvalho, especialista da Autodata, lembrando que as empresas do setor correm diariamente atrás de soluções ambientais. “Não fosse o empenho político da indústria automobilística, já não estaríamos conseguindo respirar no centro de uma cidade como São Paulo.”

De fato, é inegável o avanço tecnológico das montadoras. Os carros que circulam hoje são dotados de motores muito mais eficientes e emitem menos gases tóxicos que outrora. “Aumentar o rendimento do veículo em um quilômetro por litro de combustível pode parecer pouco, mas, aplicado à frota mundial, esse ganho significa uma economia de bilhões de litros de combustível”, compara Alexandre Guimarães, engenheiro de produtos da General Motors, que já comercializa automóveis cujos componentes podem ser reciclados numa taxa de 85%.

As fábricas também melhoraram seus processos de produção, e passaram a incluir novos materiais na montagem dos veículos. A Fiat, por exemplo, reutiliza 100% dos resíduos sólidos produzidos por suas instalações em Betim, Minas Gerais. Também reaproveita 99%  da água que utiliza para manter a linha de produção e o trabalho de 20 mil funcionários.

A Volkswagen concluiu a construção de uma usina hidrelétrica própria no interior de São Paulo, em 2010, e deve inaugurar uma segunda planta em 2014. “No total, foram investimentos de R$ 300 milhões, que devem suprir 40% de nossa demanda por eletricidade quando a nova barragem estiver produzindo”, diz Josef-Fidelis Senn, representante da montadora alemã.

Consumidores

Uma das maiores preocupações das empresas, porém, é fazer com que os consumidores percebam seus esforços em prol da sustentabilidade – e, claro, comprem carros produzidos pelas marcas que mais estejam comprometidas com a preservação da natureza. “A iniciativa é valorizada pelo consumidor”, reconhece Alfredo Guedes, da Honda. “A consciência ambiental tem ganhado espaço na definição da compra, além do preço e do design”, disse Marco Antonio Lage, diretor de comunicação corporativa da Fiat.

O problema, todos concordam, é saber se as pessoas estão dispostas a pagar mais caro pelos chamados carros verdes. “Fizemos uma pesquisa na Europa e percebemos que metade dos consumidores tem interesse em veículos ecologicamente corretos”, disse Ernesto Cavasin, analista da empresa de consultoria Price Waterhouse Coopers (PwC). “Porém, apenas 8% afirmaram que estariam dispostos a pagar um valor maior pelos automóveis sustentáveis. E, se a diferença de preço for significativa, de 3 mil ou 4 mil euros, essa taxa cai para tão somente 4%.”

Por outro lado, se os carros verdes não agradam o bolso do consumidor, a expectativa da indústria é de que a frota mundial dobre de tamanho até 2025: de 800 milhões para 1,5 bilhão de unidades. E o analista da PwC prevê que a próxima zona de expansão do mercado automobilístico serão os países em desenvolvimento, com destaque para os chamados BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “Pela primeira vez, em 2011, os países emergentes produziram mais veículos do que os países desenvolvidos”, lembrou Cavasin. “Isso trará desafios importantes em sustentabilidade.”

Um deles será a disponibilidade de matéria-prima, que deve diminuir com o passar do tempo – e a intensidade da extração. Por isso, a indústria automobilística deve reduzir sua fome por recursos naturais de duas maneiras: apropriando-se de novos elementos na construção dos veículos e reciclando. Embora timidamente, isso já vem ocorrendo. “A reciclagem de carros pode se transformar num ótimo negócio do futuro”, avaliou Marco Antonio Lage, da Fiat.

Mobilidade

O debate sobre a imensa quantidade de carros circulando pelas ruas, avenidas e estradas do país – e seus efeitos colaterais para a mobilidade urbana e saúde pública – foram a grande ausência do seminário. “Nosso modelo de negócio ainda está baseado no volume de vendas, e isso não vai mudar tão cedo”, reconheceu Lage, informando que o setor seguirá buscando colocar mais e mais carros em circulação. “O que tem de mudar é o sistema de transporte público, que hoje em dia é ineficiente. Se não, nem os automóveis poderão circular tranquilamente.”

De acordo com Josef-Fidelis Senn, da Volkswagen, a solução para o trânsito nas cidades não passa apenas pelas montadoras. “Nós pensamos sobre o transporte do futuro, desenvolvemos bicicletas elétricas e carros que fazem tudo sem motorista”, disse o alemão. “Mas a solução deve ser sistêmica, e não partir de cada empresa.” Ou seja, deve passar pelo governo, sem esquecer que jamais haverá apenas transporte individual ou apenas transporte público: “Será sempre um mix”.

“As montadoras já colaboram pagando impostos”, defendeu Fred Carvalho, da Autodata. O especialista argumentou que não há como falar em mobilidade urbana sem falar em políticas públicas de transporte coletivo, e defendeu que, nas cidades brasileiras, as pessoas só utilizam o carro de maneira tão intensiva porque não existem alternativas. Lage concordou: “O carro de passeio não deveria ser um meio de transporte diário. Como o próprio nome diz, deveria ser apenas para passeio. Usar automóvel na rotina é errado.”

De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), circulam atualmente pelo Brasil cerca de 35 milhões de automóveis, média de um carro para cada cinco habitantes. Mais da metade da frota está na região Sudeste, e 35%, no estado de São Paulo. A Anfavea anuncia que as vendas de veículos subiram 3,4% no ano passado, para 3,63 milhões de unidades, contra 3,5 milhões em 2010.

A expectativa das montadoras é que esse índice siga crescendo após as reduções do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), anunciadas pelo governo federal no último dia 21, com vigência até 31 de agosto. A indústria automobilística, que estava com os pátios lotados e apresentava dificuldades para vender seus estoques, emprega 150 mil trabalhadores diretos e cerca de 1,5 milhão de indiretos em todo o país.

 

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