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Faltam políticas claras e sobram falhas na segurança de São Paulo, diz especialista

Para Ligia Rechenberg, representante do Instituto Sou da Paz, preocupação da polícia em se defender pode ter influenciado piora nos índices de violência em São Paulo
por gisele publicado 27/07/2012 19h44, última modificação 30/07/2012 15h15
Para Ligia Rechenberg, representante do Instituto Sou da Paz, preocupação da polícia em se defender pode ter influenciado piora nos índices de violência em São Paulo

São Paulo – Dados divulgados nesta semana pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram aumento significativo em alguns indicadores de violência no estado. Em comparação ao primeiro semestre de 2011, os homicídios dolosos aumentaram 8,39% em todo o estado e 21,5% na capital. Os roubos vitimaram os paulistas 5,55% mais e o número de estupros em todo o estado cresceram 18,4%. Para o secretário de segurança pública, Antonio Ferreira Pinto, o estado vive uma “escalada da violência”. O governador Geraldo Alckmin reagiu à frase dizendo que não tinha dúvida de que os índices seriam revertidos e atribuiu a piora à ação contra traficantes. Para Ligia Rechenberg, do Instituto Sou da Paz, no entanto, os dados revelam falhas nas políticas públicas de segurança. Leia análise na entrevista a seguir. 

Como o Sou da Paz avalia os dados apresentados pela Secretaria de Segurança Pública sobre a violência no estado? 

Recebemos com bastante preocupação. Temos menos motivo para comemorar do que a secretaria está dizendo. Os crimes contra o patrimônio que tiveram queda já eram baixos em termos absolutos. Os crimes que realmente preocupam as pessoas as traumatizam, como roubos, crimes contra a vida e estupros, continuam aumentando. Existem 11 crimes classificados pela própria secretaria como violentos. Desses, oito pioraram  em comparação com o segundo trimestre de 2011. O número de estupros, roubos de veículos e roubos em geral aumentaram muito. Esse é um tipo de crime fácil de coibir com patrulhamento planejado, estratégico. Se há policiais as ocorrências não ocorrem. Um estuprador não estupra se tem gente olhando. Essa piora deve indicar que a polícia mudou seu comportamento nas ruas. Por conta desses ataques, e esse pânico entre eles, eles estão em atitude defensiva, tentando se proteger ou em atitude excessivamente violenta. O que justifica o aumento nos números de violência policial, que são muito altos. A cada cinco assassinatos, um é de autoria da polícia.

O governador Geraldo Alckmin disse que os indicadores irão melhor e que haverá aumento do policiamento. Além disso, rechaçou o argumento do Ministério Público Federal de que as tropas estão fora de controle dizendo que o órgão deveria se preocupar com as fronteiras, dessa forma evitaria a entrada de drogas no país. Como você vê essa avaliação?  

Quando os números melhoram dizem que é resultado dos investimentos. Quando pioram, que é culpa de outras coisas. Nunca assumem a responsabilidade. O que gera a clara sensação de que não existe diagnóstico, planejamento e metas claras de onde a gente quer chegar. Que não existe uma política pública. Esse aumento brutal nos homicídios chama a atenção, muitos são chacinas. Pode ser que muitas mortes de autoria da polícia deixaram de ser registradas em uma categoria própria e estão entrando nos números gerais. Isso é negativo do ponto de vista da transparência para a sociedade, que perde a referência sobre a letalidade da polícia. 

O alvo das críticas neste momento é a polícia militar, em função da suspeita de envolvimento de policiais em grupos de extermínio, mas como você avalia a atuação da polícia civil?

Na cidade de São Paulo mais de 80% das prisões foram realizadas em flagrante. Esse dado é vergonhoso. Esse número significa que a polícia civil não está fazendo o seu trabalho de investigar, de identificar os criminosos. É preciso ter policia na rua, fazendo patrulhamento planejado. Mas isso tem de estar combinado com trabalho de investigação.

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