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Blog da Helena

por publicado , última modificação 30/01/2015 19:34

E o santo não desconfia?

Coisas da Lava Jato: banco erra em meio bilhão cheque para filha do delator

Diz o ditado popular que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Mas nem sempre, como mostra a reação da filha de Paulo Roberto Costa ao receber um cheque do Bradesco com três zeros a mais
por Helena Stephanowitz publicado 30/01/2015 19:34, última modificação 30/01/2015 19:37
Reproduzido do 'Tijolaço'

O Bradesco atribuiu a um funcionário o preenchimento de um cheque administrativo no valor errado de R$ 500 milhões foi emitido pelo banco em 30 de dezembro de 2014 para Arianna Azevedo Costa Bachmann, filha do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, flagrado em negócios com Alberto Youssef e que confessou ter recebido propinas milionárias de grandes empreiteiras. O cheque só foi devolvido após o Bradesco exigir a devolução na Justiça.

Leia também texto de
Fernando Brito no blog
Tijolaço: “Nas barbas do Dr.
Moro, família 'enojada'
continua aprontando

Arianna já foi denunciada pelo Ministério Público Federal pelo crime de sumiço e ocultação de provas do escritório do pai. Filhas e genros de Costa também são investigados pela participação em empresas e contas no exterior que teriam recebido dinheiro da propina, segundo o MPF. Ela consta como sócia com participação de 40% na empresa de consultoria Costa Global do pai, e teve bens bloqueados.

Segundo explica seu advogado, em 30 de dezembro de 2014, último dia de expediente bancário do ano, ela resgatou R$ 650 mil de um de um plano de previdência privada na agência Bradesco do Largo da Carioca, Rio de Janeiro. O advogado diz que esses recursos não estariam bloqueados pela Justiça.

Outro ex-diretor da Petrobras investigado na mesma operação, Nestor Cerveró, teve pedido de prisão motivado, entre outras coisas, devido a um resgate de quase meio milhão de reais do plano de previdência privada dele. Novamente o banco atribuiu o erro a um funcionário.

Voltando a Arianna. Para  sacar os valores, ela pediu dois cheques administrativos (cheque emitido pelo próprio banco), um de R$ 150 mil e outro de R$ 500 mil. O segundo foi emitido em um valor mil vezes maior, de R$ 500 milhões.

Porém, o erro passou pelo menos por dois outros funcionários que checaram e assinaram o cheque. Não é impossível, dada a pressão a que bancários são submetidos em seu trabalho, mas é raríssimo, senão inédito, que um cheque com erro tão grande saia da agência sem que desperte a atenção de pelo menos um dos três funcionários, dois deles graduados, com poderes para assinar cheques de valores elevados.

Por outro lado, também seria inédito se este cheque fosse descontado com sucesso, pois além de ser grande a chance de recusa no processo de compensação, um rombo de meio bilhão desequilibra qualquer balanço de um fundo de previdência privado. Arianna também diz não ter percebido o erro na hora, só notando no dia 3 de janeiro, sempre segundo seus advogados.

Em vez de ela devolver o cheque errado tão logo percebeu, e pedir outro no valor correto, seu advogado Raphael Montenegro disse ter pedido uma reunião com o Bradesco para tratar da devolução, enquanto o banco fazia uma auditoria no caso. Segundo ele, o medo de Arianna era de que o cheque fosse interpretado pelo Ministério Público como movimentação de recursos ocultados da Justiça, com anulação da delação premiada de Paulo Roberto Costa e perda de benefícios na redução da pena.

Porém, ele não explicou porque simplesmente não comunicou o ocorrido ao Ministério Público Federal tão logo percebeu, pedindo até que os procuradores da República acompanhassem a devolução do cheque na agência para não restar mal-entendidos, em vez de pedir reunião a portas fechadas com o Banco.

Na segunda-feira (26), houve a reunião. Ainda na segunda, o Bradesco acionou a Justiça para apreensão do cheque na casa de Arianna, alegando que a cliente se recusara a substituir o cheque. O banco pediu sigilo de justiça, mas não foi atendido neste ponto. O mandado de busca foi autorizado no dia seguinte (27), em caráter de urgência.

O cheque foi devolvido na quinta-feira (28), em juízo. Outro advogado de defesa, João Mestieri, afirmou que Arianna procurou o banco para devolver, mas a divergência foi não concordar em fazê-lo de maneira informal, exigindo que a troca fosse documentada. De novo, faltou explicar sobre o porque de pedir reunião com o banco em vez de recorrer ao Ministério Público para acompanhar oficialmente a troca.

É o segundo erro do Bradesco que aparece no contexto da operação Lava Jato. Outro investigado, o ex-diretor Cerveró, anunciou por meio de seu advogado, que processará o banco por ter informado errado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf, subordinado ao Ministério da Fazenda com encarregado de combater operações suspeitas) um saque de R$ 200 mil em espécie de uma usina de etanol em 2011, mas que nada tinha a ver com ele. O Bradesco reconheceu que trocou o nome do titular do saque. Apesar de Cerveró ter contra si outras evidências, esta foi uma das movimentações financeiras que lhe trouxeram complicações.

Pode ser tudo um erro burocrático do banco e de condução dos advogados, mas diz o ditado popular que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Pois se o erro é demais, também. Principalmente em se tratando de pessoas envolvidas em uma investigação como a da Operação Lava Jato, que mexe com grandes interesses, afetando até cotações nas Bolsas de Valores.

operação lava jato

MPF desmente 'Folha' e 'O Globo', mas não afasta ideia de que crime pode compensar

Na mesma nota em que contesta notícias dos jornais de que doleiro poderia ganhar de R$ 10 milhões a R$ 20 milhões de comissão, Ministério Público dá pistas de que familiares do doleiro podem terminar premiados por suas delações
por Helena Sthephanowitz publicado 26/01/2015 17:24, última modificação 26/01/2015 17:32
Sérgio Lima/Folhapress
alberto youssef

Com as condições do acordo, pelo menos para a ex-mulher de Youssef, o crime dele compensou financeiramente

O Ministério Público Federal (MPF), muitas vezes acostumado a abrir investigações a partir de "reporcagens", sentiu na própria pele o efeito das mentiras dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo. Que publicaram em manchetes que Alberto Youssef poderia ganhar "comissão" de R$ 10 milhões (na manchete da Folha) a R$ 20 milhões (segundo O Globo). Os jornais afirmaram que o MPF daria ao doleiro 2% de comissão sobre o dinheiro sujo que ele ajudasse a recuperar. A sensação de quem leu foi de que o crime compensa para inescrupulosos e o desfecho penal, em vez de dissuadir o cometimento desse tipo de crime, serviria para incentivar.

Em nota à imprensa, o MPF correu atrás do prejuízo afirmando que os jornais publicaram uma mentira. O doleiro perderá todos os bens adquiridos após 2003, na forma de multa e ressarcimento, e não ganhará dinheiro nenhum dos cofres públicos, segundo a nota. O prêmio de 2% sobre dinheiro que vier a ser reavido por causa da delação é abatimento sobre a multa revertido para as filhas do doleiro, e limitado ao valor de um imóvel no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro.

Se os jornais mentiram, a nota emitida pelo MPF também está mal explicada.

Primeiro diz que todos os bens comprados após 2003 serão tomados a título de multa e ressarcimento. Mas o texto oficial divulgado do acordo da delação premiada não é bem assim. Está escrito com todas as letras na página 8 que um apartamento de luxo em São Paulo, hoje avaliado em R$ 4 milhões, será liberado para a ex-esposa do doleiro, independentemente de qualquer recuperação de dinheiro. Denúncia do próprio MPF apresentada contra Youssef em dezembro de 2014 confirma que este apartamento foi adquirido em 2009 (página 97), portanto após 2003, contradizendo a nota. Para piorar, afirma que foi "adquirido com o produto de delitos previamente perpetrados por Youssef", nas palavras do MPF.

Ora, se o imóvel foi adquirido com dinheiro de delitos, o doleiro teria de perdê-lo para ressarcimento, e não deixá-lo "de herança" para a ex-mulher.

E, mais grave, nos termos do acordo, a condição para a ex-mulher ficar dona do apartamento milionário é renunciar a reclamar qualquer bem de Youssef tomado pelo poder Judiciário. Ora, fica parecendo mais o que se chama "dar um cala a boca", quando o Ministério Público precisa que as pessoas envolvidas falem. Não há o menor sentido em negociar um "cala-boca" que só favorece Youssef, colocando-o no controle do que e quem delatar, sem risco de cair em contradições, ao silenciar a ex-mulher.

A única justificativa para a ex-mulher receber alguma recompensa seria pelo menos ela própria delatar informações escondidas que fossem úteis, valiosas e importantes para as investigações. Os próprios autos de uma disputa patrimonial de divórcio litigioso reclamando bens adquiridos de forma ilícita trariam muito mais informações úteis às investigações.

Desse jeito, pelo menos para ela, o crime dele compensou financeiramente.

Outro imóvel em Londrina (PR), onde residia oficialmente Youssef, também de alto padrão, será liberado para as filhas nos termos do acordo. Até a conclusão deste texto não conseguimos apurar data e circunstâncias da compra.

O terceiro imóvel, ou melhor, imóveis, já que se trata de sobrados e um terreno, todos com numeração diferente, no Campo de São Cristóvão, Rio de Janeiro, é que causaram a balbúrdia nos jornalões.

A princípio, os imóveis serão tomados pelo Judiciário como multa e irão a leilão ao fim do processo. Mas, pelos termos do acordo, Youssef poderá retomar parte ou todo o valor arrecadado no leilão para suas filhas, através da "comissão" de 2% sobre os valores que forem recuperados em decorrência da delação, até atingir, no máximo, o valor da venda do imóvel.

Nesse caso, os jornalões, apesar de apurar mal os fatos e omitirem os limites do acordo, não estão de todo errados no conceito de que há recompensa, sim, e ela será de no mínimo R$ 4 milhões, considerando o "cala-boca" para a ex-mulher, podendo chegar a mais de R$ 7 milhões. Afinal, segundo a denúncia de 2014 do MPF (páginas 137 e 138), tais imóveis no Rio de Janeiro foram comprados por R$ 3 milhões em 2011 pela empresa GFD Investimentos, que nem sequer estava em nome de Youssef, mas era dele de fato, e era usada para lavar dinheiro, segundo o MPF.

Criminosos pegos com a boca na botija ficarem com bens milionários frutos dos delitos, com a benção do Judiciário, mesmo em um processo de colaboração para recuperar valores maiores, é algo perigoso, pois pode funcionar como mau exemplo para a sociedade. Em vez de desestimular pessoas inescrupulosas a cometer crimes, pode estimular o aumento da corrupção, ao verem consequências brandas e até um pote de ouro bem real no fim do arco-íris do processo.

mau exemplo

Secretário de Segurança do Paraná ostenta arma na cintura em programa de TV

Secretário de Segurança Pública do Paraná, deputado Fernando Francischini (SD), que recebeu verba de indústria de armas em campanha eleitoral, deu entrevista à TV Tribuna com um saliente revólver na cintura
por Helena Sthephanowitz publicado 23/01/2015 17:42
reprodução
francischini

Secretário responde questões ao vivo em programa da TV Tribuna portanto arma de fogo

No estilo do velho oeste, o secretário de Segurança Pública do Paraná, deputado Fernando Francischini (SD), deu entrevista à TV Tribuna com um saliente revólver na cintura, dando péssimo exemplo jogando contra campanhas de desarmamento para reduzir crimes violentos e letais nas ruas.

Nem o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) chegou a este ponto. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, também deputado, foi armado a uma manifestação com pessoas que pediam a ditadura militar, mas o revólver estava em baixo da camisa, pelo menos.

Nesta semana mesmo, um policial de Santa Catarina alcoolizado discutiu com um surfista desarmado e o matou com dois tiros. Um tragédia decorrente de abuso e irresponsabilidade no porte de arma.

Apesar de policiais poderem andar armados em várias situações – e Francischini é delegado licenciado da Polícia Federal –, nada justifica a ostentação do revólver em um estúdio de TV cercado de toda a segurança e exibido para o grande público, inclusive para crianças, às 13h. A não ser o populismo barato de querer aparecer como um "xerifão", além do "merchandising" para a indústria de armas que já financiou sua campanha eleitoral.

Francischini recebeu da Taurus, grupo fabricante de armas, R$ 50 mil para sua campanha em 2010. Durante seu mandato de deputado era apontado como um dos membros da chamada "bancada da bala".

Com a reeleição de Beto Richa (PSDB/PR), o governador tucano nomeou Francischini secretário de Segurança Pública. Se os problemas com a criminalidade já eram graves antes, depois da nomeação do secretário, as dores de cabeça aumentaram, inclusive com um escândalo político e sexual envolvendo a secretaria.

Mal foi eleito, um membro do seu partido, o Solidariedade, Josimar Távora, foi preso no dia 12 de dezembro passado na cidade de Medianeira, por uma policial civil. O motivo foi assédio sexual. Uma gravação feita por ela mostra Josimar propondo uma ida ao motel em troca de ele intervir junto à Secretaria de Segurança para ela não ser transferida.

Como prova de sua influência, na gravação Josimar mostra diálogos como o deputado estadual Felipe Francischini, filho do secretário, de quem foi um dos coordenadores de campanha na região de Foz do Iguaçu.

Josimar fala que "recuperou" 300 mil da campanha, aparentemente enviados para vereadores e secretários municipais que não cumpriram a meta de votação combinada em suas cidades. Falta explicar se e como este dinheiro foi declarado à Justiça Eleitoral e se retornou ao fundo partidário como determina a lei. Afinal, se eram despesas de campanha, ganhando ou perdendo o dinheiro estaria gasto e não faz sentido "recuperar".

Na gravação, a policial simula acabar concordando com um encontro sexual, mas quando os dois se encontraram em um posto de gasolina, ela deu voz de prisão e Josimar ainda tentou tomar a arma dela, mas acabou preso.

As gravações são reveladoras e estão também publicadas em vídeo no Youtube:

Josimar Távora: Até quando o Francischini for secretário, mesmo se ele não fosse, durante os quatro anos do Beto, você vai estar sobre minha proteção...

Josimar: Viu, só 20 minutos o que eu tenho que fazer, eu faço. Tá?

Policial civil: ‘Tá’, eu vou.  [...] Vinte minutos de sexo vai valer a minha portaria?

Josimar: Vinte minutos! Vamos aqui pertinho.

Policial: É que agora eu não posso mesmo. Você sabe que eu iria...

Josimar: Vinte minutinhos... Nem vinte minutos? [...] Entendeu? A gente está aqui, já está resolvido...

Josimar: Qual é a pessoa mais próxima que organizou tudo nessa campanha? Fui eu. Se a doutora Tani (delegada) tivesse feito o que ela tinha prometido para nós, eu nem ia conversar com você, eu ia conversar direto com ela. Entendeu? Eu queria falar tudo para você, só que eu não vou falar tudo para você, resolver o seu problema e depois - aquilo que você falou - você não olha mais para minha cara. Só que você sabe que eu sei de tudo, entendeu? Toda a situação, tudo o que ocorreu, não sei a metade, eu sei tudo. Só para você ter uma ideia do naipe da conversa dos ‘cara’. Só para você ter uma ideia eu vou mostrar aqui umas gravações. Só para você ter uma ideia dos naipes das conversas. Nós recuperamos 300 mil da campanha, muitos ‘passou’ a perna em nós, entendeu? (mostrando imagens para ela) Essa aqui é minha loja. Esse aqui é vereador de Céu Azul, Brizolla. Esse cara é secretário de Santa Helena. Aqui ‘ó’. Para todo mundo sou representante, sou eu quem mando em tudo. Só para você ter uma ideia.

Deputado eleito Francischini Filho (em uma gravação): Aí Josimar, tudo bom? Já passou em alguns municípios daí, já ligou para alguns daqueles que traíram a gente para pegar de volta a ‘estrutura’? Quero ver os caras sambando agora.

Policial: Quem que é esse?

Josimar: Esse é o deputado, é o filho do Francischini.

Policial: E esse aqui?

Josimar: Aqui uma foto dele aqui ‘ó’.

Deputado eleito Francischini Filho (na gravação): Aí Jocimar, tudo bom? Já passou em alguns Municípios daí, já ligou para alguns daqueles que traíram a gente para pegar de volta a estrutura? Quero ver os caras sambando agora.

Josimar: Só vim dar o recado, depois se não devolver o dinheiro é com ele, daí.

Deputado eleito Francischini Filho (na gravação): Pode vir, Jocimar, só de manhã eu tenho compromisso na Assembleia, mas à tarde está um pouco mais liberado e especialmente à noite também. Só me liga antes daí.

Josimar: ‘Tá’ vendo? Só pra você entender as conversas.

Deputado eleito Francischini Filho (na gravação): Cara, o que teve de gente aqui. As minhas postagens no Facebook antes da eleição dava 100 curtir, 150 curtir... Vai acabar a eleição, qualquer coisa que eu posto dá 800 curtir, mil curtir... (Risada) Povo não tem ‘simancol’ mesmo. Falei para vocês... os prefeitos todos... não iam mandar ninguém embora que me ajudou, agora eles estão tudo precisando... agora é a deles que começa. Agora os foguetes apontado para os do prefeitos aí, né gente (risada).

Josimar: Agora, vou falar de um cara que a Tani indicou.

Indicado Tani (em gravação): Ô, Jocimar, você vai rodar um roteiro aí e já depois vou soltar vocês para ver uns ‘fiasqueiros’ lá de Matelândia, ‘tá’ uma vergonha. Assis Chateubriand também, Cafelândia... outra lá é Palotina também tinha que ‘tá’ com a gente... Teve um monte de município aí, que a gente vai rever. O Brizolla arrebentou, esse foi muito bom. Em Medianeira, a piazada foi bem também. Foz foi muito bom, cidade que é difícil fazer voto. Então, bola para frente agora. Passar a semana aí e vamos marcar o roteiro.

Josimar: Viu...

Policial: Ai, ‘tá’...

Josimar: Só para você ter uma ideia como está lá a coisa, então eu não posso falar pra você. Vou falar depois que eu sei que eu tenho intimidade com você, que eu sei que...

Policial: Tá, mas falando de mim... Eu quero saber de mim. Quem que quer me prejudicar? Por quê?

Josimar: Eu não posso falar...

Policial: Como que eu vou me defender? Como que eu vou saber que você está me defendendo? Mas como que eu vou saber?!

Josimar: Você viu o jeito da conversa lá. É só na segunda-feira, eu vou falar com o Felipe (Francischini), essa aqui eu não quero que mexe’. Pronto... Entendeu? Não tem ninguém que vai mexer com você. Nem o delegado-geral, ninguém.

Policial: Mas você quer sair e... é uma vez só?

Josimar: Não, vou sair uma vez com você, mas depois, se der, vamos sair mais vezes, entendeu? Eu vou ter que conversar com você... de repente você precisa de mim em outra situação, né? De repente você precisa... um cara está te incomodando, entendeu? E é rápido o meu negócio. É só uma ‘meia horinha’ só.

Josimar: Único jeito... tá?

Como se vê o secretário Francischini tem muito mais a fazer com a caneta para afastar influências políticas na secretaria que levam a propostas indecentes do que ostentar revólver em programas de TV.

corrupção

Conta na Suíça liga Youssef ao escândalo das propinas nos trens de São Paulo

Na linha 15-Prata do Metrô está a estação Vila Prudente, listada na planilha apreendida com Youssef em março pela Polícia Federal, ao lado da cifra de R$ 7,9 milhões, suspeita de referir-se a propina
por Helena Sthephanowitz publicado 21/01/2015 18:36, última modificação 21/01/2015 18:56
metrô/divulgação
vila prudente

Bombardier, fornecedora dos trens do monotrilho da Linha 15, é investigada por supostamente integrar cartel

A força-tarefa que investiga a Operação Lava Jato encontrou movimentações financeiras em nome da multinacional canadense Bombardier nas contas usadas pelo doleiro Alberto Youssef na Suíça. É mais uma peça no quebra-cabeças de indícios e provas que o Ministério Público paulista tem de montar sobre o esquema de corrupção no Metrô, chamado pomposamente de cartel pela imprensa tucana, onde empresas combinavam preços nas licitações e pagavam propinas a autoridades do governo tucano de São Paulo nas gestões de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin.

A Bombardier é fornecedora dos trens do monotrilho da Linha 15-Prata do Metrô paulista e investigada por supostamente integrar o cartel. Nesta linha do Metrô está a estação Vila Prudente, listada na planilha apreendida com Youssef em março pela Polícia Federal, ao lado da cifra de R$ 7,9 milhões, suspeita de referir-se a propina.

A movimentação com o nome da multinacional canadense aparece na conta suíça do banco PKB, da empresa offshore Santa Tereza Services Limited Partnership, criada na Nova Zelândia e controlada por João Procópio Junqueira Pacheco de Almeida Prado, preso desde julho de 2014 apontado como alto membro da suposta organização criminosa de Youssef.

“Apurou-se que dentro da conta da offshore Santa Tereza, na Suíça, há quatro subcontas (denominadas Fiança, C/C, Premier e Sanko), todas controladas pela organização criminosa de Youssef e utilizadas para as práticas delitivas. Assim, por exemplo, no extrato da subconta Sanko Sider aparecem depósitos que também aparentam ser relacionados à corrupção de funcionários públicos brasileiros: Bombardier, OAS Investments, Cimentos Tupi (…)”, afirma o MPF em relatório.

O Ministério Público Federal, em um de seus ofícios da Lava Jato, definiu Almeida Prado como: “(...) de sua longa experiência no setor bancário e na área de câmbio, a função de João Procópio era, em síntese, ser o operador das contas de Youssef, sobretudo no exterior. Assim, era sua incumbência abrir as contas de empresas offshore no exterior, em seu próprio nome ou em nome de laranjas, bem como movimentá-las no interesse da organização criminosa”.

De acordo com o MP, Prado enviou ao menos 78 milhões de dólares para o exterior por meio de 1.114 contratos fraudulentos intermediados por essas empresas.

Youssef é o segundo doleiro da Operação Lava Jato que aparece ligado ao escândalo das propinas nos trens paulistas. O outro, Raul Henrique Srour, movimentou dinheiro irregular da Siemens, também suspeito de tratar-se de intermediação de propinas, no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, conforme outra investigação internacional feita pela Procuradoria de Luxemburgo.

A Bombardier afirmou em nota que "jamais manteve contato com a empresa Santa Tereza ou qualquer outra companhia pertencente ao Sr. Alberto Youssef".

Em 2013, a Bombardier Inc. realizou uma emissão de títulos para captação de recursos na forma de bonds, em uma operação absolutamente transparente e de acordo com a legislação financeira. Como a venda dos referidos títulos é intermediada por corretoras e instituições financeiras (como atestam os extratos do banco PKB), a empresa emissora não mantém contato direto com o comprador/beneficiário final.

O Ministério Público Estadual de São Paulo abriu investigação prévia dos fatos que apareceram recentemente durante a investigação federal da Lava Jato que apontam para crimes na esfera estadual. É possível que o órgão paulista chegasse aos mesmos fatos bem antes se tivesse dedicado mais atenção ao escândalo da Alstom e da Siemens, denunciado no exterior desde 2008. A cerimônia cheia de não me toques com que alguns procuradores paulistas tratam autoridades tucanas tem feito muito mal à proteção dos cofres públicos paulistas.

Mesmo depois de ter uma conta bloqueada na Suíça, e de ser acusado de receber propina da Alstom, o ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Robson Marinho, ex-companheiro do governador Alckmin no PSDB, continuou no cargo até recentemente aprovando as contas do governo tucano, inclusive relativas aos trens investigados. Se houvesse maior rigor dos procuradores e magistrados que cuidaram do caso, considerariam a recusa em se afastar deste cargo de controle enquanto investigado uma forma de colocar obstáculos às apurações, motivando até mesmo pedido de prisão preventiva.


longe disso

Para CNJ, Judiciário fracassou na meta de combate à corrupção em 2014

Nos juizados federais, foram julgados 58,29% dos processos; nos estaduais, 47,44%. Meta era a totalidade
por Helena Sthephanowitz publicado 19/01/2015 18:07
reprodução
justiça

Houve queda em relação a 2013, quando tribunais estaduais haviam alcançado 50,51% da meta e os federais, 69,87%

Assim como existem leis que "pegam" e outras que "não pegam", nos próprios Tribunais de Justiça ainda "não pegou" a determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de priorizar o julgamento de denúncias de corrupção.

O órgão de controle sobre o Judiciário havia determinado para 2014 a meta para os tribunais julgarem todos os processos de improbidade administrativa e crimes contra a administração pública distribuídos há dois anos ou mais.

Fechado o ano, os tribunais passaram longe desta meta, segundo as primeiras estatísticas apuradas. No caso dos estaduais, menos da metade foi cumprida. Apenas 47,44% dos processos de corrupção que deveriam ser julgados o foram. Nos juizados federais, o desempenho foi pouco melhor, com 58,29% dos referidos processos julgados, mas ainda muito abaixo da meta.

Para piorar, houve um retrocesso em relação a 2013, quando os tribunais estaduais haviam alcançado 50,51% da meta e os federais, 69,87%.

Em que pese haver tribunais sobrecarregados de processos, como explicar a celeridade com que blogueiros são julgados para pagar indenizações pesadíssimas por criticarem o jornalismo de grandes empresas de comunicação, enquanto casos de desvio de dinheiro público bem mais antigos e graves ficam atrás na fila de julgamentos?

O conselheiro do CNJ Gilberto Martins disse ao jornal O Globo haver processos que não seguem o trâmite comum. “Detectamos que muitas ações de improbidade não estão tendo um curso normal, por conta de fatores externos à magistratura. Há casos de magistrados que não dão conta de ações que importam demanda contra pessoas com poder político ou influência econômica”, afirmou.

O mau desempenho do Poder Judiciário neste caso prejudica a depuração da representação política e atrapalha a própria lei de Ficha Limpa a "pegar". Sem julgamento, vários candidatos que estariam inelegíveis se tivessem sido julgados disputaram as eleições de 2014 e certamente há aqueles que foram eleitos.

A demora em julgar também prejudicou candidatos honestos que já exerceram cargos públicos, denunciados por adversários políticos com hábeis advogados em judicializar a política. O julgamento irá os inocentar, mas durante a campanha eleitoral muitos foram colocados sob suspeição indevida, o que afetou o resultado eleitoral em casos onde os meios de comunicação de massa participam do jogo político, exagerando nas notícias denuncistas contra uns e blindando outros.

Apesar das aparências, vista no noticiário de 2014 com o tema corrupção ocupando boa parte da pauta, sobretudo no caso da Operação Lava Jato, explorada pela oposição partidária e midiática como cabo eleitoral, o Poder Judiciário fechou o ano com forte déficit de combate à corrupção ao ficar longe de cumprir a meta.

Enquanto a Lava Jato investigou o ex-deputado morto José Janene, quantos outros como ele, bem vivos, se elegeram em 2014 por seus processos não terem ido a julgamento?

O jornal Valor Econômico desta segunda feira (19) destacou que o doleiro Alberto Youssef confirma envio de mala com R$ 1 milhão para Minas, mas não revela para quem. Youssef mencionou na sua delação premiada que houve, sim, pagamentos que beneficiaram um político de Minas.

E, nós, queremos saber, quando se vai começar investigar a fundo denúncias como essa? Claro que, se o político fosse do PT o nome já teria vazado, já seria manchete em todos os jornais

corrupção

MP denuncia caixa 2 milionário de deputados que fizeram campanha para Aécio no Rio

O grosso da denúncia envolve caciques do PMDB dissidente que apoiaram o voto 'Aezão', ou seja, Luiz Fernando Pezão (PMDB) para governador e Aécio Neves (PSDB) para presidente
por Helena Sthephanowitz publicado 17/01/2015 19:14
Rafael Wallace/ Alerj
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Jorge Picciani em cerimônia de diplomação para o cargo legislativo: R$ 1 milhão em material gráfico "por fora"

A Procuradoria Regional Eleitoral (PRE) do Rio de Janeiro representou contra oito deputados eleitos, sendo quatro federais e quatro estaduais, por fazerem material gráfico da campanha de 2014 "por fora" do que consta das notas fiscais, segundo os procuradores, caracterizando caixa 2.

O grosso da denúncia envolve caciques do PMDB dissidente que apoiaram o voto "Aezão", ou seja, Luiz Fernando Pezão (PMDB) para governador e Aécio Neves (PSDB) para presidente. O deputado estadual e presidente do PMDB fluminense, Jorge Picciani, e seus dois filhos, o deputado federal Leonardo Picciani e o estadual Rafael Picciani, gastaram mais de R$ 1 milhão cada um em material gráfico "por fora", sempre segundo a PRE-RJ.

O deputado estadual André Lazaroni, do PMDB e do Aezão, também teve mais de R$ 1 milhão em material gráfico "por fora". O deputado federal Otávio Leite (PSDB) teve mais de R$ 500 mil "por fora". O deputado federal Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral, R$ 100 mil. Assim, os apoiadores de Aécio Neves usaram mais de R$ 4,6 milhões em material de campanha não contabilizado, vulgo caixa 2.

Completam a representação da PRE, mais de R$ 100 mil do deputado federal Pedro Paulo (PMDB), principal aliado do prefeito Eduardo Paes (PMDB), que não aderiu ao "Aezão", e R$ 90 mil do deputado André Ceciliano, do PT.

O esquema era feito com a empresa de comunicação visual High Levels e uma rede de gráficas, onde a quantidade de impressos declarados nas notas fiscais eram menores do que a produção real. Uma planilha "de gaveta" apreendida por fiscais do TRE discrimina os valores pagos “por dentro” e “por fora” de cada um dos deputados.

O governador Luiz Fernando Pezão também consta desta planilha e foi denunciado em outro processo à parte, junto ao vice Francisco Dornelles, presidente de honra do PP e primo de Aécio Neves. Foi quem nomeou o senador tucano diretor da Caixa Econômica Federal durante o governo Sarney, quando era recém-formado.

Como agravante, a High Levels prestava serviços de produção gráfica para a prefeitura do Rio e para o governo estadual, o que leva a outras linhas de investigação muito além das irregularidades de campanha eleitoral.

As investigações foram iniciadas quando a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, responsável pela fiscalização da propaganda, estranhou a pequena tiragem declarada diante da quantidade de placas espalhadas do deputado federal Pedro Paulo (PMDB) e da deputada estadual Lucinha (PSDB). A juíza determinou a verificação do endereço da gráfica e descobriu que no local funcionava apenas um salão de beleza. A poucos metros funcionava a High Levels Signs, que impressionou pelo parque gráfico e pelo volume de propaganda política.

Os fiscais do TRE-RJ simularam ser assessores de candidatos interessados na produção de material de campanha, desde que a gráfica concordasse em fazer constar das placas uma tiragem inferior à efetivamente entregue. "Claro que fazemos, essa é uma prática muito comum", respondeu a recepcionista, que passou a elencar nomes de candidatos que encomendam material com tiragem adulterada, sem saber que tudo estava sendo gravado.

Uma operação conjunta da Justiça Eleitoral com a Polícia Federal em 8 de agosto de 2014 lacrou a empresa e apreendeu documentos e materiais que comprovariam fraudes e provável caixa 2, como ordens de serviço com tiragem de placas, banners e panfletos menor do que a quantidade realmente entregue aos candidatos.

Além dos oito denunciados, na operação foram encontrados material de campanha de Rodrigo Bethlem (PMDB), desistente ao ver sua candidatura abatida por um escândalo de propinas na prefeitura quando foi secretário municipal, e Sávio Neves (PEN), não eleito e, coincidentemente, também primo de Aécio Neves.

Nas ações, a PRE pede a perda dos mandatos. O procurador regional eleitoral Paulo Roberto Bérenger disse: “Houve verdadeira prática de conduta ilícita pelos políticos, na medida em que a não declaração dos gastos em campanha se comprova pelos documentos alcançados pela Polícia Federal, pelo relatório do TRE que apurou a existência de diversas irregularidades, bem como pelas conclusões da Receita Federal, que constatou a omissão de receitas pelas empresas (...) A ausência de declaração de todas essas despesas na prestação de contas é uma omissão relevante na contabilização de gastos eleitorais, indicando que houve gastos ilícitos de recursos para fins eleitorais”.

Apesar dos deputados do Aezão terem feito campanha para Aécio em seus materiais impressos, o senador tucano não foi denunciado pois, a princípio, as irregularidades teriam sido cometidas à sua revelia e por campanhas de terceiros, mesmo o favorecendo.

A notícia enfraquece politicamente a candidatura do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) à presidência da Câmara dos Deputados, pois mesmo sem seu nome estar envolvido, atinge seu entorno e sua base política no PMDB fluminense.

São Paulo

Lava Jato fecha cerco a Sabesp e Metrô. Tucanos e imprensa se calam

Ministério Público abre três investigações para apurar suspeita de pagamento de propinas pelo doleiro Youssef em obras paulistas
por Helena Sthephanowitz publicado 14/01/2015 19:29, última modificação 15/01/2015 09:42
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Metrô: a quantia de R$ 7,9 milhões, também suspeita de referir-se a propina, está associada à obra da Vila Prudente

O Ministério Público de São Paulo abriu três investigações para apurar suspeita de pagamento de propinas pelo doleiro Alberto Youssef em obras paulistas. Duas miram contratos de estatais do governo paulista sob gestão do PSDB: a empresa de saneamento e abastecimento Sabesp, e o Metrô.  Com Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, os tucanos estão no poder há mais de 20 anos no estado.

Quando o primeiro tucano assumiu São Paulo , em 1995, já havia perto de 45 quilômetros de metrô. Desde então, meros 33 quilômetros foram acrescentados. Um ritmo de tartaruga. Mas em passos gigantes nas denúncias de corrupção.

A terceira envolve obras na Petrobras em unidades paulistas, já em investigação no âmbito federal. Obras da Sabesp e Metrô aparecem entre 747 contratos listados em uma planilha apreendida com Youssef em março pela Polícia Federal durante a Operação Lava Jato. A planilha registra as empreiteiras ligadas às obras, muitas nada tendo a ver com a Petrobras, ao lado de valores com indícios de suborno, segundo os promotores.

Existem R$ 28,8 milhões suspeitos de serem propina na Sabesp. Os valores aparecem ao lado de três obras, a estação de tratamento de água Jurubatuba, no Guarujá, a adutora Guaraú-Jaguará, na Grande São Paulo, e tubulação da Sabesp, em Franca.

Na parte referente ao Metrô, a quantia de R$ 7,9 milhões, também suspeita de referir-se a propina, está associada à obra da Vila Prudente. Se as investigações confirmarem as suspeitas, é mais um escândalo a somar-se aos subornos de Alstom e Siemens.

Outro doleiro pego na Operação Lava Jato, Raul Henrique Srour, conforme outra investigação internacional feita pela Procuradoria de Luxemburgo, movimentou dinheiro irregular da Siemens, também suspeito de tratar-se de intermediação de propinas, no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, conforme já noticiamos aqui.

A análise da planilha de Youssef ainda não terminou e outras investigações podem ser abertas pelo Ministério Público paulista nos próximos dias, segundo o promotor de Justiça Otávio Ferreira Garcia.

A notícia, divulgada discretamente pelo jornal Folha de S. Paulo, chega em um mau momento político para o governador Geraldo Alckmin, às voltas com o racionamento de água em São Paulo.

Como se não bastasse a falta de investimentos na ampliação e segurança do abastecimento – com a opção da Sabesp de distribuir mais lucros aos acionistas nos últimos anos, inclusive da Bolsa de Valores de Nova York –, a suspeita de que o dinheiro da tarifa d'água tenha ido para bolsos escusos no esquema Youssef não contribui para melhorar o humor do paulistano na hora em que abre a torneira e não sai água.

Esperamos que a imprensa amiga dos tucanos não abafe o caso e que venham as condenações na Justiça, com devolução dos lucros obtidos fora dos trilhos e aplicação rigorosa das penas estabelecidas em lei. O exemplo servirá para começar a demolir um grande obstáculo ao transporte de massa em São Paulo.

corrupção

A blindagem da TV Globo ao tucano Anastasia na Operação Lava Jato

'Fantástico' dedica oito minutos e meio para denúncia regional e deixa de lado o assunto do momento e de dimensão nacional, o envolvimento do nome do senador Antonio Anastasia em esquema de corrupção
por Helena Sthephanowitz publicado 12/01/2015 19:58, última modificação 12/01/2015 20:05
arquivo abr
anastasia

Matéria retirada da prateleira tirou de evidência o tucano, ex-governador de Minas

Mais um tucano aparece na lista dos nomes citados nas investigações da Operação Lava Jato. Dessa vez, Antonio Anastasia (PSDB), atual senador e ex-governador de Minas Gerais, braço direito de Aécio Neves, ex governador de Minas Gerais, presidente do PSDB e senador, é suspeito de envolvimento no esquema de corrupção organizado pelo doleiro Alberto Youssef.

O primeiro tucano foi acusado no depoimento de Paulo Roberto Costa em 2014, foi  o ex-senador e então presidente do PSDB, Sérgio Guerra, já falecido, que recebeu R$ 10 milhões para abafar CPI que apurava contratos da estatal. No entanto, a imprensa ainda faz vistas grossas para casos que envolvam políticos do PSDB e quando divulga, não propaga com a mesma intensidade de quando se trata do PT.

No domingo (11), o programa Fantástico, da TV Globo, usou oito minutos e meio para noticiar a prisão do vereador Adalberto Alexandre Domingues (PRTB), presidente afastado da Câmara Municipal de Ribas do Rio Pardo, cidade do Mato Grosso do Sul. A acusação do Ministério Público Estadual sul-matogrossense é sobre desvio de verbas em diárias e contratos com fornecedores.

Mesmo se tratando de noticiário regional sem repercussão nacional, a matéria seria bem-vinda por se tratar de dinheiro público, não fosse a estranheza de ser levada ao ar com atraso de  46 dias após os acontecimentos, uma eternidade para a televisão. A reportagem nem tem o valor de denúncia para autoridades apurarem, se limitando a narrar o ocorrido, pois já está tudo sendo apurado pelos promotores.

Se o Fantástico quisesse fazer uma matéria sobre corrupção da semana, o assunto do momento e de dimensão nacional é o envolvimento do nome do senador Antonio Anastasia (PSDB) na Operação Lava Jato. Segundo depoimento do policial federal afastado Jayme Alves de Oliveira Filho, também chamado de "Careca", ele fazia entrega de dinheiro a mando do doleiro Alberto Youssef e uma das entregas em Belo Horizonte feita em 2010 teria como destinatário Anastásia, no valor de R$ 1 milhão.

Este depoimento também não é propriamente novo. Foi realizado no dia 18 de novembro de 2014 e, diferente de outros depoimentos onde foram citados nomes de petistas, ficou este tempo todo sem ser publicado como "vazamento". Jayme "Careca" cita três políticos como destinatários de dinheiro que ele transportou para o esquema: Anastasia, do PSDB, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Luiz Argolo (SD-BA). Os dois primeiros têm, digamos, uma espécie de "fórum privilegiado" na mídia tradicional que os poupa de notícias desgastantes até o limite do possível.

O telejornal da TV Globo de maior audiência só noticiou o envolvimento do nome de Anastasia após o jornal Folha de S. Paulo noticiar. E mesmo assim foi uma matéria sob medida para reduzir danos ao tucano, dando generoso espaço para narrar a nota oficial emitida à imprensa pelo senador tucano e para ouvir o advogado de defesa do senador. Nenhum repórter teve a "curiosidade" de buscar identificar a casa citada pelo depoente, saber quem é o dono do imóvel, quem o habita e outras apurações óbvias que qualquer jornalismo com a estrutura que a TV Globo tem faria se o político alvo da delação fosse um petista. Nenhum político tucano foi importunado por repórteres com perguntas incômodas.

Neste contexto, a matéria que até ontem não servia para o Fantástico, com um vereador de uma cidade com 23 mil habitantes, eleito com 445 votos, foi retirada da prateleira e levada ao ar, tirando de evidência o ex-governador tucano de Minas, eleito senador com mais de 5 milhões de votos. Se alguém ainda tinha dúvidas quanto à parcialidade política da TV Globo, a própria escolha da pauta não deixa esta dúvida persistir.

Aliás, sobre parcialidade, o jornalista e colunista da Folha de S. Paulo Janio de Freitas escreveu uma nota sobre Anastasia, o braço direito de Aécio Neves:

 

DIFERENÇAS

Há um lado positivo no aparecimento de Antonio Anastasia entre os citados pelo ex-entregador de dinheiro ilegal a mando de Alberto Youssef. Não pela pessoa de Anastasia. Condutor da parte administrativa dos governos mineiros de Aécio Neves, enquanto Andrea Neves controlava a parte política e publicitária, Anastasia se tornou sucessor natural do chefe. Seria o ministro da Casa Civil se Aécio derrotasse Dilma, e elegeu-se senador. Sempre pelo PSDB.

A inclusão de Anastasia na Lava Jato fez a imprensa e a TV afinal pensarem um pouco na inconveniência de encampar e amplificar denúncias feitas por gente desqualificada e sem prova, sem sequer indício. E, na Lava Jato, sem que haja notícia das indispensáveis investigações para comprovar ou desmentir o delator premiado. Os vazamentos têm bastado para a imprensa e a TV.

Mas Anastasia e a concomitante acusação ao deputado peemedebista Eduardo Cunha já tiveram tratamento diferente. É o efeito tucano.

Verbas e concessões

Aécio Neves governador pôs dinheiro público em rádios e jornal da família

Dinheiro do governo estadual abasteceu empresas de comunicação controladas por familiares do senador tucano, além dos veículos que jamais negaram apoio a seus projetos políticos
por Helena Sthephanowitz publicado 28/12/2014 10:22, última modificação 29/12/2014 10:32
Imprensa MG/Aecioblog
Aécio e Andrea

Rádio de Aécio e sua irmã Andrea Neves era também 'dona' do Land Rover que ele dirigia quando uma blitz o parou

Ao apagar das luzes dos 12 anos de governo do PSDB à frente do Estado de Minas Gerais, dados dos gastos com publicidade nas empresas de comunicações do ex-governador Aécio Neves (PSDB) e família vêm a público. Entre 2003 e 2014, foi repassado um total R$ 1,2 milhão a três rádios e um jornal ligados à família de Aécio Neves (PSDB-MG).

Segundo levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo, a maior fatia foi direcionada a rádios e jornais controlados por Aécio Neves e sua família. A Arco-Íris, que possui uma franquia da Jovem Pan FM em Belo Horizonte. A parte que coube à Arco-Íris chegou a R$ 1,06 milhão, frente a R$ 51,8 mil e R$ 45,5 mil investidos nas rádios São João Del Rey e Vertentes FM, respectivamente – ambas de São João Del Rei (MG). Nos 12 anos em que foi comandado pelos tucanos, o governo de Minas gastou mais de R$ 547 milhões com publicidade, em valores corrigidos pela inflação.

Desde a posse de Aécio, em 2003, até este mês de dezembro, quando termina o governo tucano em Minas Gerais, os gastos do estado com publicidade oficial aumentaram mais de 900%. Emissoras de TV, que deram apoio à campanha aecista para presidente, ficaram com a maior fatia. Rede Globo em primeiro lugar, com R$ 290 milhões. Entre os jornais, foram gastos R$ 138 milhões, o maior beneficiado foi O Estado de Minas, que apoiou editorialmente o governo de Aécio e sua candidatura presidencial. O jornal teve um aumento de 1.428% nos valores recebidos dos cofres públicos de 2003 para cá.

Só foram divulgados gastos efetuados pela administração direta, sem incluir despesas feitas por empresas estatais, que também anunciam nas rádios de Aécio e família.

Em sua declaração de bens como presidenciável ao Tribunal Superior Eleitoral, o candidato derrotado e atual senador declarou possuir 88.000 cotas da Rádio Arco-Íris, com valor de R$ 700 mil. O tucano declarou possuir ações junto à empresa Diários Associados, que pertenceram a seu avô, Tancredo Neves.

Em 2011, Aécio Neves foi parado em uma blitz da Lei Seca dirigindo um Land Rover da Arco-Íris, o que motivou uma investigação pelo Ministério Público Eleitoral.Em seguida,  o MPE de Minas Gerais instaurou inquérito civil para investigar repasses feitos pelo governo do estado à Rádio Arco-Íris entre 2003 e 2010, época em que o tucano comandou o Executivo mineiro. Além de Aécio, também consta do inquérito civil no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG 0024.12.001113-5) o nome de sua irmã, Andrea Neves, ex-presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) e coordenadora do Núcleo Gestor de Comunicação Social do governo, responsável pelo controle do gasto com comunicação, inclusive a publicidade oficial, durante a gestão do irmão.

A propriedade da rádio por parte de Aécio e Andrea veio a público quando o senador teve a carteira de habilitação – vencida – apreendida e foi multado em R$ 1.149,24 após se recusar a fazer o teste do bafômetro, ao ser parado na blitz. O Land Rover fora comprado em novembro de 2010 em nome da emissora.

Na ocasião, o governador Anastasia confirmou que havia sido feitos repasses à rádio em 2010 (Aécio permaneceu no cargo até 31 de março de 2010). O caso levou a oposição na Assembleia Legislativa de Minas a tentar, sem sucesso, criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A Promotoria de Defesa do Patrimônio Público do MPE anunciou que faria investigação para confirmar se foram repassadas verbas públicas à rádio também nos outros anos em que Aécio esteve à frente do governo e os critérios usados para a liberação dos recursos.

No período em que o atual senador comandou o Executivo mineiro, as despesas de órgãos da administração direta com "divulgação governamental" chegaram a R$ 489,6 milhões, segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira de Minas Gerais (Siafi-MG), valor que ultrapassa R$ 815 milhões quando incluídos gastos de empresas, fundações e autarquias controladas pelo Executivo. Além da Rádio Arco-Íris, o MPE vai investigar se as empresas Editora Gazeta de São João Del Rey Ltda. e a Rádio São João Del Rey SA, que têm Andrea como sócia, receberam recursos do governo durante a gestão do irmão

Aécio se tornou sócio da Rádio Arco-Íris, que já era dirigida por sua irmã Andrea, em dezembro de 2010, dois meses depois de ser eleito para o Senado. O Land Rover é um dos 12 veículos identificados em nome da emissora, que está registrada com capital social de R$ 200 mil e faturou mais de R$ 5 milhões em 2010.

Caso abafado

O caso deflagrou uma briga interna no Ministério Público Estadual (MPE) de Minas. Depois de o então procurador-geral de Justiça do Estado, Alceu José Torres Marques, arquivar representação para verificar se a Arco-Íris recebia recursos do governo durante a gestão dele – e em que Andrea presidia o grupo técnico de comunicação da gestão estadual. A representação contra o senador do PSDB de Minas Gerais foi apresentada à Procuradoria-Geral da República em maio de 2011, por deputados da oposição.

O promotor João Medeiros, da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público, chegou a instaurar inquérito civil para apurar repasses publicitários do Executivo, mas Marques novamente arquivou a denúncia. O caso foi parar no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que"confirmou o engavetamento".

Os Neves receberam a outorga do Ministério das Comunicações e a a concessão da emissora de rádio em 1987.

outra vez

A imprensa partidária, a Bancoop e o jogo dos 593 erros

No vale-tudo para atingir integrantes do PT, mídia usa até falha de procurador que transforma pagamento regular de R$ 38 mil em 'desvio de R$ 38 milhões'
por Helena Sthephanowitz, para a Rede Brasil Atual publicado 23/12/2014 14:46, última modificação 23/12/2014 14:47
cc / F. Machado / arquivo pessoal
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Cooperativa tem mais de 6 mil unidades entregues, 508 em construção e 168 pendências

De tempos em tempos, a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop) volta a ocupar páginas de jornais, geralmente quando se pretende lançar holofotes para atingir o PT e alguns de seus integrantes. A mais recente onda de espetáculo foi apresentada pelo jornal das Organizações Globo, tendo como personagens apartamentos legalmente adquiridos por lideranças como o tesoureiro do partido, João Vaccari, e o ex-presidente Lula.

Reportagens como essas vira e mexe procuram um “gancho” novo para requentar denúncias velhas e fajutas, originadas de um processo aberto ainda na década passada para apurar irregularidades na cooperativa. Peças baseadas em ação desenvolvida pelo promotor José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo, são reapresentadas há várias eleições – e como no caso de 2014 a oposição e seu órgãos oficias tentam perpetuar o tal “terceiro turno”, o escarcéu de pleitos anteriores em torno da cooperativa volta ao palco.

Já em 2010, entre o primeiro e o segundo turno das eleições, Blat apresentou uma denúncia, devidamente repercutida com estardalhaço nos jornais, mas com erros tão grosseiros que acabou por invalidá-la. Entre as grosserias cometidas, foi apresentado como "prova" um cheque normalmente emitido pela Bancoop e compensado, no valor de R$ 38.804,66 (trinta e oito mil, oitocentos e quatro reais e sessenta e seis centavos). Na denúncia de Blat, o mesmo cheque é relacionado com o valor de R$ 38.804.366,00 (trinta e oito milhões, oitocentos e quatro mil, trezentos e sessenta e seis reais). Ou seja, um pagamento real e regularmente documentado de R$ 38 mil virou "desvio" inexistente de R$ 38 milhões. Erro de digitação? Convenhamos: uma denúncia criminal de milhões, ainda mais com conotação política, deveria ser checada direitinho com o documento original antes de ser apresentada.

Segundo a defesa da Bancoop, esse é apenas um de um total de 593 erros encontrados após análise comparativa entre os documentos reais e a denúncia do promotor Blat apontou para "embasar" a denúncia.

A Bancoop passou por problemas e ainda tem contenciosos, mas a realidade é bem diferentes daquelas que são contadas pela mídia. Foi criada em junho de 1996, por trabalhadores bancários, numa época em que o crédito imobiliário era escasso e caro, em pleno governo FHC. Teve pleno êxito no início, com centenas de cooperados conquistando um imóvel próprio de qualidade, a preço e prazos muito inferiores aos do mercado. Porém, com o crescimento de associados e tendo lançado vários empreendimentos ao mesmo tempo, alguns com orçamentos mal estudados e mal dimensionados, as coisas começaram a desandar.

O ex-presidente da cooperativa, Luiz Malheiro, se atrapalhou na governança, na primeira metade da década passada, ao tentar unificar o caixa da associação e criar uma empresa própria que produzisse e fornecesse materiais mais baratos para os empreendimentos. Mas as medidas para ganhar escala e reduzir custos não foram suficientes para evitar atrasos e paralisação de obras por necessidade de reforço de caixa, causando insatisfação em muitos cooperados, que interromperam pagamentos e entraram em litígio com a cooperativa, questionando juridicamente o aumentos nos custos.

Após a morte do ex-presidente Malheiro, num acidente de carro em novembro de 2004, a diretoria da cooperativa passou por profunda reformulação. João Vaccari Neto deixou a presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo e assumiu a direção da cooperativa com a tarefa de promover uma ampla auditoria nas contas e pôr em ordem documentações e procedimentos para começar a resolver pendências com os cooperados, que começavam a se avolumar desde o início da década. Por sua posição de destaque na CUT, no PT e no sindicalismo bancário, Vaccari – que assumiu o comanado com objetivo de tirar os empreendimentos da crise – passou a ser o alvo predileto do noticiário como se fosse o responsável por ela.

Vaccari deixou a diretoria da Bancoop em 2010. No mesmo ano, assumiu a Secretaria de Finanças do PT, o que parece ter feito escorrer veneno pelo canto da boca da oposição tanto partidária como midiática. A Assembleia Legislativa de São Paulo – de maioria tucana e que engavetou dezenas de CPIs que deveriam apurar denúncias de irregularidades praticadas em sucessivos governos do PSDB –, resolveu fazer uma CPI da Bancoop em pleno período eleitoral.

Se não houvesse responsabilidade social com os cooperados, teria sido mais cômoda a liquidação da Bancoop, com o leilão de prédios em construção e terrenos já adquiridos como forma de recuperar ao menos parte dos recursos de cooperados. Mas isso não era a solução desejada pela maioria, que defendia a conclusão das obras.

Nesse contexto, coube a Vaccari reestruturar e corrigir os problemas de governança da gestão passada, apresentar caminhos e soluções para concluir as obras, além de ser o porta-voz da notícia desagradável de revisão de custos, negociar acordos e termos de ajuste com o Ministério Público, homologar acordos judiciais, transferir a administração das obras diretamente para construtoras etc.

Onde há polêmica é bom e necessário haver investigação, mas é preciso seriedade e rigor com as provas e, sobretudo, responsabilidade sobre as denúncias que se faz. Nem Ministério Público, nem Judiciário, e muito menos a imprensa, podem entrar no circo denuncista da mídia e dos partidos políticos, sejam eles quais forem. Basta notar que em todos esses anos de noticiário criminalizando dirigentes, os desejos partidários dos donos dos jornais sempre estiveram acima dos interesses dos cooperados.

Apesar dos lamentáveis atrasos e de sucessivos reforços exigidos de cooperados para a conclusão de empreendimentos, até dezembro de 2014 há 5.697 moradias entregues diretamente pela Bancoop e outras 644 concluídas e entregues por outras construtoras. O preço de mercado hoje é ainda hoje bem superior ao que os cooperados pagaram, mesmo com as suplementações. Outras 508 unidades estão em construção. As pendências de acordo foram reduzidas de 949 em 2007 para 168 em agosto último. É uma realidade bem diferente da divulgada no noticiário oposicionista.