Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog da Helena

Blog da Helena

por publicado , última modificação 18/09/2014 14:02

Esconder o jogo

Marina censura crítica a BC independente em vez de defendê-lo em seu programa

Se Marina tem argumentos favoráveis à sua proposta de Banco Central independente, deveria mostrá-los e deixar o eleitor tirar suas próprias conclusões. Ao censurar Dilma, impede a comparação e o debate
por Helena Sthephanowitz publicado 18/09/2014 14:02, última modificação 18/09/2014 14:04
Reprodução
Programa

Peça censurada usa imagem fictícia de banqueiros. Janot deveria perguntar sobre risco a europeus

O procurador-geral eleitoral, Rodrigo Janot, deu parecer favorável ao pedido da candidatura de Marina Silva para censurar a propaganda eleitoral na TV de Dilma Rousseff que critica a proposta de Banco Central independente defendida pela candidata do PSB.

Na inserção é mostrado um paralelo entre uma reunião de banqueiros decidindo os rumos da economia nacional de acordo com seus interesses privados, sem controle de um governo eleito pela soberania popular, e os possíveis efeitos que pode provocar na vida das famílias, como desemprego, arrocho nos salários e aposentadorias e cortes em direitos sociais.

Janot considerou não haver conteúdo sabidamente inverídico, por isso disse não caber direito de resposta ao PSB, mas pede a suspensão da peça por entender que tem aptidão de criar, artificialmente, estados mentais, emocionais ou passionais no público, desapegados de experiência real. Antes de escrever "desapegados de experiência real”, Janot deveria olhar o que dizem os trabalhadores e desempregados gregos, portugueses, espanhóis, italianos, franceses sobre a independência do Banco Central Europeu.

Lá, a população submetida ao arrocho nem culpa mais o próprio governo de seu país, pois, mesmo trocando governos nas eleições, o arrocho continua do mesmo jeito. O povo reclama de quem manda de fato na economia dos países, a "troika" (a trinca formada pelo Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional).

A peça na TV não deixa de ser também uma versão adaptada ao tema presente do poema O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht, repaginando o trecho em que diz "Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas".

O parecer de Janot equivale presta um desserviço à consciência política do cidadão brasileiro, ao direito de conhecer propostas, causas, efeitos e consequências, inerente ao debate eleitoral politizado e aprofundado, como deve ser. Trata o eleitor com se fosse uma criança manipulável emocionalmente, como se fosse o próprio "analfabeto político" do poema.

Se o programa de Marina Silva tem argumentos diferentes em defesa de sua proposta de Banco Central independente, que os exponha e deixe o eleitor tirar suas próprias conclusões e fazer suas escolhas. Pior seria o cidadão brasileiro só descobrir as consequências depois que sentir na própria pele o estrago feito.

Olho gordo

Campanha de Marina endossa lobby contra indústria brasileira no pré-sal

Coordenador de campanha, Walter Feldman, endossa críticas de lobistas ao marco regulatório do pré-sal sinalizando que a legislação precisaria mudar
por Helena Sthephanowitz publicado 16/09/2014 19:11, última modificação 16/09/2014 19:57
Pedro Bolle/USP Imagens/Fotos Públicas
Petroleo

Brasil atingiu recorde de 2,9 milhões de barris/dia em julho. E o pré-sal ainda nem começou

O primeiro dia da Rio Oil & Gas, maior conferência petrolífera do país, foi marcado ontem (15) por forte lobby de companhias estrangeiras e privadas nacionais de petróleo contra exigência de compra de componentes na indústria nacional e de a Petrobras ser operadora única no pré-sal.

Ainda nesta segunda-feira, o coordenador de campanha de Marina Silva (PSB), Walter Feldman, endossou as críticas dos lobistas ao marco regulatório do pré-sal sinalizando que a legislação precisaria mudar. Segundo ele, emissários de Marina se encontraram com executivos privados do setor de petróleo na semana passada e ouviram queixas da política de conteúdo local.

Mark Shuster, vice-presidente executivo de exploração e produção para as Américas da Shell, disse na Rio Oil & Gas que a legislação e a tributação reduzem a atratividade do pré-sal brasileiro, citando o México como alternativa, pois flexibilizou suas leis para atrair investimentos.

O que Shuster não disse é que o México não tem nenhum grande campo com o grau de certeza que existe no pré-sal brasileiro e a própria Shell participou do consórcio encabeçado pela Petrobras para exploração do campo de Libra sob o novo marco regulatório.

É do jogo esse tipo de pressão. "Quem não chora, não mama", diz o ditado popular. E empresários e investidores, por mais ganhos que tenham, nunca param de chorar para ver se ganham mais um pouco.

O problema é a candidatura de Marina Silva cair nesta conversa fiada e se submeter ao lobismo. Depois não adianta reclamar, nem querer se fazer de vítima, quando seu programa é criticado por sinalizar um governo privatista e que oferece risco de ceder aos interesses das grandes corporações.

Governos devem sim dialogar com empresários de todos os setores e atrair investimentos, mas precisam saber separar o que converge com o interesse nacional e do povo daquilo que apenas vise a lucros privados, sem contrapartida para a prosperidade popular.

Segundo o argumento adotado pelos coordenadores de Marina, idêntico ao dos tucanos, a Petrobras estaria muito endividada, sobrecarregada por ser a operadora única do pré-sal obrigada a participar com no mínimo 30% na exploração, e a indústria naval brasileira e de componentes deveria ser sacrificada para atrair mais investimentos estrangeiros na extração do petróleo.

Argumentos pífios. A Petrobras tem um cronograma de investimentos para dobrar a produção até 2020. A dívida é grande porque a empresa é gigante, e é usada para investimento com retorno lucrativo. Tanto é assim que ninguém no mundo, por mais capitalista que seja, deixa de comprar ações da empresa apenas por causa de sua dívida.

Quanto a estar "sobrecarregada", é um argumento tão risível como dizer que uma indústria de automóveis estaria sobrecarregada por ampliar a fabricação de carros que estão vendendo muito. Ora, quando se produz muito, aumentam-se as receitas, investe-se em expansão e contrata-se mais gente. Não existe empresa no mundo que ceda voluntariamente fatias de mercado para concorrentes por estar "sobrecarregada".

Pior é o argumento de sacrificar a cadeia produtiva de componentes da indústria naval e petrolífera, apenas para trazer mais investimentos de petroleiras estrangeiras. A economia brasileira ganharia pouco e perderia muito, se petroleiras estrangeiras simplesmente trouxessem equipamentos prontos para ancorar em nossa costa, com tecnologia e trabalhadores estrangeiros, tirassem o petróleo e vendessem no mercado mundial, deixando apenas uma pequena participação financeira para o país.

O Brasil seria um mero produtor da commodity petróleo, sem desenvolver uma indústria local, sem dominar a tecnologia, sem criar empregos, inclusive qualificados, sem descobrir patentes que sempre surgem onde se produz tecnologia. Tudo isso vale tanto ou mais do que o petróleo em si. Como se não bastasse, campos de petróleo hegemonicamente dominados por empresas estrangeiras, sobretudo países com histórico de intervenção militar, colocam em risco a própria soberania nacional.

Além disso, apesar de haver cobiça pelo domínio das reservas, não há interesse da maioria das grandes petroleiras estrangeiras em produzir aqui na mesma escala que a Petrobras planeja, pelo simples motivo de que interessa a seus acionistas manter o preço do barril de petróleo nos patamares que assegurem maiores lucros do que uma superprodução poderia proporcionar. Tanto é assim que os países da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), seguindo a mesma lógica das petroleiras privadas que atuam em escala global, estudam cortar a produção em 500 mil barris ao dia, no momento em que houve uma queda de preço.

Se com quatro tuítes do pastor Silas Malafaia, Marina Silva “revisou” o programa de governo, o que a poderosa indústria do petróleo mundial conseguiria mudar no marco regulatório do petróleo, caso Marina fosse presidenta?

Afogado em números

Ibope e Vox Populi contrastam com Datafolha

Uma tendência é certa nas últimas pesquisas eleitorais: Marina Silva (PSB) está em queda, Dilma Rousseff (PT) em ascensão e Aécio Neves estagnado
por Helena Sthephanowitz publicado 12/09/2014 16:12, última modificação 12/09/2014 19:33
reprodução
voto

O que mais coloca em dúvida a pesquisa do Datafolha são os números muito baixos de indecisos e nulos no segundo turno

O que traz incertezas quanto à consistência dos levantamentos são diferenças entre alguns institutos, acima da margem de erro. Duas pesquisas, uma do Vox Populi e outra do Datafolha, foram feitas exatamente nos mesmos dias, entre 8 e 9 deste mês, e encontraram alguns números contrastantes além das faixas de tolerância. Quem estaria certo?

O tira-teima foi outra pesquisa, do Ibope, contratada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta sexta-feira (12). Foi encerrada no dia 8, data bem próxima das outras, e registrou uma tendência mais parecida com o Vox Populi, o que deixa o Datafolha em saia justa.

Em relação ao primeiro turno, as intenções de votos em Aécio estão idênticas (15%) nos três institutos. Em Dilma estão dentro da margem de erro (36% e 39%), mas no caso de Marina, o Vox Populi registrou 28%, enquanto o Datafolha 33% para a candidata do PSB. São 5 pontos de diferença, acima do limite da margem da erro, que é de 2,2 pontos no Vox Populi e 2% no Datafolha. O Ibope registrou 31%, intermediário entre os dois institutos, mas foi a campo na véspera das outras pesquisas. Logo, se a tendência era de queda de Marina e oscilação para cima de Dilma, tende a coincidir mais com a apuração do Vox Populi.

arte

Outra divergência foi nos indecisos. O Vox Populi destoou com 13%, enquanto o Datafolha registrou 7% e o Ibope 5%.

Na sondagem de segundo turno, todos institutos registraram Dilma chegando ao empate técnico com Marina, mas com números diferentes. Dilma teve 41% no Vox Populi, 42% no Ibope e 43% no Datafolha, resultado idêntico dentro da margem de erro. Marina teve 42% no Vox Populi e 43% no Ibope, o que coloca os 47% no Datafolha em dúvida.

Apesar de alguns números divergirem acima da margem de erro, a diferença é pequena e pode de fato ocorrer dentro da probabilidade estatística.

Mas os números do Vox Populi e Ibope são ainda convergentes quando analisamos os votos inválidos e indecisos. No primeiro turno, o Vox Populi registra 7% de intenção de votos nulos/branco/ninguém. No segundo, esse número sobe para 10%. É um resultado esperado. Parte dos eleitores de Aécio Neves (PSDB) ou de Luciana Genro (Psol), por exemplo, pode dizer que anula o voto caso seu candidato não passe para o segundo turno. A mesma lógica acontece no Ibope. Nulos/Branco são 8% no primeiro turno e 10% no segundo. No caso do Datafolha, registram-se tanto no primeiro como segundo turno 6%. Possível, mas pouco provável.

O que mais coloca em dúvida a pesquisa do Datafolha são os números extremamente baixos de indecisos e nulos no segundo turno. Somados dão 10% em segundo turno, contra 17% do Vox Populi e 15% do Ibope.

Quando o candidato do PSB era Eduardo Campos, os votos nulos e indecisos eram maiores. Com a entrada de Marina Silva na disputa, ela capturou a maioria destes votos em um primeiro momento. Atraindo os holofotes para si, teve suas contradições expostas e passou a perder votos. É de se esperar que parte dos votos da “antipolítica”, que antes iria anular o voto, volte a fazê-lo.

E também é de se esperar que parte dos votos sem certeza que pendiam para Marina, migrem para outros candidatos à medida que o eleitor volúvel compare as propostas e conheça melhor a candidata. O que leva Marina a cair é ficar mais conhecida. Suas posições que agradam uns, desagradam outros. Inicialmente ambos viam nela a ideia de votar naquilo que julgavam se identificar, sem conhecê-la direito.

Quando Marina tenta neutralizar críticas de inexperiência, dizendo que foi vereadora, deputada, senadora duas vezes e ministra, essa longevidade política já espanta parte do eleitorado da chamada “nova política”. Marina não é tão novidade assim. Ela conviveu “com tudo isso que está aí” por mais de duas décadas ocupando cargos políticos.

Quando ela tenta neutralizar a falta de base de sustentação política, que levou à renúncia de Jânio Quadros e ao impeachment de Collor, dizendo que vai governar com todos os partidos, mesmo dizendo que com “os melhores”, o eleitor que gritava “sem partido” em junho de 2013, já não a vê como opção. E aquele consciente de que sem uma reforma política a governabilidade se faz obrigatoriamente com quem é eleito no Congresso Nacional, vê incapacidade ou falsidade.

Quando ela volta atrás no programa de governo depois de quatro tuitadas do Pastor Silas Malafaia, ela desagrada e perde a confiança de outros setores. Marina se complica tendo declarações do presente desmentidas por atos do passado, como na questão da votação na CPMF, dos transgênicos, do agronegócio, ou ao ter posição contraditória sobre o pré-sal, que ela trata como um mal que tem de ser aturado e combatido. Em vez de azucrinar o pré-sal brasileiro, deveria mirar no Canadá por extrair petróleo de areias betuminosas no Ártico, em um processo muito mais poluente.

Quando ela procura varrer para baixo do tapete o escândalo da compra por empresas laranjas do avião de campanha dela e de Eduardo Campos, perde a aura de paladina da ética. Também não combina com a tal “nova política” manter em segredo quem paga por suas palestras. Marina não é uma empresária que entrou na política. É uma política que virou empresária para se manter candidata desde 2010. Quer queira, quer não, o eleitor desconfiado sente cheiro de “velha política” quando políticos escondem de onde vem suas fontes de renda, mesmo em atividades privadas e mesmo que não tenha necessariamente nada ilegal. O próprio clima inquisicional criado na imprensa tradicional para fazer o eleitor odiar a política, em vez de reformá-la, estimula essa desconfiança. Clima este que a própria Marina estimulou.

Ela perde votos quando usa dois pesos e duas medidas no trato da corrupção. Uma medida para pré-condenar Dilma pelos atos de terceiros, no caso um ex-diretor da Petrobras, funcionário de carreira, e usa outra medida para pedir o benefício da dúvida para Eduardo Campos, supostamente envolvido pela delação premiada deste mesmo ex-diretor.

O eleitor fica com um pé atrás ao ver o excessivo vínculo ao banco Itaú, pela influência da banqueira Neca Setúbal, inclusive através de patrocínios financeiros para as atividades privadas da candidata. Piora o discurso de Marina repetir bordões lobistas do mercado financeiro, tal como ceder a propostas de independência do Banco Central.

Marina começou tentando agradar a todos, apelando para sentimentos que são unânimes tais como governar com os bons, ser a favor de tudo que é do bem, e um monte de simplismos que todo mundo, desde criança, concorda. Mas na hora de ser obrigada a deixar de discutir o sexo dos anjos, e se posicionar sobre problemas reais do Brasil, ela perde votos ou de um lado ou de outro. E ainda corre o risco de, ao tentar agradar a todos, não agradar ninguém.

Daí ser estranho o Datafolha ainda ostentar índices tão altos para Marina, como se ela ainda fosse unanimidade entre quem está contrariado com qualquer coisa que acontece no Brasil.

Rei bom?

'Sebastianismo' em Marina pode fazer Brasil perder bonde da história

Assim como a queda de Constantinopla levou Portugal e Espanha a abrir a era das navegações e descobertas, a atual crise mundial obriga países a buscar caminhos diferentes dos construídos sob a ordem do século passado
por Helena Sthephanowitz publicado 11/09/2014 13:14, última modificação 11/09/2014 13:31
Dom Sebastião

Sebastião acreditava na expansão da fé e que seria o 'capitão de Cristo' em nova cruzada contra os mouros

No fim da Idade Média, a queda de Constantinopla (hoje Istambul) causou uma crise econômica na Europa com o declínio do comércio com o oriente. Guardadas as devidas proporções e contextos, podemos fazer uma analogia com a crise mundial iniciada nos Estados Unidos em 2008, alastrada para a Europa, com consequências para todo o mundo, e que se estende até hoje.

Assim como a crise de Constantinopla levou Portugal e Espanha à busca de outras rotas para o comércio com o oriente, abrindo a era das grandes navegações e descobrimentos, a atual crise mundial também obriga países a buscar novos caminhos, diferentes dos tradicionais construídos sob a ordem mundial do século passado.

No passado, Vasco da Gama abriu um novo caminho para Portugal dominar o comércio com as Índias, contornando a costa africana.

De forma semelhante o Brasil, que já havia expandido seu comércio com a América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, agora aliou-se à China, Rússia, Índia e África do Sul, países que compõem o chamado Brics, para criar o Novo Banco de Desenvolvimento e o fundo de reserva para contingências. São alternativas multilaterais para potencializar o desenvolvimento desses países e seus aliados, contornando o domínio pelos Estados Unidos e Europa sobre o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Portugal chegou a ser a maior potência do mundo por volta de 1570, dominando rotas comerciais pelos mares e portos que iam de Nagasaki, no Japão, passando pela China e Índia.

Mas o jovem rei dom Sebastião, de grande fervor religioso e militar, resolveu reviver as glórias do passado das cruzadas e intervir no Marrocos. Perdeu a batalha de Alcácer-Quibir em 1578, onde morreu (desapareceu para os místicos) aos 24 anos sem deixar herdeiros.

Sem filhos, a sucessão ao trono português foi disputada por outros parentes, entre eles o rei Felipe II de Espanha, que acabou assumindo em 1580, fazendo Portugal ficar décadas sob domínio do trono espanhol e perder sua condição de grande potência.

Isso mostra como as decisões equivocadas de dom Sebastião levaram Portugal a perder o bonde da história.

Se olharmos para o programa de governo de Marina Silva nos capítulos que falam sobre economia e política externa, vemos que há equívocos gravíssimos que, se aplicados, levariam o Brasil a perder o bonde da história também. O programa obedece ao velho receituário de arrocho e desemprego do Consenso de Washington, já falido, e se submete às diretrizes gerais da política externa dos Estados Unidos, com um deslumbramento que só existia no século passado. É tão nocivo ao desenvolvimento nacional retroceder nas novas rotas desbravadas para o comércio exterior e na geopolítica brasileira dos últimos anos quanto foi para Portugal ficar sob domínio da coroa espanhola.

'Rei bom'

Por falar no misticismo em torno do desaparecimento de dom Sebastião, foi dele que surgiu o sebastianismo, um movimento messiânico que acreditava na salvação da pátria por meio do retorno de um “rei bom”. A lenda chegou a influenciar brasileiros. Antônio Conselheiro pregava em Canudos que dom Sebastião iria retornar dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil.

Apesar das incontáveis surpresas que seu plano de governo, suas declarações ou as de seus assessores têm proporcionado, não há, claro, nenhuma menção sobre dom Sebastião. Mas não deixa de haver semelhanças na pregação da suposta “nova política” com a ideia despolitizada de salvadora da pátria em vez de defender uma reforma política estruturante. É muito semelhante à pregação sebastianista de cair do céu um “rei bom”.

'velha política'

Quem ganha e quem perde com a 'escandalização' da delação premiada

Paradoxalmente, se Aécio e a imprensa que o apoia conseguirem emplacar a pauta da escandalização, o quadro eleitoral pode voltar a ser parecido com aquele que havia antes da morte de Eduardo Campos
por Helena Sthephanowitz publicado 08/09/2014 16:50, última modificação 08/09/2014 16:57
aécio neves oficial/facebook
aecio.jpg

Faltando menos de um mês para a eleição, Aécio Neves (PSDB) parece tão desesperado quanto o próprio delator

Há uma escandalização da delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Coberta de sigilo, com as gravações dos depoimentos criptografados, segundo o noticiário, nomes de políticos suspeitos – alguns são os suspeitos de sempre – estão nas páginas de uma revista, mas provas, que é bom, não foram mostradas.

Antes de mais nada, a delação é bem-vinda. Quem cometeu crimes que responda por eles. Mas precisa ter consistência. Até programas sensacionalistas de TV mostram exame de DNA quando há casos de “delação” de suposta paternidade.

O que não é bem-vindo é a escandalização forçada em matérias recheadas de adjetivos e suposições sem provas, sem o equivalente ao exame de DNA, ainda mais na véspera de irmos às urnas, o que ganha feições de golpes baixos de campanhas eleitorais sem escrúpulos.

Faltando menos de um mês para a eleição, Aécio Neves (PSDB) parece tão desesperado quanto o próprio delator, ao se lançar como beneficiário da escandalização. Isso porque no listão de políticos suspeitos montado pela revista Veja – sem nenhum documento, nem referência a fontes – não aparecem tucanos, por ora. O alvo da reportagem foi Dilma Rousseff (PT), por haver políticos da base governista, e Marina Silva (PSB), por incluir o nome do ex-companheiro de chapa, Eduardo Campos, entre os três governadores citados como envolvidos no suposto esquema.

Como Dilma é presidenta da República, o que ela deveria fazer? Exigir que a Polícia Federal (PF) investigue. Ué, mas isso já está sendo feito há muito tempo. Inclusive a delação acontece justamente nas dependências da PF, onde o delator foi preso há meses. Nesse contexto, Dilma tem como neutralizar o efeito político tentado contra sua candidatura, pois pode lembrar ao eleitor que as instituições de combate à corrupção em seu governo funcionam e existe um processo de depuração na política que nunca houve em governos anteriores. E é incomum haver em governos estaduais, fora da jurisdição federal. Talvez essa depuração seja a verdadeira “nova política”, pelo menos em parte, pois outra parte depende de reforma constitucional no sistema político.

A candidatura de Marina sofre danos com essa escandalização porque vinha surfando no discurso da pureza na política e vê líderes de seu partido acusados de praticar tudo de ruim que ela chama em seu discurso de “velha política”. Mesmo que Marina não apareça envolvida diretamente, o discurso da pureza é abatido pela convivência em um ambiente partidário contaminado.

Aécio Neves, que se lança como beneficiário da escandalização, pode se sair pior do que pensa. Campanhas de ataque, de demonização da política, atingem seus adversários mas atingem também seu próprio perfil e produz severas baixas entre seus próprios aliados, o que pode desagregar mais ainda sua campanha nos estados.

Apesar dos esforços da imprensa tradicional de pautar a campanha eleitoral com esta escandalização, é questionável se o efeito no eleitorado beneficia a oposição. Em vez de recolocar Aécio na disputa pelo segundo turno, pode apenas aumentar a rejeição a todos os candidatos, fazendo crescer o número de votos nulos, brancos e abstenções.

Dilma é quem tem menos a perder, pois já sofreu incontáveis desgastes, bombardeada com um noticiário sistematicamente adverso, e o piso de votos dela mostra-se resistente nos níveis que as pesquisas têm mostrado. Aécio pode estancar sua queda em um primeiro instante, mas deve voltar a cair em seguida, pois seu partido e sua candidatura não convencem como bastiões da ética e o eleitor não vota em quem só ataca adversários. Marina pode perder intenções de votos para nulos ou para a própria Dilma. Afinal se Marina tem problemas com seus aliados tanto quanto Dilma, as conquistas de prosperidade nos últimos anos e a campanha propositiva podem falar mais alto e definir o voto de muita gente.

Paradoxalmente, se Aécio e a imprensa que o apoia conseguirem emplacar a pauta da escandalização, o quadro eleitoral pode voltar a ser parecido com aquele que havia antes da morte de Eduardo Campos, com Aécio e Marina caindo nas intenções de votos, nulos crescendo, Dilma mantendo-se estável e com chances de superar a soma de votos dos adversários, o que a levaria à vitória em primeiro turno.

jornalismo?

Jornal da Globo age como partido de oposição e fere dignidade das pessoas pobres

Apresentador lê editorial em protesto à recusa da presidenta Dilma em participar do programa
por Helena Sthephanowitz publicado 05/09/2014 17:35
reprodução
jornal da globo

Com cara de poucos amigos, o apresentador William Waack leu as seis perguntas que faria à presidenta

Há estudos demonstrando que a TV Globo exerce um papel político muito semelhante ao de um partido de oposição ao governo petista. Um recente é o manchetômetro, estudo feito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro que analisa notícias positivas e negativas sobre cada candidato, demonstrando um desequilíbrio brutal favorável aos presidenciáveis da oposição.

Com este histórico, o telejornal noturno Jornal da Globo deveria demonstrar sobriedade quando um presidenciável não aceita o convite para mais uma entrevista exclusiva. Em vez de apenas registrar que o convite feito à presidenta Dilma Rousseff  foi declinado, como é de praxe, os apresentadores comportaram-se exatamente como partido de oposição, fazendo um editorial de protesto contra a candidata, inclusive lendo no ar as perguntas que seriam feitas.

A TV Globo tem quatro telejornais diários com veiculação em rede nacional (manhã, hora do almoço, Jornal Nacional e tarde da noite). Nenhum candidato é obrigado a dar entrevista exclusiva a todos os programas da mesma emissora. A presidenta já concedeu entrevista como candidata ao Jornal Nacional. A TV Globo tem hegemonia comercial em seu ramo, mas não pode querer monopolizar a agenda de candidatos para sua programação, seu prestígio e seus interesses comerciais. Existem outras emissoras de televisão e outras mídias que também convidam candidatos para entrevistas e em uma campanha nem existe tempo hábil para atender a todos. Então, cada um decide como administrar a agenda do candidato. Uns preferem se submeter totalmente aos caprichos editoriais da maior emissora, outros preferem a diversidade, procurando atender a convites de outras emissoras e outros compromissos de campanha que também são importantes.

Em vez de reclamar no editorial de protesto, se a TV Globo tivesse mais interesse em fazer um bom jornalismo e extrair dos candidatos informações mais úteis aos telespectadores, poderia fazer uma entrevista mais longa com cada candidato, que desse tempo de responder com mais profundidade, e levar ao ar dividida nos quatro telejornais ou em dias diferentes. Ao escolher o formato de interrogatório visto no Jornal Nacional, é natural que haja candidatos que considerem pouco produtivo para o telespectador ser bem informado.

Quando os apresentadores perderam a objetividade e se comportaram como partido político de oposição, deram uma razão a mais para a candidata declinar do convite. Afinal, não é normal candidatos irem à sede de partidos opositores para darem entrevistas. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama já recusou por muito tempo entrevistas exclusivas para a TV Fox News, exercendo um direito dele e sinalizando discordar do desequilíbrio no noticiário favorecendo seus opositores. Dilma Rousseff nem de longe chegou a este ponto, pois contemplou a TV Globo atendendo a um telejornal.

Pergunta asquerosa

O telejornal leu as seis perguntas que faria na entrevista. Cinco eram questionamentos pertinentes sobre problemas nacionais, mas a última é de uma desumanidade assustadora, pois fere a dignidade humana.

"A senhora considera correto dar dentes postiços para uma cidadã pobre um pouco antes de ser feita com ela uma gravação do seu programa eleitoral de televisão?", leu o apresentador Willian Waack.

Já é péssimo contra a dignidade humana tratar prótese dentária pelo termo pejorativo "dentes postiços". Mas se o problema fosse só o mau gosto do termo, seria apenas uma gafe. Muito mais triste é a negação da cidadania às pessoas mais pobres e falta de fraternidade embutida na pergunta.

Qualquer pessoa que sabe orientar outra no exercício de um direito de cidadania deve fazê-lo. Se alguém conversar com idoso que já tem direito a aposentadoria mas ainda não tem consciência disso, é até desumano você saber e não orientá-lo. Da mesma forma, se uma equipe foi fazer uma gravação e viu uma cidadã que não tinha prótese dentária, e a orientou para resolver seu problema na unidade de saúde pública da cidade dela que tem atendimento de dentistas justamente para estes casos, incorreto e desumano seria não ajudá-la no encaminhamento.

Assim, parece que o neoliberalismo individualista subiu tanto para a cabeça dos profissionais da TV Globo, que agora acham errado até os mais simples gestos de estender a mão, nem que seja apenas para apontar um caminho, coisa que todo ser humano pratica no cotidiano por sua própria natureza. Só não faz assim quem está ensandecido pelo ódio.

antigas relações

Ovo da serpente da república dos banqueiros com Marina já chocava em 2010

Ex-presidente do Citibank no Brasil e atual membro do conselho de administração da Ambev é tesoureiro da candidata do PSB desde a eleição passada – embora ela recuse doações de fabricante de bebidas
por Helena Sthephanowitz publicado 03/09/2014 14:45, última modificação 03/09/2014 15:01
Gilberto Tadday/Folhapress (07/2010)
alvaro-de-souza.jpg

Alvaro, ex-Citi e atual Ambev: doações de fabricantes de bebidas não pode; mas tê-lo na tesouraria pode

As relações da candidata Marina Silva (PSB) com banqueiros vão muito além da família Setúbal, do banco Itaú. O tesoureiro de campanha de Marina é Álvaro de Souza, ex-presidente do Citibank no Brasil, ex-vice presidente mundial e para a América Latina do Citigroup. Chegou a ser um dos sete principais executivos do banco estadunidense. Ocupou esses cargos entre 1993 e 2001, época de ouro da privataria tucana no Brasil, quando o Citibank tinha parcerias nas privatizações brasileiras, com o Banco Opportunity, de Daniel Dantas.

Souza já foi tesoureiro de Marina em 2010, retratado em uma reportagem na revista IstoÉ daquele ano como “O banqueiro de Marina”. A reportagem afirmava que ele intermediava encontros da candidata na Bolsa de Valores, com financiadores de campanha e com investidores estrangeiros em Nova York. Ainda de acordo com a publicação, o banqueiro confidenciava a colegas de campanha a surpresa com a boa receptividade da candidata entre as elites econômicas.

Como se vê, a construção do programa econômico neoliberal de governo de Marina Silva, prevendo Estado mínimo, rendição incondicional ao Consenso de Washington – já fracassado pelo desemprego e empobrecimento do povo – e a desregulamentação radical do mercado financeiro pelo Estado, através de um Banco Central independente, já tem mais de quatro anos de gestação entre banqueiros brasileiros e internacionais e Marina Silva.

Isso explica a adesão incondicional da candidata do PSB ao discurso do mercado financeiro, setor que conspira abertamente contra a reeleição de Dilma Rousseff. E explica a inusitada empolgação que Marina passou a provocar entre especuladores nas Bolsas de Valores. Saiu de campo a “nova política” e entrou o velho mercado.

Contradições

As contradições de Marina Silva não param de surgir. Em vez de lutar pela reforma política que proíba financiamento eleitoral privado por empresas, Marina, em gesto populista, diz não aceitar doações para a campanha de fabricantes de bebidas alcoólicas, fumo, armas e agrotóxicos. Mas aceita doações de bancos, holdings e sócios que investem em todos estes setores.

O caso de bebidas alcoólicas é o mais curioso, pois o tesoureiro de campanha de Marina, Álvaro de Souza, é membro do conselho de administração da cervejaria Ambev. Também já foi membro do conselho de administração da cervejaria Quilmes. Deixa eu ver se entendi: a fábrica não pode doar, mas quem dirige a fábrica pode arrecadar. Está cada vez mais complicado entender essa “nova política”.

programa

Marina inclui conselho fiscal que lembra um 'volta, FMI'

Ao propor a criação de órgão externo ao governo com o pretexto de controlar contas públicas, candidata cria condições privilegiadas para agentes financeiros especularem sobre o orçamento do país
por helena publicado 02/09/2014 16:18
Valter Campanato / ABr
alianca_beto_marina_presidenciaveis08212014004.jpg

Programa de Marina Silva deixa claro os interesses do mercado financeiro que ela defende

O Conselho de Responsabilidade Fiscal (CRF), externo ao governo, que a candidata Marina Silva (PSB) anuncia em seu programa de governo, é muito semelhante àquelas delegações do Fundo Monetário Internacional (FMI) que vinham ao Brasil intervir em como e onde o governo podia ou não investir o dinheiro que arrecada. Aos que não lembram ou não viveram aquele período, o remédio prescrito pelo FMI era amargo para o povo brasileiro: desemprego, arrocho em salários e aposentadorias, cortes em verbas da educação, saúde e outros gastos sociais, venda do patrimônio público "na bacia das almas", privatização com tarifaços.

A diferença do que propõe Marina é que os conselheiros do CRF não seriam funcionários do FMI, mas delegados do mercado financeiro privado, claramente uma medida que entrou no para agradar ao mercado. Está na página 45 do programa de governo (veja na foto):

CRF_FMI_Marina_Silva.png

“Criar o Conselho de Responsabilidade Fiscal (CRF), independente e sem vinculação a nenhuma instância de governo, que possa verificar a cada momento o cumprimento das metas fiscais e avaliar a qualidade dos gastos públicos. O propósito será acompanhar a execução do orçamento da União, aprovado pelo Congresso Nacional. Além de tratar do andamento de receitas e despesas ao longo do ano, este órgão deverá evoluir em direção à análise de horizontes mais longínquos e fornecer instrumentos para o planejamento público, de caráter transversal, a longo prazo. Os quadros desse conselho deverão ser escolhidos por critérios técnicos, com regras transparentes, estabelecidas em lei e aprovadas pelo Congresso.”

Observe que é um órgão independente de governo, mas com poder de pressão enorme para intervir em cortes no Orçamento e até para definir o que é “qualidade dos gastos públicos”, um conceito abstrato que passa pelos anseios da sociedade no processo de disputa política. Gasto de “boa qualidade” para uma população carente pode ser visto como de “má qualidade” pelo mercado financeiro.

Esse órgão, o CRF, teria, ao longo do tempo, a atribuição de exercer governança no próprio planejamento público, segundo o texto. Se implementado a sério, tende a caminhar para um governo de burocratas do mercado financeiro, sem maiores participações da sociedade, alijada de seu poder de opinar sobre que rumos pretende para o país.

Outra temeridade é o acesso, por pessoas externas ao governo, a informações privilegiadas antes de serem divulgadas ao mercado. Saber antes dos outros sobre áreas que sofrerão cortes no orçamento vale ouro para o mercado financeiro, pois pode afetar o valor de ações em Bolsa de Valores, afetar projeções de taxas de juros, cotações do dólar.

Os anseios populares por “nova política” são para que o que já existe funcione bem e a serviço do povo. Essa é a boa batalha a ser travada. Não há a menor necessidade de criar mais um órgão externo ao governo, a não ser para retirar a soberania popular e tornar o governo submisso ao mercado financeiro, como foi ao FMI no passado ainda recente.

Bolsa de Valores já vê Marina Silva como um Aécio de saias

Se passado ambientalista da candidata não combina com euforia especulativa, só há uma explicação: têm informações privilegiadas de que, com ela, teriam governo do mercado, pelo mercado e para o mercado
por Helena Sthephanowitiz publicado 01/09/2014 11:58, última modificação 01/09/2014 13:17
reprodução
bovespa

Curiosamente, os especuladores da Bolsa de Valores ficaram mais eufóricos ainda com Marina do que com o tucano

Antes, quando diminuía a diferença entre Dilma Rousseff e Aécio Neves nas pesquisas eleitorais, os especuladores da Bolsa de Valores ficavam eufóricos, provocando alta nas ações das estatais. Viam em Aécio a certeza de que ele faria o que os tucanos sempre fizeram. Ora privatizam as empresas totalmente, ora transferem as fatias mais atraentes para a iniciativa privada, ora privatizam a gestão da estatal, como fizeram os governadores tucanos de São Paulo, Geraldo Alckmin e José Serra, com a Sabesp (empresa estadual de águas). Privilegiaram a distribuição de lucros para acionistas acima do razoável, sacrificando investimentos que levaram à falta de água nas casas das pessoas. O próprio Aécio Neves fez coisa semelhante na Cemig, priorizando aumentos draconianos das tarifas na conta de luz do cidadão e, com isso, distribuindo mais lucros aos acionistas acima do razoável.

Agora Aécio cai nas pesquisas e quem surge com chances de ameaçar a reeleição da presidenta é Marina Silva. Curiosamente, os especuladores da Bolsa de Valores ficaram mais eufóricos ainda. Pelo histórico pregresso de Marina, no mínimo os especuladores deveriam ficar cautelosos. Suas antigas posições sobre energia não eram exatamente expansionistas. Além disso, exigências ambientais sempre provocam custos mais altos nos empreendimentos, reduzindo o lucro. De certa forma as bandeiras ambientais são por natureza intervencionistas e regulatórias sobre a atividade econômica, coisa que quem prega o livre mercado tem ojeriza. Por que então as ações de estatais como a Eletrobras haveriam de subir? Difícil explicar se a Marina de hoje fosse a mesma do passado recente.

As bandeiras ambientais também têm restrições ao uso do petróleo. Por esse caminho a Petrobras deveria explorar o mínimo possível o pré-sal, e as ações deveriam cair caso Marina viesse a ser presidenta. Dilma tem um cronograma de investimentos ambicioso para Petrobras reconhecido pelo próprio mercado como atraente a médio prazo. Marina seria fator de incerteza para este futuro. Difícil explicar as ações da petroleira subirem com expectativas eleitorais positivas sobre Marina.

Só há uma explicação para os operadores da Bolsa de Valores se empolgarem com Marina: ela se rendeu às pressões e exigências do mercado tanto quanto Aécio Neves. O tucano escalou Armínio Fraga para ser o fiador de seu projeto, sinalizando ao mercado a certeza de como será seu governo. Marina Silva não disse em público quem seria seu ministro da fazenda. Eduardo Campos, antes de perder a vida, quando ainda era cabeça da chapa do PSB e Marina era vice, já havia dito publicamente que gostaria de ter o banqueiro Roberto Setúbal no cargo. Trata-se do presidente do Banco Itaú e irmão de Neca Setúbal, também acionista do banco, e coordenadora do programa de governo de Marina.

O comportamento da Bolsa mostra que o mercado financeiro tem informação privilegiada sobre como seria um governo de Marina, que o cidadão comum, eleitor, não tem. O mercado já vê Marina como um Aécio de saias. Os donos do Itaú tornaram-se para Marina mais do que Armínio Fraga representa para Aécio. Mais do que um avalista, tornaram-se um garantidor ao mercado de que, com ela, dariam cartas na área econômica – em um governo do mercado, pelo mercado e para o mercado.

Blog da Helena

Após 'Corte nazista', qual a isenção de Gilmar Mendes para julgar casos do PSDB?

Vice-presidente do TSE ficou irritado com decisão de colegas contra José Roberto Arruda, ex-líder de FHC. Ex-presidente telefonou a Mendes para conversar sobre julgamento, no qual votou a favor de Arruda
por Helena Sthephanowitz publicado 29/08/2014 11:24, última modificação 29/08/2014 13:11
Montagem

O que eles têm em comum?

Em 2010, José Serra era candidato do PSDB à presidência. Sua adversária era Dilma Rousseff (PT), e Gilmar Mendes, como hoje, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Na época, o Congresso Nacional havia aprovado uma minirreforma eleitoral e a legislação passou a exigir, além do título de eleitor, a apresentação de um documento de identificação com foto do eleitor na hora da votação. A obrigatoriedade da apresentação de dois documentos era vista por tucanos como um fator a favor de Serra e contra  Dilma, que tinha o dobro das intenções de votos de Serra.

O PT resolveu entrar com a ação direta de inconstitucionalidade (ADI) por temer que a nova exigência provocasse aumento nas abstenções. O julgamento transcorria sem novidade. Sete dos dez ministros votaram pela inconstitucionalidade da lei. Eis que Gilmar Mendes recebeu um telefonema do candidato tucano José Serra. Após a ligação do tucano, o ministro do Supremo Tribunal Federal interrompeu o julgamento do recurso do PT com um pedido de vista. Na retomada da sessão, Mendes votou a favor da obrigatoriedade dos dois documentos.

Quatro anos se passaram, a história se repete.

Ex-DEM, o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (PR) renunciou ao governo em 2010, após ser alvo da operação caixa de pandora da Policia Federal, que o apontou como integrante de uma quadrilha envolvendo contratos públicos. Arruda chegou a ser preso quando ainda governava o DF, após divulgação de um vídeo em que aparecia recebendo maços de dinheiro de um esquema de propina. Ele foi condenado por improbidade dolosa, dano ao erário e enriquecimento ilícito, corrupção ativa e passiva, no processo do esquema do mensalão do DEM.

Conforme a Lei Complementar 135, de 2010, a chamada Lei da Ficha Limpa, não pode disputar as eleições por oito anos quem é condenado à suspensão dos direitos políticos, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão judicial colegiado, por ato doloso de improbidade administrativa, mas Arruda não se deu por vencido, achou pouco o que fez em Brasília, se achou acima da lei e recorreu contra a decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF), que o considerou inelegível com base na Lei da Ficha Limpa. Em seguida, começou fazer campanha para o governo do Distrito Federal.

Porém, apesar da longa ficha corrida, eis que um tucano entra em cena novamente, para salvar um demotucano.

O plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgava nesta terça-feira (26) o recurso em que o candidato ao governo do Distrito Federal, José Roberto Arruda, pedia que fosse modificada a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) que lhe negou candidatura, quando correram nas redes sociais e na mídia vídeos em que o ex-governador aparece afirmando ter votos de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) favoráveis à candidatura. Na conversa, ele conta para amigos que o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso estaria tentando convencer o ministro do STF Gilmar Mendes, que também atua no TSE como vice-presidente, para liberá-lo. (Vídeos aqui no Globo)

No vídeo, Arruda também faz referências a um outro ministro do TSE, João Otávio Noronha, que, segundo ele, estaria disposto a ajudá-lo. No entanto, com Noronha, o placar contra Arruda chegou a 5 a 1, e o único a votar pela liberação da candidatura de Arruda foi o ministro Gilmar Mendes, que, coincidentemente, recebeu o pedido de FHC. Arruda poderá ainda recorrer ao Supremo Tribunal Federal, o que permite a continuação da campanha até a sentença final.

Em nota, o ex-presidente Fernando Henrique confirmou ao jornal Folha de S. Paulo que Arruda falou com ele sobre o recurso que será julgado pelo TSE. “Queria que o julgamento ocorresse a tempo de, se favorável, concorrer ao governo de Brasília. Como sempre, sou muito cuidadoso nessas matérias. Apenas indaguei o ministro Gilmar se havia chance de isso ocorrer. Fui informado de que haveria um julgamento anterior que prejulgaria o caso.”

O vice-presidente do TSE, Gilmar Mendes, ficou irritado com a decisão tomada pela Corte, que foi contrária à candidatura de Arruda a um retorno ao Palácio do Buriti. Chegou ao ponto de declarar que o tribunal fez “brincadeira de menino” e agiu como um “tribunal nazista” ao mudar a jurisprudência, para ele, sem justificativa plausível. Quem é o Arruda que Gilmar Mendes quer liberar ao governo do Distrito Federal?

Arruda era do PSDB, o líder do governo FHC no Senado.

Em novembro de 2009, a Polícia Federal executou a Operação Caixa de Pandora com mandados de busca e apreensão na residência oficial do então governador José Roberto Arruda, na época no DEM, atualmente no PR. Foram apreendidos alguns objetos e muitos dólares, euros e reais. Um vídeo foi divulgado na época, no qual Arruda aparece recebendo maços de dinheiro.

Em outra investigação da Operação Castelo de Areia, descobriu-se também que Arruda teria recebido alguns milhares de dólares ilegalmente para campanha de 1998. Em fevereiro de 2010, numa decisão do Superior Tribunal de Justiça, teve decretada a prisão preventiva.

A vida política de Arruda foi marcada ainda pelo escândalo de adulteração do painel de votação do Senado, quando atuou ao lado de Antônio Carlos Magalhães e, em 2010, pela descoberta desse esquema de corrupção no governo do DF, o mensalão do DEM.

Ele estava afastado da política desde abril de 2010, quando perdeu o cargo de governador, cassado pelo TRE-DF, por infidelidade partidária. Depois de se desfiliar do DEM em meio à acusação de corrupção pela Operação Caixa de Pandora, Arruda foi preso, tornando-se o primeiro governador do Brasil a ser encarcerado durante o mandato. Ele foi afastado do governo por ordem da Justiça e ficou preso na carceragem da Polícia Federal em Brasília.

A Polícia Federal concluiu o relatório final da Operação Caixa de Pandora, em que o ex-governador aparece como chefe de uma organização criminosa para desviar recursos públicos por meio de empresas contratadas pelo governo do DF.

Gilmar Mendes é ministro do supremo, a mais alta Corte do Judiciário brasileiro, e não deveria se envolver em política partidária e nem em politicagem. No entanto, nota-se que Mendes tentou praticar tráfico de influência. Qual será a isonomia quando ele tiver de julgar processos relacionado ao PSDB?

Mendes precisou de mobilização tucana para ter nome aprovado. Dos 11 ministros do STF em atividade, Gilmar Mendes foi o que mais sofreu contestação para assumir o cargo. Foram 15 votos contrários durante a análise da indicação pelo plenário do Senado – o triplo de rejeição que sofreu o segundo colocado, ministro Eros Grau, com cinco reprovações.

A indicação do nome de Gilmar Mendes foi feita pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e avaliada em maio de 2002 pelo Senado. Na presidência do STF no período, Marco Aurélio Mello declarou que Mendes teria de “superar um desafio”. Sem citar, porém, que desafio seria esse.

Registros do Senado mostram que a base de apoio ao governo tucano se mobilizou para garantir a aprovação de Gilmar Mendes para o cargo. Diferente do usual no caso de indicação de autoridades, o quórum da sessão foi alto, com 72 dos 81 senadores presentes. Os tucanos garantiram 57 votos favoráveis contra os 15 contrários.