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Blog da Helena

por publicado , última modificação 29/09/2014 16:43

eleições 2014

Brasil tem inflação menor do que maioria dos países em desenvolvimento

Embora oposição ainda mantenha alarmismo em relação aos preços, assunto está em baixa nas pautas dos jornais e dos debates
por Helena Sthephanowitz publicado 29/09/2014 16:43, última modificação 29/09/2014 17:20
ichiro guerra
debate record

Em debate, candidatos da oposição ainda citam a inflação como alvo de críticas, apesar do contexto mundial

A inflação está em baixa, inclusive, na pauta eleitoral da oposição partidária e midiática. Parece não sensibilizar mais a maioria do eleitorado que a enxerga estável e vê seu poder aquisitivo aumentado nos últimos anos, com ganhos reais nos salários.

Mesmo assim, candidatos da oposição ainda citam a inflação como alvo de críticas. No debate entre presidenciáveis na TV Record na noite de domingo (28), Aécio Neves (PSDB), em suas considerações finais, falou em “apresentar uma proposta ao país que permita que a inflação volte a ser controlada”. Pastor Everaldo (PSC), que tem feito “tabelinha” com o tucano nos debates, focou mais tempo nessa pauta. Acontece que o assunto se tornou secundário, tanto no debate quanto na campanha.

Será que haveria fundamento nas críticas ou um alarmismo foi desencadeado pela imprensa oposicionista para abastecer os candidatos da oposição, desde o aumento momentâneo do tomate no ano de 2013? Ou será que o mercado financeiro bate nesta tecla para fazer pressão por juros mais altos e para colocar a raposa tomando conta do galinheiro, capturando o Banco Central para o sistema financeiro privado?

Do ponto de vista da economia interna do Brasil, a inflação vem sendo mantida controlada dentro da meta estabelecida, sempre dentro da faixa perseguida até 6,5% ao ano. Considerando os desafios de manter e criar empregos em um ambiente de crise internacional, faz sentido para qualquer governo responsável com o bem-estar social equilibrar a criação de empregos com o limite tolerável de inflação, em vez de forçar a taxa cair para o centro da meta (4,5%) ao custo de maior desemprego.

Mais curioso é jornalistas de economia, como Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, que sempre comparam a outros países quando há números desfavoráveis ao Brasil, ignorarem completamente o que se passa no mundo na hora de falar sobre inflação.

Entre as grandes potências mundiais em desenvolvimento composta pelos Brics, só a China, com 2,3%, está melhor do que o Brasil no quesito inflação. A Rússia está com uma taxa de 7,6% ao ano. A Índia, 7,8%. A África do Sul, 6,4%. Mesmo a China que adota a política econômica de “um país, dois sistemas”, tem em uma inflação de 6,07% em Macau e 3,9% em Hong Kong.

Entre outros países em desenvolvimento do G-20, os maiores também administram uma inflação maior do que o desejável nas épocas de fartura. Nigéria tem hoje uma taxa de 8,5%; Egito, 11,49%; Indonésia, 3,99%; Irã, 14,60%; Paquistão, 6,99%; Turquia, 9,54%; México, 4,15%; Chile, 4,5%, e Argentina, 10,9%.

Entre as grandes economias, quem está com inflação realmente baixa no mundo, salvo exceções, é quem adotou políticas recessivas e enfrenta alto desemprego, como a Europa e Estados Unidos. Até o Japão tem uma inflação alta para seus padrões (3,3%). A Europa já quer desesperadamente elevar a inflação, que está abaixo da meta, para aquecer a economia.

Praticamente todos os países cujo povo menos sofre as consequências da crise estão com inflação um pouco acima do que seria normal em outras circunstâncias mais favoráveis. Por isso, é falsa como uma nota de R$ 3 a ideia de que estejam com inflação descontrolada. O que há é um equilíbrio entre medidas de controle da inflação e, ao mesmo tempo, preservação de empregos. As propostas da oposição estão em linha com a ruptura desse equilíbrio, sacrificando empregos, salários e aposentadorias, para agradar ao apetite insaciável do mercado financeiro.

eleições 2014

Marina desdenha da luta dos mais pobres por políticas públicas governamentais

Candidata do PSB faz declaração desastrosa no Rio de Janeiro desprezando as políticas transformadoras para ascensão social ocorridas no país
por Helena Sthephanowitz publicado 27/09/2014 09:42
Manu Dias/Govba
minha casa minha vida

Antes do Minha Casa, Minha Vida, por mais que trabalhassem duro, famílias não conseguiam comprar a casa própria

Assustadora a declaração da candidata à Presidência da República Marina Silva (PSB) desdenhando das políticas públicas transformadoras para ascensão social da população mais pobre.

Na sequência de encontro com presidenciáveis promovido pela Central Única das Favelas (Cufa) no Rio de Janeiro, Marina visitou a sede da entidade na quinta-feira (25), e disse: "Não é correto o governo, de quem quer que seja, se apropriar do esforço das pessoas e tentar passar a ideia de que tudo o que você conquistou foi porque o governo te deu".

Óbvio que o esforço individual de cada um é fundamental. Não adianta haver oportunidades se a pessoa não souber aproveitá-las. Mas também não há esforço que chegue quando o trabalhador, o estudante, o empreendedor só encontra portas fechadas à sua frente, por não existir oportunidade.

Com essa declaração desastrosa, a candidata do PSB deseduca politicamente a população mais pobre a não participar da disputa para influir nas decisões governamentais.

Cada cidadão precisa de leis e políticas públicas que valorizem seu esforço. O mesmo trabalhador de salário mínimo que lutava para ganhar US$ 100 por mês, hoje ganha mais de US$ 300, graças a políticas de valorização do trabalhador. Da mesma forma, sem política de crédito que só bancos públicos oferecem, e sem incentivos para vender alimentos, o agricultor tem dificuldade para produzir.

O estudante pobre que, muitas vezes, se esforçava mais do que um rico, podia até passar no vestibular, mas se a faculdade era particular, muitos deles não conseguiam prosseguir nos estudos, antes de haver políticas públicas como o ProUni, o Fies e cotas nas universidades para alunos que estudaram em escolas públicas.

Antes de ter uma política pública como o "Minha Casa, Minha Vida", tinha famílias que passavam a vida toda se esforçando para conseguir a casa própria e, por mais que trabalhassem duro, não conseguiam.

Faz parte do esforço do cidadão a consciência para se organizar e fazer a luta política para obter conquistas, inclusive escolhendo qual governo quer na hora de votar, e pressionando os poderes legislativo e executivo durante os mandatos.

Políticas governamentais e governos, na verdade, são disputados tanto por banqueiros que estão com Marina, como por trabalhadores, e pelos mais diversos segmentos da sociedade. Cada um com suas reivindicações, cada grupo puxa a brasa para sua sardinha e cada um vota, apoia, pressiona e participa para ter suas demandas atendidas.

Governos populares não dão coisas como se fossem caridade, eles atendem o que a população necessita, reivindica e reclama.

Quando Marina desdenha destas conquistas sociais realizadas em governos populares, Marina está negando a política como instrumento de transformação da sociedade. No fundo, ela está fazendo apologia neoliberal de que cada um deve se virar apenas por si mesmo, individualmente, dançando como a banda do livre mercado tocar, sem batalhar por conquistas coletivas e por direitos através da organização do Estado.

Instável

Nova política 'envelhece' ao sabor de queda nas pesquisas

Há não muito tempo, Marina criticava aliança de seu partido com Alckmin em SP. Agora liberou até aparecer em 'santinho' ao lado do tucano
por Helena Sthephanowitz publicado 24/09/2014 10:43, última modificação 24/09/2014 11:37
DANIEL SOBRAL/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Marina em SBC

Candidata do PSB durante campanha em São Bernardo

Na sexta-feira (19), a candidata à presidência Marina Silva (PSB) causou confusão que por pouco não provocou o cancelamento da agenda em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Quando Marina e seus correligionários chegaram à Praça da Matriz, a candidata não aceitou a presença de cartazes mostrando ela ao lado do governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição em São Paulo. Um coordenador da campanha protestou e exigiu que o material com a imagem da candidata com o tucano fossem imediatamente retirados do local.

Depois de muita discussão e corre corre, os cartazes foram retirados e Marina subiu no palanque. Discursou para cerca de 200 pessoas, que de acordo com uma matéria publicada no jornal Folha de S.Paulo, foram mobilizados por um candidato a deputado da região, que se autointitula de "deputado da Marina". A Folha ainda lembrou que duas semanas antes, o ex-presidente Lula esteve no mesmo local com a presidente Dilma Rousseff para um comício que lotou a praça.

Hoje (23), de acordo com a colunista Mônica Bergamo, a candidata autoriza que os "santinhos" de sua campanha a serem distribuídos pelo PSB em São Paulo na reta final do primeiro turno incluam o nome do tucano Geraldo Alckmin, candidato à reeleição ao governo do estado. Marina se recusava a aparecer ao lado do governador tucano quando tinha dianteira folgada. Mas depois de sucessivas quedas nas pesquisas, inclusive no estado, recuou.

Em São Paulo, o PSB está coligado com o PSDB e indicou o deputado Márcio França, coordenador do comitê financeiro de Marina, para vice de Alckmin. A candidata do PSB condenava a aliança, recusava a fazer campanha ao lado do tucano e havia vetado propaganda que exibisse sua imagem e a de Alckmin juntos. Agora, liberou.

Em junho, quando sua chapa ainda era liderada por Eduardo Campos, ela havia dito em entrevistas que seu grupo político, a Rede, que não alcançou os requisitos para ter seu registro oficial como partido, não subiria "em hipótese alguma, no palanque do PSDB". Afirmara também que não apoiaria aliança entre o PSB e o governador de São Paulo. Queria uma candidatura própria no estado.

Agora, segundo comentários dos bastidores de campanha, essa posição de veto à candidatura tucana poderá ser revista, de olho nos votos do tucanato paulista que está há 20 anos no poder.

Outro recuo

O candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, Beto Albuquerque (PSB), afirmou que a presença do PMDB é fundamental para governar. “Ninguém governa sem o PMDB”. Isso depois de o vice- presidente, Michel Temer, afirmar que se o PSB ganhar o PMDB ficaria na oposição. Marina sempre criticou a aliança de sua adversária, Dilma Rousseff (PT), com quadros do PMDB. Ao que parece, nunca se sabe até quando vai a data de validade das teses propagadas por essa tal “nova política”.

na globo

Em entrevista com Dilma, Miriam Leitão 'defende' espaço de bancos privados

Dilma é interrogada no 'Bom Dia, Brasil' sobre críticas a programa de Marina que prevê BC independente e redução da presença dos bancos oficiais em políticas de crédito não atendidas pelo setor privado
por Helena Sthephanowitz publicado 22/09/2014 18:50, última modificação 23/09/2014 11:26
Reprodução Bom Dia Brasil
Bom Dia Brasil

Miriam 'esclarece' que programa de Marina não fala em acabar com os bancos públicos, apenas em reduzir

O telejornal Bom Dia, Brasil, da TV Globo, iniciou uma série de entrevistas com os candidatos à presidência da República, demonstrando como a linha editorial da emissora ainda está presa ao pensamento econômico fracassado do fim do século passado, antes da crise econômica internacional iniciada em 2008.

A primeira entrevistada, por sorteio, foi Dilma Rousseff (PT), nesta segunda-feira (22). A entrevista seguiu o padrão de interrogatório que a TV Globo tem adotado, com os três jornalistas fazendo muitas perguntas simultâneas, sobre assuntos complexos, sem que houvesse tempo suficiente para responder, e com os entrevistadores interferindo na resposta o tempo todo. O formato prejudica o telespectador a receber informações úteis. Boas entrevistas não são feitas para ver quem entra no livro dos recordes de respostas mais rápidas, e sim para esclarecer assuntos do interesse do cidadão. Seria mais interessante o jornalismo da TV Globo gravar uma longa entrevista com cada candidato e levar ao ar uma parte da entrevista em cada dia, para não ficar na superficialidade.

Em uma das perguntas, a jornalista Miriam Leitão questionou críticas à proposta de Banco Central independente apresentada no programa de governo da candidata Marina Silva (PSB). Citou o caso do Banco Central da Inglaterra, tornado independente na gestão de Tony Blair, primeiro-ministro pelo Partido Trabalhista, sem que houvesse reações como há no Brasil, segundo a jornalista. Citou também o Chile, como exemplo de país que adotou o mesmo modelo.

A presidenta disse que Banco Central independente, no caso do Brasil, seria "simplesmente colocar um quarto poder na Praça dos Três Poderes". Disse ainda que sem os bancos públicos e subsídios no Brasil não haveria programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, para a população de baixa renda; não haveria o financiamento da safra para a produção de alimentos, e não haveria desenvolvimentos industrial, pois sem o BNDES dispor de linhas de crédito com juros competitivos com o mercado externo, os investimentos industriais no Brasil sumiriam.

Nem precisa explicar que o resultado seria danoso ao desenvolvimento do país, sem produzir bens e serviços com maior valor agregado no caso da indústria, sem produzir alimentos em quantidade suficiente para o consumo interno e para exportar no caso da agricultura, e seria persistir no problema da favelização se não houver programa de habitação popular.

Voltando à pergunta de Leitão, o que ela não disse foi que a ideia de Banco Central independente foi muito defendida até o fim do século passado e perdeu muita força a partir da crise internacional de 2008, provocada pela quebra de bancos nos Estados Unidos, devido ao relaxamento na regulação do setor financeiro pelo estado.

Os exemplos dados por Leitão são todos no auge do neoliberalismo. No Chile, o Banco Central se tornou independente na ditadura do general Augusto Pinochet, quando o país andino se tornou laboratório do neoliberalismo que seria aplicado mais tarde em outros países do mundo. No Reino Unido, foi em 1997, quando a adesão de países da América Latina e do Leste Europeu ao neoliberalismo do Consenso de Washington favoreciam o enriquecimento dos países da Europa ocidental.

De lá para cá muita coisa mudou. Depois de a aplicação do Consenso de Washington arrasar as economias e empregos de países da América Latina, da Rússia, e de outras regiões do planeta, os países em desenvolvimento, em sua maioria, abandonaram as políticas neoliberais e passaram a fortalecer o papel do estado na economia com resultados positivos. As grandes economias em desenvolvimento, como China, Índia e Rússia não deram independência formal ao Banco Central. O Japão também não.

A partir da crise de 2008 nos Estados Unidos, os povos dos países ricos também passaram a pedir dos governos maior regulação do mercado, o que vai na contramão da ideia de Banco Central independente, autorregulado pelo próprio mercado que produziu a crise. Pelo menos dois estadunidenses vencedores do prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, são críticos da independência de bancos centrais.

Miriam Leitão demonstrou saudosismo da época do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em que o neoliberalismo atingiu seu auge e o Estados Unidos impunha ao Brasil o chamado Consenso de Washington. Mas logo em seguido o fracasso dessas políticas ficaram comprovados pela história. Suas ideias ficaram paradas no século passado. Miriam chegou, em certo momento, a deixar de lado sua função de entrevistadora para enveredar para a de debatedora, saindo em defesa de aspectos do programa de Marina apoiados pelo sistema bancário privado.

Quando Dilma contestou a redução do papel dos bancos públicos, e questionou quem financiaria obras de infraestrutura, projetos habitacionais e produção agrícola sem política de longo prazo, carências e juros subsidiados, Miriam interveio: “Ninguém está falando em acabar com os bancos, mas apenas (no fato de o setor público) ter uma participação maior...” Dilma insistiu: “Reduzir para quanto (a participação dos bancos públicos)? Eu reduzo pela metade o financiamento da agricultura? Reduzo à metade o financiamento da infraestrutura? Reduzo quanto do Minha Casa Minha Vida? Porque não pode ser assim... Não pode dizer ‘vou reduzir’. E aí sou eu que estou colocando medo?”

Esconder o jogo

Marina censura crítica a BC independente em vez de defendê-lo em seu programa

Se Marina tem argumentos favoráveis à sua proposta de Banco Central independente, deveria mostrá-los e deixar o eleitor tirar suas próprias conclusões. Ao censurar Dilma, impede a comparação e o debate
por Helena Sthephanowitz publicado 18/09/2014 14:02, última modificação 18/09/2014 14:04
Reprodução
Programa

Peça censurada usa imagem fictícia de banqueiros. Janot deveria perguntar sobre risco a europeus

O procurador-geral eleitoral, Rodrigo Janot, deu parecer favorável ao pedido da candidatura de Marina Silva para censurar a propaganda eleitoral na TV de Dilma Rousseff que critica a proposta de Banco Central independente defendida pela candidata do PSB.

Na inserção é mostrado um paralelo entre uma reunião de banqueiros decidindo os rumos da economia nacional de acordo com seus interesses privados, sem controle de um governo eleito pela soberania popular, e os possíveis efeitos que pode provocar na vida das famílias, como desemprego, arrocho nos salários e aposentadorias e cortes em direitos sociais.

Janot considerou não haver conteúdo sabidamente inverídico, por isso disse não caber direito de resposta ao PSB, mas pede a suspensão da peça por entender que tem aptidão de criar, artificialmente, estados mentais, emocionais ou passionais no público, desapegados de experiência real. Antes de escrever "desapegados de experiência real”, Janot deveria olhar o que dizem os trabalhadores e desempregados gregos, portugueses, espanhóis, italianos, franceses sobre a independência do Banco Central Europeu.

Lá, a população submetida ao arrocho nem culpa mais o próprio governo de seu país, pois, mesmo trocando governos nas eleições, o arrocho continua do mesmo jeito. O povo reclama de quem manda de fato na economia dos países, a "troika" (a trinca formada pelo Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional).

A peça na TV não deixa de ser também uma versão adaptada ao tema presente do poema O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht, repaginando o trecho em que diz "Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas".

O parecer de Janot equivale presta um desserviço à consciência política do cidadão brasileiro, ao direito de conhecer propostas, causas, efeitos e consequências, inerente ao debate eleitoral politizado e aprofundado, como deve ser. Trata o eleitor com se fosse uma criança manipulável emocionalmente, como se fosse o próprio "analfabeto político" do poema.

Se o programa de Marina Silva tem argumentos diferentes em defesa de sua proposta de Banco Central independente, que os exponha e deixe o eleitor tirar suas próprias conclusões e fazer suas escolhas. Pior seria o cidadão brasileiro só descobrir as consequências depois que sentir na própria pele o estrago feito.

Olho gordo

Campanha de Marina endossa lobby contra indústria brasileira no pré-sal

Coordenador de campanha, Walter Feldman, endossa críticas de lobistas ao marco regulatório do pré-sal sinalizando que a legislação precisaria mudar
por Helena Sthephanowitz publicado 16/09/2014 19:11, última modificação 16/09/2014 19:57
Pedro Bolle/USP Imagens/Fotos Públicas
Petroleo

Brasil atingiu recorde de 2,9 milhões de barris/dia em julho. E o pré-sal ainda nem começou

O primeiro dia da Rio Oil & Gas, maior conferência petrolífera do país, foi marcado ontem (15) por forte lobby de companhias estrangeiras e privadas nacionais de petróleo contra exigência de compra de componentes na indústria nacional e de a Petrobras ser operadora única no pré-sal.

Ainda nesta segunda-feira, o coordenador de campanha de Marina Silva (PSB), Walter Feldman, endossou as críticas dos lobistas ao marco regulatório do pré-sal sinalizando que a legislação precisaria mudar. Segundo ele, emissários de Marina se encontraram com executivos privados do setor de petróleo na semana passada e ouviram queixas da política de conteúdo local.

Mark Shuster, vice-presidente executivo de exploração e produção para as Américas da Shell, disse na Rio Oil & Gas que a legislação e a tributação reduzem a atratividade do pré-sal brasileiro, citando o México como alternativa, pois flexibilizou suas leis para atrair investimentos.

O que Shuster não disse é que o México não tem nenhum grande campo com o grau de certeza que existe no pré-sal brasileiro e a própria Shell participou do consórcio encabeçado pela Petrobras para exploração do campo de Libra sob o novo marco regulatório.

É do jogo esse tipo de pressão. "Quem não chora, não mama", diz o ditado popular. E empresários e investidores, por mais ganhos que tenham, nunca param de chorar para ver se ganham mais um pouco.

O problema é a candidatura de Marina Silva cair nesta conversa fiada e se submeter ao lobismo. Depois não adianta reclamar, nem querer se fazer de vítima, quando seu programa é criticado por sinalizar um governo privatista e que oferece risco de ceder aos interesses das grandes corporações.

Governos devem sim dialogar com empresários de todos os setores e atrair investimentos, mas precisam saber separar o que converge com o interesse nacional e do povo daquilo que apenas vise a lucros privados, sem contrapartida para a prosperidade popular.

Segundo o argumento adotado pelos coordenadores de Marina, idêntico ao dos tucanos, a Petrobras estaria muito endividada, sobrecarregada por ser a operadora única do pré-sal obrigada a participar com no mínimo 30% na exploração, e a indústria naval brasileira e de componentes deveria ser sacrificada para atrair mais investimentos estrangeiros na extração do petróleo.

Argumentos pífios. A Petrobras tem um cronograma de investimentos para dobrar a produção até 2020. A dívida é grande porque a empresa é gigante, e é usada para investimento com retorno lucrativo. Tanto é assim que ninguém no mundo, por mais capitalista que seja, deixa de comprar ações da empresa apenas por causa de sua dívida.

Quanto a estar "sobrecarregada", é um argumento tão risível como dizer que uma indústria de automóveis estaria sobrecarregada por ampliar a fabricação de carros que estão vendendo muito. Ora, quando se produz muito, aumentam-se as receitas, investe-se em expansão e contrata-se mais gente. Não existe empresa no mundo que ceda voluntariamente fatias de mercado para concorrentes por estar "sobrecarregada".

Pior é o argumento de sacrificar a cadeia produtiva de componentes da indústria naval e petrolífera, apenas para trazer mais investimentos de petroleiras estrangeiras. A economia brasileira ganharia pouco e perderia muito, se petroleiras estrangeiras simplesmente trouxessem equipamentos prontos para ancorar em nossa costa, com tecnologia e trabalhadores estrangeiros, tirassem o petróleo e vendessem no mercado mundial, deixando apenas uma pequena participação financeira para o país.

O Brasil seria um mero produtor da commodity petróleo, sem desenvolver uma indústria local, sem dominar a tecnologia, sem criar empregos, inclusive qualificados, sem descobrir patentes que sempre surgem onde se produz tecnologia. Tudo isso vale tanto ou mais do que o petróleo em si. Como se não bastasse, campos de petróleo hegemonicamente dominados por empresas estrangeiras, sobretudo países com histórico de intervenção militar, colocam em risco a própria soberania nacional.

Além disso, apesar de haver cobiça pelo domínio das reservas, não há interesse da maioria das grandes petroleiras estrangeiras em produzir aqui na mesma escala que a Petrobras planeja, pelo simples motivo de que interessa a seus acionistas manter o preço do barril de petróleo nos patamares que assegurem maiores lucros do que uma superprodução poderia proporcionar. Tanto é assim que os países da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), seguindo a mesma lógica das petroleiras privadas que atuam em escala global, estudam cortar a produção em 500 mil barris ao dia, no momento em que houve uma queda de preço.

Se com quatro tuítes do pastor Silas Malafaia, Marina Silva “revisou” o programa de governo, o que a poderosa indústria do petróleo mundial conseguiria mudar no marco regulatório do petróleo, caso Marina fosse presidenta?

Afogado em números

Ibope e Vox Populi contrastam com Datafolha

Uma tendência é certa nas últimas pesquisas eleitorais: Marina Silva (PSB) está em queda, Dilma Rousseff (PT) em ascensão e Aécio Neves estagnado
por Helena Sthephanowitz publicado 12/09/2014 16:12, última modificação 12/09/2014 19:33
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voto

O que mais coloca em dúvida a pesquisa do Datafolha são os números muito baixos de indecisos e nulos no segundo turno

O que traz incertezas quanto à consistência dos levantamentos são diferenças entre alguns institutos, acima da margem de erro. Duas pesquisas, uma do Vox Populi e outra do Datafolha, foram feitas exatamente nos mesmos dias, entre 8 e 9 deste mês, e encontraram alguns números contrastantes além das faixas de tolerância. Quem estaria certo?

O tira-teima foi outra pesquisa, do Ibope, contratada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta sexta-feira (12). Foi encerrada no dia 8, data bem próxima das outras, e registrou uma tendência mais parecida com o Vox Populi, o que deixa o Datafolha em saia justa.

Em relação ao primeiro turno, as intenções de votos em Aécio estão idênticas (15%) nos três institutos. Em Dilma estão dentro da margem de erro (36% e 39%), mas no caso de Marina, o Vox Populi registrou 28%, enquanto o Datafolha 33% para a candidata do PSB. São 5 pontos de diferença, acima do limite da margem da erro, que é de 2,2 pontos no Vox Populi e 2% no Datafolha. O Ibope registrou 31%, intermediário entre os dois institutos, mas foi a campo na véspera das outras pesquisas. Logo, se a tendência era de queda de Marina e oscilação para cima de Dilma, tende a coincidir mais com a apuração do Vox Populi.

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Outra divergência foi nos indecisos. O Vox Populi destoou com 13%, enquanto o Datafolha registrou 7% e o Ibope 5%.

Na sondagem de segundo turno, todos institutos registraram Dilma chegando ao empate técnico com Marina, mas com números diferentes. Dilma teve 41% no Vox Populi, 42% no Ibope e 43% no Datafolha, resultado idêntico dentro da margem de erro. Marina teve 42% no Vox Populi e 43% no Ibope, o que coloca os 47% no Datafolha em dúvida.

Apesar de alguns números divergirem acima da margem de erro, a diferença é pequena e pode de fato ocorrer dentro da probabilidade estatística.

Mas os números do Vox Populi e Ibope são ainda convergentes quando analisamos os votos inválidos e indecisos. No primeiro turno, o Vox Populi registra 7% de intenção de votos nulos/branco/ninguém. No segundo, esse número sobe para 10%. É um resultado esperado. Parte dos eleitores de Aécio Neves (PSDB) ou de Luciana Genro (Psol), por exemplo, pode dizer que anula o voto caso seu candidato não passe para o segundo turno. A mesma lógica acontece no Ibope. Nulos/Branco são 8% no primeiro turno e 10% no segundo. No caso do Datafolha, registram-se tanto no primeiro como segundo turno 6%. Possível, mas pouco provável.

O que mais coloca em dúvida a pesquisa do Datafolha são os números extremamente baixos de indecisos e nulos no segundo turno. Somados dão 10% em segundo turno, contra 17% do Vox Populi e 15% do Ibope.

Quando o candidato do PSB era Eduardo Campos, os votos nulos e indecisos eram maiores. Com a entrada de Marina Silva na disputa, ela capturou a maioria destes votos em um primeiro momento. Atraindo os holofotes para si, teve suas contradições expostas e passou a perder votos. É de se esperar que parte dos votos da “antipolítica”, que antes iria anular o voto, volte a fazê-lo.

E também é de se esperar que parte dos votos sem certeza que pendiam para Marina, migrem para outros candidatos à medida que o eleitor volúvel compare as propostas e conheça melhor a candidata. O que leva Marina a cair é ficar mais conhecida. Suas posições que agradam uns, desagradam outros. Inicialmente ambos viam nela a ideia de votar naquilo que julgavam se identificar, sem conhecê-la direito.

Quando Marina tenta neutralizar críticas de inexperiência, dizendo que foi vereadora, deputada, senadora duas vezes e ministra, essa longevidade política já espanta parte do eleitorado da chamada “nova política”. Marina não é tão novidade assim. Ela conviveu “com tudo isso que está aí” por mais de duas décadas ocupando cargos políticos.

Quando ela tenta neutralizar a falta de base de sustentação política, que levou à renúncia de Jânio Quadros e ao impeachment de Collor, dizendo que vai governar com todos os partidos, mesmo dizendo que com “os melhores”, o eleitor que gritava “sem partido” em junho de 2013, já não a vê como opção. E aquele consciente de que sem uma reforma política a governabilidade se faz obrigatoriamente com quem é eleito no Congresso Nacional, vê incapacidade ou falsidade.

Quando ela volta atrás no programa de governo depois de quatro tuitadas do Pastor Silas Malafaia, ela desagrada e perde a confiança de outros setores. Marina se complica tendo declarações do presente desmentidas por atos do passado, como na questão da votação na CPMF, dos transgênicos, do agronegócio, ou ao ter posição contraditória sobre o pré-sal, que ela trata como um mal que tem de ser aturado e combatido. Em vez de azucrinar o pré-sal brasileiro, deveria mirar no Canadá por extrair petróleo de areias betuminosas no Ártico, em um processo muito mais poluente.

Quando ela procura varrer para baixo do tapete o escândalo da compra por empresas laranjas do avião de campanha dela e de Eduardo Campos, perde a aura de paladina da ética. Também não combina com a tal “nova política” manter em segredo quem paga por suas palestras. Marina não é uma empresária que entrou na política. É uma política que virou empresária para se manter candidata desde 2010. Quer queira, quer não, o eleitor desconfiado sente cheiro de “velha política” quando políticos escondem de onde vem suas fontes de renda, mesmo em atividades privadas e mesmo que não tenha necessariamente nada ilegal. O próprio clima inquisicional criado na imprensa tradicional para fazer o eleitor odiar a política, em vez de reformá-la, estimula essa desconfiança. Clima este que a própria Marina estimulou.

Ela perde votos quando usa dois pesos e duas medidas no trato da corrupção. Uma medida para pré-condenar Dilma pelos atos de terceiros, no caso um ex-diretor da Petrobras, funcionário de carreira, e usa outra medida para pedir o benefício da dúvida para Eduardo Campos, supostamente envolvido pela delação premiada deste mesmo ex-diretor.

O eleitor fica com um pé atrás ao ver o excessivo vínculo ao banco Itaú, pela influência da banqueira Neca Setúbal, inclusive através de patrocínios financeiros para as atividades privadas da candidata. Piora o discurso de Marina repetir bordões lobistas do mercado financeiro, tal como ceder a propostas de independência do Banco Central.

Marina começou tentando agradar a todos, apelando para sentimentos que são unânimes tais como governar com os bons, ser a favor de tudo que é do bem, e um monte de simplismos que todo mundo, desde criança, concorda. Mas na hora de ser obrigada a deixar de discutir o sexo dos anjos, e se posicionar sobre problemas reais do Brasil, ela perde votos ou de um lado ou de outro. E ainda corre o risco de, ao tentar agradar a todos, não agradar ninguém.

Daí ser estranho o Datafolha ainda ostentar índices tão altos para Marina, como se ela ainda fosse unanimidade entre quem está contrariado com qualquer coisa que acontece no Brasil.

Rei bom?

'Sebastianismo' em Marina pode fazer Brasil perder bonde da história

Assim como a queda de Constantinopla levou Portugal e Espanha a abrir a era das navegações e descobertas, a atual crise mundial obriga países a buscar caminhos diferentes dos construídos sob a ordem do século passado
por Helena Sthephanowitz publicado 11/09/2014 13:14, última modificação 11/09/2014 13:31
Dom Sebastião

Sebastião acreditava na expansão da fé e que seria o 'capitão de Cristo' em nova cruzada contra os mouros

No fim da Idade Média, a queda de Constantinopla (hoje Istambul) causou uma crise econômica na Europa com o declínio do comércio com o oriente. Guardadas as devidas proporções e contextos, podemos fazer uma analogia com a crise mundial iniciada nos Estados Unidos em 2008, alastrada para a Europa, com consequências para todo o mundo, e que se estende até hoje.

Assim como a crise de Constantinopla levou Portugal e Espanha à busca de outras rotas para o comércio com o oriente, abrindo a era das grandes navegações e descobrimentos, a atual crise mundial também obriga países a buscar novos caminhos, diferentes dos tradicionais construídos sob a ordem mundial do século passado.

No passado, Vasco da Gama abriu um novo caminho para Portugal dominar o comércio com as Índias, contornando a costa africana.

De forma semelhante o Brasil, que já havia expandido seu comércio com a América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, agora aliou-se à China, Rússia, Índia e África do Sul, países que compõem o chamado Brics, para criar o Novo Banco de Desenvolvimento e o fundo de reserva para contingências. São alternativas multilaterais para potencializar o desenvolvimento desses países e seus aliados, contornando o domínio pelos Estados Unidos e Europa sobre o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Portugal chegou a ser a maior potência do mundo por volta de 1570, dominando rotas comerciais pelos mares e portos que iam de Nagasaki, no Japão, passando pela China e Índia.

Mas o jovem rei dom Sebastião, de grande fervor religioso e militar, resolveu reviver as glórias do passado das cruzadas e intervir no Marrocos. Perdeu a batalha de Alcácer-Quibir em 1578, onde morreu (desapareceu para os místicos) aos 24 anos sem deixar herdeiros.

Sem filhos, a sucessão ao trono português foi disputada por outros parentes, entre eles o rei Felipe II de Espanha, que acabou assumindo em 1580, fazendo Portugal ficar décadas sob domínio do trono espanhol e perder sua condição de grande potência.

Isso mostra como as decisões equivocadas de dom Sebastião levaram Portugal a perder o bonde da história.

Se olharmos para o programa de governo de Marina Silva nos capítulos que falam sobre economia e política externa, vemos que há equívocos gravíssimos que, se aplicados, levariam o Brasil a perder o bonde da história também. O programa obedece ao velho receituário de arrocho e desemprego do Consenso de Washington, já falido, e se submete às diretrizes gerais da política externa dos Estados Unidos, com um deslumbramento que só existia no século passado. É tão nocivo ao desenvolvimento nacional retroceder nas novas rotas desbravadas para o comércio exterior e na geopolítica brasileira dos últimos anos quanto foi para Portugal ficar sob domínio da coroa espanhola.

'Rei bom'

Por falar no misticismo em torno do desaparecimento de dom Sebastião, foi dele que surgiu o sebastianismo, um movimento messiânico que acreditava na salvação da pátria por meio do retorno de um “rei bom”. A lenda chegou a influenciar brasileiros. Antônio Conselheiro pregava em Canudos que dom Sebastião iria retornar dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil.

Apesar das incontáveis surpresas que seu plano de governo, suas declarações ou as de seus assessores têm proporcionado, não há, claro, nenhuma menção sobre dom Sebastião. Mas não deixa de haver semelhanças na pregação da suposta “nova política” com a ideia despolitizada de salvadora da pátria em vez de defender uma reforma política estruturante. É muito semelhante à pregação sebastianista de cair do céu um “rei bom”.

'velha política'

Quem ganha e quem perde com a 'escandalização' da delação premiada

Paradoxalmente, se Aécio e a imprensa que o apoia conseguirem emplacar a pauta da escandalização, o quadro eleitoral pode voltar a ser parecido com aquele que havia antes da morte de Eduardo Campos
por Helena Sthephanowitz publicado 08/09/2014 16:50, última modificação 08/09/2014 16:57
aécio neves oficial/facebook
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Faltando menos de um mês para a eleição, Aécio Neves (PSDB) parece tão desesperado quanto o próprio delator

Há uma escandalização da delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Coberta de sigilo, com as gravações dos depoimentos criptografados, segundo o noticiário, nomes de políticos suspeitos – alguns são os suspeitos de sempre – estão nas páginas de uma revista, mas provas, que é bom, não foram mostradas.

Antes de mais nada, a delação é bem-vinda. Quem cometeu crimes que responda por eles. Mas precisa ter consistência. Até programas sensacionalistas de TV mostram exame de DNA quando há casos de “delação” de suposta paternidade.

O que não é bem-vindo é a escandalização forçada em matérias recheadas de adjetivos e suposições sem provas, sem o equivalente ao exame de DNA, ainda mais na véspera de irmos às urnas, o que ganha feições de golpes baixos de campanhas eleitorais sem escrúpulos.

Faltando menos de um mês para a eleição, Aécio Neves (PSDB) parece tão desesperado quanto o próprio delator, ao se lançar como beneficiário da escandalização. Isso porque no listão de políticos suspeitos montado pela revista Veja – sem nenhum documento, nem referência a fontes – não aparecem tucanos, por ora. O alvo da reportagem foi Dilma Rousseff (PT), por haver políticos da base governista, e Marina Silva (PSB), por incluir o nome do ex-companheiro de chapa, Eduardo Campos, entre os três governadores citados como envolvidos no suposto esquema.

Como Dilma é presidenta da República, o que ela deveria fazer? Exigir que a Polícia Federal (PF) investigue. Ué, mas isso já está sendo feito há muito tempo. Inclusive a delação acontece justamente nas dependências da PF, onde o delator foi preso há meses. Nesse contexto, Dilma tem como neutralizar o efeito político tentado contra sua candidatura, pois pode lembrar ao eleitor que as instituições de combate à corrupção em seu governo funcionam e existe um processo de depuração na política que nunca houve em governos anteriores. E é incomum haver em governos estaduais, fora da jurisdição federal. Talvez essa depuração seja a verdadeira “nova política”, pelo menos em parte, pois outra parte depende de reforma constitucional no sistema político.

A candidatura de Marina sofre danos com essa escandalização porque vinha surfando no discurso da pureza na política e vê líderes de seu partido acusados de praticar tudo de ruim que ela chama em seu discurso de “velha política”. Mesmo que Marina não apareça envolvida diretamente, o discurso da pureza é abatido pela convivência em um ambiente partidário contaminado.

Aécio Neves, que se lança como beneficiário da escandalização, pode se sair pior do que pensa. Campanhas de ataque, de demonização da política, atingem seus adversários mas atingem também seu próprio perfil e produz severas baixas entre seus próprios aliados, o que pode desagregar mais ainda sua campanha nos estados.

Apesar dos esforços da imprensa tradicional de pautar a campanha eleitoral com esta escandalização, é questionável se o efeito no eleitorado beneficia a oposição. Em vez de recolocar Aécio na disputa pelo segundo turno, pode apenas aumentar a rejeição a todos os candidatos, fazendo crescer o número de votos nulos, brancos e abstenções.

Dilma é quem tem menos a perder, pois já sofreu incontáveis desgastes, bombardeada com um noticiário sistematicamente adverso, e o piso de votos dela mostra-se resistente nos níveis que as pesquisas têm mostrado. Aécio pode estancar sua queda em um primeiro instante, mas deve voltar a cair em seguida, pois seu partido e sua candidatura não convencem como bastiões da ética e o eleitor não vota em quem só ataca adversários. Marina pode perder intenções de votos para nulos ou para a própria Dilma. Afinal se Marina tem problemas com seus aliados tanto quanto Dilma, as conquistas de prosperidade nos últimos anos e a campanha propositiva podem falar mais alto e definir o voto de muita gente.

Paradoxalmente, se Aécio e a imprensa que o apoia conseguirem emplacar a pauta da escandalização, o quadro eleitoral pode voltar a ser parecido com aquele que havia antes da morte de Eduardo Campos, com Aécio e Marina caindo nas intenções de votos, nulos crescendo, Dilma mantendo-se estável e com chances de superar a soma de votos dos adversários, o que a levaria à vitória em primeiro turno.

jornalismo?

Jornal da Globo age como partido de oposição e fere dignidade das pessoas pobres

Apresentador lê editorial em protesto à recusa da presidenta Dilma em participar do programa
por Helena Sthephanowitz publicado 05/09/2014 17:35
reprodução
jornal da globo

Com cara de poucos amigos, o apresentador William Waack leu as seis perguntas que faria à presidenta

Há estudos demonstrando que a TV Globo exerce um papel político muito semelhante ao de um partido de oposição ao governo petista. Um recente é o manchetômetro, estudo feito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro que analisa notícias positivas e negativas sobre cada candidato, demonstrando um desequilíbrio brutal favorável aos presidenciáveis da oposição.

Com este histórico, o telejornal noturno Jornal da Globo deveria demonstrar sobriedade quando um presidenciável não aceita o convite para mais uma entrevista exclusiva. Em vez de apenas registrar que o convite feito à presidenta Dilma Rousseff  foi declinado, como é de praxe, os apresentadores comportaram-se exatamente como partido de oposição, fazendo um editorial de protesto contra a candidata, inclusive lendo no ar as perguntas que seriam feitas.

A TV Globo tem quatro telejornais diários com veiculação em rede nacional (manhã, hora do almoço, Jornal Nacional e tarde da noite). Nenhum candidato é obrigado a dar entrevista exclusiva a todos os programas da mesma emissora. A presidenta já concedeu entrevista como candidata ao Jornal Nacional. A TV Globo tem hegemonia comercial em seu ramo, mas não pode querer monopolizar a agenda de candidatos para sua programação, seu prestígio e seus interesses comerciais. Existem outras emissoras de televisão e outras mídias que também convidam candidatos para entrevistas e em uma campanha nem existe tempo hábil para atender a todos. Então, cada um decide como administrar a agenda do candidato. Uns preferem se submeter totalmente aos caprichos editoriais da maior emissora, outros preferem a diversidade, procurando atender a convites de outras emissoras e outros compromissos de campanha que também são importantes.

Em vez de reclamar no editorial de protesto, se a TV Globo tivesse mais interesse em fazer um bom jornalismo e extrair dos candidatos informações mais úteis aos telespectadores, poderia fazer uma entrevista mais longa com cada candidato, que desse tempo de responder com mais profundidade, e levar ao ar dividida nos quatro telejornais ou em dias diferentes. Ao escolher o formato de interrogatório visto no Jornal Nacional, é natural que haja candidatos que considerem pouco produtivo para o telespectador ser bem informado.

Quando os apresentadores perderam a objetividade e se comportaram como partido político de oposição, deram uma razão a mais para a candidata declinar do convite. Afinal, não é normal candidatos irem à sede de partidos opositores para darem entrevistas. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama já recusou por muito tempo entrevistas exclusivas para a TV Fox News, exercendo um direito dele e sinalizando discordar do desequilíbrio no noticiário favorecendo seus opositores. Dilma Rousseff nem de longe chegou a este ponto, pois contemplou a TV Globo atendendo a um telejornal.

Pergunta asquerosa

O telejornal leu as seis perguntas que faria na entrevista. Cinco eram questionamentos pertinentes sobre problemas nacionais, mas a última é de uma desumanidade assustadora, pois fere a dignidade humana.

"A senhora considera correto dar dentes postiços para uma cidadã pobre um pouco antes de ser feita com ela uma gravação do seu programa eleitoral de televisão?", leu o apresentador Willian Waack.

Já é péssimo contra a dignidade humana tratar prótese dentária pelo termo pejorativo "dentes postiços". Mas se o problema fosse só o mau gosto do termo, seria apenas uma gafe. Muito mais triste é a negação da cidadania às pessoas mais pobres e falta de fraternidade embutida na pergunta.

Qualquer pessoa que sabe orientar outra no exercício de um direito de cidadania deve fazê-lo. Se alguém conversar com idoso que já tem direito a aposentadoria mas ainda não tem consciência disso, é até desumano você saber e não orientá-lo. Da mesma forma, se uma equipe foi fazer uma gravação e viu uma cidadã que não tinha prótese dentária, e a orientou para resolver seu problema na unidade de saúde pública da cidade dela que tem atendimento de dentistas justamente para estes casos, incorreto e desumano seria não ajudá-la no encaminhamento.

Assim, parece que o neoliberalismo individualista subiu tanto para a cabeça dos profissionais da TV Globo, que agora acham errado até os mais simples gestos de estender a mão, nem que seja apenas para apontar um caminho, coisa que todo ser humano pratica no cotidiano por sua própria natureza. Só não faz assim quem está ensandecido pelo ódio.