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Blog da Helena

por publicado , última modificação 28/08/2014 11:04

suave

Mesmo com jogo de compadres no JN, imagem de Marina pode ter sido abalada

Marina respondia olhando para a câmera com gestos calculados, sem reações naturais a perguntas incômodas. Bom treinamento de mídia melhora comunicação. Mas se perde autenticidade, corrói a imagem
por Helena Sthephanowitz publicado 28/08/2014 11:04, última modificação 28/08/2014 12:27
JN

Calculismo: palavras e gestos com sotaque de ensaiados

A candidata à presidência Marina Silva (PSB) foi a entrevistada desta quarta-feira (27), na bancada do Jornal Nacional. Apesar das perguntas de William Bonner e Patrícia Poeta terem parecido incômodas à primeira vista, um olhar atento ao programa permite notar algo próximo de um "jogo de compadres", como dois times que combinam previamente o resultado bom para ambos.

O telejornal tinha de manter o estilo de interrogatório aplicado aos outros candidatos para não ser acusado de ser parcial. Mas o conteúdo das perguntas e as interrupções foram bem mais leves com Marina. Duas de três perguntas formuladas foram sobre o mesmo tema: contradições no discurso da ética e do que ela chama de “nova política”.  Bonner evitou atingir diretamente a candidata. As réplicas e tréplicas feitas pelo apresentador  também foram sobre o mesmo tema, sem se aprofundar nas questões. Perguntas sobre economia, tema comum aos outros entrevistados, ficaram de fora. Bonner evitou a pergunta que todos queriam ouvir. “A senhora vai terminar Belo Monte ou não?"

As perguntas até serviram como "vacina" para a candidata abordar os assuntos de interesse dela, que já vinham sendo cobrada a falar. Diferentemente de Aécio, Campos e Dilma, Bonner não tocou no assunto economia. Marina foi poupada de ter de explicar sobre as medidas amargas propostas por seus gurus econômicos e sobre suas intensas relações com o mercado financeiro, inclusive com a banqueira Neca Setúbal, herdeira e acionista do banco Itaú, que coordena seu programa de governo.

A pergunta mais incômoda foi sobre o "avião fantasma" usado na campanha por ela e que matou Eduardo Campos. Bonner perguntou se o pagamento feito por laranjas e sem registro de doações ou pagamentos à Justiça Eleitoral não era coisa da velha política. Marina enrolou, evitou explicações objetivas e procurou isentar-se e defender seu partido de responsabilidade. Tentou encerrar o assunto dizendo que o caso estava sob investigação pela Polícia Federal. Bonner insistiu, mas não muito. Praticamente repetiu a pergunta sem aprofundar nas suspeitas de caixa dois. Mesmo assim Marina sofreu desgaste em seu discurso sobre ética.

Questionada sobre qual seria a diferença entre a sua postura e a de políticos em geral quando confrontados com uma denúncia, Marina afirmou que o seu “compromisso com a verdade” não se tratava de “retórica”. Ela disse ainda que não tentava “tangenciar ou se livrar do problema”. Até ser confrontada pelos apresentadores do JN, Marina se recusava a responder a perguntas sobre o caso. Quando questionada, passava a palavra para o seu candidato a vice, Beto Albuquerque.

A segunda pergunta foi sobre a candidata ter ficado em terceiro lugar nas eleições de 2010 no Acre, seu estado natal. A apresentadora Patrícia Poeta perguntou se quem a conhecia não votava nela. Marina disse "é difícil ser profeta em sua própria terra", porque ela teve que confrontar interesses, ao lado de Chico Mendes. “Cheguei a ficar quatro anos sem poder andar na metade do meu Estado”, disse. “Mas não podia trocar o futuro das próximas gerações pelas eleições.” A explicação não convenceu muito, porque a carreira política dela foi alavancada justamente por ter lutado ao lado de Chico Mendes. Ela foi vereadora, deputada estadual e senadora duas vezes após confrontar os interesses. Nada disso explica ter perdido seu eleitorado em 2010.

A última pergunta repetiu o tema da tal "nova política", questionada por fazer "alianças entre diferentes" que ela condena nos outros. Bonner citou a escolha do vice Beto Albuquerque, que votou pela liberação do cultivo de transgênicos e a favor do uso de pesquisas com células-tronco embrionárias, de forma contrária às posições de Marina. Ela praticamente confirmou o que Bonner insinuou. Quando os outros fazem alianças ela chama de velha política. Quando ela faz a mesma coisa vira "nova política". Marina, ainda classificou como lenda a versão de que é contra o plantio de transgênicos. No entanto, em seu perfil na Wikipédia, Marina postou: “Durante sua administração no Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva acabou perdendo a luta histórica contra os transgênicos”.

As contradições desvios das respostas de seu assuntos abalam um pouco a imagem da candidata por mostrar antigas práticas que não batem com o discurso do novo. E há um outro elemento que pode ter desagradado parte dos telespectadores. Marina estava muito bem treinada no uso da câmera. Sempre respondia olhando para a câmera e fazendo gestos com as mãos, típicos do treinamento de mídia. Foi fria e calculista nas respostas, sem reações naturais diante de perguntas incômodas. O bom treinamento de mídia, que pode ser uma virtude para melhorar a comunicação com o eleitor, se perder a autenticidade corrói a imagem da candidata. Afinal, ninguém quer eleger uma atriz.

Números x Números

Povo vai bem, mas noticiário o induz a achar que o país vai mal

Segundo Ibope, avaliação do governo Dilma sobe e maioria (76%) se diz satisfeita com a vida. E se 30% pensam que a economia vai mal, como pode 68% acharem que sua vida estará melhor em 2015?
por Helena Sthephanowitiz publicado 27/08/2014 17:32, última modificação 27/08/2014 18:24
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Como pode o povo estar otimista com o futuro e ao mesmo tempo acreditar que a economia vai mal?

Na pesquisa Ibope divulgada na terça-feira (26), Dilma Rousseff (PT) subiu dois pontos na espontânea, chegando a 27%. Marina Silva (PSB) teve 18%, e Aécio Neves (PSDB), 12%. A pesquisa espontânea é aquela que reflete melhor a firmeza do voto, porque apenas pergunta em quem o eleitor votará, sem mostrar nenhuma lista de nomes. Responde quem já tende a ter definido o candidato de sua preferência.

Na sondagem estimulada, feita em seguida, mostra-se um disco com as opções de candidatos, e o pesquisado escolhe um dos nomes. Quem só responde diante do disco de opções tem queda por aquele candidato naquele momento da sondagem, mas é mais incerto se a intenção declarada se converterá em voto na urna.

Na simulação de primeiro turno estimulada, segundo o Ibope, Dilma cresce pouco em cima da espontânea. Sobe de 27% para 34% no primeiro turno e para 36% no segundo turno. Nota-se que 34% corresponde a quem avalia o governo da presidenta com bom e ótimo, o que pode representar seu piso de votos, abaixo do qual ela dificilmente cai. Há outros 36% que avaliam seu governo como regular, e pelo menos uma parte destes votará em Dilma, coisa que a pesquisa não captou, mas significa que a campanha da presidenta tem todo este segmento do eleitorado para explorar e crescer. Se apenas um terço de quem avalia o governo como regular, com viés positivo, votar em Dilma, a probabilidade de vitória da presidenta continua alta.

Marina sobe de 18% na espontânea para 29% na estimulada no primeiro turno e para 45% num eventual segundo turno. Seu momento eleitoral é o melhor possível. Mas algo próximo de certeza de votos mesmo ela só tem de cerca de 18% dos pesquisados. Os demais ela ainda precisa convencer o eleitorado a converter em intenção em voto. Marina tem o nome conhecido por ter participado das eleições de 2010 com boa votação, mas não tem propostas bem conhecidas.

É uma faca de dois gumes. Ela pode tanto consolidar votos como perdê-los, quanto mais suas propostas (ou falta delas) forem conhecidas. Uma coisa é simpatia por uma imagem abstrata de novidade, como uma roupa que parece bonita na vitrine de uma loja. Outra coisa é o conhecimento mais profundo da candidata e avaliar o que ela pode fazer de fato nos próximos quatro anos, se vencer. É como experimentar a roupa da vitrine para decidir se compra. Pode não vestir bem no corpo da pessoa como parecia na vitrine.

Dilma sobe de 27% na espontânea para 36% no segundo turno, sempre segundo o Ibope. Marina salta de 18% para 45% na mesma simulação. Dilma sobe só um terço de seus votos firmes na sondagem do princípio ao fim do processo eleitoral. Marina mais do que dobra, subindo uma vez e meia. É improvável que ao longo da campanha eleitoral Dilma conquiste tão poucos novos votos e Marina conquiste tanto sozinha. Seria necessário Dilma fazer tudo errado e Marina tudo certo para isso acontecer.

Aécio é quem está em maiores apuros. Tem 12% de votos firmes na espontânea e 19% na estimulada de primeiro turno, e corre o risco de ver sua candidatura esvaziar-se mais se consolidar a polarização entre Dilma e Marina. Precisa provocar uma difícil reviravolta para voltar ao jogo.

Na prática, mesmo na simulação de segundo turno que é apenas uma sondagem pouco confiável nesta fase da campanha, se for para levar a sério os números do Ibope, o que se pode concluir é que as intenções de votos declaradas em Dilma estão próximas de seu piso, batendo com as avaliações de bom e ótimo de seu governo. As em Marina estão próximas de seu teto. Logo, Dilma tem espaço, e muito, para crescer. Já Marina tem que se esforçar para não cair.

A própria pesquisa mostra a avaliação do governo Dilma subindo. Mostra também uma coisa inusitada. A grande maioria dos brasileiros (76%) diz estar satisfeita com a vida atual que leva. E 43% acham que sua própria situação econômica está boa ou ótima. Só 13% acham que está ruim ou péssima. Outros 68% estão otimistas acreditando que sua própria vida estará melhor em 2015. Quando perguntados sobre a economia do país, a situação se inverte: 30% dizem estar ruim ou péssima, contra 24% dizendo que está boa ou ótima. Mesmo assim, 45% acham que a economia do Brasil estará melhor no ano que vem contra apenas 13% que acham que estará pior.

Como pode o povo se sentir bem economicamente, estar otimista com o futuro e ao mesmo tempo acreditar que a economia “do país” vai mal? Só o efeito do noticiário extremamente negativo sobre a economia, descolado da realidade, explica. Colar as duas realidades é, talvez, o maior desafio da campanha de Dilma. Para alegria de seus correligionários, é relativamente fácil explicar o óbvio: que o Brasil é exatamente o mesmo país onde o povo brasileiro vive, e não o das manchetes alarmistas que mais parece um país estrangeiro, que nada tem a ver com onde vivemos.

Aquela história de votar com a mão no bolso, de acordo com a sensação de bem-estar social, favorece Dilma, mas ainda não está refletida nas intenções de voto, por uma abstrata visão negativa do país propagada no noticiário, como se os brasileiros não vivessem nele. É muito improvável que esse quadro permaneça até o fim das eleições. Esse é o maior desafio da campanha de Marina Silva, além de contradições sobre a tal “nova política”, a começar por suposto uso de empresas laranjas, com indícios de caixa dois, para bancar despesas de campanha da chapa Eduardo-Marina, no caso do jatinho.

Mau começo

Marina sinaliza varrer escândalo de avião fantasma para debaixo do tapete

Após acidente que matou Eduardo Campos (PSB), Marina Silva despontou como predileta de grupos de comunicação e empresariais poderosos
por Helena Sthephanowitz publicado 25/08/2014 18:51
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Destroços

Destroços de avião que matou Campos e outras seis pessoas se espalharam. Muitas perguntas sem resposta

Segundo pesquisas eleitorais recém-divulgadas, Marina Silva vem sendo opção de voto para eleitores que cogitavam anular voto ou estavam descontentes com as outras candidaturas. Hoje, tem dois bônus eleitorais. O primeiro é o recall das eleições de 2010, quando ela recebeu votos de protesto. O segundo é o desconhecimento profundo pelo eleitor sobre as forças políticas e econômicas que ela representa, e que é o que define como será o governo de fato. Marina surfa no populismo da antipolítica, escondendo do eleitor o(s) projeto(s) de poder que há por trás de sua candidatura.

Em 2010, ela foi poupada pelos outros oponentes de ter que explicar seus ônus ao eleitor – pois todos queriam o voto de seus eleitores no segundo turno. Muita gente votou nela no escuro, sem cobrar posições claras, por ela não representar expectativa de vitória. Para muitos, o voto em Marina foi apenas um desabafo de protesto, foi o voto “do contra” os outros candidatos, e não a escolha de quem iria governar de fato. Fenômeno semelhante aconteceu com Enéas Carneiro em 1994, mas aquele eleitorado que votou em Enéas cresceu muito em 2010 e parece que estará presente em 2014, pelo menos no primeiro turno.

Marina é hoje uma nuvem. O eleitor não a conhece. Cada um que a olha vê o que quiser imaginar. Quem quiser ver uma madre Teresa de Calcutá da política pode fantasiar à vontade, por enquanto. Suas declarações simplistas procuram agradar todo mundo, tal como ser a favor do que é bom e contra o que é ruim, governar “com os bons”, ser a favor da ética na política etc. São coisas que ninguém discorda, agradando polos opostos, do banqueiro ao cidadão que está sendo explorado no cheque especial.

Mas ela perde esse bônus do desconhecimento à medida em que desponta com chances de vitória. Falar platitudes para agradar a todos pode soar como música numa primeira conversa para o eleitor antipolítica, mas é impossível passar a campanha inteira repetindo sem que a candidatura se desmorone. Se ela de fato se mantiver na frente de Aécio Neves (PSDB) e polarizar com Dilma, terá de falar como pretende. Irá respeitar as regras de mercado, sem interferir na administração das estatais, como Petrobras, Eletrobras, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil? Se Marina é a favor do livre mercado, qual será a nossa política externa?

Marina será realista com a necessidade de o Brasil investir em infraestrutura sem que seja aliada de ambientalistas radicais? Ou a candidata continuará se comportando como ativista dessa área, em que até tentou barrar quando ministra a construção das hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte? Como vai lidar com os problemas da vida real das pessoas, como comida, casa, escola, emprego, salário e saúde? Será que vai continuar com o discurso que ninguém entende, do tipo: “eixos programáticos”, “democracia de alta intensidade”, “empoderamento humano” e “brasileiros socialistas e sustentabilistas”?

O discurso apresentado até agora dá sinais de que pretende terceirizar a economia para que seja conduzida por banqueiros privados, o que é temeroso para o cidadão trabalhador, pois a receita é a das “medidas amargas”, como desemprego, arrocho nos salários e aposentadorias e juros altos para as famílias e empresários do setor produtivo, sobretudo os pequenos.

Mesmo em assuntos em que ela consegue se sair melhor, como no populismo da antipolítica, ele terá de explicar suas próprias contradições. Ela sempre ocupou cargos políticos, teve gabinete no Senado como qualquer outro senador, participa do sistema partidário, sempre conviveu e continua convivendo com um leque de políticos com perfil da velha política com os quais tem dificuldade de dialogar. Marina como parlamentar conseguiu a aprovação de apenas três projetos: A PEC regulamentando a aposentadoria do “extrativista vegetal”, o projeto de lei que obriga o SUS a garantir transporte e alimentação a pacientes, e a proposição criando o “Dia Nacional dos Povos da Floresta”. Muito pouco.

Seu próprio vice tem posições, em muitos pontos, divergentes das dela. Além disso, é financiada por empresas que tem interesses e negócios com a área governamental, a começar por bancos privados. Não trabalhou a contento pela reforma política popular, pelo contrário, defendeu práticas condenáveis, como a proliferação indiscriminada de novos partidos, infidelidade partidária, criação de partidos com acesso a fundo partidário antes de ter voto e outras mazelas que agravam os vícios políticos. Agora faz acenos para atrair ícones da velha política, como José Serra, para um hipotético governo seu.

Mas seu maior ônus inicial é explicar o avião fantasma da campanha, que vitimou tragicamente Eduardo Campos, e que ela também usava para viajar em campanha. Alguém pagava os pilotos, o combustível, a manutenção, as taxas aeroportuárias, e esses pagamentos deveriam estar na prestação de contas da candidatura de Marina Silva e de Eduardo Campos. Para fugir de indenizações às outras vítimas, ninguém assumiu ser o responsável pelo avião até agora. Está registrado em nome de uma empresa falida, mas seus donos dizem ter repassado o aparelho para empresários de Pernambuco, alguns envolvidos em escândalo de contrabando de pneus, outro apontado como intermediário da compra, sócio de Eduardo Campos em fazenda e presidente da estatal de gás pernambucana, nomeado por Campos.

A falta de notas fiscais por serviços de frete aéreo ou doação de campanha no valor equivalente traz fortes indícios de prática de caixa dois na campanha de Campos e Marina. Perguntada sobre o assunto ela até agora nada respondeu, em um comportamento semelhante ao de Aécio Neves (PSDB), que demorou a admitir ter usado o aeroporto do pequeno município de Cláudio (MG) irregularmente. Enquanto o deputado federal Beto Albuquerque (PSB), vice na chapa presidencial da ex-senadora Marina Silva, responde: “Isso não é problema nosso”.

Ela não precisaria pré-condenar ninguém, mas pelo menos deveria ter uma posição proativa dentro de seu partido e de sua campanha para esclarecer o assunto em vez de abafar pelo silêncio.

A questão do avião “fantasma” não é nenhum factóide, pois precisa ser esclarecida para indenizar as casas e estabelecimentos comerciais atingidos em Santos, e pode envolver caixa dois de campanha, negócios escusos entre empresas, partido e governo pernambucano. Tudo o que Marina Silva diz condenar em uma suposta nova política. É um mau começo esse silêncio, pois equivale a tentar varrer para debaixo do tapete os escândalos de corrupção que atinge amigos e aliados. Enfim, desconversar e engavetar, como nas piores das velhas políticas.

marina silva

Discurso de nova política encobre projeto de poder de antigas oligarquias econômicas

Marina traz de volta toda a chamada privataria tucana, que colocava no Banco Central a figura do operador de mercado, submetendo a os interesses da população à sanha de especuladores
por Helena Sthephanowitz publicado 23/08/2014 11:13, última modificação 23/08/2014 08:59
Zanone Fraissat/Folhapress
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Neca Setúbal e Marina Silva: a mão invisível do mercado escolheu uma candidatura que vale ouro

Foi curiosa a entrevista de Maria Alice Setúbal, sócia e irmã do presidente do Banco Itaú, e ex-coordenadora da campanha de Marina Silva (PSB), para o jornalista Fernando Rodrigues, na Folha de S.Paulo de ontem (22). Apesar de deixar mais dúvidas do que esclarecimentos, em um ponto foi bastante explícita, ao falar de economia com o objetivo de tranquilizar o mercado financeiro.

Primeiro disse ter compromisso de dar independência ao Banco Central. Afirmou ainda que os economistas gurus de Marina dão aval ao mercado financeiro, por suas posições pró-mercado. Mesmo tendo banqueiros como André Lara Resende na equipe, e ela própria ser uma banqueira, ou, como diz a imprensa, herdeira, por não exercer cargos executivos, Neca Setúbal, como é conhecida, disse que falta acrescentar gente com perfil de operador do mercado, o que deve ocorrer ao longo da campanha.

Talvez o tal operador de mercado seja o irmão Roberto Setúbal, presidente do Itaú, ou, para não dar muito na cara, alguém indicado por ele. Já a candidata Marina Silva, afiada com o discurso dos banqueiros, promete Banco Central autônomo por lei.

As declarações preocupam, porque o conceito de independência do Banco Central leva à pergunta: independência de quem? Ou o presidente do Banco Central responde à nação, podendo a soberania popular demiti-lo através de seu representante eleito para presidência da República, ou responde apenas ao próprio mercado financeiro, cujo capital hoje é apátrida, globalizado e sem compromisso com nenhum projeto nacional.

Os países em desenvolvimento que estão sendo bem-sucedidos, em geral, mantêm controle estatal sobre o Banco Central. A entidade tem sua autonomia para fazer uma governança técnica, mas não foge à obrigação de ter de prestar contas e mostrar desempenho satisfatório à nação, e não apenas a corporações financeiras privadas.

A proposta de Marina Silva significa uma privatização do Banco Central, portanto privatização do próprio dinheiro, da gestão da dívida pública e das reservas. Os bancos privados, em vez de serem regulados pelo Banco Central, passariam a controlá-lo, e sabemos bem quais são os interesses que seriam saciados antes de tudo.

Por trás do discurso, mais teórico do que prático, sobre uma suposta nova política, Marina Silva carrega consigo todo o retrocesso de dar plenos poderes a antigas oligarquias econômicas que enriqueceram muito desde a ditadura e depauperaram o povo brasileiro através de políticas perversas de concentração de renda às custas da exploração do suor da maioria da nação.

Marina traz de volta toda a política econômica da chamada privataria tucana, que colocava no Banco Central a figura do operador de mercado que Maria Alice Setúbal sugere, e toda a nação tinha de entregar ao altar do mercado sua cota de sacrifício. Fez parte dessa cota a venda da Vale a preço de banana, de fatias da Petrobras da mesma forma, o arrocho nos salários e aposentadorias, a venda da Telebrás arrecadando menos do que o investido para "saneá-la", a entrega dos bancos estaduais aos bancos privados e estrangeiros em vez de incorporá-los ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal.

Por pouco não foram entregues também estes dois bancos públicos, e geradoras de energia como Furnas e Eletrobrás. A volta da privataria em um governo de Marina assanha aqueles que querem concluir o serviço. E hoje a cobiça é muito maior, com a Petrobras tendo o pré-sal, e o Banco Central administrando reservas de US$ 380 bilhões. Imagine essa montanha de dinheiro público colocada nas mãos de operador de mercado privatista?

Marina fala de um suposto purismo político, mas no escurinho dos bastidores da campanha corre o mais sinistro toma lá dá cá que se pode considerar, que é com o chamado mercado.

Curiosamente, Maria Alice Setúbal deixou escapar em sua entrevista que já captou uma corrida de doadores de campanha querendo financiar a campanha de Marina. É a corrida do ouro.

eleições 2014

PSDB mostra Aécio como 'coronel' político na abertura do horário eleitoral na TV

Claro que marqueteiro do tucano parece tentar recuperar alguma desvantagem percebida em pesquisas de opinião. Mas primeiro programa do PSDB no horário da TV foi bem 'mixuruca'
por Helena Sthephanowitz publicado 20/08/2014 15:38, última modificação 20/08/2014 16:52
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Cena do programa do PSDB na abertura do horário político na TV. Início vacilante e problemas de abordagem

A surpresa no primeiro dia da propaganda eleitoral na TV dos presidenciáveis foi o programa do PSDB. Não por superar expectativas, mas por ser excessivamente mixuruca, parecendo trabalho amador de alunos de faculdade.

Inacreditavelmente, no momento em que amplos segmentos do eleitorado não têm a menor paciência para ouvir longos discursos convencionais de políticos oligarcas, o programa retratou Aécio Neves como um antigo coronel político saído dos anos 1950, fazendo na TV, do início ao fim, um daqueles antigos comícios que eram feitos em cima de caminhões, antes de a TV se tornar decisiva nas eleições.

O programa tucano usou de forma calculada os primeiros 40 segundos com seu candidato homenageando Campos, que perdeu a vida em trágico acidente aéreo. A escolha de começar assim teve o oportunismo de aproveitar a sequência. Pelo sorteio, o PSB de Campos foi o partido que abriu o horário eleitoral e o PSDB apareceu em seguida. O programa do PSB usou seus 2 minutos para homenagear o ex-governador de Pernambuco com cenas de arquivos. A fala de Aécio procurando mostrar pontos de identificação com Campos, procurou herdar eleitores de forma oportunista. Deu sorte (ou foi bem informado) de o PSB não ter colocado Marina para fazer este papel. Até aí pode-se questionar se a real intenção do tucano foi de homenagear de fato ou foi oportunismo calculado, mas não foi nesta parte que a propaganda foi muito mal.

A seguir, a imagem escurece como se acabasse um programa e começasse outro. E aí começou de fato o comício. Ruídos de rádio, imagens de antenas nos telhados, gente sintonizando o rádio, televisores ligados, no cotidiano de residências ou comércios, e entra o comício do tucano na TV. A princípio, ninguém presta atenção na telinha ou no rádio. Aos poucos, à medida em que o candidato vai falando as pessoas passam a se interessar pelo oratória, apesar de ele não dizer nada de impactante, limitando-se aos lugares comuns do discurso oposicionista.

Assim segue até o fim, com cenas de Aécio falando em estúdio, entrecortadas com populares o ouvindo no rádio e TV em seu cotidiano. Outra estética coronelista, demarcando quem fala e quem ouve, e a distância que separa a oligarquia no poder e o povo. A música começa suave e vai crescendo. Encerra com som e tucano triunfantes, como se um novo líder messiânico estivesse surgindo e arrastando multidões de eleitores no "gogó".

Pausa para um detalhe: enquanto Aécio discursava sobre deficiências de governo, mostrou a cena de uma brasileira buscando água em um rio e levando para casa uma lata d'água na cabeça. O correligionário e governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) não deve ter gostado. Impossível não associar a imagem à situação de racionamento de fato que existe na região metropolitana de São Paulo por falta de investir no sistema de abastamento de água do Sistema Cantareira.

Às vezes, estética retrô e ousadia podem até dar certo, mas é preciso estar em sintonia com os anseios contemporâneos. Claro que o marqueteiro de Aécio não é tão amador como a propaganda parece ser. O formato escolhido tenta corrigir alguma deficiência identificada na imagem do candidato junto aos eleitores. Nota-se o desejo de firmar uma aura de líder, de guia, de autoridade, de capacidade de dirigir, ainda que ao custo de reforçar a imagem coronelista de político oligarca. Resta saber se dará resultado.

A propaganda de Dilma acertou mais a mão. E não chegou a surpreender. Mostrou realizações e obras, pontos fortes do governo, como preservar empregos e salários, inseriu mensagens rebatendo as críticas sobre a economia com argumentos contundentes.

Trouxe o ex-presidente Lula reafirmando seu apoio e confiança irrestrita na presidenta e pedindo, objetiva e claramente, votos para ela. O tom intimista e de contato com o povo parece ter procurado atenuar a imagem de "chefona" que Dilma já tem. No final, também dedicou uma homenagem a Eduardo Campos cabendo a Lula, que tinha mais laços afetivos com o ex-governador, fazê-la.

O PSB fez um programa correto homenageando Campos com a imagens de arquivo do líder junto a populares. Não poderia ser diferente, mas falhou ao não inserir nenhuma fala de Marina Silva, ainda que fosse apenas em homenagem ao companheiro de chapa.

Talvez em decorrência das arestas que ainda estavam sendo aparadas nos bastidores do PSB e da Rede Sustentabilidade. Esse vácuo deixado acabou sendo preenchido por Aécio, ao engatar de forma oportunista sua homenagem ao fim do programa do PSB.

rebatidas

Dilma vence embate com Bonner e dribla agenda neoliberal da Globo

O estilo 'interrogatório' das perguntas feitas pelo 'Jornal Nacional' com os presidenciáveis, além de produzir momentos bizarros para o jornalismo, em nada ajudam o eleitor a formar sua decisão
por Helena Sthephanowitz publicado 19/08/2014 13:35, última modificação 19/08/2014 15:45
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Bonner, Poeta e Dilma, no Jornal Nacional: presidenta reafirma políticas sociais e deixa globais sem respostas

Talvez por já ter no passado enfrentado interrogatórios em condições bem mais adversas, nos porões da ditadura, talvez por dominar melhor os assuntos abordados pela dupla de entrevistadores do Jornal Nacional, na noite de ontem (18), a presidenta Dilma Rousseff conseguiu sair-se melhor nas perguntas intimidadoras do que o candidato Aécio Neves (PSDB) e do que havia conseguido fazer Eduardo Campos (PSB).

O formato parece ter objetivo certeiro: impor a pauta de interesses dos donos da emissora aos candidatos. Nas entrevistas com Aécio e Campos, grande parte das perguntas procuraram impor a agenda neoliberal do Estado mínimo, exigindo respostas que invariavelmente levaram os candidatos a citar como medidas "necessárias" cortar despesas públicas na área social, nas políticas redistributivas de renda e nos serviços como saúde e educação.

Na entrevista com Dilma, o objetivo foi tentar desconstruir as políticas de bem-estar social, de crescimento com melhor distribuição de renda e redução das desigualdades sociais. A ideologia que impera na Globo é aquela velha máxima da ditadura: primeiro o bolo precisa crescer para os ricos, vindo o crescimento da renda dos mais pobres a reboque, profecia que nunca se realizou nem no auge do neoliberalismo.

Mas Bonner não conseguiu ser bem sucedido neste seu embate com a presidenta. Ela conseguiu rebater com um argumento bastante forte quando disse "nós enfrentamos a crise, pela primeira vez no Brasil, não desempregando, não arrochando os salários, não aumentando os tributos, pelo contrário, diminuímos, reduzimos e desoneramos a folha de pagamentos. Reduzimos a incidência de tributos sobre a cesta básica. Nós enfrentamos a crise, também, sem demitir".

O duelo

Na primeira pergunta, sem encontrar um questionamento ético na conduta pessoal da presidenta, como ocorreu no caso da construção do aeroporto com dinheiro público beneficiando a família de Aécio Neves, o apresentador Willian Bonner questionou se o PT não descuidaria da questão ética e da corrupção, por haver no governo petista ministros nomeados e depois afastados por denúncias.

Dilma negou haver tolerância, citando mecanismos de combate a corrupção criados nos governos do PT de forma sistêmica, tais como autonomia da Polícia Federal, o fim da era do apelidado engavetador-geral da República na chefia do Ministério Público, a criação da Controladoria-Geral da União como órgão forte, a criação da Lei de Acesso à Informação e do Portal da Transparência.

Bonner interrompeu, questionando: "A senhora listou aqui uma série de medidas que foram providenciadas depois de ocorridos os escândalos". Na entrevista, Bonner e Poeta ficaram com a palavra mais de um terço do tempo total de 15 minutos –Dilma corrigiu o apresentador: "Não. Isso tudo foi antes."

A bizarrice da cena mostrou que Bonner veio com uma réplica pronta em sua pauta para rebater uma resposta que não veio – enfatizando a demissão de ministros. A presidenta deu uma resposta sobre a construção de sistemas de combate à corrupção, e Bonner não soube como interagir com a resposta. Um vexame.

Em outro momento, o apresentador questionou números econômicos que considera adversos, como inflação dentro da meta, mas próxima ao teto e crescimento nominal baixo do PIB. Dilma explicou que Bonner estava olhando pelo retrovisor o acumulado de doze meses passados, e que a inflação está em queda desde abril e no momento atual está próxima de zero. Explicou também que a atividade econômica tem uma melhoria prevista a partir do segundo trimestre.

Bonner rebateu, após referir-se a indicadores do semestre passado, se isso não seria “mero otimismo”. Dilma o corrigiu explicando que em economia existem índices que antecipam tendências econômicas e que estes apontam para um segundo semestre melhor do que o primeiro.

E assim foi. Ressalta-se aqui que o formato adotado pelo Jornal Nacional é pouco produtivo para informar bem ao telespectador eleitor. Fixa um tempo curto de 15 minutos para o total da entrevista, em que os entrevistadores tomam boa parte do tempo em longas formulações de perguntas sobre temas complexos, como em casos que tratam da economia, de um sistema de saúde gigantesco como o SUS, ou de políticas institucionalizadas de combate à corrupção.

Respostas satisfatórias para estes temas não cabem dentro do tempo dado. Para piorar, os entrevistadores interrompem a toda hora, muitas vezes de forma intimidatória, o que não ajuda em nada o eleitor a conhecer melhor os compromissos dos candidatos.

eleições 2014

Um Datafolha inconsistente: ninguém perde e só Marina ganha

É até crível que a ex-senadora, já conhecida do eleitorado, apareça com percentuais mais altos do que Campos. Mas esta pesquisa feita ainda sob a comoção da tragédia contém contradições 'esquisitas'
por Helena Sthephanowitz publicado 18/08/2014 15:22, última modificação 18/08/2014 15:30
cc/commons wikipedia
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Ainda é cedo para a grande mídia festejar os números divulgados pelo Datafolha sobre a candidatura Marina

O Datafolha foi rápido no gatilho. Mal saíram as notícias da morte de Eduardo Campos, no mesmo dia 13 registrou pesquisa de intenções de votos com o nome de Marina Silva no lugar do candidato do PSB. Os questionários foram aplicados na quinta e sexta-feira (14 e 15), sob a comoção da tragédia.

A sondagem registrou Dilma Rousseff e Aécio Neves com números exatamente iguais à última pesquisa do Datafolha – 36% e 20%, respectivamente. Sequer oscilaram dentro da margem de erro. Marina Silva surge com 21%, em empate técnico com Aécio.

Se Marina não tirou votos de Dilma e Aécio, de onde vêm as intenções de votos nela bem maior do que os 8% que Campos tinha? Segundo o Datafolha, vieram dos votos nos chamados nanicos, que caíram de 8% para 5%, dos brancos e nulos, que caíram de 13% para 8%, e dos indecisos, que caíram de 14% para 9%.

É crível que Marina ostente percentuais mais altos do que Campos, porque ela já era mais conhecida e pelo menos parte dos 19,6 milhões de pessoas que votaram nela em 2010 poderiam votar de novo. Mas é preciso aguardar outras pesquisas, pois esta contém contradições esquisitas.

Primeiro, a aprovação do governo Dilma subiu 6 pontos, a rejeição oscilou para baixo, e as intenções de votos espontâneas na atual presidenta oscilaram para cima e, mesmo assim, o Datafolha registrou os mesmos 36% de intenções de voto na sondagem estimulada que Dilma tinha em julho.

Segundo, é estranho Marina retirar votos de candidatos "nanicos" e não retirar nenhum ponto de Aécio Neves dentro do eleitorado oposicionista.

Terceiro, na pesquisa espontânea, quando simplesmente pergunta em quem votará sem apresentar uma relação de nomes, Dilma aparece com 24% e Aécio com 11%, mais da metade do que tem na sondagem estimulada. Marina aparece com 5% na espontânea e quatro vezes mais na estimulada. Isso indica que as intenções de votos da petista e do tucano são mais firmes e, da candidata do PSB, mais incertas. Indica que o cidadão pesquisado pode estar respondendo ainda sem refletir o suficiente a respeito.

Quarto, o momento de comoção pela morte de um presidenciável e a superexposição de Marina no noticiário como fato novo nas eleições representam um ponto fora da curva em um momento favorável a ela.

Quinto, é duvidoso que Marina seja capaz de capturar tanto assim votos brancos e nulos dos que rejeitam partidos políticos. De 2010 para cá, Marina não usou seu capital para se engajar de fato na luta pela reforma política. Preferiu tentar, tardiamente, criar mais um partido próprio, dentro das regras atuais, inclusive defendendo vícios da velha política, como a infidelidade partidária e a portabilidade de fundo partidário.

Não conseguiu reunir assinaturas suficientes para criar seu partido, Rede Sustentabilidade, a tempo e, pragmaticamente, filiou-se ao PSB que, hoje, tem características de frente partidária, com quadros que vão da esquerda de Roberto Amaral a oligarquias de direita como a família Bornhausen de Santa Catarina.

À medida em que a dinâmica da campanha ocorrer com Marina candidata de uma frente de seis partidos convencionais (PHS / PRP / PPS / PPL / PSB / PSL), mantendo as coligações estaduais, e aparecendo em fotos com velhos caciques políticos, ela será capaz de capitalizar tanto assim os votos da antipolítica?

Sexto, Marina ainda não enfrentou a troca de chumbo que outros candidatos enfrentam. A ameaça de retirar Aécio Neves do segundo turno já provocou reações na mídia atucanada, como críticas a atos e gafes no velório de Campos, capacidade administrativa, questionamento sobre quem a sustenta e sobre algumas de suas opiniões acerca de meio ambiente, política econômica etc.

Se o Datafolha em sondagem de primeiro turno já traz desconfianças em sua validade, mais dúvidas despertam ao testar cenários de segundo turno. Marina e Dilma estariam em empate técnico, com vantagem para a primeira de 47% contra 43%. É no mínimo curioso Dilma subir de 36% para 43% enquanto Marina subiria de 21% para 47%. Para Marina subir tudo isso precisaria capturar todos os votos que iriam para Aécio Neves e em todos os nanicos e mais 1% de indecisos ou nulos no primeiro turno.

Outra inconsistência é o número de brancos/nulos/indecisos cair de 17% na sondagem de primeiro turno para 10% na de segundo turno. O número é contraditório. Quem diz não votar nem em Dilma, nem em Marina, nem em nenhum outro candidato no primeiro turno, não votaria em nenhuma das duas no segundo turno. Quem se diz indeciso no primeiro turno, nem adianta perguntar em quem votaria no segundo. Essas contradições baixam muito o valor científico de uma pesquisa que deveria representar uma amostra do eleitorado.

Houve uma verdadeira euforia na mídia oposicionista ao governo federal, desde o acidente, para pressionar o PSB a lançar Marina Silva e forçar haver segundo turno. A pesquisa em um momento inadequado, devido à comoção, parece interessar a este propósito. Mas nem precisava, pois Marina tornou-se a candidata natural do PSB, ainda que a contragosto de muitos, pois o partido não tem nenhuma outra liderança com projeção nacional. Só a própria Marina poderia inviabilizar seu nome, se colocasse obstáculos intransponíveis ao PSB .

Terça-feira (19) inicia a campanha eleitoral na TV. Pesquisas a partir do início de setembro, já decorridas duas semanas de propaganda televisiva, devem captar melhor a tendência do eleitor, tanto na eleição presidencial como na de governadores.

Mesmo assim, principalmente em alguns estados, até a hora de se fazer a pesquisa de boca de urna, espera-se haver mudanças de posições, porque as próprias pesquisas tem indicado pouco ou nenhum interesse nas eleições pela maioria do eleitorado, o que pode levar muitos a decidirem de fato seu voto na véspera do pleito.

Oportunismo

O mau gosto e a indiscreta excitação da mídia com a morte de Eduardo Campos

Ao adotar o exercício da atividade partidária paralela ao jornalismo, a imprensa tornou-se mais pragmática do que as raposas políticas. Colunistas e editores mandam às favas o escrúpulo
por Helena Sthephanowitz publicado 15/08/2014 15:24, última modificação 15/08/2014 17:43
Reprodução
Mogli

Reprodução de cena do desenho 'Mogli, o Menino Lobo', da Disney, em que os personagens refletem 'colé a jogada'

Quem teve estômago forte para ver as manchetes dos principais jornalões, e o entusiasmo incontido de alguns de seus colunistas e chargistas, percebeu a dose de satisfação diante da morte de Eduardo Campos – ante a possibilidade de mudanças no cenário eleitoral.

As candidaturas de oposição estavam estagnadas nas pesquisas eleitorais. A chance de a eleição ser resolvida no primeiro turno crescia, com a entrada do horário eleitoral na TV, já que a coligação em torno da presidenta Dilma Rousseff dispõe de maior presença na TV. A possibilidade da entrada de Marina Silva na corrida presidencial causou excitação nas redações alinhadas à oposição, por surgir como um fato novo que pode causar alterações no cenário eleitoral.

Com a tragédia da morte do terceiro colocado, Marina desponta como candidata natural da coligação liderada pelo PSB, mas há resistências internas. Campos representava expectativa de poder para o PSB e de crescimento do partido. Se não vencesse em 2014, se projetaria como nome forte para 2018. Marina representa outro projeto, de seu próprio partido, a Rede Sustentabilidade. O PSB de protagonista na coligação vira coadjuvante.

Sob esse ponto de vista, a candidatura deixa de ser tão natural assim. Se Marina perder, o PSB corre o risco de sair da eleição menor do que entrou. Mesmo se ganhar, não comandará o governo, ficando no papel de base de apoio que já exerceu nos governos Lula e Dilma. Romper com o governo Dilma para lançar candidatura própria tinha uma lógica. Para apoiar outra candidatura de terceiros, há pessebistas que perguntam se não seria trocar seis por meia dúzia. Há dois caminhos a escolher: lançar Marina Silva ou escolher outra liderança fiel ao projeto do PSB para fortalecer o partido, demarcando posições.

Enquanto o PSB não se define, até por respeito ao tempo de render homenagens Campos, a mídia tradicional deflagrou campanha aberta por Marina Silva.

A Folha de S.Paulo estampa em manchete principal de primeira página que "Família de Campos quer candidatura de Marina". De fato, o irmão do ex-candidato, Antônio Campos, escreveu uma carta aberta, defendendo essa posição pessoal e como membro do PSB. Mas é questionável se, entre dezenas de declarações, a família gostaria de ser retratada como articulando candidatura antes mesmo do reconhecimento do corpo, como mostrou na manchete. Certamente, se consultada, preferiria uma manchete que homenageasse o legado e qualidades pessoais de Campos.

Mas nenhum jornal superou a O Globo, pela exploração política da morte e pelo mau gosto. Na manchete principal procura incitar seus leitores com uma interpretação deturpada e venenosa. Diz "PT pressiona para rachar PSB de Eduardo Campos". No subtítulo diz que "Lula e Dilma ligaram para presidente do partido, ligado a petistas". Não há nada no texto da notícia que indica ter havido qualquer tipo de pressão, a não ser a livre imaginação de quem escreveu.

Telefonemas entre pessoas, seja para condolências, seja para colocar-se à disposição, seja para simplesmente conversar com quem tenha afinidades em momentos de perplexidade, são normais, e nos meios políticos não é diferente. A própria Marina Silva deve ter feito seus telefonemas. Certamente o candidato Aécio Neves (PSDB), também fez telefonemas a lideranças do PSB com quem tem afinidades; Geraldo Alckmin deve ter conversado com seu vice do PSB, e nem por isso caberia uma manchete "PSDB pressiona..." O que não é normal é um jornal que deveria ser sério e fiel aos fatos fazer coisas que só marqueteiros fazem em campanhas eleitorais quando apelam para a baixaria.

Mas O Globo não parou na manchete. Se esmerou também no mau gosto da charge da capa. Colocou Marina Silva com olhos azuis (a cor dos olhos de Campos), soltando lágrimas que atingem Aécio e Dilma assustados, com o título "E de repente, olho azul é a cor mais quente para candidato a presidente!" Sem graça, de mau gosto, inconveniente, fora de hora e panfletária.

Desde que a mídia tradicional adotou o exercício da atividade política em paralelo ao jornalismo, tornou-se mais pragmática do que as chamadas raposas políticas dos partidos. Colunistas e editores mandam às favas o escrúpulo e colocam em prática com inédito imediatismo o ditado popular "Rei morto, rei posto". As raposas políticas têm mais compostura.

inconsistências

A escandalização do banal na Wikipédia e o direito de resposta

Edições sobre Miriam Leitão e Sardenberg no Wikipedia são condenáveis. Mas a Globo não costuma dispor de tantos minutos no JN para assuntos de mais gravidade para o interesse público
por Helena Sthephanowitz publicado 11/08/2014 18:16, última modificação 11/08/2014 19:27
Jornal Nacional (8/8/2014)/Reprodução
Miriam

Miriam: calúnia e difamação. Jornalista chegou a acusar governo, embora o Planalto tenha condenado a edição

No recente caso de edição de dados na Wikipédia nos verbetes sobre os jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, a partir de um aparelho conectado à rede sem fio do Palácio do Planalto, nada chamou mais atenção do que a desproporcionalidade com que a notícia foi tratada.

O Jornal Nacional, da TV Globo, dedicou seis minutos, dando ares de escândalo a algo que não passa de uma banalidade, ainda que condenável. A Wikipédia é um ambiente colaborativo, onde todos podem editar verbetes, compartilhando seu conhecimento. Há acertos e erros de boa fé. E há pessoas que em vez de compartilhar conhecimento procuram introduzir boatos e opiniões pessoais.

Mas o próprio ambiente abre espaço de discussão para contestar informações falsas ou sem a fonte que possa ser conferida. E a própria comunidade de usuários que edita a enciclopédia depura essas informações. Portanto, Miriam e Sardenberg podem atuar para corrigir eventuais informações que julguem indevidas no próprio ambiente da Wikipédia. O portal dispõe de um mecanismo que funciona mais do que um direito de resposta, pois permite até a remoção de informações falsas ou inconfiáveis.

O ingrediente a mais foi alguém, ainda desconhecido, ter usado a conexão de rede sem fio do Palácio do Planalto para editar informações dizendo que as análises econômicas de Leitão são “desastrosas” e que ela defendeu o banqueiro Daniel Dantas, quando ele foi acusado de tentar subornar um delegado da Polícia Federal. Ela disse que se sentiu difamada.

No caso de Sardenberg, a alteração dizia que as críticas à política de corte de juros do Banco Central tinham a ver com o fato de ele ser irmão de um economista da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

A rede do Palácio do Planalto deve ter milhares de usuários. Além de funcionários dos diversos escalões e terceirizados, quem visita o órgão, se solicitar, pode usar a rede a partir de seus celulares, tablets ou notebook. E milhares de pessoas visitam o Planalto, desde vários jornalistas que cobrem o Poder Executivo, passando por representantes de movimentos sociais, governadores, prefeitos, empresários, diplomatas, pessoas do povo, todos que são recebidos em audiência por algum órgão que funciona no prédio.

Óbvio que nenhum funcionário do Planalto, se tiver sido um funcionário, pode usar equipamentos públicos com esse fim. Qualquer funcionário que expõe uma organização a desgastes por estripulias pessoais é responsável pelo desgaste. Opiniões privadas devem ser feitas em computadores de casa ou externos, sem contaminar o ambiente de trabalho.

Dito isso, vem a reação desproporcional. Miriam Leitão acusou em sua coluna, mesmo diante de todas as evidências contrárias, de não ser um ato individual e sim uma política de governo contra jornalistas. Ora, aí quem exatamente está difamando quem? As acusações que ela faz contra todo um governo, e sem qualquer razão que justifique até o momento, são bem mais graves do que as banalidades ditas sobre ela na Wikipédia.

Os seis minutos no Jornal Nacional parecem ter mais a ver com o propósito de desgastar e constranger o governo federal do que com a dimensão do fato. Assuntos muito mais importantes para o interesse público não ganham essa exposição toda. A construção do aeroporto de Cláudio pelo governo de Minas Gerais durante a gestão de Aécio Neves, que é um assunto bem mais importante, por revelar o jeito patrimonialista de governar de um candidato a presidente da República, não mereceu essa atenção toda.

A desproporcionalidade mostra também o quanto o direito de resposta na imprensa tradicional é diferente, dependendo de quem é “vítima”. Miriam Leitão e Sardenberg tiveram boa parte dos seis minutos no Jornal Nacional para dar as suas versões sobre uma edição na Wikipédia. Já casos clássicos de erros jornalísticos, como a ficha falsa da presidenta Dilma Rousseff, escândalos forjados como o de Rubiney Quicoli, apresentado com empresário de uma mirabolante operação junto ao BNDES nas eleições de 2010, foram noticiados com estardalhaço, mas, quando desmentidos receberam, no máximo, segundos lacônicos.

Choque de gestão

Aécio ofereceu a profissionais em Minas um quarto do salário do Mais Médicos

Em evento, senador promete criar carreira nacional de médicos. Não menciona oferta salarial de processo de seleção quando era governador de Minas; e sinaliza que não renovará contratos do Mais Médicos
por Helena Sthephanowitz publicado 06/08/2014 12:34, última modificação 07/08/2014 19:33
José Cruz/ABR
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Convênio com Organização Pan-Americana de Saúde que trouxe cubanos para o Mais Médicos tem prazo de três anos

O candidato a presidente pelo PSDB, senador Aécio Neves, prometeu criar uma carreira nacional de médicos, caso seja eleito. A intenção foi apresentada durante reunião com associações médicas, na terça-feira (5), em Minas Gerais. O candidato, entretanto, não detalhou a proposta, nem informou como iria implementá-la em curto prazo. Principalmente porque o programa econômico do tucano defende corte de despesas com custeio, e tradicionalmente os governos do PSDB defendem o modelo de terceirização da saúde publica para Organizações Sociais.

Uma pista para entender o que o senador possa entender por carreira nacional é o que o tucano fez no passado quando foi governador de Minas Gerais. Em março de 2010, no final de seu segundo mandato como governador, a Secretaria Estadual de Saúde abriu processo seletivo para contratação de 79 profissionais, entre eles onze médicos especialistas.

O governo Aécio ofereceu salário de R$ 2.679,12 por jornada de 40 horas semanais. E isso para médicos em especialidades como cardiologia, gastroenterologia, neurologia e outras. E para ganhar esse salário, o edital exigia pós-graduação.

Com esse salário padrão 'choque de gestão tucano', pode-se até criar um plano de carreira no papel, mas com certeza os cargos jamais seriam preenchidos, pois o Ministério da Saúde não conseguiu adesão de médicos brasileiros em quantidade suficiente, pagando bem mais (R$ 10 mil mensais) e, por isso, precisou recorrer à contratação de estrangeiros. A oferta salarial é inferior, inclusive, à parcela recebida no Brasil pelos médicos cubanos que vieram para o programa Mais Médicos, do Ministério da Saúde.

Aécio não falou dessa experiência mineira, muito menos do salário de R$ 2.679 à plateia de médicos. Se dissesse, qual seria a reação?

Mas o senador tucano disse que a contratação de "cubanos" tinha "prazo de validade de três anos". É o período do contrato atual, indicando que, se for eleito, não renovará. De fato, o programa Mais Médicos prevê que a contratação de estrangeiros é temporária, e faz parte do programa a formação de mais médicos no Brasil, abrindo mais vagas nas faculdades de Medicina e abrindo novas faculdades em cidades do interior.

edital

Mas para suprir toda a necessidade da população hoje atendida por estrangeiros, isso levará bem mais do que três anos. Basta lembrar que a graduação em Medicina dura seis anos. Assim, as promessas do tucano retirariam a assistência médica recém-conquistada de boa parte da população em cidades do interior e regiões pobre das cidades grandes que não conseguiam oferecer atendimento por falta de interessados.

Faltando dois meses para as eleições, o tucano retirou da cartola uma proposta improvisada: criar 500 centros de especialidades para consultas com especialistas e exames. Convenceria mais se explicasse o que fez neste sentido em seus oito anos de governo de Minas e mais quatro de seu sucessor, já que o SUS é um sistema descentralizado para estados e municípios. Aliás muitos municípios já oferecem este tipo de atendimento, seja distribuído na rede de unidades de saúde tradicional, seja em unidades específicas, como foi feito em Diadema, e está sendo feito na capital paulista.