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Após seu partido derrubar governo para se proteger, Jucá quer ressuscitar MDB

Mergulhado em denúncias de corrupção, após papel decisivo no ataque à democracia do país, partido que teve três presidentes sem voto ensaia adotar o antigo nome
por Helena Sthephanowitz publicado 28/11/2016 12:16, última modificação 28/11/2016 13:49
Antonio Cruz / ABr
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"Tem que resolver essa porra. Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”

Talvez envergonhado por ter o terceiro presidente da República não eleito pelo voto (os outros dois foram Sarney e Itamar) e, desta vez, tendo subido ao cargo por meio de um golpe contra a democracia; talvez também por estar mergulhado em denúncias de corrupção de algumas de suas principais lideranças; cite-se ainda por ter o ex-governador Sérgio Cabral e Eduardo Cunha presos e por estar na mira da Lava Jato; e o que dizer da desgaste da falência do estado do Rio, que governa desde 2007? Talvez por tudo isso e mais um pouco, Romero Jucá anunciou no sábado (26), que o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) pretende mudar de nome, retornando ao nome antigo, MDB (apenas Movimento Democrático Brasileiro), usado de 1966 a 1979.

Jucá disse, em entrevista coletiva, que o assunto deve ser discutido em plenárias dos diretórios em todos os estados. Se aprovada, a mudança deve ser oficializada em dezembro para entrar em vigor em fevereiro de 2017.

A vida não anda mesmo fácil para o partido que um dia abrigou a resistência à ditadura instaurada no país após o golpe de 1964. A cada dia, correligionários e aliados de Temer vão aparecendo como protagonistas de novos casos de corrupção e desvios de recursos públicos

Na manhã da sexta-feira (25), enquanto Michel Temer lia carta de demissão do ministro da Secretaria de Governo e aliado de longa data, Geddel Vieira Lima – “Avolumaram-se as críticas sobre mim (...) Quem me conhece sabe ser esse o limite da dor que suporto. É hora de sair" –,  depois de vir à tona o escândalo de tráfico de influência em torno de um apartamento que comprara em uma aérea de preservação cultural e ambiental, em Salvador, a Polícia Federal (PF), também em Salvador, batia na porta de outro "grande amigo": o secretário e assessor do agora ex-ministro, Leonardo Américo Silveira de Oliveira, com um mandado de condução coercitiva. Ele é acusado pela PF de fraudar serviço de transporte escolar da criançada.

Leonardo – que também é presidente do PMDB da cidade baiana de Caetité, (indicado por Geddel para o cargo), ex-vereador, ex-candidato a vice-prefeito na chapa derrotada de Ricardo Ladeia (PSDB) na eleição deste ano – ocupa desde 29 de junho um cargo importante no governo Michel Temer, a subchefia de Assuntos Federativos da Presidência, na Secretaria de Governo (de Geddel), responsável pela relação com prefeitos.

Durante investigações da chamada Operação Vigilante, a PF concluiu que uma empresa de Leonardo, a Serbem Serviços e Locações, que presta serviço de transporte escolar na cidade de Malhada das Pedras, a cerca de 600 quilômetros de Salvador, cometeu uma série de delitos: desvios de dinheiro publico; fraudes em licitação para contratação de empresas vinculada a prefeitos, vereadores e gestores municipais; superfaturamento, por meio de adulteração de quilometragem percorrida e cobrança pela prestação de serviço de transporte nunca prestados, por exemplo, em dias sem atividade escolar, inclusive período de férias.

Segundo a investigação, o valor da quilometragem cobrada costumava ser mais do que o dobro da distância real percorrida. Relatório da PF afirma ainda que o prejuízo estimado aos cofres públicos da cidade é de mais de R$ 3 milhões

O mandado de prisão não chegou a ser cumprido porque Américo estava “descansando”, na cidade de Petrópolis (RJ). Mas ele prometeu se entregar hoje (28) na sede da PF em Salvador.

Apesar das denúncias envolvendo a dupla, é bem provável que Geddel e Leonardo continuem juntos. O primeiro deixou a pasta, mas não o governo. Saiu da cúpula do Executivo, com sua coleção de inquéritos no Supremo Tribunal Federal: sete, sendo dois da Lava Jato.

Continuará dando cartas no governo Temer, mas sem cargo. Em Brasília, correm conversas de que Geddel tem a promessa do presidente de voltar ao centro do poder aos poucos. Como Romero Jucá, que ficou 12 dias no Ministério do Planejamento e caiu após o vazamento do áudio de conversa dele com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado: "Tem que resolver essa porra. Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”. Mas foi escolhido por Temer para ser o líder do governo no Congresso – cargo que dá a Jucá status de interlocutor do presidente para encaminhar projetos, negociações e votações de interesse do governo.

Nada mal para quem afirmou que só um golpe que derrubasse Dilma Rousseff "estancaria a sangria" que se anunciava.

propaganda enganosa

Combate à corrupção 'esqueceu' do mensalão do DEM, que corre risco de caducar

Se é para acabar com a corrupção como estão prometendo, é preciso explicar dois casos recentes de impunidade explícita ignorados pela imprensa envolvendo figurões do partido
por Helena Sthephanowitz publicado 22/11/2016 16:55, última modificação 22/11/2016 16:58
Memória EBC / Fotos Públicas
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José Roberto Arruda e Demóstenes Torres, flagrados em operações da PF, prestes a se livrar de processos

Promotores, investigadores, delegados e um juiz (Sérgio Moro) têm afirmado em entrevistas que a Operação Lava Jato nasceu para acabar com a corrupção. Ótimo, mas se é para acabar com a corrupção como estão prometendo, como explicar dois casos recentes de impunidade que não tiveram nenhum destaque na imprensa e, obviamente, passaram despercebidos do público?

Alguém lembra do mensalão do DEM?

Vamos lembrar rapidamente: em 2012, o então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ofereceu denúncia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra 39 envolvidos em crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e desvio de dinheiro público, no âmbito das investigações da chamada Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal.

Entre os denunciados, alguns da cúpula do partido: o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (que anteriormente tinha sido do PSDB), o ex-vice-governador Paulo Octavio, e o tucano Márcio Machado, que, na época, era o presidente do PSDB brasiliense, além de secretários de governo, deputados distritais e membros do Tribunal de Contas do DF.

Arruda foi apontado pelo Ministério Público Federal como chefe da organização criminosa, acusado de integrar esquema que fraudava contratações em troca de propina no “mensalão do DEM”, chegou a ser preso preventivamente por dois meses, deixou o DEM para não ser expulso e foi cassado pela Justiça Eleitoral.

Arruda e Machado foram condenados a quatro anos e oito meses de prisão em ação impetrada pelo Ministério Público do DF. O tucano era secretário de Obras do governo Arruda, com quem contratou a reforma do ginásio Nilson Nelson, em 2008, por R$ 10 milhões, sem licitação, sendo que R$ 8 milhões, segundo relatório da Polícia Federal, eram propina.

Como a sentença foi de primeira instância, todos estavam recorrendo em liberdade.

Pois bem. Oito anos depois, mais precisamente no dia 20 de outubro passado, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca, do Superior Tribunal de Justiça, atendeu a um pedido de vista do ministro Felix Fischer e suspendeu a fase de depoimentos e interrogatórios e mandou parar todo o processo nas ações penais que envolvem José Roberto Arruda. A decisão vale igualmente para todos os 39 réus. E sem data para julgamento.

O “mensalão do DEM”, um dos maiores casos de corrupção da política brasileira, ganhou repercussão nacional em novembro de 2009 por causa dos vídeos em que políticos, entre eles Arruda, recebiam dinheiro vivo oriundo de desvios de recursos públicos. Arruda, agora no PR, foi candidato a governador do Distrito Federal em 2014. O ex-vice-governador Paulo Octávio (hoje no PP) é dono de jornal em Brasília.

Nas investigações da Operação Castelo de Areia, apurou-se também que Arruda teria recebido 800 mil dólares ilegalmente para sua campanha em 1998. Em depoimento, Arruda disse que não lembrava de doações da Camargo Correa. Nas eleições de 2002, teria sido novamente beneficiado com mais de dois milhões, desta vez por uma empresa coligada à Camargo Correa. Novamente Arruda alegou que não lembra das tais doações.

O Ministério Público da Suíça entrou no caso depois de receber informações da Procuradoria-Geral da República em setembro de 2012 e bloqueou US$ 10 milhões depositados em nove contas secretas de Genebra e Zurique, por suspeitar que o dinheiro esteja ligado ao mensalão do DEM do Distrito Federal. Documento mostra que as contas foram congeladas e, depois disso, houve duas tentativas de reverter a decisão. E não se teve mais notícias do caso.

Demóstenes Torres

Também no mês passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou todas as provas obtidas em gravações telefônicas contra o senador cassado Demóstenes Torres (ex-DEM) referentes às operações Vegas e Monte Carlo, que investigaram os negócios do bicheiro Carlinhos Cachoeira entre 2008 e 2012.

O ex-senador, que responde a oito processos no Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO), é acusado de corrupção passiva e exercício de advocacia administrativa por interceder a favor dos interesses de Cachoeira e da Construtora Delta. Devido às relações com o bicheiro, Demóstenes foi cassado por quebra de decoro parlamentar, em julho de 2012.

Na seção de julgamento para decidir se Demóstenes ficaria livre, ou não, o ministro do STF Dias Toffoli disse que foram invalidadas todas as gravações telefônicas de Demóstenes Torres nas operações Vegas e Monte Carlo por serem consideradas ilegais – foram autorizadas pela primeira instância, mas teria de ser autorizada pela segunda instância, segundo despacho de Toffoli.

Agora, o tribunal goiano deverá analisar se restará alguma prova para justificar a continuidade das investigações. Caso a resposta seja negativa, o que é mais provável acontecer, todo o processo será arquivado e Demóstenes Torres sai livre até para concorrer a cargo político nas próximas eleições.

Abaixo, cópia do despacho que suspendeu o processo contra o DEM:

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Governo Temer

MPF quer explicações da farra das viagens dos ministros nos aviões da FAB

Para os amigos, a porta do cofre não tem chave. Para os mais pobres, cofre trancado e saco de maldades
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 14/11/2016 12:45
Valter Campanato/Agência Brasil
Serra voador

Um dos recordistas, Serra usou aviões da FAB por 44 vezes para voltar a São Paulo

O Ministério Público Federal do Distrito Federal  (MPF-DF) abriu  inquérito para investigar a farra dos voos nos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). A investigação vai apurar irregularidades dos ministros de Michel Temer, que em cinco meses de governo fizeram 781 viagens nos aviões pelo país.

Levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo revelou que 238 viagens tiveram como destino ou origem a cidade da residência dos ministros, mas sem uma justificativa nas agendas oficiais publicadas na internet.

Ainda de acordo com a publicação, um voo entre Brasília e São Paulo, com uma aeronave de modelo parecido com as utilizadas pela FAB e usada pelos ministros, custa cerca de R$ 76 mil, conforme cotação numa empresa de táxi aéreo. O trajeto entre Brasília e Porto Alegre sairia por R$ 136 mil. E da capital para Salvador, R$ 143 mil.

Os ministros que mais utilizaram aviões da FAB sem divulgarem agendas com justificativa para os voos são os que moram em São Paulo. O campeão de voos é o ministro da justiça Alexandre de Moraes (PSDB), com 85 viagens. Dessas, 46 não foram justificada na agenda e 64 foram para cidade de São Paulo, onde reside.

José Serra (PSDB), das Relações Exteriores, fez 52 viagens. Do total, 43 não foram justificadas na agenda e 44 foram para São Paulo, onde mora.

Gilberto Kassab, ministro da Ciência e Tecnologia usou voo da FAB em 65 viagens. Quase um terço (21) não consta da agenda. Outras 44 foram para São Paulo, cidade onde o ministro mora.

A FAB, que se negava a divulgar o valor desembolsado pelos cofres públicos com voos, sob a justificativa de que “o custo da hora de voo das aeronaves militares é informação estratégica e, por isso, protegida”, terá agora de prestar esclarecimentos. O procurador  do Ministério Público Federal, Paulo José Rocha, encaminhou pedido de explicações à FAB. O órgão terá 15 dias para repassar informações sobre as viagens, como as justificativas dos voos e os custos dos deslocamentos.

Os alvos da representação são os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Alexandre de Moraes (Justiça), Raul Jungmann (Defesa), José Serra (Relações Exteriores), Henrique Meirelles (Fazenda), Maurício Quintella (Transportes), Blairo Maggi (Agricultura), Mendonça Filho (Educação), Marcelo Calero (Cultura), Osmar Terra (Desenvolvimento), Ricardo Barros (Saúde), Marcos Pereira (Indústria), Fernando Coelho Filho (Minas e Energia), Dyogo Oliveira (Planejamento), Gilberto Kassab (Ciência e Tecnologia), Sarney Filho (Meio Ambiente), Leonardo Picciani (Esporte), Marx Beltrão (Turismo), Helder Barbalho (Integração), Bruno Araújo (Cidades) e Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo).

Explicações não param no MPF

O presidente da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, Mauro Menezes, afirmou que decidiu colocar as 781 viagens nos aviões da FAB na pauta da próxima reunião do colegiado, dia 21 de  novembro, por considerar preocupantes, além de afetar os esforços de promover a economia de recursos públicos, inspirados em princípios de impessoalidade e da integridade fomentados pelo decreto presidencial de 2015. A  publicação do decreto faz parte das medidas de ajuste fiscal que o governo da presidente Dilma vinha  adotando  desde 2015 para reduzir gastos e reequilibrar as contas públicas.

A conduta dos ministros é passível de questionamentos porque desrespeita duas normas legais. Primeiro, o decreto 8.432, assinado pela então presidente Dilma Rousseff em maio do ano passado, que proíbe que ministros usem  aeronaves para viagens a seus domicílios, estabelecendo que só poderão voar em aviões da FAB no caso de missões a trabalho e “em casos especiais”.

Em segundo, uma lei de 2013, que determina que os ministros deverão divulgar diariamente na página eletrônica do ministério sua agenda de compromissos oficiais.

Para os amigos, dinheiro não é problema

• Festa para homenagear o samba: R$ 600 mil
• Jantar em troca de votos da PEC 241 : R$ 50 mil
• R$ 120 milhões em propaganda na TV e em jornais para enganar o povo
• Gastos de R$ 29 milhões com os cartões corporativos em quatro meses. Desde o início do governo Temer, 48% de todas as despesas com cartão corporativo estão classificadas como sigilosas.
• Cancelamento e bloqueio do Bolsa- Família economizar R$ 2,4 bilhões.
• Minha Casa Minha Vida deixa de atender as famílias de baixa renda.
• Redução de investimentos de R$ 4,8 bilhões do Programa Minha Casa, Minha Vida para gerar economia de R$ 3,8 bilhões.
• Ampliação do financiamento, em até R$ 3 milhões, para imóveis destinados aos mais ricos.
• Diminuição de R$ 400 milhões.

E as panelas continuam mudas

sem licitação

Em busca de apoio dos artistas, Temer gasta mais de R$ 600 mil com homenagem ao samba

Assessoria do Palácio do Planalto afirmou que valor desembolsado é o "justo e possível" para um evento do porte da cerimônia de premiação
por Helena Sthephanowitz publicado 08/11/2016 11:48, última modificação 08/11/2016 14:54
Valter Campanato/Abr/fotos públicas
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Neguinho da Beija-Flor beija a mão de Marcela diante do olhar de satisfação de Temer

No  mesmo dia em que Michel Temer autorizou o cancelamento de 469 mil cadastros de famílias carentes e em que outros 654 mil tiveram o benefício do Bolsa Família bloqueado, para fazer economia de R$ 2,4 bilhões, o presidente aprovou o gasto de mais de R$ 600 mil para realização de uma festa para 600 convidados, sem licitação, exclusiva para homenagear o samba, na noite de ontem, no Palácio do Planalto, em cerimônia de Entrega da Ordem do Mérito Cultural 2016 a Dona Ivone Lara.

Segundo o Diário Oficial da União, a contratação de uma empresa de eventos custou R$ 596,8 mil aos cofres públicos. Mas no Diário não aparecem os nomes dos artistas contratados pela empresa carioca Treco Produções Artísticas Ltda.

Além desse contrato, há um outro também publicado no Diário, informando o pagamento, sem licitação, de R$ 15 mil para Fafá de Belém cantar o Hino Nacional. Entre os artistas que se apresentaram, estava também o cantor de samba Neguinho da Beija-Flor. O valor do cachê não foi divulgado.

Mais R$ 23 mil foram gastos na compra do livro Outro, de Augusto Campos, para presentear os convidados.

Para justificar as dispensas de licitação, o Ministério da Cultura afirma que artistas como, Márcio Gomes, Áurea Martins e André Lara são consagrados pela crítica e pela opinião pública.

A festa fechada ao público teve ainda o presidente Michel Temer e esposa Marcela Temer para animar a plateia.

O agrado para convidados selecionados tem motivos: primeiro, o medo que Temer tem de ser vaiado. A classe artística tem feito protestos contra o governo de Temer dentro e fora do Brasil. A cantora Fernanda Takai disse na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de domingo (6), que é “Fora, Temer”, e que críticas por apoiar a ex-presidenta Dilma Rousseff não a farão se acovardar.

Caetano Veloso tem aparecido na imprensa segurando cartaz “Fora, Temer”.

No sábado (5), a atriz brasileira Sônia Braga criticou o impeachment de Dilma e pediu que os brasileiros defendam a democracia no Brasil. A atriz participou de evento do filme Aquarius, na Flórida, nos Estados Unidos: "Há um golpe no Brasil; não é um golpe militar", disse Sonia, em uma conversa com o público após a projeção do filme que se tornou o símbolo contra o golpe.

O segundo motivo são as conversas que correm em Brasília: Temer pode ser retirado do governo ainda em 2017, o novo presidente seria escolhido em votação indireta no Congresso, com os votos dos 81 senadores e dos 513 deputados. Uma matéria do jornal Folha de S.Paulo apurou que alguns dos nomes cogitados são o do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Jobim sai em desvantagem por sido consultor da Odebrecht.

A assessoria de Temer afirmou que o valor desembolsado é o "justo e possível" para um evento do porte da cerimônia de premiação. Pode até ser legal. Mas é imoral. Principalmente neste momento em que Temer afirma que não há dinheiro para educação, saúde e para o Minha Casa, Minha Vida.

E assim Temer volta ao tempo do império, quando bailes exclusivos, mas pago com dinheiro público, eram promovidos para a corte do imperador. Lembra o baile da Ilha Fiscal, quando o Visconde de Ouro Preto, braço direito do imperador D. Pedro II teve a "brilhante" ideia de tirar verba do Ministério da Viação e Obras Públicas para promover um baile inesquecível em apoio à família real contra movimentos republicanos. A fortuna gasta no baile equivalia a 10% do orçamento anual da Província do Rio de Janeiro. Deu no que deu. Seis dias depois da festa foi proclamada a República.

Hoje o "baile" de Temer está tirando dinheiro da educação, saúde, dos programas sociais e das próprias manifestações culturais populares antes apoiadas pelo Ministério da Cultura. Causa mais estranheza a contradição entre querer privatizar até o pré-sal e não arrumar pelo menos patrocinadores privados, como o Grupo Globo, o Banco Itaú ou alguma cervejaria, para bancar a festança.

Para apoiar o samba como tradição e manifestação popular, melhor seria embarcar no "Trem do Samba" no Rio de Janeiro, evento existente há mais de 20 anos para desfrute da população. Vários trens fazem viagens com sambistas cantando junto aos passageiros no trajeto da Central do Brasil até o bairro de Oswaldo Cruz, berço de várias escolas de samba. Nas estações também há palcos fixos para shows.

Pensando bem, seria melhor o presidente declinar de comparecer pessoalmente pelo retrospecto de vaias e gritos de "Fora, Temer", mesmo em ambientes com ingressos mais caros como na Olimpíada.

exploradores

Aécio derrotado em 2016 pode ser prévia de Alckmin em 2018

A eleição acabou, mas o senador só tem um assunto: o fim do PT e a desconstrução da política. Caminho parecido trilha o vitorioso Alckmin, que corre o risco de ser devorado antes de chegar ao Planalto
por Helena Sthephanowitz publicado 03/11/2016 11:33, última modificação 03/11/2016 11:42
George Gianni / PSDB
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Aécio e Alckmin, políticos profissionais que pregam a negação da política para favorecer seus candidatos e esquecendo que logo voltarão a ser candidatos também

Pelo menos na maioria das cidades, a recém terminada eleição municipal foi marcada pela descrença, pela antipolítica, a eleição da desesperança do eleitor. Lembra a história da dupla de exploradores trilhando a floresta. Ao se depararem com um urso faminto, um deles tira as botas e começa a calçar tênis de corrida. O outro questiona, perplexo: “Não adianta, com botas ou tênis o urso corre mais rápido do que nós”. E o primeiro retruca: “Eu sei, mas só preciso correr mais rápido do que você”.

De certa forma o eleitor cético com a política agiu como o urso devorando os candidatos e partidos mais expostos, por que mais evidentemente exerceram o fazer política. Com isso, quem escapou de ser devorado foram os que se apresentaram mais aptos no discurso da negação da política.

E, nesta eleição, o partido que mais apostou na descrença, na desqualificação do debate e na negação da política foi o PSDB. Estratégia porém, cujo resultado para o senador Aécio Neves destoou. Em nova derrota à sua biografia, seu candidato à prefeitura de Belo Horizonte, o também tucano João Leite, liderava a campanha com certa folga, até aparecer ao lado de Aécio nos programas da TV. A partir dali, foi perdendo fôlego e Alexandre Kalil (PHS) se elegeu. Aécio chegou a passar dias consecutivos em Minas para, segundo ele próprio, “ajustar “ os rumos da campanha de seu apadrinhado.

A derrota de Aécio é maior, porque foi ele o principal cacique político fazendo campanha contra a política, sempre conspirando publicamente pelo golpe, apostando no "quanto pior, melhor". Só que foi pior para ele também: em Minas já se pergunta se Aécio consegue se reeleger ao Senado em 2018.

Em 2014, ele fracassou em casa: derrotado por Dilma Rousseff na disputa pela Presidência, também viu seu candidato a governador, Pimenta da Veiga (PSDB), perder para o petista Fernando Pimentel.

Aécio parece não ter entendido o recado da urnas, especialmente a mineira, e, mais uma vez, se mostra mau perdedor, agora no plano das eleições municipais.

Semana passada, ao ser questionado por jornalistas sobre como via o desempenho do governador Geraldo Alckmin (PSDB) na disputa municipal de São Paulo, especialmente em relação ao seu próprio, o senador fez de conta que a pergunta era outra, fugiu da resposta e despejou: “desalojamos o PT de capitais". Em outras entrevistas, desconversou quando perguntado se a nova derrota em Minas atrapalharia seus planos para 2018, e limitou-se novamente a atacar o PT.

Dentro do ninho tucano, Alckmin arrastou as fichas. Só não será o candidato do PSDB a presidente se não quiser. Ou se não puder, caso o "santo" – apelido de algum destinatário de doações (ou serão propinas?) que aparece nas planilhas da Odebrecht –, vier a abater sua carreira política, considerando que sobre o governador de São Paulo recaem as principais suspeitas de ser o político por trás do apelido.

Porém, a vitória inegável de hoje, tanto do PSDB como de Alckmin, veio junto com vários sinais de alerta de que a satisfação de hoje pode não se repetir em 2018, por vários motivos.

Primeiro, porque sempre foi pequena a transferência de votos de prefeitos para candidatos a presidente, pelo menos desde a redemocratização.

Segundo porque, mesmo sendo a vitória de João Dória em São Paulo uma vitória também do governador paulista, o prefeito eleito fez sua campanha toda calcada em uma imagem de empresário, um gestor competente, mas um "novato" em política.

Portanto, muito diferente do perfil de Alckmin, que foi político a vida toda, desde quando se elegeu vereador ainda estudante. A imagem de Alexandre Kalil, o carrasco de Aécio em Belo Horizonte, também é de "novato" na política.

Em 2018, se o eleitor continuar negando a política, como vem sendo estimulado pelo PSDB, inclusive, poderá preferir um candidato "novato", em vez do veteraníssimo Alckmin. Não por acaso, Alckmin tem pontuado tão mal quanto Aécio em pesquisas de intenções de votos para 2018.

Terceiro, porque o urso da piada, se pegou principalmente o PT em 2016, cruzará com vários aventureiros, do PSDB e do PMDB. E estes estarão com botas de chumbo, carregando todo o contencioso de arrocho e de empobrecimento da população, decorrente do golpe do impeachment e da ascensão de Temer ao poder, com apoio tucano.

Além disso, por mais blindados que sejam, as delações da Lava Jato estão chegando nos tucanos. E o povo costuma ser implacável com quem é pego cometendo o mesmo crime de que acusa seus oponentes. Parte da derrocada de Aécio deve-se a se exibir como caçador e virar caça, tratando-se de escândalos de corrupção.

Alckmin corre o risco de repetir Covas quando se candidatou a presidente. Em 1986, ainda no PMDB, havia sido o senador mais votado do Brasil, no embalo do plano Cruzado de Sarney. Três anos depois, nas eleições presidenciais, mesmo chegando a ter o apoio inicial da Rede Globo, não resistiu à decepção generalizada pelo fracasso do Cruzado. Quem chegou ao segundo turno foi quem se apresentou com imagem de "novato", Fernando Collor de Mello, vencendo Luiz Inácio Lula da Silva.

Alckmin tem muito a comemorar dentro do PSDB. Nas ruas terá de encarar o urso faminto, o povo, quando acordar da hibernação da antipolítica, e sentir na própria pele o efeito das medidas amargas que estão sendo votadas no Congresso, com apoio tucano.

Na mesa

Denúncia de caixa 2 para Serra envolve tucanos com contas em paraísos fiscais

Delação dos executivos da Odebrecht de caixa 2 para os tucanos na Suíça dá chance à Lava Jato de mostrar que realmente não tem cor partidária
por Helena Sthephanowitz publicado 28/10/2016 16:12, última modificação 28/10/2016 20:22
Valter Campanato/ Agência Brasil
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José Serra aparece em delação premiada da Odebrecht, que afirma ter contribuído para caixa 2 milionário em campanha

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a Odebrecht apontou dois nomes como operadores de R$ 23 milhões repassados pela empreiteira, via caixa 2, à campanha presidencial de José Serra, agora ministro no governo de Michel Temer, na eleição de 2010 – corrigido pela inflação do período, o valor equivale a R$ 34,5 milhões.

A empresa afirma que parte do dinheiro foi transferida por meio de uma conta na Suíça, em um acerto com o ex-deputado federal Ronaldo Cezar Coelho (PSD-RJ), ex-PSDB. Ronaldo fez parte da coordenação política da campanha de Serra. Já o caixa dois operado no Brasil foi negociado com o ex-deputado federal tucano Márcio Fortes (RJ), amigo de Serra.

Os repasses, ainda de acordo com a Folha, foram mencionados por dois executivos da Odebrecht, durante negociações do acordo de delação premiada da empreiteira com a Procuradoria-Geral da República, em Brasília, e com a força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba. São eles Pedro Novis, presidente do grupo entre 2002 e 2009 e atual membro do conselho administrativo da holding Odebrecht S.A, e o diretor Carlos Armando Paschoal, conhecido como CAP, que atuava no relacionamento com políticos de São Paulo e nas negociações de doações para campanhas.

Novis e Serra são amigos de longa data. O tucano é chamado de "vizinho" em documentos internos da empreiteira, por já ter residido em endereço próximo ao amigo. Serra também era identificado como "careca" em planilhas encontradas pela PF. O nome do atual chanceler de Temer também aparece na lista de políticos encontrada na casa de Benedicto Barbosa da Silva Júnior, o BJ, que é presidente de um dos braços da empreiteira – a Odebrecht Infraestrutura – e que foi preso durante a 23ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Acarajé, em fevereiro deste ano.

Se a Lava Jato tiver realmente interesse em investigar a fundo o ninho tucano descobrirá a fortuna de Ronaldo Cézar Coelho na Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.

Ex-deputado e ex-banqueiro, Ronaldo foi um dos fundadores do PSDB nos anos 1980, tendo presidido o partido no Rio de Janeiro. Em 2010, ele foi tesoureiro informal da campanha de José Serra a quem emprestava jatinho e helicóptero particulares para o então candidato a presidente fazer campanha Brasil afora.

Também em 2010 Ronaldo foi primeiro suplente do candidato ao Senado Cesar Maia (DEM-RJ), ocasião em que apresentou uma declaração de bens ao TSE contendo algumas curiosidades:

Da fortuna declarada de mais de meio bilhão de reais, quase a metade, R$ 228 milhões, estão no exterior, como dito acima, no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. São pelo menos duas as razões para manter dinheiro em paraísos fiscais: ocultar a origem do dinheiro, ou fugir do pagamento de impostos no país do correntista. Ou seja, fortuna declarada, mas origem desconhecida.

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Declaração de renda à Justiça Eleitoral de Ronaldo Cezar Coelho mostra fortuna em paraíso fiscal

O patrimônio de Ronaldo Cezar Coelho subiu de R$ 28 milhões em 1996 para R$ 565 milhões em 2010, crescimento de 1.937%, assim declarado: R$ 28 milhões em 1996, R$ 69 milhões em 1997, R$ 298 milhões em 2001, R$ 493 milhões em 2006 e R$ 565 milhões em 2010.

Sua fortuna no exterior passou a ser declarada a partir de 2001 (R$ 134 milhões). Passou para R$ 204 milhões em 2006, e em 2010 era de R$ 228 milhões.

Sangria

Ainda que a origem da fortuna seja totalmente legal (Ronaldo foi dono do banco Multiplic e da financeira Losango), é – ou deveria ser – questionável que um homem público se esforce para fugir de pagar impostos no país onde vive. Em vez de contribuir para criar empregos e riquezas no Brasil, porém, ele prefere aplicar metade da fortuna no exterior, evadindo capitais.

É gente como Ronaldo Cezar Coelho que quis colocar o tucano José Serra no poder em 2010, e ter influência na política monetária do Banco Central, além de influir no Ministério da Fazenda, do Planejamento, no BNDES, lembrando ainda que ele era deputado federal à época.

Maia

Na eleição de 2006 Ronaldo também foi o maior financiador da campanha de Rodrigo Maia (RJ), presidente do DEM, atualmente presidente da Câmara. Também o financiaram outras instituições ligadas ao mercado financeiro. Em troca, César Maia (pai de Rodrigo), que era o prefeito do Rio de Janeiro, empossou Ronaldo Cezar Coelho na secretaria carioca de Saúde. Em sua gestão, os hospitais municipais entraram em colapso, a ponto de sofrer intervenção do governo federal para voltar a funcionar.

O amigo

Já Márcio Fortes é conhecido como "o cara da arrecadação" entre o tucanato. Ele atuou nas campanhas de Fernando Henrique Cardoso à Presidência, na década de 1990, na campanha de 2010 de Serra e na de 2014 de Aécio Neves.

Fortes, integrante da direção nacional do PSDB e ex-presidente do BNDES, é um dos mais de 8 mil brasileiros da lista de correntistas do HSBC na Suíça vazada por um ex-funcionário do banco, no escândalo conhecido como SwissLeaks, lá fora, e Suiçalão, no Brasil.

De suas três contas listadas no banco britânico, o tucano abriu duas em 1991, quando presidia o Banerj, banco estatal fluminense. Elas foram encerradas em 2003 e 2004, mas nenhuma foi incluída na declaração de bens entregue ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) em 1998, quando Fortes se elegeu deputado.

A terceira conta foi aberta em 2003 e tinha US$ 2,4 milhões entre 2006 e 2007, período ao qual a lista do SwissLeaks faz menção. Essa conta bancária também não estava na declaração entregue à autoridade eleitoral para a campanha de 2006.

Fortes foi presidente do BNDES na gestão José Sarney, entre 1987 e 1989. Depois de ajudar a fundar o PSDB, assessorou o primeiro candidato tucano à Presidência, Mário Covas. Em 1994, foi eleito deputado pela primeira vez, com a maior votação do Rio.

Em 2008, a Polícia Federal instaurou inquérito para investigar a empresa fantasma Gold Stone, emissora de notas fiscais frias para o PSDB e para a campanha de Serra a presidente em 2002. O fisco encontrou, por exemplo, depósitos na conta da Gold Stone, de 2000 a 2003, de R$ 6,87 milhões sem origem comprovada, segundo relatório de auditoria concluída em 2006. Na época, a Delegacia da Receita Federal de Brasília, suspendeu a imunidade tributária do PSDB e o autuou em aproximadamente R$ 7 milhões.

Pois bem. Depois disso tudo, a Operação Lava Jato tem nas mãos uma chance de mostrar que não tem bandeira partidária e que a lei é para todos, independente do partido político. Moro, Polícia Federal e Ministério Público já foram acusados de usarem a operação para investigar exclusivamente o PT, ou, somente para prender petista.

É aguardar para ver.

fora da regra

Teoria do domínio do fato favorece Lula, que não acobertou a corrupção

Ex-presidente abriu as portas foi para os investigadores, tanto da Polícia Federal, como do Ministério Público, agirem e pegarem quem se corrompeu
por Helena Sthephanowitz publicado 25/10/2016 16:40, última modificação 25/10/2016 17:00
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
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Lula, presidente, tomou várias medidas de combate à corrupção, comprováveis com tranquilidade

A teoria do domínio do fato para criminalizar governantes funciona bem quando se lida com ditadores, pois neste caso sobram provas de que é o tirano quem promove e acoberta crimes praticados dentro de sua estrutura de poder. A própria suspensão do Estado de direito tira do ditador seus álibis sobre crimes em série denunciados e encobertos. Regra geral, não há a quem denunciar efetivamente por crimes do Estado e não raro o denunciante se torna a próxima vítima da repressão.

Assim, foi fácil provar a responsabilidade criminal dos ditadores argentinos por sequestros, torturas e assassinatos. Fato semelhante ocorreu anteriormente, com o alto escalão nazista e depois, na antiga Alemanha Oriental, com os mandantes dos atiradores do muro de Berlim.

Muito mais complicado é aplicar a teoria do domínio do fato onde o Estado de direito vigora. A rigor, para aplicar tal teoria em um regime democrático, teria de se encontrar provas da participação criminosa também de agentes dos poderes independentes de controle externo do poder Executivo, ou seja, do Judiciário. Pois só a ação conjunta de todos esses agentes tem o poder que o ditador teria para exercer domínio sobre fatos criminosos.

Ressalve-se que presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares, assim como outros funcionários públicos podem cometer crimes de corrupção e, neste caso, obviamente devem ser punidos, mas através de provas convencionais. Nunca ou quase nunca é possível aplicar a teoria do domínio do fato nesses casos, a menos que se prove a conivência de agentes do Ministério Público, que detêm o domínio sobre as denúncias e ou de magistrados, que detêm o domínio sobre a sentença.

Imagine se você fosse eleito presidente da República. Simultaneamente são eleitos parlamentares com quem você terá de trabalhar pelos próximos quatro anos. Assim como quando você passa em um concurso não escolhe os colegas de repartição que irão trabalhar com você. Lembremos que uma eleição não deixa de ser um concurso em que a banca examinadora são os eleitores.

Você não nomeia e não demite parlamentares, eles vêm no pacote das eleições. Tampouco pode investigá-los por sua iniciativa, senão comete crime de responsabilidade por interferência em outro poder independente. É uma obrigação funcional sua governar com eles por quatro anos. Todo ser humano tem sua impressão sobre cada colega de trabalho, mas se você quiser ser produtivo, tem de guardar para si seus juízos de valores e não pode ficar fazendo intrigas.

Se for falar em domínio do fato, quem teria esse domínio sobre eventuais parlamentares eleitos com má fama de corruptos? O presidente que não escolhe quem é eleito, ou o Judiciário que os diploma por meio da Justiça Eleitoral e falhou ao nunca condená-los antes, a tempo de se tornarem inelegíveis?

Lembremos também: quem dá atestado de ficha limpa é o Judiciário, mesmo em casos de má fama notória. Para complicar, você, presidente que é, precisa obedecer o princípio da impessoalidade na administração pública. Portanto, institucionalmente, todos os deputados e senadores são iguais perante a lei.

Ao tomar posse na Presidência da República você jura promover o bem geral do povo brasileiro, conforme o artigo 78 da Constituição. Em teoria você pode escolher um "ministério dos sonhos" e só dirigentes de órgãos e empresas estatais de seu estrito agrado e confiança. Porém, por mais que esse time dos sonhos fizesse projetos maravilhosos para o povo, o Congresso Nacional eleito – que não é dos sonhos – não aprova nada.

Ao você ver que seu juramento de promover o bem geral fica só no papel, o que você faz se você quer realizar seu programa de governo? Aceita algumas imposições de parlamentares para indicar ministros e dirigentes de órgãos com o comprometimento de aprovar as medidas de governo no Congresso.

Você pode não gostar de algumas indicações. Mas se há intransigência em obstrução de votações no Congresso, o que fazer, mesmo a contragosto? Se não é ficha suja, se não há impedimento, se existe o princípio da impessoalidade na administração pública, você não está fazendo nada de errado ao nomear, nem tem domínio do fato sobre atos futuros dos nomeados se vierem a se corromper no cargo, o que fazer? Você tem de trabalhar e buscar maximizar resultados para o bem estar do povo, lidando o melhor possível com a realidade imperfeita que o cerca.

Se depois que você deixar a presidência, descobrirem que pessoas que você nomeou se corromperam, de quem é o domínio do fato? Você teve função executiva, não de controle, nem investigativa. Se nem o Ministério Público, que tem poderes para abrir investigações, inclusive com quebra de sigilos, nunca lhe avisou, como é que você pode saber o que os outros fizeram na clandestinidade?

Pois bem.

Os processos sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a força-tarefa da Lava Jato vem construindo apenas com "a convicção" de que ele teria o domínio do fato são ainda mais descabidos, pois, em seu governo, Lula tomou medidas para dissuadir a investida de corruptos, o que por si já dá um nó na referida teoria.

Se por um lado o ex-presidente fazia as nomeações necessárias à composição da base governista no Congresso, por outro, afastou interferências políticas na Polícia Federal – comuns nos governos anteriores. Também equipou o órgão com recursos humanos e materiais, manteve uma relação de autonomia com o Ministério Público Federal nomeando um procurador-geral da República escolhido pela classe, em vez de um engavetador, criou a Controladoria-Geral da República, sancionou leis para aumentar a pena de crimes de corrupção e penalizar empresas, propôs no âmbito do Ministério da Justiça a reforma do Judiciário, para agilizar processos, criou as leis da transparência e do acesso à informação.

Por um lado nomeava conforme as tradições políticas de obter governabilidade, por outro, dissuadia como se avisasse: "Olha, se não andar na linha, a Polícia Federal vai acabar pegando".

Então, se aplicar a teoria do domínio do fato, encontram-se provas abundantes e cabais de que o ex-presidente Lula agiu para dissuadir a corrupção, ao contrário de ditadores que a acobertam. O presidente abriu as portas foi para os investigadores, tanto da Polícia Federal, como do Ministério Público, agirem e pegarem quem se corrompeu.

Será, portanto, mais um vexame internacional que o Judiciário brasileiro poderá cometer, caso se aventure a aplicar teorias onde elas jamais se encaixam. Inclusive passará pela saia justa de ser questionado pela ausência de algum ex-PGR ou magistrado para pelo menos fechar a teoria.

Viagem

Temer conta vantagem sobre reunião com Putin que não existiu

Reportagem mostra que Temer foi o único chefe de Estado preterido pela Rússia, por discordância da "mudança brusca" na política brasileira
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 19/10/2016 15:20, última modificação 20/10/2016 16:44
Beto Barata / PR
Temer_coletiva_japao.jpg

Em entrevista, Temer não foi questionado pela imprensa brasileira sobre reunião bilateral descartada pela Rússia

Causava uma certa estranheza que a imprensa brasileira mostrasse que todos os presidentes dos países dos Brics expressassem apoio à PEC 241 baseados apenas nos relatos de Temer, sem pleno conhecimento da proposta.

Ainda assim, tudo corria de acordo com o planejamento do governo, até que o repórter Andrei Netto, do jornal O Estado de S. Paulo, soltou a bomba: "Ao contrário do que declarou à imprensa brasileira nesta terça-feira, 18, o presidente da República foi preterido pelo russo, sendo o único chefe de Estado a não ter tido um encontro bilateral com o líder do Kremlin".

Em diplomacia, segundo a reportagem, a reunião bilateral é uma deferência política, um gesto de proximidade e até mesmo de simpatia entre dois dirigentes políticos. O presidente russo, Vladimir Putin, se reuniu com os líderes da China, Xi Jinping, da Índia, Narendra Modi, e da África do Sul, Jacob Zuma, mas não teve encontro bilateral com Michel Temer durante os dois dias em que estiveram na Índia para a cúpula.

O texto segue e mostra que o presidente inventou o enredo de um encontro que não existiu. Em Tóquio, para onde seguiu após os compromissos na Índia, Temer não se referiu ao fato de não ter tido encontro com Putin. Ao contrário, relatou com um certo entusiasmo sua "aproximação" com o líder russo.

Reprodução FSP
Edição digital da Folha de S.Paulo domingo (16) acompanhou Temer na mentira. Presidente russo está com pé atrás

A matéria: "Apesar de ter sido preterido pelo presidente russo, Temer disse estar sendo acolhido 'com simpatia' nas reuniões no exterior. 'Não vou nem dizer simpatia, mas acolhimento e compreensão das palavras que digo', corrigiu-se a seguir. E então voltou a falar de Putin ao mencionar que propôs a aproximação 'dos povos dos Brics': 'O interessante é como isso foi bem acolhido e foi até objeto de manifestação do presidente Putin quando nós fizemos a segunda plenária dos Brics', contou".

Ou seja, Temer criou uma conversa que teria tido com o presidente russo e os jornalistas não o questionaram. Segundo o canal Russia Today, Putin decidiu manter Michel Temer "na geladeira" por conta da "mudança brusca" ocorrida no cenário político brasileiro – referindo-se ao golpe que levou à deposição da presidenta Dilma Rousseff.

Agora, após ser desmascarado, Temer deve ou culpar a assessoria pelas lorotas, ou fazer malabarismos para tentar convencer a opinião pública de que foi mal entendido.

Toma lá

Gastos com jantar e repasses à mídia serão fichinha. O prejuízo ainda nem começou

Os mais de R$ 50 mil gastos no jantar de domingo e os R$ 20 milhões em propaganda na TV e em jornais para enganar o povo já seriam de causar vergonha. Mas o pior ainda está por vir
por Helena Sthephanowitz publicado 13/10/2016 11:45, última modificação 13/10/2016 12:00
LATUFF/SUL 21
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Temer passou a noite do dia 9 construindo base para aprovar o maior ataque aos direitos do povo na história do Brasil

Enquanto tenta acelerar a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição, a PEC 241, que vai impor ao povo racionamento na educação, na saúde, na renda dos trabalhadores, nas aposentadorias e até na comida da população mais vulnerável, o governo de Michel Temer desfruta a aliança com os meios de comunicação para tripudiar sobre a ludibriada opinião pública.

Dias depois do luxuoso banquete para 281 convidados, 217 parlamentares, 33 ministros e assessores e 31 mulheres de congressistas, começa a aparecer o custo do agrado. As versões mais conservadoras estimam em entre R$ 180 e R$ 200 por pessoas. O valor total desembolsado seria entre R$ 50,5 mil e R$ 56,2 mil –embora algumas notícias aqui e ali tenha citado valores acima de R$ 100 mil.

Além de deputados da base de Temer, aproveitaram o jantar grátis (existe jantar grátis?) o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o homem do pato, e aquele que foi considerado a "estrela" da noite, o ex-deputado Roberto Jefferson, cacique do PTB e réu confesso condenado da Ação Penal 470, o chamado mensalão.

Foi assim que Michel Temer passou a noite de domingo (9) construindo a maioria para aprovar o maior ataque aos direitos do povo na história deste país, para garantir apoio e quórum para a votação da PEC 241, no dia seguinte, Ao congelar e desvincular os gastos públicos por 20 anos.

Mas talvez esse gasto com o jantar venha a ser fichinha perto do que os brasileiros podem vir a perder tanto com a PEC – se sua aprovação vier a se confirmar –, quanto com o os cargos distribuídos entre os parlamentares e seus indicados em postos do governo e estatais. Se a história do PMDB desde os anos 1980 foi cobrar caro dos governos que apoiou, agora, que está do outro lado do balcão, sabe que um jantar pomposo ajuda, mas não resolve.

Claro que o moralismo seletivo de nossa imprensa corporativa não iria perdoar esse festival de fisiologia explícita se partisse de algum governo progressista. Mas o fato é que ela também tomou parte da farra. Segundo notas discretas em alguns jornais, o repasse desembolsado em propaganda na televisão e nos jornais para convencer a população de que a PEC é necessária para "equilibrar" o orçamento estaria na casa dos R$ 20 milhões.

Três dias depois, na quarta-feira (12), a portas fechadas, Michel Temer almoçou no Palácio do Jaburu, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para discutir medidas para recuperar a economia e agradecer a bancada do PSDB na Câmara pela aprovação da favor da PEC em primeiro turno. FHC ouviu também a promessa de um novo jantar com senadores da base aliada, nos mesmos moldes do que foi organizado com os deputados.

Do almoço no Jaburu participou ainda o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, também presidente do Tribunal Superior Eleitoral – onde tramitam cinco ações contra a chapa presidencial que tinha Temer como vice. Com o "amigo" Gilmar o assunto teria sido a reforma política – já que líderes dos partidos devem discutir a partir da próxima semana e alterações no sistema eleitoral.

Gilmar Mendes manifestou a Temer preocupação com a pauta discutida no Congresso e disse ser necessário encontrar uma forma eficaz de financiamento eleitoral. Mas disse que, "o pessoal está otimista com o bom resultado da eleição municipal, e com a aprovação da PEC para refazer a situação muito difícil do país".

Se é para ser tão neoliberal, o governo Temer pelo menos poderia colocar os banqueiros para pagar a conta. Afinal, a PEC 241 impõe limites a gastos com saúde, educação, salários e outras políticas sociais, mas não ao pagamento de juros aos bancos.

Escândalo esquecido

Para completar a semana em que a aliança governo-mídia tripudiou sobre a nossa ludibriada opinião pública, nada mais "normal" do que a notícia de que caducou o processo nº 990046981-0, que tratava do chamado caso Marka-FonteCindam, de 1999 – por peculato e gestão fraudulenta de instituição financeira em operações de câmbio feitas em 1999 nos bancos FonteCindam e Marka, do banqueiro italiano Salvatore Cacciola.

O caso é um dos mais emblemáticos escândalos do governo FHC (PSDB) e custou aos brasileiros R$ 1,5 bilhão à época. Era 1998, e o presidente concorria à reeleição. A moeda brasileira estava sobrevalorizada, mas FHC não a desvalorizava, alegando que a medida desestabilizaria a economia e a população poderia perder a confiança no governo. Houve fuga de capitais, e o país foi pedir socorro ao FMI, alegando crise internacional.

Passada a eleição, Fernando Henrique, então reeleito, mudou o sistema de câmbio fixo (dentro da faixa chamada banda cambial), para o de câmbio flutuante, no início de 1999. O dólar pulou imediatamente de R$ 1,22 para R$ 1,60. Isso com inflação baixa e salários fixos, em real.

Para ilustrar as consequências da medida: muita gente havia comprado carros por meio de leasing, com valores em dólares. Alguns perderam o que já tinha sido pago, e devolveram o carro, tamanho foi o aumento da mensalidade, na conversão para o real.

Empresários que tinham empréstimos em dólares quebraram ou quase. Importadores tiveram os custos de suas mercadorias em reais quase dobrados, e não tinham como vender a esse preço. Todos que acreditaram na estabilidade cambial perderam.

Mas os bancos privados tiveram um enorme lucro. Quem ficou "vendido" em dólares (ou seja, com o prejuízo) foi só o Banco do Brasil (que "misteriosamente" foi um dos únicos bancos que não previram a desvalorização do real, sofrendo um enorme prejuízo), e mais dois bancos pequenos, Fonte-Cindam e Marka, ambos de Cacciola.

Mas veio o Banco Central (BC), que acabou sendo uma "mãe" para os bancos de Cacciola saldarem seus contratos em moeda estrangeira. Ao Marka, o BC vendeu o dólar, que custava R$ 1,60, por R$ 1,27. Ao FonteCindam, por R$ 1,32.

Com isso Marka e FonteCindam tiveram seus lucros garantidos, pois receberam dólares comprados com cotação subsidiada pelo povo brasileiro, e puderam revender a R$ 1,60.

Ao todo, os dois bancos provocaram um rombo de R$ 1,5 bilhão.

Cacciola foi preso por crime contra o sistema financeiro. Em 2000, o ministro do STF Marco Aurélio de Mello concedeu-lhe habeas-corpus e, no dia seguinte, o banqueiro fugiu para a Itália.

Esse escândalo do governo FHC levou à condenação do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes a 10 anos de prisão, e a ex-diretora do BC Tereza Grossi a 13 anos. Outros diretores do BC também foram condenados. Quinze anos após condenação, todos estão soltos e o crime, prescrito.

Blog da Helena

Como nas eleições de 1986, a história se repete agora, como farsa

Passadas as eleições, virão os sacos de maldades para o povo de baixa renda. Com isso, o eleitorado pode até voltar à esquerda, mas há também o risco de surgir em 2018 um novo "caçador de marajás"
por Helena Sthephanowitz publicado 03/10/2016 16:52, última modificação 03/10/2016 18:13
Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Em vez do otimismo ingênuo do eleitor com o plano Cruzado em 1986, hoje existe o pessimismo na política

Em 1986, no embalo do plano Cruzado do governo Sarney (que havia congelado todos os preços por lei para acabar com a inflação), o PMDB fez "barba, cabelo e bigode" nas eleições daquele ano. Emplacou quase todos os governadores, maioria dos senadores e 260 deputados (53,3% da Câmara na época). O PFL também se deu bem, elegendo 118 deputados. O PSDB ainda não existia e estava dentro do PMDB.

O PT era relativamente pequeno e fez pouco: 16 deputados. O PDT, ainda com Leonel Brizola, era o principal partido de oposição e foi o maior derrotado. Três anos depois, nas eleições presidenciais de 1989, o candidato do PMDB, Ulysses Guimarães, teve só 4,73% dos votos válidos e o do PFL (Aureliano Chaves), apenas 0,88%.

Lula se tornou a segunda liderança nacional, tendo recebido 17,18% dos votos no primeiro turno. Brizola ficou em terceiro, com 16,51%, quase empatado com Lula.

Depois de abandonar o navio do PMDB assim que o Cruzado afundou, o recém-criado PSDB também se deu mal naquele ano, ficando apenas em quarto lugar – seu candidato foi Mario Covas.

Agora, em 2016, a história se repete, com algumas diferenças. Em vez do otimismo ingênuo do eleitor com o plano Cruzado em 1986, existe o pessimismo e o descrédito na política, legados da doentia campanha de perseguição e criminalização dos governos petistas por parte da imprensa, da oposição – depois de quatro eleições presidenciais consecutivas sem vitória nas urnas – dos empresários, dos ricos, dos sonegadores de impostos.

Em vez da hegemonia do PMDB em 1986 (seguido meio de longe pelo PFL), os grandes vencedores destas eleições municipais foram o "centrão neoliberal" em que o carro chefe é o PSDB, seguido do PMDB e um emaranhado de partidos médios e pequenos com uma agenda neoliberal antipovo – casos de DEM, PPS, PP etc.

O grande derrotado deste domingo (2) foi o PT, que ficou em décimo lugar em quantidade de prefeituras, com 256, deixando de ser o titular do poder em 374 cidades. Quatro anos atrás, o partido terminava a disputa municipal em terceiro, com 630 prefeitos eleitos.

O desempenho foi ainda pior nas grandes cidades do país. Disputando as eleições em 54 municípios com mais de 200 mil eleitores, a legenda venceu em apenas um – Rio Branco, Acre, 241 mil eleitores, com Marcus Alexandre. Se vier a ser bem-sucedido em todas as disputas pelo segundo turno, o PT chegará a 3,3 milhões de eleitores sob seu governo. Em 2012, na primeira eleição após a passagem de Lula pela presidência, o eleitorado sob sua influência ultrapassava 15 milhões de pessoas.

Por outro lado, o PMDB não tem muito a comemorar. Embora tenha conquistado 1.027 municípios, o partido de Temer, Cunha etc. manteve a média de 18% de prefeituras conquistas da eleição passada – apenas 12 municípios a mais que em 2012.

Os demais partidos de esquerda ainda não contam com números precisos sobre crescimento. Nota-se que o Psol cresceu, mas pouco ainda, ficando muito longe de compensar o espaço que o PT perdeu.

O PCdoB festeja o desempenho no Maranhão, onde foi o partido que conseguiu eleger o maior número de prefeitos. A legenda, que até 2016 contava com 14 prefeitos nas 217 cidades do estado, ampliou para 46 prefeitos em municípios de todas as regiões maranhenses.

Cidades como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba terão prefeito, governador e presidente da República do "centrão neoliberal". Não terão mais ninguém do PT a quem colocar a culpa pelas consequências do jeito de governar "quanto melhor para o mercado, pior para o povo" que o PSDB-PMDB-PP-PSD-PSB-PSC-etc. praticam sem pudores.

Passadas as eleições, virão os sacos de maldades para o povo de baixa renda. Com isso, o pêndulo do eleitorado pode até virar à esquerda em 2018 como virou em 1989. Mas também há o risco de um novo Collor surgir em 2018 como surgiu em 1989, disfarçado de "caçador de marajás".

De certa forma a eleição de Doria em São Paulo já tem algumas semelhanças com esse perfil, ao se apresentar falsamente como "gestor não político". Vamos ver no que vai dar. Passado o segundo turno, a maior luta dos partidos daqui para frente está em recuperar a participação popular na política. Porque muitos cidadãos perderam a confiança até em si mesmos como capazes de influir na transformação para melhorar suas próprias vidas. Então buscam "terceirizar" para um "bom gestor", sem se perguntar: bom gestor para quem? Para o banqueiro ou para o trabalhador? Para os 1% mais rico ou para os 99% do povo?

Comenta-se que São Paulo fez a pior escolha da história que poderia ter feito. Trocar Haddad por Doria lembra quando o povo do Rio, em 1986, trocou a inteligência de Darcy Ribeiro (do PDT das antigas) por Moreira Franco (PMDB) para governar o estado. Hoje eminência parda de Temer, Moreira Franco foi dos piores governadores que o estado do Rio já teve. Nunca mais ganhou nada nas urnas. Tentou ser senador e perdeu, tentou ser prefeito de Niterói e perdeu.

Mas e Haddad? O que aconteceu com Haddad?

Em qualquer iniciativa que se tenha para mudar as coisas na vida, nas empresas, na família, conta-se com 20% de pessoas que apoiam as mudanças, 20% que resistem às mudanças e 60% que ficam esperando para ver o que acontece.

Para trazer os 60%, você precisa empoderar os 20% que te apoiam e neutralizar os 20% que resistem. Numa democracia, neutralizar significa convencer, não deixar prosperar a "rádio corredor" do contra, explicar tudo o que está fazendo, mostrar os ganhos que eles podem ter no futuro e até converter resistentes para o grupo dos apoiadores, na medida em que eles percebem as vantagens das mudanças.

Lula conseguiu fazer isso, especialmente no segundo mandato. Dilma não conseguiu. Ela foi para o enfrentamento dos 20% resistentes e não empoderou os 20% que a apoiavam.

Todo o resto é consequência. Ela conseguiu unir todos os grupos que estavam com os interesses contrariados e só aguardavam uma oportunidade para dar o golpe e usurpar o poder. Os 60% ficaram onde sempre estiveram, olhando para onde as coisas vão. Ou vendo a banda passar, como observou Chico Buarque.

Teria acontecido o mesmo com Haddad?

Agora, não adianta chorar, é reagrupar e resistir até surgir nova oportunidade.