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sem desfecho

Impunidade e lentidão da justiça marcam 12 anos do 'mensalão tucano'

Ao que tudo indica, pelo menos até aqui, tucanos envolvidos em corrupção continuam a contar com uma "ajudinha", para continuar impunes. A maior suspeita, porém, incide sobre o próprio Judiciário
por Helena Sthephanowitz publicado 20/06/2017 16h11, última modificação 22/06/2017 14h03
EBC
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Faz 18 meses que Eduardo Azeredo foi condenado a 20 anos de prisão e segunda instância ainda não tem data

Se o chamado "mensalão do PT" fez os jornalões criarem manchetes espetaculosas, analistas e colunistas fazerem ilações à vontade e foi assunto interminável nos meios políticos e jurídicos, o mensalão tucano, –  apesar de ter menos réus e mais amigos no STF – ganhou da mídia tradicional o apelido de "mensalão mineiro", para descolar o caso do envolvimento de figuras do PSDB. Mesma mídia que varreu o escândalo para debaixo do tapete. Pois o mensalão tucano segue parado na Justiça confirmando o receio de todos os que esperam do Judiciário uma atuação imparcial, pouco importando para o desfecho do processo as características pessoais do réu – como sua filiação partidária. 

Revelado durante a CPI dos Correios, em 2005, somente em 2009 a denúncia foi recebida. E desde então, em situação oposta ao do caso batizado de "mensalão do PT", o mensalão tucano virou um símbolo da morosidade judicial.

Doze anos após o processo ser apresentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-diretor da antiga Comig (atual Codemig, companhia de desenvolvimento do Estado), Lauro Wilson de Lima Filho fez 70 anos em maio e pediu, na semana passada, ao Supremo Tribunal Federal (STF) para ser beneficiado pela prescrição. Acusado pelo crime de peculato, seu processo estava na fase que antecedia o julgamento. Ele é o quarto réu que provavelmente deixará de ser julgado.

Na sexta-feira (16), fez um ano e meio que Eduardo Azeredo (PSDB), ex-governador de Minas Gerais (1995-1998), ex-presidente do PSDB, e atual diretor executivo da Fiemg (Federação de Indústrias de Minas), foi condenado –em primeira instância – a 20 anos e dez meses de prisão por peculato, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro, todos esses crimes cometidos no âmbito do mensalão do PSDB.

Segundo a PGR, o tucano liderava um esquema de corrupção que desviou milhões em dinheiro público de empresas estatais mineiras para irrigar sua fracassada campanha de reeleição ao governo de Minas Gerais, em 1998. Azeredo recorre em liberdade e seu julgamento em segunda instância ainda não tem sequer data marcada.

Em 2014, quando era deputado federal, ele renunciou ao cargo para que o processo voltasse à primeira instância, a partir da qual é possível um número maior de recursos. A tática deu certo. Azeredo pode vir a ser mais um impune do caso do mensalão tucano – em 2018 ele chegará aos 70 anos. Além disso, como ex-governador, ele recebe o salário nominal integral do cargo que ocupou: uma nada mal mesada de R$ 18,5 mil.

E se alguém acha que ainda vai ver algum tucano atrás das grades, essa possibilidade vai ficando cada dia mais distante. O processo também não tem previsão de julgamento. 

De acordo com o Ministério Público (MP), no mensalão do PSDB foram desviados pelo menos R$ 15 milhões, sendo R$ 5 milhões das estatais, R$ 3,5 milhão da Companhia de Abastecimento de Minas Gerais (Copasa), R$ 1,5 milhão da Codemig e o restante do Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge). 

Também impune está Claudio Mourão. O atraso no processo, a lentidão da Justiça e a falta de vontade política, beneficiou o ex-tesoureiro da campanha de Eduardo Azeredo, que é classificado pelo MP como figura fundamental na operação de desvio de dinheiro de empresas estatais dirigidas por políticos do PSDB no estado de Minas Gerais. Os crimes de peculato e formação de quadrilha, atribuídos pelo MP a Mourão, prescreveram em abril de 2014, quando o réu completou 70 anos.

Outra ação, esta contra José Afonso Bicalho, que dirigia o extinto Bemge (banco estatal de Minas) em 98, passou a tramitar na segunda instância em 2015. Em 2018, ele também chega aos 70 anos, e, ao que tudo indica, será mais um que ficará impune. Segundo o Tribunal de Justiça de Minas, o processo está em fase de instrução.

Walfrido dos Mares Guia também se  beneficiou da lentidão da Justiça ao ultrapassar a idade imputável. De acordo com a juíza Neide da Silva Martins, da 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, os crimes de peculato e formação de quadrilha, pelos quais Walfrido, ex vice-governador de Eduardo Azeredo, foi acusado  na ação penal (Inquérito n.º 2280)  do mensalão tucano, segundo denúncia do então procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, do  Ministério Público Federal. (conforme pode ser lido aqui) prescreveram após ele completar 70 anos, em 24 de novembro de 2012.

"Tendo transcorrido prazo superior a oito anos entre os fatos e o recebimento da denúncia, [...] declaro extinta a punibilidade do réu Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto, qualificado nos autos, pela ocorrência da prescrição da pretensão punitiva do Estado", afirmou a juíza, em decisão do dia 14 de janeiro de 2014.

O prazo de prescrição para esses crimes é de 16 anos, a contar a partir da data em que os fatos ocorreram. Porém, quando o réu completa 70 anos, o prazo é reduzido pela metade. Neste caso, os crimes ocorreram em 1998, segundo a denúncia, apresentada em 2009 e aceita no ano seguinte. Quando Mares Guia completou 70 anos, as acusações de crimes contra passaram a prescrever em 2006. A decisão  na prática, o livrou de qualquer punição por envolvimento no mensalão tucano.

Empresário do ramo de transporte, Clésio Andrade, à época filiado ao PFL (atual DEM), foi vice-governador mineiro de 2003 a 2006, durante mandato de Aécio Neves. Ainda na década de 1990, tornou-se sócio, em agências de publicidade, de Marcos Valério. Em 98, ele foi candidato a vice-governador na chapa ao lado de Eduardo Azeredo. Clésio até agora nem sequer prestou depoimento porque entrou com recurso em que questionava a legitimidade de uma juíza para julgá-lo.

processo foi aceito pelo Supremo Tribunal Federal em 2009, mas foi para o Ministério Público de Minas em 2014, após Azeredo e Clésio Andrade renunciarem respectivamente aos cargos de deputado federal e senador. No STF, Azeredo e Clésio são réus acusados por peculato e formação de quadrilha. 

Ao que tudo indica, pelo menos até aqui, os políticos do PSDB envolvidos em casos de corrupção, continuarão a contar sempre com uma "ajudinha", para continuar impunes.

A maior suspeita porém, enquanto essa situação perdurar, sempre incidirá sobre o próprio Judiciário.

censura

Áudios de Aécio e Andrea Neves revelam bastidores da relação do poder com a mídia

Grampos trazem à tona como senador afastado age para calar seus críticos, prática já denunciada diversas vezes pela imprensa de Minas Gerais
por Helena Sthephanowitz publicado 02/06/2017 09h30, última modificação 02/06/2017 10h02
EBC
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Aécio Neves, conhecido por censurar a mídia mineira, também atacou jornalistas no Paraná e em Brasília

Os áudios dos grampos autorizados pela quebra de sigilo telefônico do senador Aécio Neves (PSDB) e de sua irmã Andrea pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nas investigações sobre as delações de Joesley Batista, dono da JBS (Friboi), e que foram divulgados nesta quarta-feira (31), revelam mais que o "mal-estar" entre os tucanos, como enfatiza a relação entre Aécio Neves e imprensa. Uma relação já conhecida, porém, até então, sem provas.

Em meio à troca de "fogo amigo" ou no calor de uma operação "salve-se quem puder", com direito a ameaças veladas – "nós estamos do mesmo lado nessa história"; "porque te envolve"; "sabe o que vai acontecer? joga você no meio" – as conversas, carregadas de palavrões por parte de Aécio, trazem à tona também o modus operandi de uma turma que é profissional em pressionar e calar qualquer crítica ou dissonância na imprensa em relação aos seus interesses.

Nos áudios, o presidente nacional do PSDB, o senador afastado, dá ordens expressas ao governador do Paraná, o também tucano Beto Richa, para acionar sua assessoria de imprensa ("pessoal mais qualificado"), a fim de intervir para tirar rapidamente do ar a matéria "Aliado do Paraná já considera Aécio na cadeia", postada (e retirada) pelo UOL do Paraná.

Na matéria,  que causou celeuma no ninho tucano poucos minutos depois de ir ao ar no UOL Paraná, repercutia um comentário de Valdir Rossoni, secretário-chefe da Casa Civil do governo Beto Richa dizendo que visitaria Aécio Neves na cadeia, quando ele fosse preso por causa das contas mantidas na Suíça com as propinas recebidas do esquema de corrupção. O link para a matéria está inacessível, mas seu depoimento é reforçado por um vídeo, também contundente, contra Aécio.

Nesse meio tempo, a própria assessoria de Aécio Neves já teria partido para a ofensiva sobre os correspondentes do portal UOL em Brasília, com receio da viralização do vídeo e do impacto nacional das declarações de Rossoni, que Aécio orienta tachar de "má interpretação dos fatos".

Em outro momento, Aécio conversa com outra pessoa subordinada a ele, provavelmente um assessor, chamado "Flávio", e ordena a retirada do ar também do vídeo de Rossoni e manda que o subordinado volte a ligar no celular de Richa para conseguir isso. Ele orienta o que dizer ao governador: "O senador tá muito chateado (...) Tudo bem que o UOL tirou, mas o cara (Rossoni) tem de tirar a postagem, porque eles estão agora explorando a postagem do cara", diz Aécio. 

Como os grampos estão apenas ligados às investigações sobre as delações dos empresários da JBS, disponíveis na quebra de sigilo do STF, as conversas divulgadas só revelam as comunicações entre Aécio e sua irmã. Os diálogos entre os tucanos Richa e Rossoni ou das assessorias intimidando os veículos de comunicação não estão no foco dessa investigação.

A suposta "teimosia" do chefe da Casa Civil de Beto Richa, ambos (governador e secretário) com interesses eleitorais bem definidos, soa como uma tentativa de blindagem de mais um escândalo envolvendo Richa e Rossoni, bem como de se distanciar das denúncias e do avanço de investigações que cada vez mais batem às portas palacianas no Paraná.

Existem mais arquivos de gravações disponibilizados pelas quebras de sigilo do STF, bem como ocorre seletividade por parte dos veículos da imprensa grande na escolha dos trechos, enfoques e versões. Uma escolha a dedo sobre o quê e quem beneficiar ou colocar em maus lençóis.

Curioso que, todas as vezes em que o senador afastado sugeriu ao governador do Paraná estarem todos no mesmo barco ou do mesmo lado dessa história, recebeu a concordância de Richa: "Eu sei (...) É, estamos todos!".

Ouça os áudios que mostram Aécio Neves pressionando Beto Richa contra Valdir Rossoni:

tudo em família

Outro dos irmãos Batista, 'Junior Friboi' filiou-se ao PMDB levado por Temer

Presidente apoiou candidatura de José Batista Júnior, irmão mais velho de Joesley e Wesley ao governo de Goiás, em 2014
por Helena Sthephanowitz publicado 22/05/2017 11h48, última modificação 22/05/2017 11h49
PMDB
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Batista Junior acreditou que candidatura a governador estaria garantida por ter um padrinho político na Presidência

Investigado por obstrução de justiça, crimes de organização criminosa e corrupção passiva, Michel Temer fez seu segundo pronunciamento, no espaço de 72 horas, atacando Joesley Batista, dono da JBS, em vez de explicar por que ouviu relatos de crime e não denunciou. Alegando ilegalidades na gravação, produzida pelo empresário, que o incrimina,– depois de o jornal Folha de S.Paulo encomendar um parecer, por sua vez, já contestado – e sem citar o nome de Rodrigo Janot, Temer também atacou o procurador-geral da República ao se dizer alvo de uma "acusação pífia" de corrupção e que pedirá ao Supremo Tribunal Federal (STF) o arquivamento do processo.

No discurso, Temer afirmou ainda que não tinha conversas com Joesley. No entanto, o anexo do depoimento entregue à Procuradoria-Geral da República pelo empresário descreve a relação com Michel Temer desde 2010.

A negação da amizade de Temer com os Batista, é igual a de certas celebridades, como Luciano Huck, que estão apagando fotos publicadas nas redes sociais em que aparecem com o senador tucano Aécio Neves.

No entanto, a relação de Michel Temer com o grupo JBS não dá para esconder por que não é de agora. Em 2012, Temer foi convidado para o casamento de Joesley. E foi pelas mãos do então vice-presidente Temer que o empresário José Batista Junior, conhecido como Junior Friboi, filiou-se ao PMDB, em 2013.

Junior, que até 2010 era sócio da Friboi, fundou sua própria empresa, a JBJ, que atua nos ramos de agropecuária e construção civil, é o irmão mais velho de Wesley e Joesley Batista.

Batista Junior já tentou entrar na política: acreditando que uma candidatura a governador do estado de Goiás (foi filiado ao PSB e transferiu-se depois ao PMDB) estaria garantida por ter um padrinho político na Presidência da República, ele dizia que financiaria candidatos aliados seus a cargos de deputado estadual e federal, o que, imaginava, faria dele o maior cacique político de Goiás.

Nos bastidores, fala-se que a proeminência do dinheiro nos planos de Júnior foi o principal motivo do racha no PMDB e do surgimento de setores resistentes a sua candidatura. Os peemedebistas insatisfeitos com sua indicação ao governo goiano defendiam a candidatura de Iris Rezende, presidente estadual do partido, à revelia do desejo de Temer, que queria Junior.

Resultado. Na queda de braço, Junior Friboi não saiu candidato e acabou sendo foi expulso do PMDB. Um dos motivos foi por ele ter apoiado e pedido votos para o tucano Marconi Perillo ao governo de Goiás em 2014, enquanto o candidato do partido, Iris Rezende, terminou derrotado.

Apoiado por políticos de maneiras até hoje mal explicadas, acumulando processos trabalhistas e com muitos de seus grandes acionistas investigados por sonegação, o conglomerado JBS expandiu-se no mercado interno e externo. A sonegação motiva também um processo individual contra Joesley, o caçula dos três irmãos e presidente da J&F Participações, a holding por meio da qual a família diversificou os negócios para além do setor alimentício. Joesley virou réu da Justiça Federal em novembro de 2012, acusado pelo Ministério Público de ter sonegado 10 milhões de reais graças ao uso, entre janeiro de 1998 e julho de 1999, da conta bancária de uma empresa fechada.

O frigorífico JBS, da família de Júnior, foi acusado, em 2014, de sonegar R$ 1,3 bilhão em impostos no estado de Goiás. A empresa respondia, naquele ano, a 49 autos de infração aplicados pela Secretaria da Fazenda de Goiás, a maioria de não recolhimento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) na exportação de carne bovina.

Junior também foi acusado de que uma de suas empresas do mercado de proteína animal tinha condutas que prejudicavam a livre concorrência. Causando dissabores aos pecuaristas do país, o empresário viu-se obrigado a desmontar o QG de sua pré-candidatura ao governo de Goiás, e ceder o pleito a Iris Rezende.

Quanto a Temer, no domingo a noite, ele se disse abalado com a crise, provocada pela publicação de áudios de conversas mantidas entre ele alguns dos "amigos" Joesley e Wesley Batista, irmãos de Friboi Junior. Neste domingo (21), enquanto diversos movimentos sociais e centrais sindicais realizam atos em todo o Brasil pedindo a renúncia de Temer e Diretas Já. 

Tarde demais para negar.

estratégia

Luciano Huck segue o caminho das novas estrelas do PSDB: ser bom de marketing

Pretendente a candidato, apresentador se oferece como tema de escola de samba para reduzir a rejeição do eleitorado apontada por recente pesquisa eleitoral
por Helena Sthephanowitz publicado 11/05/2017 15h11, última modificação 12/05/2017 09h25
divulgação
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Luciano Huck ensaia entrada na política, estimulado por FHC e por denúncias contra Serra, Alckmin e seu amigo Aécio

Com Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra na frigideira da Odebrecht, o ex- presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) deu entrevistas durante a semana em que praticamente "lança" dois candidatos de sua preferência à Presidência em 2018: o prefeito de São Paulo, João Doria, e o apresentador da Rede Globo Luciano Huck. E o que há em comum entre Doria e Huck?

O primeiro invadiu uma área pública, uma viela que foi por ele mesmo incorporada a uma de suas propriedades, localizada na serra da Mantiqueira, na estância paulista de Campos do Jordão. Contrariando decisão do Ministério Publico Estadual, que cobra do prefeito a reintegração de posse, num processo que se arrasta desde 1997, Doria segue "enrolando" e tenta fazer acordos para evitar a devolução da área.

No pedido para reaver a área, a prefeitura de Campos do Jordão afirma que, desde 2009, "seguiram-se sucessivas suspensões do processo em razão de alegações sobre tratativas de acordo, do qual não se tem notícia". O Ministério Público apresentou parecer favorável à reintegração de posse da área, no qual considera, "impertinente a rediscussão do mérito da causa, sob pena de clara ofensa à coisa julgada". A decisão judicial, transitada em julgado – ou seja, da qual não cabem mais recursos. Apesar disso, Doria manteve a ocupação e continua dono da área publica invadida. A prefeitura continua cobrando reintegração de posse.

Já Luciano Huck invadiu uma praia pública em Angra dos Reis (Rio de Janeiro), executou dragagem para transformar o local em uma praia particular e cercou a área com um muro de arrimo de cerca de dez metros para proibir acesso público. Condenado pela Justiça de Angra a pagar uma multa de R$ 40 mil, derrubou o muro e cercou com boias. Fez, portanto, de uma área pública sua praia privada.

Sem licença ambiental, construiu sua mansão sobre o espelho-d’água e as rochas. Huck contou ainda com a ajuda do amigo ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB/RJ) para se livrar da Justiça: Cabral liberou as regras para construções em áreas de preservação ambiental, ao criar o decreto (número 41.921), que ficou conhecido como "lei Luciano Huck", por ter sido feito para beneficiar o apresentador queridinho da Globo.

Além disso, Luciano Huck recorreu da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por achar, segundo declarou, muito alto o valor de R$ 40 mil estipulado como multa pelo tribunal de Angra dos Reis e, com isso, segue proibindo acesso à praia pública da qual fez sua praia  particular.

Tem mais

Quando candidato à prefeitura de São Paulo, João Doria usava discurso privatista e de Estado mínimo, enquanto recheava sua revista Caviar Lifestyle com publicidade do governo paulista. Seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, pagou R$ 1,5 milhão por anúncios veiculados na publicação, destinada a pouquíssimos, diga-se. A empresa Lide, de propriedade de Doria, também ganhou agrados do governador paulista, em aportes que chegam a R$ 4,5 milhões. 

Luciano Huck, o pretendente a candidato a presidente, também já conhece os caminhos para os cofres públicos há muito tempo. Apenas como exemplo, lembremos que, em 2003, o apresentador fundou uma ONG, a Criar. Um ano depois, conseguiu fechar uma parceria com a Secretaria Municipal do Trabalho de São Paulo, sob o comando de Guilherme Afif Domingos.

Recebeu "doações" do então prefeito, Gilberto Kassab (que estava no DEM), e do governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Com tamanha bondade, a ONG cresceu e virou Instituto Criar. O negócio foi tão sigiloso que até hoje não se sabe o valor das doações.

Huck nunca escondeu sua simpatia pela direita. Animou comícios em 2002 dos candidatos do PSDB, José Serra, que concorria a presidente, e Aécio Neves, que disputava o governo de Minas Gerais. No palanque, Huck referiu-se a Serra como "grande amigo" e a Aécio como "irmão de sangue": "Serra e Aécio são gente honesta e morrendo de vontade de fazer um Brasil melhor para todos nós", discursava na campanha eleitoral. Aécio ganhou, e com o "irmão" Huck compartilhou o jatinho pertencente ao governo de Minas para viagens de gravações do programa do apresentador pelo interior do estado.

Luciano Huck já disse algumas vezes que nunca descartou a hipótese de se candidatar a um cargo público. Mas agora parece que é para valer. 

Reuniões para a  entrada do apresentador na política começaram no mês passado, quando se deu mais uma reservada conversa (a terceira sobre o tema) com o presidente (ou será dono?) do partido Novo, o banqueiro João Amoedo, no iate de Huck, em Angra dos Reis. Antes, os dois tiveram alguns encontros nos Estados Unidos.

Porém, o apresentador precisa pensar, em sua futura vida política, como fará para baixar a rejeição ao seu nome. Uma pesquisa do Instituto Paraná, divulgada na semana passada, mostra que 46% dos entrevistados não votariam de jeito nenhum em Huck para presidente. Entre os que têm ensino superior, 52% dizem que não dariam seu voto a ele.

Mas outra característica que aproxima os dois prediletos de FHC é a afinidade de ambos com as estratégias de marketing, em vez da discussão de políticas públicas.

Talvez, como estratégia para amenizar a rejeição, Huck tenha se oferecido para ser tema de  enredo de uma das escolas de samba do carnaval do Rio em 2018, ano da eleição. Se foi essa intenção, pelo visto, não deu muito certo.

Isso porque Luciano Huck foi motivo de chacota nas redes sociais depois de a imprensa divulgar que um emissário do apresentador teria procurado a  escola de samba Salgueiro e oferecido 6 milhões de reais para que ele fosse homenageado no Sambódromo. Uma outra escola foi procurada mas, calculando a enxurrada de críticas que receberia, não aceitou. Na Mangueira, o assunto não foi para a frente porque o carnavalesco Leandro Vieira vetou Huck.

Curiosamente, a notícia da compra de enredo veio após a pesquisa mostrar rejeição da candidatura do apresentador global.

às escuras

Jantar 'secreto' de FHC e Cármen Lúcia levanta dúvidas sobre isenção do tribunal

Fernando Henrique e presidenta do STF têm jantar fora da agenda e conversa mantida em sigilo. Natural que se levantem dúvidas sobre a parcialidade da Suprema Corte para julgar casos envolvendo o PSDB
por Helena Sthephanowitz publicado 02/05/2017 12h21, última modificação 02/05/2017 13h38
AGÊNCIA BRASIL
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FHC já foi delatado em depoimentos de ex-executivos; encontro não estava na agenda da ministra

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) já foi citado em pelo menos três delações de ex-executivos da Odebrecht, todas no âmbito da Operação Lava Jato, da Polícia Federal e do juiz Sergio Moro. Recentemente, o dono da construtora, Emílio Odebrecht, afirmou ter feito "pagamentos ilícitos" durante as campanhas eleitorais de Fernando Henrique à Presidência da República, nos anos de 1993 e 1997. A acusação do empresário deveria ser motivo de constrangimento para quem costuma se apresentar como campeão da moralidade. Mas não. Só fez mudar o discurso: conforme as acusações vão chegando nos tucanos, mais se fala que caixa dois não é corrupção, é "apenas" um "ilícito" contábil. E é assim, com a fidelidade da mídia tradicional, que trata bem diferente as irregularidades de que acusam o PT, que Fernando Henrique continua circulando pelas altas rodas, certo de sua impunidade.

E foi com tal capacidade de potencializar o cinismo que Fernando Henrique esteve em Brasília, na terça-feira da semana passada (25 de abril), para um jantar com a presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia. O encontro não constava da agenda da ministra e o teor da conversa foi mantida em absoluto sigilo, o que torna esse encontro inadequado, para dizer o mínimo.

O ex-presidente não é investigado no STF. Por não ter mais foro privilegiado, o ministro Edson Fachin enviou à Procuradoria da República em São Paulo o inquérito para investigar as acusações feitas contra o tucano máximo. Mas o PSDB, partido de Fernando Henrique, é.

São sete dos 12 parlamentares tucanos – três no Senado e quatro na Câmara – que serão julgados pelo Supremo. Quatro deputados do PSDB são acusados de participação no núcleo de propina da Odebrecht. 

Entre os senadores, estão dois ex-candidatos à presidência da República: Aécio Neves (MG) e José Serra (SP). O primeiro figura em cinco inquéritos. A lista ainda tem o atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Ferreira Nunes.

Outras figuras, como a ex-governadora e deputada federal Yeda Crusius (RS), o ex-senador José Aníbal (SP) e o ex-governador de Minas Antonio Anastasia também são denunciados nos processos.

Tucanos graúdos, como os governadores Geraldo Alckimin (SP), Beto Richa (PR), Marconi Perillo (GO), além do prefeito de Ribeirão Preto (SP), Duarte Nogueira, e o de Manaus, Arthur Virgílio Neto, tiveram os processos remetidos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). O mesmo tribunal onde Fernando Henrique esteve na semana passada participando de um seminário. O mesmo STJ que abriga os ministros Humberto Martins, e Benedito Gonçalves, citados nas negociações de delação de executivos da OAS a procuradores de Curitiba.

Coincidentemente, após as visitas aos amigos nos tribunais superiores, o ex-presidente declarou à imprensa  "não há razões para eu estar em apuros". De fato. Os tucanos são imunes à Justiça. Apesar das inúmeras denúncias, não há nenhuma iniciativa do Judiciário contra os figurões do PSDB.

Uma nova denúncia envolvendo o governador Geraldo Alckmin evidencia, mais uma vez, os dois pesos e as duas medidas da justiça brasileira. O depoimento do ex-executivo da Odebrecht em São Paulo Luiz Bueno foi excluído do processo de investigação contra o governador tucano nos documentos entregues ao Supremo Tribunal Federal.

Segundo relatos que integram o processo da Procuradoria-Geral da República (PGR), Alckmin recebeu R$ 8,3 milhões em 2014 e R$ 2 milhões em 2010 "não declarados". No inquérito, Bueno foi descrito pela PGR, como "peça-chave" por ser o responsável por negociar valores e organizar os repasses da propina para Marcos Monteiro, hoje Secretário de Planejamento e Gestão de Alckmin, nos esquemas que envolvem a campanha de  Alckmin em 2014 – Metrô de SP, trens da CPTM, Rodoanel e outras grandes obras na capital paulista incluídas.

Apesar de o juiz Sergio Moro já ter afirmado, em entrevistas e palestras – que hoje no Brasil ninguém esta acima da lei, fato é que até o momento nenhum político tucano sofreu condução coercitiva, foi interrogado, investigado, teve seu nome achincalhado na Rede Globo ou foi preso.

Nada indica que, nos casos de FHC, Serra, Aécio e outros tucanos de alta plumagem, será adotado o mesmo procedimento que adversários políticos de Moro e do PSDB receberam e continuam recebendo.

É preciso lembrar à ministra Carmem Lúcia, parodiando um antigo dito popular, "o cala-boca ainda não morreu". Os brasileiros vão continuar questionando os tribunais, perguntando e insistindo: quando veremos um tucano na cadeia?

Incontrolável

Kassab é um dos ministros do Temer filhos da falta de caráter com o fisiologismo

Além de despejar uma dinheirama na campanha do prefeito Gilberto Kassab, empresa Controlar foi generosamente recompensada com contratos de milhões de reais
por Helena Sthephanowitz publicado 24/04/2017 11h27
Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Para beneficiar amigos, Kassab, beneficiou Controlar através de terrenos e dinheiro público

O ex-prefeito de São Paulo (2006-2012) e hoje ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações de Temer, Gilberto Kassab (PSD-SP), desfruta de excelente relação com a empresa Controlar (responsável pela inspeção veicular). Depois de ter despejado uma dinheirama na campanha do prefeito Kassab, a empresa foi generosamente recompensada com o contrato milionário de inspeção veicular e saciou apetites de políticos da base aliada, e de vários empresários envolvidos.

Para beneficiar amigos, Kassab, quando foi prefeito de SP, ressuscitou contrato caduco, cedeu irregularmente terrenos da prefeitura para a empresa se instalar e ainda deu dinheiro dos cofres da prefeitura para a Controlar investir. Investigações naquele ano apontaram mais de 30 fraudes e prejuízo aos cofres públicos chegaram a quase dois bilhão. Apesar de em 2011 a Justiça bloquear os bens do prefeito Gilberto Kassab depois de a investigação apontar fraudes no contrato da Controlar, só em 2015 o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu à solicitação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e autorizou investigações para apurar o envolvimento de Gilberto Kassab, no esquema de fraude na licitação envolvendo a empresa Controlar.

Filiado ao PL pelas mãos de Guilherme Afif, Gilberto Kassab foi eleito vereador em 1992, declarou TRE (Tribunal Regional Eleitoral) um patrimônio de R$ 102 mil, em valores da época. Seus bens mais valiosos eram 16 linhas telefônicas, cujo valor virou pó após a privatização das teles, e um Monza, itens que representavam 62% do total. Integrou o "centrão", núcleo do toma-lá-dá-cá na câmara. Entre 1994 a 1998, seu patrimônio teve salto de 316% . Nos anos posteriores, Kassab continuou a ter resultados expressivos no seu patrimônio Em nova disputa eleitoral, desta vez para a Câmara dos Deputados, segundo a declaração entregue ao TRE, atingiu R$ 3,9 milhões de patrimônio.

Em 1997, já pelo DEM (então PFL), Kassab foi secretário de Planejamento por um ano e três meses na gestão Celso Pitta, uma das administrações mais desastrosas que a cidade de São Paulo já viu.

Até que, em 2004, se tornou vice na chapa de José Serra nas eleições municipais. Dois anos depois, quando Serra abandonou a prefeitura para disputar o governo do estado, Kassab ganhou de presente o cargo de prefeito. Nas eleições municipais de 2008, escudado por Serra, concorreu a reeleição. Mentiu descaradamente, maquiou os problemas de São Paulo e conseguiu se eleger para mais quatro anos. O resultado foi uma espécie de segunda gestão Pitta. Algum tempo depois, o Ministério Público Estadual passou a investigar o prefeito por suspeita de enriquecimento ilícito.A investigação não deu em nada

Metade do dinheiro que bancou o comitê financeiro que reelegeu o prefeito Gilberto Kassab (que estava no DEM) em 2008), foi de "doações" de empresas contratadas da prefeitura. O DEM recebeu na época R$ 8 milhões em doações de empresas com participação societária em concessionárias de serviço público, como Camargo Corrêa e OAS. As "doações" levaram o promotor eleitoral Maurício Lopes a entrar na Justiça, com pedido de rejeição das contas de campanha de Kassab. O caso acabou sendo engavetado.

Algum tempo depois, Kassab largou a cidade de São Paulo para trás para cuidar da fundação de seu partido, o PSD, filho da falta de caráter com o fisiologismo (teve fraude até em assinaturas nas filiações). E pior. Agora, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu que o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), investigue a acusação do executivo da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, que afirma ter dado R$ 23,3 milhões para a criação do PSD, partido do Gilberto Kassab.

O executivo contou também que o Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propina da Odebrecht, repassou R$ 17,9 milhões para Kassab, quando foi ministro das Cidades. Como exemplo de contrapartidas, citou a negociação de "debêntures de infraestrutura" e a liberação de crédito no programa Pro-Transporte, do Ministério das Cidades.

Kassab é suspeito também de receber mais R$ 5,4 milhões em propina para direcionar obras da prefeitura de São Paulo, entre elas o túnel Roberto Marinho, para a Odebrecht. No mesmo inquérito, outros dois delatores informam que, em 2008, pagaram R$ 3,4 milhões a Kassab por conta dos interesses da Odebrecht na prefeitura de São Paulo. "Os valores foram pagos de maneira ilícita, portanto sem registro eleitoral, com ciência pessoal de Kassab, no período de janeiro a junho de 2008", afirmam os executivos em depoimentos

Em outro inquérito, a novidade é que Paulo Preto não arrecadava propina apenas para José Serra (PSDB). Rodrigo Janot diz que vai investigar o envolvimento de Kassab e do ex-diretor da empresa Dersa, Paulo de Souza Vieira, o Paulo Preto, no direcionamento de grandes obras de infraestrutura para a Odebrecht no período em que Kassab era o prefeito e o senador José Serra (PSDB ) era o governador de São Paulo. Pelo acerto, a empreiteira teria de pagar 5% do valor do contrato em propina. O suborno seria entregue na medida da liberação dos pagamentos das obras. Numa das negociações da propina relacionada ao túnel Roberto Marinho, em 2008, Paulo Preto teria pedido um adiantamento para a campanha de Kassab.

Nota-se por aí que Kassab é o tipo de político profissional que entra para a política pela porta dos fundos, que puxa os sacos e tapetes certos e chega ao poder por elevação. É o tipo de político que conhece a sordidez do sistema e opera muito bem pelos bastidores, seja para atingir adversários, seja para costurar acordos. Basta lembrar que ainda à frente do Ministério das Cidades orientou políticos do seu partido, PSD, a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Desta vez, o ministério público promete investigação e entregou o caso Kassab para o STF. A única alternativa digna ao ministro do Temer seria pedir para sair. Mas nada disso vai acontecer. Mestre da cooptação, Kassab, a essa altura, já deve estar se reunindo com a turma do Temer para costurar um acordo que seja vantajoso para todas as partes.

só no discurso

Para agradar aliados, Temer não cumpre promessa de reduzir cargos do governo

Em vez de extinguir mais de 4 mil cargos comissionados, presidente cria decreto que onera ainda mais os cofres públicos, apenas para garantir apoio de aliados em votações no Congresso
por Helena Sthephanowitz publicado 18/04/2017 16h29
Valter Campanato / ABr
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Temer, em seu primeiro discurso como presidente, após o golpe que derrubou Dilma Rousseff: vale-tudo para garantir apoio no Congresso

Um ano após ter chegado ao Palácio do Planalto, Michel Temer, não cumpriu a promessa de reduzir cargos no governo federal. Continua aparelhando o governo para agradar a seus aliados que votaram pelo golpe e garantir apoio em votações no Congresso. Todos se lembram – ou deveriam lembrar – que Michel Temer prometeu extinguir mais de 4 mil cargos comissionados

O discurso solene e agressivo da necessidade de redução de cargos públicos, e ministérios foi muito utilizado inclusive para atacar a gestão da presidenta Dilma, no que se referia a um suposto exagero na quantidade de ministérios. Descobre-se agora que, em vez de reduzir a quantidade de cargos, Temer oficializa aliados indicados e remaneja outros, sem exigir experiência na área ou competência comprovada em pastas que vão ocupar.

Na imprensa o governo Temer costuma alardear que foram extintos 14,2 mil cargos comissionados. Só que Temer não conta que substituiu os comissionados por cargos de "Funções Comissionadas do Poder Executivo (FCPE)". Na prática, não reduziu nada. Ao contrário, o número total de cargos de confiança e funções gratificadas aumentaram

Essa é a exata finalidade do Decreto nº 9000, de 8 de março de 2017, criado por Michel Temer, que aprovou a estrutura regimental e o quadro demonstrativo dos cargos em comissão e das funções de confiança do Ministério de Transportes, Portos e Aviação Civil.

Via decreto, Temer ignorou determinações legais vigentes, para transferir cargos de Agências Reguladoras para Ministérios, a fim de distribuir DAS (Cargos Comissionados) com liberdade para agir do jeito que quiser com os aliados, indicados por políticos e apadrinhados.

As agências reguladoras possuem legalmente (ou deveriam possuir) independência administrativa e autonomia funcional (arts. 11 e 31 da Lei nº 9986, de 18/07/2000; §1º do art. 21 da Lei nº 10.233, 05/06/2001; e, art. 4º da Lei nº 11.182, de 27/09/2005) e quantidade de cargos em comissão definidos nos anexos das leis aqui mencionadas.

Ocorre que no Decreto nº 9000, as leis estão sendo ignoradas apenas para que a máquina administrativa seja azeitada por mais indicações políticas por meio de cargos de confiança. E ocorre, porém que, na lógica da administração gerencial do Estado – modalidade que passou a imperar nas agências reguladoras – tais cargos deveriam ser ocupados segundo critérios técnicos, ou seja, por pessoas capacitadas, visando buscar maior eficiência na prestação de serviços públicos.

Uma breve pesquisa no Diário Oficial, nota-se que os cargos não estão sendo extintos. Estão sendo remanejados para a Secretaria de Gestão do Ministério do Planejamento. De lá, poderão ser transferidos a órgãos do Executivo Federal onde políticos ligados à cúpula de Temer possam alojar seus indicados para assegurar a priorização ou o travamento de processos, conforme a conveniência, ou para que se tornem moeda de troca em negociatas escusas

Sem oposição para fiscalizar, por meio de decreto e a pedido do Ministro dos Transportes, Temer contraria pelo menos três leis – Lei nº 9986, de 18/07/2000, Lei nº 10.233, 05/06/2001 e Lei nº 11.182, de 27/09/2005 –, que estabelecem com precisão a quantidade de cargos comissionados que o governo pode distribuir

E pior de tudo: o uso de decretos para alterar a estrutura de cargos de agências reguladoras cria um precedente perigoso, uma vez que o mesmo procedimento poderá ser utilizado como instrumento de coação e ameaça às agências reguladoras. Bastará alguma conduta ou ato legal das agências ou seus agentes que contraponha aos interesses do ministério dos Transportes, de seus secretários ou de empresas protegidas pelo governo golpista.

Por incrível que pareça, essa transição de cargos (muitos dos quais  estavam destinados  a servidores já aprovados em concurso) ocorre apenas nas agências do setor de transporte (ANTT, ANTAQ e ANAC) que, por decisão do atual governo Temer, encontram-se vinculadas ao Ministério dos Transportes, historicamente um dos mais denunciados e investigados por corrupção, e que hoje concentra com menos autonomia e com menos qualidade técnica a antiga Secretaria dos Portos e a antiga Secretaria da Aviação Civil.

aparelhamento

Roberto Freire arruma 'boquinhas' no MinC para 'companheiros' derrotados nas urnas

Pessoas ligadas ao PPS e com pouca ou até mesmo nenhuma experiência na área ocupam cargos em diversos setores do ministério, dado a Freire pelo apoio que deu ao golpe contra a democracia
por Helena Sthephanowitz publicado 07/04/2017 13h16, última modificação 07/04/2017 16h09
Leonardo Prado/Agência Câmara
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Pelo apoio dado ao golpe parlamentar do ano passado, Freire virou ministro da Cultura de Temer e passou a empregar amigos do partido, prática que, antes, condenava

O presidente do PPS, Roberto Freire, foi deputado estadual, deputado federal e senador por Pernambuco. Quando se viu sem futuro político em seu próprio estado e embora nunca tenha residido em São Paulo, foi presenteado, em 2009, com um cargo na administração da capital paulista, pelo então prefeito José Serra, agradinho que foi mantido pelo sucessor,  Gilberto Kassab.

Mesmo sem conhecimentos técnicos comprovados na área, Freire ganhou uma boquinha na Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) e na São Paulo Turismo (SPTuris), responsável pelo desenvolvimento do turismo e da organização de eventos, como o carnaval. Residente em Recife, não compareceu em nenhuma reunião dos conselhos em São Paulo, mas teve direito a R$ 12 mil por mês. No mesmo ano, apenas para garantir mandato, não viu conflitos de representação ao transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, por onde conseguiu se eleger deputado federal, em 2010, com o apoio dos tucanos. Tentou se reeleger em 2014, mas foi novamente rejeitado pelas urnas,

Pelo apoio dado ao golpe parlamentar do ano passado, terminou virando ministro da Cultura de Temer.

Logo após a posse, em entrevista à imprensa, Freire afirmou que sob seu comando "os cargos no ministério seriam exercidos, preferencialmente, por servidores de carreira". Em outras entrevistas, acusou diversas vezes, que o Ministério da Cultura teria sido aparelhado por petistas. "Lamentavelmente, um ministério que teria muito a dar ao país ficou voltado para atender a interesses de facções políticas", declarou, atribuindo nomeações ao "projeto de poder" do PT e do PCdoB.

No entanto, desde que passou a ser ministro, o "zeloso" presidente do PPS nomeou para o MinC, em Brasília e nos estados, "companheiros" do partido que, em sua grande maioria, perderam eleições recentes e, pelo currículo, não possuem atributos – além da amizade e da relação política com o ministro – que os qualifiquem para integrar a pasta da Cultura. A lista é extensa:

Fábio Sato, candidato derrotado à prefeitura de Presidente Prudente (SP) no ano passado, ganhou de presente a cadeira de assessor na Secretaria-Executiva do MinC.

Maria do Céu, que não conseguiu se eleger vereadora de Recife, agora é chefe da representação do MinC no Nordeste.

Raimundo Benoni Franco foi nomeado secretário de Infraestrutura Cultural. Ele disputou e perdeu a eleição para prefeito da cidade de Salinas (MG).

Adão Cândido, que concorreu a vice-governador do Distrito Federal em 2014, foi presenteado com o cargo de secretário de Articulação e Desenvolvimento Institucional do ministério.

O ator global Stepan Nercessian tentou vaga na Câmara dos Deputados, perdeu, e agora é presidente da Funarte.

O presidente do PPS-DF, Francisco Andrade, candidato derrotado a deputado em 2014, recebeu a direção do Departamento de Mecanismos de Fomento. Sem experiência na área cultural ou de finanças públicas, tem em mãos R$ 41,5 milhões para gerir o Fundo Nacional da Cultura.

João Batista de Andrade, candidato a vice-prefeito de São Paulo derrotado em 2008, agora é secretário-executivo e, muito provavelmente, futuro presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema).

João Artur de Almeida Pinheiro faz parte do conselho fiscal do PPS. No MinC, é chefe de gabinete.

Fabiano Caldeira é apenas filiado ao partido de Roberto Freire e está no ministério como chefe da Assessoria de Comunicação Social.

José Haddad, presidente do PPS de Niterói (RJ), está ocupando a chefia regional do MinC nos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.

Alberto Aggio, membro do conselho político do PPS, é assessor especial no ministério de Freire.

Outro filiado do partido, Sionei Ricardo Leão de Araújo, é, simplesmente, assessor no Minc.

E até a advogada do PPS, especialista em direito do consumidor, Renata de Carvalho Machado, foi agraciada pelo amigo ministro, que a indicou para ser coordenadora-geral de Cultura e Educação da Secretaria da Cidadania e Diversidade.

Roberto Freire, que apoiou o golpe em troca de um ministério, tem se notabilizado na mídia tradicional pelo empenho com que se lança na defesa da moralidade pública. Por essa razão, o seu comportamento deveria ser exemplar no campo da ética, já que se apresenta como o paladino da moral. Ou não?

 

penas chamuscadas

Executivo da Odebrecht tira da sombra o homem da propina dos tucanos

José Amaro Pinto Ramos é um famoso lobista internacional, amigo de empreiteiros, ligado aos tucanos, que já foi indiciado pelo Ministério Público da Suíça por diversos crimes de corrupção
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 03/04/2017 11h39, última modificação 03/04/2017 11h45
BRASIL 247
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Novis contou que além dos R$ 23 milhões transferidos para a campanha de Serra, outro depósito também foi feito

Detalhes da delação de Pedro Novis, ex-presidente da Odebrecht e atual membro do conselho administrativo da holding Odebrecht S.A., caíram como uma bomba no ninho tucano e deixaram penas chamuscadas. Novis contou no Ministério Publico Federal que além dos R$ 23 milhões transferidos pela construtora de uma conta na suíça, para a campanha presidencial de José Serra, um outro depósito de alguns milhões, foi feito para o senador tucano. Sem especificar o valor, Novis afirmou que a operação envolve a conta de uma parente de Serra e o empresário José Amaro Pinto Ramos.

José Amaro Pinto Ramos é um famoso lobista internacional, amigo de empreiteiros, ligado aos tucanos, que já foi indiciado pelo Ministério Público da Suíça por crimes de lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos e pagamento de propina nos escândalos de corrupção nas gestões tucanas no estado de São Paulo – pelo consórcio encabeçado pela alemã Siemens e a francesa Alstom, em 27 anos de negócios com os governos do PSDB e congêneres.

O pedido de investigação se baseou na Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção. A informação consta de relatório do Ministério Público da Confederação Helvética (MPC), Zurique, Suíça, datado de 21 de fevereiro de 2011. O processo SV 10.0173-LEN, foi aberto em 7 de outubro de 2008. O dossiê da Suíça foi enviado ao Brasil em fevereiro de 2011 e, na época, engavetado pelo procurador Rodrigo de Grandis. 

José Amaro Pinto Ramos foi sócio de uma empresa cujo acionista é detentor de contratos milionários nas administrações dos governos do PSDB em São Paulo, inclusive na gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB). A empresa é especializada em engenharia civil, com atuação na construção de obras para áreas públicas, e tem atualmente dezenas de contratos de cifras milionárias com a Sabesp, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee).

Ramos consta também como sócio três empresas: a Epcint Desenvolvimento de Negócios Ltda., a Epcint Assessoria Técnica Ltda., ambas com sede na capital paulista, e a IES Informática e Sistemas Ltda., com endereço no Rio de Janeiro. 

A Epcint de Amaro Ramos é sócia da empresa Aratec, do vice-almirante da Marinha Othon Pinheiro da Silva, ex-presidente da estatal Eletronuclear, que está preso. Othon e José Amaro são sócios também da companhia Hydro Geradores e Energia. No quadro social da Hydro há outras duas empresas, BBT Energia e Emexport.

José Amaro Pinto Ramos, fechou as portas de outras empresa, a Sysdef Consultoria Ltda. e da Epcint Importação & Exportação Ltda., com a qual atuou no exterior, especialmente nos Estados Unidos, onde intermediou contatos políticos para a cúpula tucana. Em 1990, ele atuou como consultor da Alstom na contratação de crédito externo para a compra de trens do metrô pelo governo tucano em São Paulo.Com escritórios nos Estados Unidos e na França, José Amaro figura entre os principais lobistas do Brasil. Trabalha para multinacionais, em especial em contratos com o poder público.

Nas investigações feitas no Brasil pela Polícia Federal e Ministério Público Federal, em 2013, Pinto Ramos aparecia como dono de seis empresas com atuação nacional e internacional e uma rede de negócios amparada nas relações políticas. Pinto Ramos se aproximou do governo paulista já na redemocratização, atravessou as gestões de Franco Motoro, Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury intermediando negócios, mas firmou-se mesmo como personagem de bastidor e operador nos governos do PSDB.

Em 2013, uma reportagem do portal IG descrevia Pinto Ramos como “amigo fraterno” do falecido ex-ministro Sérgio Motta, num relacionamento que teve início antes mesmo de o PSDB chegar ao Palácio do Planalto e ao governo paulista, em 1994. Em 1993, durante a posse do ex-presidente americano Bill Clinton, o empresário apresentou Motta ao marqueteiro James Carville, estrategista em eleições que mais tarde viria prestar assessoria à campanha de Fernando Henrique.

No mesmo dia da posse de Clinton, Pinto Ramos ofereceu um jantar a Fernando Henrique, na época chanceler do Brasil, do qual participou também o empresário Jack Cizain, ex-diretor da Alstom. Três anos depois, o próprio Cizain participaria da compra da Ligth como representante da Electricité de France (EDF), integrante do consórcio que ganhou o leilão de privatização. A estatal fluminense foi dirigida por José Luiz Alquéres, ex presidente da Alstom, também apontado como suspeito no esquema.

Pinto Ramos se especializou na prestação de serviços de energia e transporte sobre trilhos e, por conta dos negócios com estatais, respondeu por denúncias de recebimento de propinas da Alstom. Em uma das ações, arquivada, chegou a ser acusado por formação de quadrilha e falsidade ideológica junto com o ex-presidente do Metrô na gestão do ex-governador Orestes Quércia, Antônio Sérgio Fernandes.

Em 1995, segundo reportagem da revista US News & World Report, Pinto Ramos foi investigado pelo FBI no caso de corrupção envolvendo o secretário de Comércio de Bill Clinton, Ron Brawn. A atuação do empresário se estende também a negócios brasileiros na Europa, Japão e União Soviética.

Em uma entrevista em 2008, José Amaro Pinto Ramos disse que trabalhou para a Alstom, e que uma de suas empresas foi contratada no início dos anos de 1990 pelo consórcio Mafersa/Villares, mais tarde arrendado pela Alstom, para estruturar “um complexo crédito externo” que garantiria a produção nacional de trens para a Linha 2 do Metrô de São Paulo.

o novo velho

Partido Novo lançará candidato a presidente que já foi envolvido em escândalo financeiro

Legenda que afirma "renovar a política" anuncia que concorrerá ao Planalto em 2018 com o empresário Flavio Rocha, candidato em 1994 que renunciou, envolvido no "escândalo dos bônus eleitorais"
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 26/03/2017 07h55, última modificação 27/03/2017 08h21
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Flávio Rocha, o empresário e 'bom gestor'. Para o Novo, qualidade suficiente para ser presidente do país, mesmo com histórico de velhas práticas

O partido Novo – que muitos chamam de "partido dos banqueiros" –, teve seu registro de fundação aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2015 e surgiu na cena política com o oportunista, além de velho e surrado, discurso de ser um "partido político sem políticos", composto por pessoas "sem experiência na política", que entre si compartilham o "descontentamento generalizado com a política partidária nacional". Conversa para atrair apoiadores. O "dono" do partido é o banqueiro João Dionísio Amoêdo, que além de presidente da legenda é também presidente do Citibank, tendo ocupado a presidência do Itaú BBA e do Unibanco.

Ao lado do banqueiro, assinam a fundação do Partido Novo Marcelo Lessa Brandão, executivo do grupo que controla as redes de fast food Bob's, Pizza Hut, McDonald's e KFC ; João Antonio Lian, presidente do Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) – e Fábio Luis Ribeiro, figura de destaque do setor financeiro, onde atua como gestor de fundo de investimentos.

Entre os amigos idealizadores do partido estão o ex-ministro da Fazenda Edmar Bacha e o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, ambos homens fortes do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Com nomes como esses em sua cúpula, o partido Novo promete "renovar a política", e já anunciou que vai lançar em breve, como pré-candidato à Presidência da República em 2018, o dono da rede de lojas Riachuelo, Flávio Rocha. Em entrevista, João Amoêdo deu o tom das qualificações que o partido vê em seu candidato para lança-lo na corrida presidencial: "Flávio Rocha é uma pessoa alinhada com os princípios do Novo e um bom gestor".

Logo de cara, já "deu ruim". Renovar a política com Flavio Rocha como candidato é uma contradição para o discurso de "sem experiência na política", já que o partido afirma oferecer ao eleitorado brasileiro a novidade, e o nome escolhido traz o legado da, como eles mesmo dizem, velha política.

O empresário Flávio Rocha, foi deputado federal em 1986 pelo PFL (atual DEM). Tão logo foi eleito, transferiu-se para o PL. Foi reeleito em 1990, mas então já estava no PRN, para onde foi após ser convidado por Fernando Collor. De volta ao PL, foi candidato à Presidência da República em 1994 – quando sua principal bandeira foi a criação do chamado Imposto Único, que substituiria todos os demais. Mas deixou a competição antes das eleições, por força das denúncias de envolvimento no "escândalo dos bônus eleitorais" – um mercado paralelo e ilegal de venda destes papeis, lançados à época como forma de financiamento de campanhas. Candidatos conseguiam compradores por um certo valor, mas os vendiam com deságio, pela metade do que valeria, a fim de legalizar recursos recebidos por empresas e não contabilizados oficialmente.

Largou a política e foi cuidar da empresa da família.

Recentemente, Flávio Rocha apareceu em uma reportagem da revista Carta Capital, desta vez como empresário, queixoso da política econômica e "um dos porta-vozes do empresariado nacional a defender o impeachment" de Dilma Rousseff.

Pela crítica feroz que fez da "política dos campeões nacionais do BNDES", o banco estatal de fomento da economia brasileira, chama a atenção que, entre 2006 e 2009, o empresário tenha recebido financiamentos da ordem de R$ 1,44 bilhão, além de ter se beneficiado de isenção de 75% do Imposto de Renda na construção de fábricas no Ceará e no Rio Grande do Norte.

O partido Novo poderia explicar que novidade há no perfil político e empresarial de seu pré-candidato a presidente. Afinal de novo mesmo, não existe nada, é a velha repetição de vícios e desvios do país, que apenas se repetem com cara de renovação.