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Blog da Helena

ecos do passado

Delator confirma, mais uma vez, 'tabelinha' entre empreiteira e PSDB em Furnas

São fartas as evidências e provas sobre a corrupção acerca da Lista de Furnas e o PSDB. Mas autoridades e mídia ainda mantêm o silêncio e a blindagem de Aécio
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 28/08/2015 15:47
Pedro França/Agência Senado/Fotos Públicas
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Aécio Neves voltou a ser denunciado por doleiro e a usufruir da complacência dos operadores da Lava Jato

A acareação organizada pela CPI da Petrobras, entre o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa, na terça-feira (25), trouxe uma importante confirmação, que deveria ter sido levada a sério pela velha mídia do país: o doleiro voltou a relatar sua participação em uma reunião na empreiteira Camargo Correa, em 2002, junto com o então deputado José Janene (do PP paranaense, morto em 2010), para cobrar daquela empresa R$ 4 milhões, como parte de um acordo de propinas e corrupção dentro da hidrelétrica mineira de Furnas. Segundo Youssef, um executivo da empreiteira, João Auler, disse a Yousseff e a Janene que o valor já havia sido pago a agentes do PSDB.

Yousseff também reafirmou que Janene contou a ele que dividia com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) as propinas desviadas de uma diretoria de Furnas, por meio da empresa chamada Bauruense. A irmã do senador, Andrea, seria a operadora que recolhia o dinheiro, segundo a delação de Yousseff. E que o esquema tucano teria sido montado em 1994.

O relato é mais um a confirmar a existência da chamada "Lista de Furnas", relação de pagamentos clandestinos feitos por empresas fornecedoras daquela estatal para políticos tucanos e seus aliados nas eleições de 2002.

O senador Aécio e seus familiares tiveram grande influência em Furnas na época destes (ainda supostos) acontecimentos. O pai, o ex-deputado Aécio Ferreira da Cunha, foi nomeado conselheiro de administração em 1993, cargo em que permaneceu durante o governo Itamar Franco, passando por todo o mandato de Fernando Henrique Cardoso, e indo até 2005, já com o país sob o primeiro mandato do governo Lula – por força de arranjos políticos locais, em que "aliados" tanto compuseram a base governista federal, como apoiaram o governo tucano de Minas.

Nos meios políticos atribui-se a Aécio Neves a indicação de Dimas Toledo, epicentro do escândalo da lista, num cargo de diretoria de Furnas durante o governo FHC e também até 2005.

São fartas as evidências e provas sobre a corrupção acerca da Lista de Furnas. Além dos relatos de Youssef, o ex-deputado Roberto Jefferson (pelo PTB-RJ) afirmou ter recebido R$ 75 mil a título de participação do esquema.

Nilton Monteiro, que revelou a trama há dez anos, é caso único de delator que autoridades responsáveis por investigações parecem fugir como o diabo foge da cruz. Se a Lava Jato solta presos provisórios após fecharem acordo de delação premiada, Nilton Monteiro foi mantido preso na jurisdição estadual mineira só para ficar calado, e não poder delatar.

Ele ofereceu-se ao então ministro do STF Joaquim Barbosa, para contar tudo o que sabia dos bastidores das campanhas tucanas de que ele participou mas, "sabe-se lá por que", ninguém quis ouvi-lo.

O desinteresse na apuração das denúncias se repete agora nos trabalhos – e sobretudo na cobertura – da Operação Lava Jato. A investigação chegou a resvalar no setor elétrico, mais precisamente na Eletronuclear, mas insiste em solenemente ignorar Furnas, mesmo havendo uma série de denúncias de pagamento de propinas ao PSDB e formação de caixa 2 para financiar campanhas eleitorais de tucanos.

Assim, a frase proferida pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, durante a semana – "pau que dá em Chico, dá em Francisco" –, não está valendo. Ainda.

Segurança em SP

Em meio a chacina, comandante da PM tira folga e viaja aos EUA

A segurança pública em São Paulo está evidentemente mal dirigida: na periferia, as ações policiais não separam trabalhador pobre de criminoso. Nos bairros mais favorecidos, a polícia não garante a paz
por Helena Sthephanowitz publicado 26/08/2015 09:03, última modificação 26/08/2015 11:50
Reprodução/Bandnews
Morumbi

Protesto no Morumbi reivindica aumento do efetivo policial; morador foi vítima de latrocínio no domingo

Em 2012, ordem vinda de dentro dos presídios da facção criminosa PCC assustou os moradores da capital paulista com ataques a policiais militares e incêndios a ônibus. Na época, 127 pessoas morreram assassinadas em São Paulo, conforme dados do Sistema de Informações Criminais (Infocrim) da Secretaria da Segurança Pública do estado. Porém, mesmo com o quadro de crise em curso, o secretário de segurança, em 2012, Antônio Ferreira Pinto, pediu – e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) autorizou – uns dias de folga.

Pinto não abriu mão de viajar até um país vizinho, a Argentina, para assistir ao primeiro jogo da final da Copa Libertadores da América, entre Boca Juniors e Corinthians. Três anos se passaram e eis que o cenário se repete, com um outro personagem subordinado ao governo tucano.

Na noite de 13 de agosto, cerca de 30 pessoas foram vítimas de ataques a bala, por homens encapuzados, nas cidades de Osasco e Barueri, região metropolitana da capital. Sem razão aparente, 18 pessoas foram mortas, no episódio mais violento do mês, até aqui.

No entanto, em meio a essa chacina e sem que fossem descobertos os matadores, o comandante geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, coronel Ricardo Gambaroni, imita o ex-secretário, pede para se afastar do posto por 15 dias para viajar à cidade de Kansas, nos Estados Unidos, com a justificativa de renovar sua habilitação de piloto de avião – e é atendido pelo governador Geraldo Alckmin.

Os problemas do segurança pública nas grandes cidades de São Paulo, como se sabe, não são exatamente uma novidade para os moradores das periferias. Mas de tempos em tempos, atinge também o eleitorado tradicional dos tucanos, com perfil bem diferente das vítimas da chacina.

No último domingo (23), moradores do Morumbi, bairro da elite paulistana, fizeram um protesto mobilizado por parentes e amigos de André Ribas, morador da região, vítima de latrocínio. Houve grande adesão e muitos relatos de pessoas declarando já terem sido vítimas da violência. Carregavam balões pretos em sinal de luto e fizeram uma carreata até a porta do Palácio dos Bandeirantes, onde despacha o governador, que não deu as caras.

Os manifestantes do Morumbi reclamam mais 14 mil policiais para fazer o policiamento ostensivo no bairro. Segundo eles seria o necessário para o tamanho da população local, apesar de o efetivo da PM para todo o estado ter fechado 2014 com 86 mil agentes. Em relação ao fixado em lei, deveriam ser 94 mil – o governo tucano, há 20 anos no poder, convive com um déficit de pelo menos 8 mil policiais. A Polícia Civil também padece de falta de profissionais.

O agravante é que, em vez de cobrir pelo menos parte do déficit, o efetivo está encolhendo. No ano passado, a corporação sofreu uma redução de 1.513 policiais em relação a 2013. Há promessas de concursos até 2016, mas a mesma promessa de suprir o déficit foi feita no passado e não se cumpriu.

A segurança pública em São Paulo está evidentemente mal dirigida: na periferia, as ações policiais não separam trabalhador pobre de criminoso, e a mesma polícia não consegue garantir paz à população que vive em bairros mais favorecidos.

Enquanto os pobres morrem por chacina tendo maus policiais como suspeitos, enquanto os ricos do Morumbi morrem em latrocínios, o comandante da PM está preocupado em tirar folga e dar uma "escapulida" para os Estados Unidos.

Laços de família

Denúncia contra Cunha pode ligar Lava Jato à privataria tucana

Livro publicado em 2011 trazia revelações sobre movimentações financeiras em paraísos fiscais por pessoas próximas ao senador José Serra. E também a Fernando Baiano, suposto "sócio oculto" de Cunha
por Helena Sthephanowitz publicado 22/08/2015 10:38, última modificação 24/08/2015 18:30
privataria

Serra e Baiano: denúncia do MPF pode conter elos entre a era das privatizações e a da Lava Jato

A denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tem uma surpresa. Na página 40 aparece a ligação da Operação Lava Jato com a privataria tucana, ao rastrear o caminho do dinheiro das propinas sobre contratos de construção de sondas pela Samsung para a Petrobras.

Segundo a denúncia do Ministério Público, o representante da Samsung, Júlio Camargo, recebeu comissão por ter conquistado o contrato – e distribuiu propinas. Três desses pagamentos, entre junho e outubro de 2007, saíram das contas, em paraísos fiscais, das empresas Piamonte Investment e Winterbothan Trust Company, do próprio Camargo, para a Iberbras Integración de Negócios Y Tecnologia, ligada a Fernando Soares, o Fernando Baiano, chamado por Camargo de “sócio oculto” de Eduardo Cunha.
simile

A denúncia registra que a Iberbras tem uma sucursal brasileira – Iberbras Integração de Negócios, de CNPJ 068.785.595/0001-01 –, registrada em nome de Hiladio Ivo Marchetti, marido de Claudia Talan Marin, que, por sua vez, é proprietária do Condomínio Vale do Segredo Gestão de Patrimônio Eireli, em Trancoso, no litoral sul da Bahia. Fernando Baiano tem entre seus bens sequestrados pela Justiça uma mansão naquele condomínio e realizou transferências para Cláudia Talan Marin no valor de R$ 1,6 milhão.

Cláudia Talan Marin e Hiladio Ivo Marchetti são filha e genro de Gregório Marin Preciado, ex-sócio do senador José Serra (PSDB-SP) em um terreno no Morumbi, bairro nobre de São Paulo. A mãe de Cláudia, Vicencia Talan Marin, é prima do senador tucano. Por este parentesco, Preciado muitas vezes é tratado nos meios políticos como "primo" de Serra.

Todo o capítulo 8 do livro-reportagem A Privataria Tucana (de Amaury Ribeiro Júnior, Geração Editorial, 2011) é dedicado a Preciado, com o título “O primo mais esperto de José Serra”. No final do capítulo 7, há documentos da CPI do Banestado obtidos no Tribunal de Justiça de São Paulo, comprovando a movimentação milionária de dinheiro de Preciado em paraísos fiscais, em negócios com Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro de Serra.

As relações de Preciado com Serra são antigas e profundas. A antiga empresa de consultoria do atual senador, denominada ACP Análise da Conjuntura Econômica e Perspectivas Ltda., tinha como endereço o prédio da firma Gremafer, pertencente a Gregório Preciado. Neste imóvel também funcionaram os comitês de campanha de José Serra nas eleições de 1994 para o Senado, e de 1996, para prefeito de São Paulo.

Preciado também contribuiu para financiar campanhas de Serra nos anos de 1990 por intermédio de suas empresas Aceto, Gremafer e Petrolast. A família de Serra visitava sempre as casas de Preciado em Trancoso, região onde ele passou a fazer negócios imobiliários.

Um caso rumoroso envolvendo o DEM da Bahia foi na Ilha do Urubu.

A ligação de Fernando Baiano com a Iberbras foi confirmada nas investigações a partir do controle de acesso na portaria da Petrobras, onde Baiano identificou-se como representante da empresa.

Segundo informações de bastidores a respeito da delação premiada de Fernando Baiano, ainda sob sigilo, um dos assuntos delatados seria justamente negócios com o "primo" de Serra. A conferir.

relações suspeitas

Bolsonaro contratou ex-agente da Abin campeão de gastos com cartão corporativo

Ex-agente e capitão reformado nomeado pelo deputado foi investigado pela CPMI do Cartões Corporativos do Governo Federal em 2008 e identificado com o terceiro maior gasto, de R$ 331,1 mil
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 16/08/2015 12:58
Wilson Dias / ABr
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Bolsonaro: o mesmo "araponga" usado para desgastar o governo petista hoje está lotado em seu gabinete

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) nomeou para o cargo comissionado de secretário parlamentar em seu gabinete na Câmara o ex-agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o capitão reformado Telmo Broetto. Trata-se do terceiro maior "gastador" usando o cartão de pagamentos do Governo Federal para suprimento de fundos de despesas sigilosas identificado na CPMI dos Cartões Corporativos do Governo Federal, realizada em 2008.

Naquela época a oposição fez a tal CPMI e mirou gastos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), responsável pelas despesas do Palácio do Planalto e da Abin, cujo detalhamento é classificado como sigiloso por motivo de segurança nacional.

Entre os "arapongas que gastavam em sigilo" – como os oposicionistas na mídia tratavam o assunto – Broetto era titular do cartão de pagamentos que registrava o terceiro maior gasto, totalizando R$ 331,1 mil.

Acionado pela CPMI, o Tribunal de Contas da União (TCU) realizou auditoria no uso dos cartões da Abin e identificou irregularidades formais, mas não crimes de desvio de dinheiro público. O "araponga" nem era um agente que realizada investigações e sim trabalhava em setor administrativo, no almoxarifado da Abin onde realizava compras para o órgão com o cartão, algumas inadequadas segundo o TCU. Aliás, aquela CPMI não encontrou desvio nenhum, de ninguém, encontrando apenas alguns gastos fora das regras.

Parece até irônico que o mesmo "araponga" usado para desgastar o governo petista pela oposição da qual Jair Bolsonaro fazia parte, hoje está lotado no gabinete do deputado oposicionista.

Outra curiosidade é Telmo Broetto ter doado dinheiro para a campanha eleitoral do filho do patrão nas eleições de 2014. Doou R$ 7.000 para o deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), filho de Jair. Em 2006, época em que pilotava o cartão corporativo da Abin, Telmo já havia doado R$ 9.000 ao outro filho do atual patrão, o deputado estadual Flavio Bolsonaro (PP-RJ).

reversos

Crise econômica na velha mídia é mais grave que a do país que ela pinta

TVs, jornais, revistas e rádios sofrem "recessão" de 8,5% em suas verbas publicitárias. Sinal dos tempos sim, mas também de erro estratégico: apostar no "quanto pior, melhor" foi um tiro no pé
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 11/08/2015 10:38, última modificação 11/08/2015 13:49
Marcia Minillo /RBA
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Queda nas verbas publicitárias é preocupação a mais para grupos como a Globo: internet e opções erradas

O faturamento com anúncios nos meios TVs abertas, jornais, revistas e rádios somados caiu 8,5% no primeiro semestre de 2015 em relação ao mesmo período de 2014. Os números são da pesquisa de mercado sobre investimentos publicitários do Ibope Media.

Os valores totais do ano anterior foram corrigidos pela variação do IGP-M (FGV) de junho de 2014 a junho de 2015 para apurar o crescimento real ajustado.

O meio mais atingido foi o de revistas, com queda de 20,9%. Apesar da pesquisa não detalhar cada veículo, é sabido que a situação é dramática para a Editora Abril, que tem na semanal Veja seu carro-chefe. O balanço da Abril Comunicações de 2014 já mostrava um patrimônio líquido negativo e realização de prejuízo. A Veja, transformada num panfleto de campanha sistemática de crise e pelo impeachment de Dilma Rousseff, pode acabar "impichada" pelo mercado publicitário antes das eleições de 2018.

A TV aberta, incluindo merchandising, também sofreu um queda dramática de receitas vindas de anunciantes: -7,2%, comparativamente ao primeiro semestre do ano passado. Jornais amargaram queda de 9,7% e rádios perderam 10,2%.

Pelo Ibope Media não dá para saber se os anunciantes simplesmente reduziram o número de anúncios ou se obtiveram preços menores dos veículos, mas o fato inquestionável é que muitos fizeram cortes drásticos nos gastos com propaganda.

O maior anunciante nos primeiros seis meses de 2014, a Unilever, aplicou este ano menos R$ 528 milhões em anúncios (um corte de 25% corrigindo os valores pelo IGP-M). A Nestlé cortou R$ 194 milhões (menos 37,3%). As duas maiores cervejarias, cortaram juntas R$ 579 milhões (cortes de 30,5% e 41% respectivamente). Três grandes bancos que estão na lista dos 30 maiores anunciantes (Caixa Econômica Federal, Itaú e Bradesco) cortaram R$ 495 milhões. A lista segue, com cortes significativos (e contundentes) de Petrobras, Volkswagen, GM, Fiat, Tim, Pão de Açúcar....

Os números demonstram que a crise na mídia tradicional é muito maior do que a crise na economia brasileira como um todo. É como se o PIB da velha mídia encolhesse 8,5%.

Também mostra que o setor passa por mudança de época e de hábitos. TVs abertas, jornais, revistas e rádios perderam fatias do mercado publicitário para o meio internet e para mídias mais segmentadas, como TV por assinatura, cinema e, sobretudo, a internet e suas possibilidades.

Anúncios na rede mundial de computadores tiveram um crescimento significativo, apesar do Ibope Média estranhamente não ter divulgado nenhuma comparação, alegando mudança de metodologia. Disse que em 2014 só eram computados os portais IG, MSN, Terra, Yahoo, UOL e Globo.com, enquanto em 2015 outros 25 sites de conteúdo passaram a ser monitorados. Se, ainda assim, compararmos os números disponíveis do Ibope Media, ressalvando que tem bases diferentes de comparação, o meio internet registra um crescimento de até 32,9%.

E agora?

Tradicionalmente, os segundos semestres têm investimentos em anúncios maiores do que nos primeiros, devido ao Natal, Dia das Crianças e 13º salário incentivarem o consumo. Mas é questionável se isto ocorrerá na mídia tradicional neste ano. Porque em momentos de crise os departamentos de marketing das empresas são desafiados a abandonar estratégias conservadoras e buscam plataformas mais vantajosas para seus anúncios. A própria pressão imposta em momentos de crise por resultados mais urgentes pode acelerar esta mudança. São obrigados a seguirem o ditado: "Em time que está perdendo tem de mexer".

Diante deste quadro a continuidade do noticiário "terrorista", alarmista e desequilibrado – como se fosse uma campanha eleitoral da oposição radicalizada –, revela-se na prática uma campanha publicitária para "vender" mais e mais... crise. Resultado: espanta consumidores, investidores e anunciantes.

A própria conspiração por impeachment, inviável sem um golpe "paraguaio", e traumático demais para a economia se vier a ser tentado, atrapalha e retarda a recuperação do crescimento econômico. Lideranças empresariais e, portanto, grandes anunciantes, tais como o presidente do Bradesco, já reclamam abertamente da crise política forjada de forma irresponsável, prejudicando mais a economia brasileira do que a própria crise mundial.

E a crise política foi e continua sendo insuflada pelo forte apoio midiático.

Assim, a própria necessidade de sobrevivência da velha mídia, para não ter um prejuízo no segundo semestre muito pior do que foi no primeiro, recomenda abandonar o terrorismo editorial e noticiar a realidade como ela é, honestamente, sem viés de campanha partidária oposicionista do "quanto pior, melhor".

O questionável é se o instinto de escorpião - que ferroa o sapo na travessia do rio, mesmo morrendo afogado, como na parábola - não é maior do que o instinto de sobrevivência empresarial de alguns "barões da mídia" tradicional.

 

parlamentar

Pautas bomba são demonstração de desespero e impotência para 'impichar'

A liderança de Cunha está com prazo de validade vencendo, junto com a inviabilidade do impeachment. A bancada fisiológica que o elegeu logo vai querer voltar a participar do governo
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 08/08/2015 14:48
Edilson Rodrigues/Agência Senado
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Mesmo fisiologismo que elegeu Cunha vai levar o atual presidente da Câmara a perder a liderança

Se o PMDB estivesse com a bola toda para derrubar a presidenta Dilma Rousseff, iria votar pautas bombas para inviabilizar um hipotético governo do correligionário Michel Temer? Claro que não.

Se Aécio Neves tivesse expectativa de chegar ao poder em breve, iria tocar fogo com pautas bomba que explodiriam no seu colo? Também não.

Então até o cimento da Praça dos Três Poderes sabe que, na conjuntura atual, não existe a menor viabilidade de dar o golpe "paraguaio" do impeachment.

A mídia oligopólica conspira. Políticos da oposição e alguns insatisfeitos da base governista conspiram. Tem sim parlamentares que desejariam o golpe para pegar o poder, mas sabem que não têm cacife para tanto. Porque a situação é igual à das potências nucleares na Guerra Fria: apontavam os mísseis mas não podiam disparar, porque não sobreviveriam à inevitável retaliação.

Ameaçar com o impeachment serve para "sangrar" o governo Dilma (como expressou o senador tucano Aloysio Nunes, tempos atrás), para enfraquecê-lo Serve para chantagear politicamente, para o poder econômico passar patifarias contra os trabalhadores e contra a cidadania no Congresso. Mas o golpe em sim é apenas uma ameaça porque, ao se deflagrar um processo de impeachment, a retaliação será fatal para as forças políticas golpistas.

Não tem como rolar a cabeça de uma presidenta cuja honestidade fica comprovada em todas as investigações, sem rolar antes a cabeça de dezenas, talvez centenas de parlamentares investigados ou denunciados por corrupção. Grande parte deles, justamente os golpistas. Além disso, a deflagração de uma muito provável fúria popular se alastraria contra governadores, prefeitos, vices – alguns na situação de investigados em diversas operações e apurações pelo país.

Enquanto os golpistas blefam sem limites, a presidenta é obrigada a ser comedida como devem ser chefes de Estado, e tocar o governo em frente. Porém, se vier a ser iniciado um processo de impeachment, reagir ao golpe e abrir fogo cerrado – politicamente falando – passa a ser até mesmo uma obrigação para a presidenta, na defesa da própria integridade democrática do país.

Além disso, hipoteticamente falando, como imaginar a aceitação popular de qualquer sucessor vindo dos meios políticos suspeitos, carregando todos os vícios do sistema, e ainda mais sem ter sido eleito pelo voto popular. Até para quem não gosta da presidenta, seria trocar o ruim pelo pior.

Também não passa de desejo irrealizável a tese do senador tucano Aécio Neves de pedir novas eleições antecipadas. Primeiro porque salta aos olhos tratar-se de capricho pessoal por ter sido derrotado nas urnas e de que é ambição por cálculo político momentâneo. Não vivemos no parlamentarismo mas, se vivêssemos, teríamos presidente e primeiro-ministro. Em casos de crises políticas, o parlamento poderia trocar o primeiro-ministro, mas quem teria poderes para convocar novas eleições seria justamente o presidente – e para eleger um novo Congresso.

Se a crise política fosse tão grave a ponto de haver um esgotamento institucional na governança do país – e não é esse o caso – o correto seria convocar uma Assembleia Nacional Constituinte para fazer pelo menos as reformas política e administrativa e convocar novas eleições gerais. Não é trocando presidente, mantendo todo o entorno intacto ou pior, que saciaria a fome de mudança do povo.

A tese de novas eleições em caso de crise só interessaria ao povo se fossem eleições gerais, para eleger também outro Congresso Nacional, e com outras regras, para que seja representativo dos anseios populares. 

O ritmo frenético do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao colocar em votação e aprovar as chamadas pautas bombas – verdadeiros "cheques sem fundos" que não cabem no Orçamento da União – revela mais desespero de quem está atirando porque está caindo, do que força para dar um golpe e destituir a presidência da República.

Cunha foi eleito por seus pares pela expectativa de poder que ele representava. Com uma Câmara mais fisiológica eleita em 2014, o estilo de ser e atuar de Cunha, na base de fazer pressão por cargos e verbas e em troca votar projetos de interesse dos seus círculos, seduziu a maioria parlamentar.

Porém, desde que o presidente da Câmara apareceu envolvido nas investigações da operação Lava Jato, ele tem misturado suas encrencas pessoais com o cargo que ocupa, obstruindo negociações políticas legítimas. Chegou ao ponto de se declarar na oposição ao poder Executivo como retaliação por ter sido delatado no poder Judiciário. É como se ele quisesse que o poder Executivo garantisse uma impossível impunidade em outro poder independente.

Para piorar, tem arrastado seus correligionários para suas encrencas. A contratação da empresa de investigação Kroll pela CPI da Petrobras já está virando um escândalo em si, a ponto de oficialmente só dois membros saberem quem e o que a Kroll investiga. Nem se trata de ter acesso ao resultado final da investigação. Nem sequer o pedido do que investigar está sob sigilo. 

O deputado Paulinho da Força, aliado de Cunha, requereu na CPI a quebra do sigilo telefônico do Procurador Geral da República Rodrigo Janot, a quem o presidente da Câmara hostilizou por ser investigado. Janot acabou fortalecido por sua classe vencendo a eleição para ser indicado para continuar no cargo por mais dois anos. Paulinho ficou com o desgaste e tem submergido publicamente, conspirando pelo impeachment em cafés da manhã e jantares de "golpistas clandestinos" (aqueles que negam estarem conspirando).

Outro desgaste ruim para os parlamentares é que as pautas bombas e a agenda denuncista de CPIs estão desagradando empresários que financiaram campanhas destes deputados. E a mesma crise que afeta a economia do governo federal atinge também governadores e prefeitos aliados dos parlamentares e empresas. Não dá para sustentar fogo amigo por muito tempo contra quem dá suporte às suas eleições.

Com isso, a liderança de Cunha está com prazo de validade vencendo. Mesmo que ele consiga sobreviver no cargo, será enquadrado por seus seguidores. A bancada fisiológica que o elegeu não quer saber de ficar ao lado da oposição. Quer participar do governo em cargos e conseguir verbas para suas bases eleitorais. O blefe do impeachment é útil a Cunha porque transparece expectativa de poder. Tanto passa a ideia de que o PMDB ficaria com a presidência da República se Dilma caísse, como passa a ideia de que Dilma estaria na mão dele para ficar. Nenhuma das duas coisas é propriamente verdade pela conjuntura desfavorável ao impeachment.

Assim esse blefe está se esgotando. A bancada hoje cunhista não vai esperar para as escaramuças de Cunha com o governo sem resultado, e a ficha está caindo de que o impeachment é inviável. Isto faz os parlamentares passarem a buscar outros canais de interlocução com ministérios para voltar à paz com o governo para ver suas demandas atendidas.

A crise política na base governista, hoje, parece com a parábola da carroça de abóboras. Um cocheiro dirigia a carroça por uma estrada de terra esburacada e a cada solavanco parava para ajeitar as abóboras que saiam do lugar. Até que viu outra carroça passando e outro cocheiro mais experiente seguia em frente e nem olhava para trás. As abóboras que estavam desarrumadas organizavam-se sozinhas no próximo solavanco.

Os solavancos políticos que vêm por aí não resultarão em impeachment, que se mostra cada vez mais ser inviável. Um deles, talvez o maior, é a operação Lava Jato avançando em direção a caciques do PMDB e de outros partidos, inclusive da oposição. Fala-se em um terço ou um quarto do Congresso cair nas investigações da Lava Jato. É bem possível que deflagre até um rearranjo partidário com rachas, fusões, trocas de nomes e de legenda.

Outro solavanco que acomodará as coisas será a presidenta Dilma trocar o ministério, pois o atual não está cumprindo o compromisso de uma coalizão.

vista grossa

Lava Jato deixou de fora contrato suspeito fechado na véspera de FHC sair do Planalto

O risco do seletivismo de cor partidária em investigações é, em vez de combater a corrupção, fortalecê-la, mesmo sem querer, deixando de investigar outros agentes igualmente suspeitos
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 06/08/2015 13:37, última modificação 06/08/2015 15:59
arquivo rba

Entre as polêmicas que cercam a Operação Lava Jato figuram com destaque o menor interesse da Polícia Federal, de parte do Judiciário e da velha mídia, em investigar casos que atingem tucanos. Causa espécie que as investigações praticamente tenham estabelecido uma "data de corte" – o ano de 2003 –, deixando de lado fatos ocorridos dentro e fora da Petrobras antes disto.

Um exemplo claro é um contrato assinado entre a empreiteira UTC e a estatal brasileira no penúltimo dia do governo FHC, dia 30 de dezembro de 2002, no valor aproximado de R$ 56 milhões. Não se pode falar em prescrição, portanto.

Este contrato está vinculado a um processo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suposta realização de operações fraudulentas e manipuladas com dólar em Bolsa de Valores. Segundo a acusação, foi um tipo de operação conhecida no mercado como "esquenta-esfria", em que a empresa simula prejuízo para dar saída a recursos que pretende pagar a terceiros de forma sub-reptícia.

O caminho do dinheiro mostrou que a UTC perdeu R$ 1,37 milhão na operação. Quem ganhou foi um dentista que vive em Portugal (ou vivia na época). Mas o curioso foi que, em seguida, o dentista distribuiu o dinheiro para cerca de 20 pessoas e empresas por meio de cheques.

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A UTC foi multada em R$ 500 mil pela CVM no final do julgamento administrativo, em 11 de maio de 2010. Os fatos foram comunicados à Procuradoria da República no Estado de São Paulo, mas não há notícias de investigações no âmbito judiciário sobre este assunto, nem por parte da força tarefa da Lava Jato.

Foi o próprio Ricardo Pessoa, dono da UTC, quem ligou esta operação no mercado financeiro ao contrato com a Petrobras. Em sua defesa junto à CVM ele declarou que "a Ultratec (UTC) participou de uma concorrência com a Petrobrás, cuja proposta tinha prazo de entrega no dia 28.10.2002, e valor aproximado de US$ 56 milhões; como a Ultratec tinha parte das despesas em reais e receita de serviços em dólar, e com o valor do dólar em R$ 3,80 aproximadamente, foi tomada a decisão de realizar um contrato de opção flexível de dólar, que protegesse a sua receita da variação cambial, no caso de queda do valor do dólar abaixo de R$ 3,40, ou seja, pretendia assegurar o preço do dólar entre R$ 3,40 e R$ 3,50, valor que lhe foi informado como provável por analistas financeiros de bancos consultado à época".

Esclareceu que "o contrato foi realizado no valor de US$ 36 milhões, que era o valor correspondente às despesas da Ultratec (...) que o contrato foi assinado com a Petrobras em 30.12.2002 (...) e que o contrato de opções de dólar foi encerrado sem renovação por falta de interessados em fazê-lo e também porque o declarante passou a ter dúvidas quanto a se deveria continuar ou não, pois não sabia se o contrato entre a Ultratec e a Petrobras seria assinado".

De acordo com a acusação, a UTC comprovou a existência do contrato, porém, não aceitou como razoável que a operação contra riscos cambiais fosse sem registro nem garantia da BM&F, assumindo o risco de crédito de uma contraparte que não sequer conhecia, a São Paulo CV.

A CVM investigava apenas operações no mercado de capitais e que nada tinham a ver com a Petrobras, usada apenas como "álibi" para Ricardo Pessoa justificar em sua defesa. Mas à luz de hoje esta vinculação merece melhor esclarecimento.

Pelo menos três fornecedores da Petrobras já disserem terem combinado o pagamento de propinas para o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, entre 1997 e 2003. A SBM Offshore, em investigação na Holanda e na Procuradoria da República do Rio de Janeiro, antes da Lava Jato. Outra empresa citada foi de nome Progress, e desta não há notícias se existe investigação. A última foi a Rio Marine, do delator Mário Goes, que disse ter combinado com Barusco o pagamento de propina no início dos anos 2000 e só não foi paga porque o contrato não vingou.

Também está mal explicada a história de que o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa tenha sido indicado pelo ex-deputado José Janene do PP para pagar propina ao partido, se ele fosse completamente neófito nesta área.

Os diretores e gerentes corruptos da Petrobras eram funcionários de carreira, que ocuparam postos destacados antes de 2003. Há claras evidências, inclusive no próprio noticiário da época, de que casos de corrupção na Petrobras não foram inaugurados em 2003. O caso de Barusco é prova concreta. Ignorar o que se passou em 2002, 2001, 2000, em uma investigação ampla compromete a própria imagem do Ministério Público, do Poder Judiciário e da Polícia Federal.

O risco do seletivismo de cor partidária em investigações é, em vez de combater a corrupção, fortalecê-la, mesmo sem querer, através de outros agentes, mas que não são investigados.

Há poucos anos, no Rio de Janeiro a polícia começou a combater áreas dominadas pelo narcotráfico, porém apenas de uma facção criminosa. O resultado foi apenas o fortalecimento de outras duas facções. Em outro caso, um ex-chefe de Polícia Civil acabou processado por perseguir um grupo criminoso que explorava máquinas de caça-níqueis enquanto outro grupo concorrente expandia os "negócios" sem ser incomodado. Aqui, faz-se apenas uma analogia nas possíveis consequências, guardadas as grandes diferenças, porque não há motivos conhecidos para questionar a honestidade pessoal dos investigadores e não cabe comparar partidos políticos com exploradores de caça-níqueis.

No próprio caso Banestado, as atuais autoridades da Lava Jato reconheceram que o doleiro Alberto Youssef utilizou-se de delação premiada para eliminar concorrentes e voltar a operar sem concorrência.

No caso do mensalão, se tivessem investigado e punido gente do PSDB com o mesmo rigor que puniram os petistas, os tucanos teriam maior interesse em votar uma reforma política de verdade, transformadora e moralizante, em vez de apoiar o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em sua agenda antirreforma. É a sensação de impunidade que leva o PSDB a persistir em manter vícios do sistema político, acreditando que ajuda a eliminar concorrentes.

Os governos petistas chegam a ser criticados por seus próprios apoiadores pelo que chamam de "excesso" de republicanismo, pois dizem que tornou-se o único governo no mundo que criou uma polícia política contra si mesmo.

De fato os governos petistas agiram de forma republicana, como deve ser uma república, respeitando indicações do Ministério Público, não exercendo controle político na Polícia Federal, não aparelhando o Poder Judiciário. Espera-se que estas instituições também sejam republicanas, sem proteger tucanos e sem perseguir petistas. Sem dois pesos e duas medidas.

Velho conhecido

Responderam a este processo administrativo na CVM empresas e agentes do mercado financeiro conhecidos de outros escândalos, como a Corretora Bonus Banval (que operou no valerioduto), Luis Felippe Índio da Costa, que veio a ser preso depois por suposta gestão fraudulenta do Banco Cruzeiro do Sul, e Ari Ariza, citado na própria Lava Jato como agente autônomo de investimento que trabalhava com Alberto Youssef.

Em recente entrevista à Rede TV, a ex-contadora do doleiro Alberto Youssef Meire Poza disse: "O Ari (Ariza) sempre disse que ele e o deputado Eduardo Cunha são bons amigos. Inclusive, depois de deflagrada a Operação Lava Jato, um mês e meio atrás, eu estive com o Ari (...) Ele me falou: 'Meire, se você precisar de alguma coisa, eu posso falar com o deputado Eduardo Cunha”, afirmou.

Segundo Poza, Ari Ariza e Youssef se conheciam há bastante tempo. Ela disse que Ari pediu a emissão da nota fria de R$ 1,2 milhão, forjada em 24 de outubro de 2014: "Depois de deflagrada a Lava Jato, eu estive com o Ari – até porque ele tinha preocupação com essa nota da GFD – e ele disse que se eu precisasse de alguma coisa, ele poderia falar com o deputado Eduardo Cunha”, contou.

vantagem tucana

FHC tem agropecuária dentro de Osasco, cidade com área rural zero

Se, em vez de FHC, fosse um petista o dono da empresa agropecuária em Osasco, cidade sem zona rural e onde nenhum sócio reside, choveriam ilações nas três revistas de maior circulação
por Helena Sthephanowitz publicado 03/08/2015 15:33, última modificação 04/08/2015 09:08
reprodução
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Pelo Google Maps, a imagem que identifica o endereço é uma residência simples. Seria uma empresa de fachada?

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é sócio de seus três filhos na empresa Goytacazes Participações Ltda, cujas atividades registradas na Junta Comercial de São Paulo são serviços de agronomia e de consultoria às atividades agrícolas e pecuárias.

No Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, na Receita Federal, a empresa tem como atividade principal o cultivo de cana-de-açúcar. As atividades secundárias são a criação de bovinos para corte e cultivo de outras plantas de lavoura.

O curioso é que a empresa está sediada na cidade de  Osasco, na Grande São Paulo, ou seja, não é uma área rural. E o mais curioso ainda é que, quando se faz uma busca no Google Maps, a imagem que  identifica o endereço  é uma residência  simples. Seria uma empresa de fachada?

Nenhum dos quatro sócios mora em Osasco. O ex-presidente reside em São Paulo, uma filha reside em Brasília, outra no Rio de Janeiro, assim como seu filho.

Antes de ser político, FHC nunca foi ruralista. Formou-se em Sociologia e sempre trabalhou como professor, até ingressar na  política.

O interesse pela, digamos, "sociologia bovina", só surgiu aos 58 anos, quando ele já era senador. Em 1989, adquiriu a fazenda Córrego da Ponte, de 1046 hectares, em Buritis (MG), próximo de Brasília. Comprou em sociedade com seu amigo e ex-ministro Sérgio Motta, um engenheiro e político de vida urbana que, assim como FHC, causou surpresa o súbito pendor ruralista, já passados da meia idade.

Motta faleceu em 1998 e FHC passou a fazenda para os filhos que venderam a propriedade em 2003. Só em 2012 a empresa Goytacazes Participações foi aberta em Osasco.

Em 1999, a revista IstoÉ publicou uma reportagem sobre a construção em 1995, quando FHC já era presidente, de um aeroporto construído pela Camargo Corrêa na fazenda Pontezinha da empreiteira, vizinha da propriedade do ex-presidente. Segundo a reportagem, o aeroporto era usado sobretudo para atender à família Cardoso. Este compadrio não despertou na época a curiosidade do Ministério Público, pelo menos para conferir, confirmando a tradição de engavetamento quando suspeitas atingem tucanos. 

Se em vez de ser FHC, fosse um petista o dono de empresa agropecuária em Osasco, cidade sem zona rural e onde nenhum sócio reside, choveriam ilações nas três revistas de maior circulação e, dada as relações de compadrio no passado com a Camargo Corrêa, a força-tarefa da Lava Jato muito provavelmente colocaria a empresa na mira das investigações. Mas trata-se de gente do PSDB, então... deixa pra lá.

coincidência

Eduardo Cunha tem escritório político em cima da UTC

Segundo delator, em reunião no escritório da empreiteira, ficou acertado o pagamento de propina para o PMDB em contratos com a Eletronuclear
por Helena Sthephanowitz publicado 30/07/2015 10:10, última modificação 30/07/2015 12:07
Luis Macedo/Câmara
Cunha

Reunião no escritório da UTC deliberou sobre propina para o andar de cima, em benefício do PMDB de Cunha

O escritório político do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no centro do Rio de Janeiro, fica no famoso Edifício De Paoli, na Avenida Nilo Peçanha, 50, sala 2.909. No andar de baixo fica a filial carioca da empreiteira UTC, na sala 2.809. Pela numeração, as salas são na mesma coluna, ou seja, o piso do escritório do deputado é o teto do escritório da empreiteira.

Esse  é o tipo de coincidência digamos, desagradável, para o presidente da Câmara no momento atual, já que tanto ele como a empreiteira estão encalacrados na operação Lava Jato.

A partir da delação premiada de Dalton Avancini, ex-presidente da empreiteira Camargo Correa, os procuradores da Lava Jato expandiram a investigação para suposto cartel na construção da Usina Nuclear de Angra III, e suspeitam que teria havido pagamento de propina para o PMDB, partido de Cunha.

Avancini citou na delação:

"(...) QUE, recorda-se de uma reunião ocorrida em agosto de 2014, as vésperas da assinatura do contrato, houve uma reunião na empresa UTC (...); QUE, nessa reunião também foi comentado que havia certos compromissos do pagamento de propinas ao PMDB no montante de um por cento (1 %) e a dirigentes da ELETRONUCLEAR, ficando acertado que cada empresa iria buscar os seus respectivos contatos a fim de promover o acerto junto aos agentes políticos (...); QUE, observa que na sua caixa de emails do endereço avancini@camargocorrea.com existe uma mensagem eletrônica datada de 26/08/2014 enviada pela UTC onde consta a convocação para a mencionada reunião, ocorrida na sede da última empresa; QUE, não sabe se efetivamente houve algum pagamento de propina ou a promessa de pagamento a alguém em especial, eis que no mês de setembro de 2014 acabou sendo detido".

reprodução Cunha/UTC
Escritório político de Eduardo Cunha e filial da empreiteira UTC separados por uma laje

O referido e-mail, vazado e público em veículos de imprensa, como vários outros documentos com classificação sigilosa da Lava Jato, confirma a reunião no endereço da filial da UTC no Rio de Janeiro, localizado abaixo do escritório de Cunha.

O problema é que direitos elementares como o benefício da dúvida andam em baixa graças, em grande parte, à libertinagem de imprensa para desinformar e pré-condenar. O desgaste político com delações, menções, citações, manchetes maliciosas é grande pelo clima de linchamento produzido no noticiário.

De certa forma, mesmo bastante blindado no noticiário, o próprio presidente da Câmara está colhendo o que plantou quando, ao assumir o cargo no início do ano, disse se opor a qualquer regulamentação da mídia. A simples regulamentação do direito de resposta e regras que exigissem civilidade em vez de barbárie no trato de notícias, melhoria muito a consciência social e política dos leitores, telespectadores e ouvintes, sem recorrer a nenhuma censura. Os mesmos fatos podem ser noticiados ao público com clareza e objetividade civilizada ou com características de campanha de difamação.

diplomacia

Obama faz jantar para 70 empresários de lobby em Cuba. Ah, se fosse Lula

Presidentes atuarem a favor de empresas de seus países é até um dever dentro das políticas de estado, uma obrigação com a economia nacional e com a geração de empregos
por Helena Sthephanowitz publicado 24/07/2015 18:39, última modificação 25/07/2015 13:05
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Empresários estão de olho no potencial mercado da ilha, esperando pelo fim do embargo

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reuniu em um jantar a portas fechadas na Casa Branca cerca de 70 empresários estadunidenses que fazem forte lobby pelo fim do embargo comercial, econômico e financeiro a Cuba instituído em 1961. A informação foi apurada pelo jornal espanhol El País.

Com o embargo empresas estadunidenses tem severas restrições para atuar no país, que é a maior economia da América Central e visto como o de maior potencial de crescimento pela abertura na economia. Os empresários norte-americanos estão ansiosos para não perder grandes oportunidades de negócios que veem no país.

O governo Obama defende o fim do embargo, mas o Congresso estadunidense, com perfil mais conservador e de maioria oposicionista ao presidente, ameaça impedir qualquer mudança nesta questão.

Os Estados Unidos já reataram relações diplomáticas com a ilha. As embaixadas já foram reabertas em ambos os países. Houve libertação de presos pelos dois lados, considerados presos políticos sob a ótica de cada lado. Mas o embargo econômico continua em vigor até que o Congresso norte-americano o suspenda.

O jantar na Casa Branca foi visto como uma união de forças para pressionar, ou seja, fazer lobby, sobre o Congresso para dar fim ao embargo. Se visto apenas como vitória da política externa do presidente, as chances de o Congresso oposicionista aprovar são menores. Se houver pressão vinda de uma demanda do setor empresarial, as chances são maiores de, pelo menos, flexibilizar o embargo.

Imagine como esta notícia sairia na imprensa oligárquica brasileira se o país fosse o Brasil em vez dos EUA e se a presidenta fosse Dilma Rousseff ou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em vez de Obama.

Não precisa imaginar. A imprensa oposicionista já faz um esforço para criminalizar a diplomacia comercial legítima e necessária no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em busca da abertura de mercados para empresas brasileiras. Obama age de forma muito semelhante, inclusive com Cuba, atrasado em relação a Lula.

Presidentes atuarem a favor de empresas de seus países é até um dever dentro das políticas de estado, uma obrigação com a economia nacional e com a geração de empregos. Suspeito seria se não atuassem. Tão suspeito como um jogador de futebol que entrega o jogo para o adversário. Pois é isso que boa parte da oposição partidária e midiática está pregando.

Fazer oposição a um governo ou a lideranças de outros partidos jamais deve se confundir com fazer oposição a políticas de estado, ou fazer oposição "ao" Brasil, como disse, em ato falho, o senador Aécio Neves (PSDB-MG).

Se levarmos para o lado do humor, desse jeito a oposição se comporta como aquele passageiro que torce para seu avião cair porque não gosta do piloto. Se levarmos a sério, sabotar a economia nacional diante dos interesses de outros países é traição à pátria.