Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog da Helena

Blog da Helena

só espantos

E quando se pensa que o fundo do poço está próximo, a equipe de Temer surpreende

Equipe do governo interino deixa claro que impeachment foi golpe a favor da corrupção. Se era para sanar a política do país, as fichas dos nvos ministros deveriam "despertar" as panelas do país
por Helena Sthephanowitz publicado 23/05/2016 13:56
Walter Campanato / ABr
Temer_ministros.jpg

Temer em discurso de posse de seu governo interino. Ministério contraria 'moralização' da política', pretexto usado para o golpe

Antes do fechamento deste post, que segue completo adiante, é preciso comentar a verdadeira bomba trazida pelo jornal Folha de S.Paulo hoje (23) contra os articuladores do golpe e, principalmente, contra a parcela da população que foi às ruas pedir a queda de Dilma "pra acabar com a corrupção".

Gravações obtidas pela Procuradoria-Geral da República apontam que o ministro do Planejamento, Romero Jucá, sugeriu um pacto para deter a Operação Lava Jato. De acordo com o jornal, o diálogo do peemedebista foi mantido com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, em março – semanas antes da votação do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados.

Na época, Machado estava procurando líderes do PMDB porque temia que as investigações contra ele fossem enviadas do STF para o juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Em um dos trechos, o executivo afirma a Romero Jucá: "O Janot está a fim de pegar vocês e acham que sou o caminho; o caixa dois de vocês".

Na conversa, Jucá, que já havia sido citado em delações premiadas, sugere a necessidade de uma resposta política para evitar que as investigações chegassem ao juiz Sérgio Moro. "Tem que mudar o governo (de Dilma para Temer) para estancar essa sangria", declarou.

Jucá acrescentou que um eventual governo Michel Temer deveria construir um pacto nacional "com o Supremo, com tudo", quando Machado diz: "aí parava tudo". "É. Delimitava onde está, pronto", respondeu Jucá, que relatou manter conversas com "ministros do Supremo", sem citar nomes. Para Jucá, eles teriam relacionado a saída de Dilma ao fim das pressões da imprensa e de outros setores pela continuidade das investigações da Lava Jato.

Jucá afirmou que tem "poucos caras ali (no STF)" ao quais não tem acesso, e que um deles seria o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no tribunal, "um cara fechado".

O agora ministro do Planejamento foi um dos articuladores do impeachment da presidenta Dilma.

Jucá, que também é senador eleito por Roraima, é suspeito de pedir R$ 1,5 milhão à construtora UTC, para a campanha do filho. O dinheiro seria uma contrapartida pelo contrato obtido para a construção da Usina Nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro.

Já o ex-presidente da Transpetro é alvo de inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) ao lado do presidente do Senado, Renan Calheiros. Sérgio Machado teria entregue R$ 500 mil ao ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Na conversa, Sérgio Machado – que foi do PSDB antes de se filiar ao PMDB – diz ainda que "o primeiro a ser comido vai ser o Aécio (Neves, PSDB-MG)", e acrescenta: "O Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...". "É, a gente viveu tudo", completa Jucá.

De acordo com a reportagem, na gravação, Machado tenta refrescar a memória de Jucá: "O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele (Aécio) ser presidente da Câmara?" Não houve resposta de Jucá. Aécio presidiu a Câmara dos Deputados entre 2001 e 2002.

Na sexta feira (20), o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal de Romero Jucá (PMDB-RR). A decisão foi tomada em um inquérito aberto no tribunal em 2004, em que Jucá é investigado por crime de responsabilidade quando ele era senador. O ministro teria elaborado emendas parlamentares para beneficiar ilegalmente a prefeitura de Cantá, em Roraima. O período dos dados sigilosos que serão analisados é de março de 1998 a dezembro de 2002. Romero Jucá também é alvo de novo pedido de abertura de inquérito feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra caciques do PMDB.

Além do ministro do Planejamento, o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e os senadores Valdir Raupp (RO) e Jader Barbalho (PA) são suspeitos de terem recebido propina em decorrência dos contratos firmados para a construção da usina de Belo Monte, no Pará. O esquema foi descoberto na Operação Lava Jato.

A suspeita é de que o grupo tenha cometido corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro. Se o ministro Teori Zavascki concordar com o pedido de Janot, os quatro serão investigados no mesmo inquérito já aberto no STF que investiga a suposta participação do senador Edison Lobão (PMDB-MA) nos desvios de dinheiro de Belo Monte.

Juca também é alvo de quatro investigações. No Inquérito 3989, da Lava Jato, responde pelos crimes de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e corrupção passiva. Também é investigado nos inquéritos 3297, 2116, 2963 por crimes eleitorais, de responsabilidade e contra a ordem tributária, apropriação indébita previdenciária e falsidade ideológica.

Um dos procedimentos diz respeito à origem e ao destino de R$ 100 mil jogados para fora de um carro por um de seus auxiliares momentos antes de ser abordado pela polícia. O ato ocorreu durante a campanha eleitoral de 2010. O assessor disse que o dinheiro seria usado na campanha de Jucá.

Em outro inquérito Jucá é acusado de ser o verdadeiro dono de uma emissora de TV em Roraima, com histórico de crimes tributários, atrasos em indenizações trabalhistas e multas eleitorais pela administração das empresas que produzem a programação da emissora. Pela Constituição, deputados e senadores não podem ter participação em veículos de radiodifusão, por serem empresas concessionárias da administração pública.

A conferir o que vai ser deste país daqui em diante.

Outros "escolhidos"

Quem acompanha o noticiário de TVs e jornais internacionais sabe que, até bem pouco tempo atrás, o Brasil era destaque pela economia, pela descoberta do pré-sal, pelas políticas sociais - o Bolsa Família foi elogiado por Hillary Clinton em 2008, quando também era candidata à presidência dos EUA. Ela disse que queria implementar o Bolsa Família nos Estados Unidos –, e muitos outros programas sociais.

Atualmente, reportagens em inglês, francês, espanhol, italiano e alemão ganharam espaço nos principais veículos de comunicação do mundo que dedicam editoriais para falar da situação política no Brasil, após Michel Temer assumir interinamente a Presidência da República.

As notícias no exterior não são mais para analisar os avanços econômicos e sociais no Brasil, mas sim mostrar ao mundo a quantidade de políticos escolhido por Michel Temer para fazer parte do seu governo provisório, que atualmente respondem a processos criminais, que não de corrupção a tentativa de homicídio – caso do líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), aliado fiel de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e alvo também da Operação Lava Jato.

O jornal inglês The Guardian registrou a escolha de Moura para o posto de líder de Temer, apontando a responsabilidade do presidente em exercício sobre a indicação. Diz a reportagem: "O deputado André Moura, do conservador Partido Social Cristão, também está sendo investigado por participação na corrupção da empresa petrolífera estatal Petrobras. Moura disse na quarta-feira (18) que as acusações de tentativa de assassinato contra ele eram infundadas e feitas por um rival político no estado de Sergipe para arruinar sua carreira.

O The New York Times também noticiou a escolha de André Moura para a liderança do governo Temer: "Presidente do Brasil coloca deputado investigado na liderança do governo".

Uma rápida pesquisa no site do STF mostra que Moura é alvo de inquéritos por crimes de responsabilidade e violação da Lei de Licitações, formação de quadrilha, improbidade administrativa e peculato, além da ação pela acusação de tentativa de homicídio

André Moura já é réu em três ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF), além de ter sido condenado, em segunda instância, por improbidade administrativa. Ele teria usado R$ 105,5 mil da prefeitura de Pirambu para pagar despesas suas e da família, com itens como bebida alcoólica e churrasco. Ele teve os direitos políticos suspensos por oito anos, o que só ocorrerá após o trânsito em julgado, ou seja, quando não houver mais a possibilidade de recurso.

Na Lava Jato, Moura é investigado em inquérito para apurar se Cunha contou com a ajuda de outros deputados para alterar medidas provisórias de interesse de empreiteiras ou para pressionar empresários por meio de requerimentos na Câmara.

Dos 23 políticos indicados por Michel Temer para ocupar ministérios, pelo menos 16 respondem ou já foram condenados por algum crime na Justiça comum ou eleitoral. O próprio Michel Temer é alvo de suspeitas de ligações ilícitas em pelo menos quatro investigações, todas baseadas em delações premiadas da Operação Lava Jato.

Além de Temer, foram ou estão sendo investigados os ministros Maurício Quintella (Transportes, Portos e Aviação Civil), José Serra (Relações Exteriores), Gilberto Kassab (Ciência e Tecnologia), Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), Henrique Eduardo Alves (Turismo), Romero Jucá (Planejamento), Bruno Araújo (Cidades), Mendonça Filho (Educação e Cultura), Ricardo Barros (Saúde), Fernando Coelho Filho (Minas e Energia), Leonardo Picciani (Esporte), Helder Barbalho (Integração Nacional), Eliseu Padilha (Casa Civil), Blairo Maggi (Agricultura), Raul Jungmann (Defesa) e Osmar Terra (Desenvolvimento Social e Agrário).

Na Operação Lava Jato, Temer foi citado por delatores como responsável pelas indicações de Jorge Zelada e João Augusto Henriques para diretorias da Petrobras. Uma gravação em poder da Polícia Federal aponta que ele teria recebido R$ 5 milhões da construtora OAS.

O ex-senador Delcídio do Amaral, em depoimento na delação premiada, disse que Temer beneficiou-se de aquisição ilegal de etanol por meio da BR Distribuidora, entre 1997 e 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Aliás, por falar em Temer, o PSDB vai pedir investigação sobre as denúncias: "Amigo de Temer negociou contrato em Angra 3 que envolveu propina" e "Temer financiou candidatos em 2014 com doações de empresas da Lava Jato", que estão na imprensa hoje?

O ministro Gilberto Kassab, de Ciência e Tecnologia, também tem cinco investigações em andamento no Supremo, todas sobre irregularidades durante sua gestão na prefeitura da cidade de São Paulo.

Maurício Quintella (PR-AL), dos Transportes, foi condenado em agosto de 2014 por participação em um esquema que desviou dinheiro destinado ao pagamento de merenda escolar em Alagoas, entre 2003 e 2005. Na época, Quintella era secretário de Educação do Estado no governo de seu primo, o ex-governador Ronaldo Lessa

Ricardo Barros (PP-PR), da Saúde, é investigado desde novembro do ano passado no Inquérito 4157 por corrupção, peculato e crime contra a Lei de Licitações, num processo de publicidade da prefeitura de Maringá, quando o atual ministro era secretário de Indústria e Comércio do Paraná.

Depois de tomar posse no ministério, o deputado federal licenciado defendeu uma revisão do tamanho do SUS (Serviço Único de Saúde). Barros teve a campanha eleitoral financiada em parte por um dos principais operadores de planos de saúde do país, Elon Gomes de Almeida, que fez uma doação pessoal de R$ 100 mil à campanha de Barros em 2014. Ele é presidente da Aliança, administradora de planos de saúde e registrada na ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Na campanha eleitoral de 2006, Ricardo Barros também recebeu doação de outro plano de saúde, a Unimed de Maringá (PR).

Na disputa eleitoral de 2014, Elon também fez doações individuais aos candidatos Carlos Sampaio (PSDB-SP), um dos principais articuladores na Câmara para o impeachment de Dilma, Eliana Calmon (PSB-BA), e Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB). A campanha de Vital, então candidato ao governo da Paraíba e hoje ministro do TCU (Tribunal de Contas da União), recebeu R$ 600 mil como doação pessoal de Elon Gomes de Almeida, que no passado se tornou um dos alvos da Operação Acrônimo, da Polícia Federal .

Já Helder Barbalho (PMDB-PA), ex-prefeito de prefeito de Ananindeua (PA), é acusado de improbidade administrativa por estar envolvido em um esquema de desvio de cerca de R$ 2,78 milhões do SUS utilizando contratos irregulares com empresas "fantasmas" entre 2005 e 2012. Também é alvo de dois inquéritos sobre calúnia e difamação.

Para completar, o PMDB

O deputado federal Baleia Rossi (SP) será o novo líder do partido na Câmara. Rossi é empresário e está em seu primeiro mandato de deputado federal. Presidente do diretório estadual do PMDB de São Paulo, é próximo de Michel Temer, também paulista.

Ele foi apontado por investigados da Operação Alba Branca como recebedor de propina do esquema de merenda escolar em contratos assinados pela cooperativa Coaf nas prefeituras de Campinas e Ribeirão Preto – um caso em que membros do governo Geraldo Alckmin também são citados, como o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB).

Diante desse quadro, a pergunta que se faz é: por onde anda aquele povo, cheio de moral, paladinos da luta contra a corrupção, que batia panela na hora em que a presidente fazia pronunciamentos pela TV ou pelas redes sociais, e usava o discurso de combatente da corrupção?

"Não era pelos 20 centavos." Agora que cumpriram sua função, os golpistas nem sequer procuram manter as aparências, mostrando que não há de fato nenhuma intenção de combater a corrupção, usada apenas como pretexto para viabilizar o golpe contra o governo Dilma.

alvo: presidência

Agora no Itamaraty, Serra prepara quinto abandono de cargo

"Diário de FHC" expõe dificuldades em lidar com a diplomacia do agora ministro, que teria aceitado o convite de Temer como forma de seguir em sua busca da preferência tucana em 2018
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 17/05/2016 13:27, última modificação 17/05/2016 14:54
Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
José_Serra_20100612.jpg

José Serra: diplomacia 'truculenta', inadequação ao cargo e desejo implícito pela Presidência

Em mais um capítulo parcialmente divulgado pela mídia tradicional do diário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, enquanto ocupou a Presidência da República (1995-2002), o tucano maior narra que o escolhido do governo provisório de Michel Temer para ser o ministro das Relações Exteriores, José Serra, teve reentrada problemática no ministério em 1998. Serra havia sido ministro do Planejamento de FHC (1995-1996). De difícil convivência, José Serra teve divergências com a equipe econômica, deixou o cargo para disputar a prefeitura de São Paulo. Perdeu (o eleito foi Celso Pitta) e queria voltar para o governo em algum cargo na área econômica.

Brigou, fez inimizades, mas não conseguiu o que queria. O ex-presidente descreve que Serra foi convidado por ele para ocupar o Itamaraty, mas recusou e ainda fez críticas, dizendo que o ministério seria incapaz de "fazer comércio exterior". E FHC teria perguntado a Serra: "Bem, mas quem é competente? Quem discute na OMC, em Bruxelas?" e Serra teria dito, segundo o livro: "Do pessoal do Itamaraty, ninguém. Devíamos criar uma carreira de diplomatas economistas no Instituto Rio Branco".

Alguns anos se passaram e hoje Serra ocupa pasta do Itamaraty, que um dia ele criticou e rejeitou. Mas a arrogância do tucano continua a mesma, basta ler as respostas de Serra às criticas de países vizinhos ao afastamento de Dilma..

Com ajuda de Michel Temer, Serra emitiu notas muito acima do tom do habitual bom senso diplomático contestando países latino-americanos contrários ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff e que veem a gestão Michel Temer como ilegítima.

El Salvador, Uruguai, Chile, Venezuela, Bolívia, Cuba e Equador manifestaram preocupação com o afastamento da presidenta eleita e com os impactos sobre a estabilidade política e econômica no continente.

Partidos políticos de esquerda e organizações internacionais também repudiaram oficialmente o golpe no Brasil. Além da Venezuela ter convocado seu embaixador, El Salvador também afirmou que não reconhece o novo governo brasileiro e convocou sua representante no Brasil. E a crise pode ser ainda mais acentuada porque, a partir de julho, Maduro assumirá a presidência do Mercosul.

Na segunda nota, Serra atacou o secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper , acusando de usar argumentos errôneos, fazer interpretações falsas e expressar juízos de valor infundados. Para Serra, os comentários do colombiano sobre o afastamento de Dilma seriam incompatíveis com as funções que exerce e com o mandato que recebeu. Samper reagiu com ironia. "Fizeram o impeachment da presidente do Brasil, agora querem o impeachment do secretário-geral da Unasul".

As notas mal educadas emitidas por José Serra mostram um claro sinal de retrocesso da política externa brasileira e desconhecimento que, tanto no Mercosul, quanto na União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e na Organização dos Estados Americanos (OEA), há cláusulas democráticas em vigor. E que esses organismos multilaterais têm como critério que cada um dos países obedeça as regras da democracia.

Nos corredores da política em Brasília os comentários, cada vez mais crescentes, são de que as notas grosseiras e pouco diplomáticas indicam que Serra tentará fazer do cargo de chanceler uma marca pessoal que lhe garanta projeção no Brasil e no exterior para disputar a presidência da República em 2018. Ou seja: Serra estaria planejando usar o Itamaraty em sua incessante busca por holofotes, na tentativa de reverter o fato de que Aécio e Alckmin são atualmente tidos como os presidenciáveis do tucanato.

A se confirmarem as avaliações, essa seria a quinta vez que José Serra deixa um cargo para concorrer a outro – o senador não cumpre um mandato integral há 21 anos.

Em 1995, Serra foi eleito senador pelo estado de São Paulo. Tomando posse em janeiro daquele ano, meses depois deixou de lado seu mandato para se tornar ministro do Planejamento no governo FHC, cargo que ocupou até o ano seguinte, quando foi candidato a prefeito de São Paulo. Terminou a disputa em um melancólico terceiro lugar. Derrotado, voltou ao Senado, onde permaneceu por mais dois anos.

Em 1998, abandonou novamente a cadeira de senador para se tornar ministro da Saúde, posição ocupada durante quase todo o segundo mandato de Fernando Henrique.

Em outubro de 2002, Serra, então, se lançou candidato à Presidência do Brasil, sendo derrotado por Lula no segundo turno.

Dois anos depois, se candidatou e venceu as eleições para a prefeitura de São Paulo. Chegou a assinar uma carta em que se comprometia a cumprir seu mandato até o fim. No entanto, em 2006, "esqueceu" de sua promessa e se tornou candidato ao governo do estado de São Paulo, dando "tchau" a um mandato pela segunda vez. Em seu lugar na prefeitura, deixou Gilberto Kassab.

Eleito governador, Serra chegou ao terceiro abandono de mandato em abril de 2010, quando se aventurou em sua segunda tentativa ao cargo de presidente. Foi derrotado, desta vez, por Dilma. Na ocasião, deixou à frente do governo paulista Alberto Goldman.

Em 2012, Serra disputou mais uma vez a prefeitura de São Paulo. Foi derrotado no segundo turno por Fernando Haddad, do PT.

Dois anos depois, ele voltou a uma disputa por uma vaga no Senado. Venceu, e agora, pela quarta vez, Serra deixa em segundo plano um mandato, deixando sua cadeira de senador para ocupar o Itamaraty. Já são 21 anos sem cumprir integralmente um mandato.

Rumo ao quinto abandono de cargo, Serra não descarta voltar a disputar a Presidência. Ele já afirmou que um sonho pode "permanecer adormecido" por muito tempo. "Estou no auge da minha energia", disse.

Menos médicos

Ministro da Saúde de Temer é investigado por corrupção, peculato e outros crimes

Ricardo Barros, tesoureiro-geral do PP, sofre ações por sua gestão como prefeito de Maringá (PR). Em sua posse na Saúde, deu indícios de que o programa Mais Médicos poderá estar com dias contados
por Helena Sthephanowitz publicado 14/05/2016 11:25, última modificação 17/05/2016 13:49
Wilson Dias/ Agência Brasil
barross.jpg

Ricardo Barros tem história recheada de irregularidades e processos por 'ardis' contra interesse público

Escolhido para ser o ministro da Saúde de Michel Temer,  o engenheiro civil e tesoureiro de seu partido, o PP, Ricardo Barros já foi eleito deputado federal cinco vezes, ocupou a pasta da Indústria e Comércio do Paraná, e foi prefeito de Maringá. Ele também foi o relator do Orçamento de 2016 na Câmara e chegou a propor um corte de R$ 10 bilhões no Bolsa Família. O deputado declarou na época ter ficado decepcionado por seu projeto não ter sido aprovado.

Mais decepcionado devem ter ficado os cidadãos de Maringá durante a passagem do deputado pelo Poder Executivo. Quando prefeito, em 1990 foi condenado na 4ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do estado pela juíza Astrid Maranhão de Carvalho Ruthes, por fraude na venda de coletores e compactadores de lixo que não serviam mais para a prefeitura e seriam vendidos.

Para avaliar o preço de venda dos equipamentos, o então prefeito criou uma comissão. Só que um dos três integrantes da comissão acabou sendo o comprador. Ou seja: o bem público foi vendido por um preço escolhido pelo comprador. A  juíza Astrid Maranhão classificou a operação comandada pelo já deputado como um “ardil” e ainda o obrigou o a ressarcir os cofres públicos em mais de R$ 1 milhão. O deputado, engenheiro, que agora é ministro da Saúde, recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que  negou recurso em fevereiro de 2014. O processo foi devolvido para a segunda instância do Tribunal de Justiça, conforme cópia de documentos no final do texto. 

Em 2011, Barros se licenciou do seu mandato de deputado federal para assumir o cargo de secretário da Indústria e Comércio do Paraná. Após denúncias de irregularidades na sua gestão, porém, pediu licença do governo do estado. Na época, gravações feitas pelo Ministério Público mostraram Barros sugerindo ao então secretário municipal de Saneamento de Maringá, Leopoldo Fiewski, que arranjasse um encontro para realização de acordo entre as duas empresas que participavam de um processo de licitação para publicidade da cidade. O contrato era de R$ 7,5 milhões.

Ricardo Barros, que também é o tesoureiro-geral do PP, é investigado desde 9 de novembro no Inquérito 4.157 por corrupção, peculato e crime contra a Lei de Licitações.

Sinais de fim dos Mais Médicos

Enquanto pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostra que 73,9% da população é a favor de médicos estrangeiros no programa Mais Médicos, criado no governo da presidenta Dilma, Renato Azevedo Júnior, presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e médicos brasileiros sempre se manifestaram contrários.

Programa-símbolo da presidenta afastada Dilma Rousseff na área de saúde, o Mais Médicos poderá estar com os dias contados. Pelo menos é isso que se deduz da entrevista de Barros logo depois de assumir o cargo, ao afirmar que a ênfase será a contratação de profissionais formados no Brasil.

Lançado há três anos como resposta às manifestações populares, que reivindicavam melhoria na qualidade dos serviços públicos, o Mais Médicos trouxe para o Brasil  profissionais estrangeiros – especialmente cubanos – por meio de convênio com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

O programa foi alvo de ataques de entidades de classe, que nunca apoiaram políticas sociais que beneficiam a parte mais carente da população.

Médicos brasileiros, que chegaram a chamar os médicos cubanos de “escravos" e “macacos”, só passaram a se interessar pelos Mais Médicos depois da regra de conceder bônus na nota do exame de residência médica aos participantes.

Os cubanos são cerca de 14 mil, presentes em 2.700 municípios. Em geral, os mais pobres e mais distantes dos grandes centros urbanos.

Os médicos cubanos trazem a experiência de solidariedade e cooperação internacionais, já que Cuba presta serviços médicos, hoje, em 67 países. Até o governo dos Estados Unidos elogiou a atuação dos profissionais da ilha socialista no combate à epidemia de ebola na África.

Não são apenas médicos que o Brasil importa de Cuba. Além de medicamento para a hepatite B, o Brasil compra a vacina de combate à meningite, única no mundo.

Acabar com o Mais Médicos é um acinte a tantos brasileiros que, pela primeira vez, passaram a receber atendimento domiciliar de saúde. O direito à saúde está acima de ideologias. Partidarizar um programa que traz benefícios a quase 1/3 da população brasileira é um crime de lesa-pátria.

O convênio do Brasil com Cuba é monitorado pela Opas, braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas. A Opas tem 110 anos de serviços prestados. E longa tradição de seriedade e qualidade.

No entanto, no Brasil não  faltam adversários a um programa que tem, de acordo com as pesquisas, apoio da maioria da população. Em alguns levantamentos, ultrapassa 80%.

Blindagem

Deputado tucano é cassado por superfaturar leite de crianças carentes

Depois de 14 anos de recursos, juiz determinou, na semana passada, perda do mandato do deputado estadual paulista Mauro Bragato (PSDB) por superfaturamento no preço do leite destinado a crianças carentes
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 09/05/2016 17:23, última modificação 09/05/2016 17:26
ALesp
Mauro Bragato

Bragato foi prefeito de Prudente (1997-2000), secretário da Habitação de Alckmin (2004) e é deputado desde 2005

Depois de 14 anos de decisões e recursos, o juiz Carlos Eduardo Lombardi Castilho, da 1ª Vara Cível de Presidente Prudente (SP), determinou na semana passada, a perda imediata do mandato do deputado estadual e ex-prefeito Mauro Bragato (PSDB).

O juiz condenou Bragato por improbidade administrativa no período em que administrou o município de 220 mil habitantes, 550 quilômetros a oeste da capital. O deputado deve perder os direitos políticos por, de acordo com a sentença, praticar fraudes na licitação para compra de 110.697 litros de leite do tipo C. O produto, destinado a crianças carentes, entre os anos de 1999 e 2000, foi adquirido por preço muito superior ao encontrado no mercado – o período considerado foi entre 1997 a 2000. O juiz determinou o afastamento imediato do deputado e a suspensão dos direitos políticos por 5 anos.

A ação contra o tucano estava em andamento desde 2002, desde quando deixou a administração de Presidente Prudente e a nova gestão acionou a Justiça junto ao Ministério Público para reparação de danos aos cofres públicos. Mauro Bragato assumiu em 2004 a Secretaria Estadual de Habitação do governo de São Paulo do tucano Geraldo Alckmin (PSDB) e desde 2005 é deputado estadual.

O tucano recorreu a todas as instâncias, incluindo o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF). O deputado chegou a ser multado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo pelo excesso de recursos para evitar o cumprimento de uma decisão judicial. No documento, o juiz Carlos Eduardo Lombardi Castilho determina que os cartórios eleitorais e a Assembleia Legislativa paulista sejam oficiados sobre a suspensão dos direitos políticos de Bragato e da consequente perda do mandato eletivo que ocupa.

Parece que os políticos tucanos se especializaram em tirar comida da boca da criançada. A Operação Alba Branca, da Polícia Civil do estado, investiga a participação do deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa, Fernando Capez (PSDB-SP), em esquemas de propinas na compra de merenda escolar. Não por acaso, os problemas com fornecimento de merenda nas escolas da rede pública do estado de São Paulo têm sido alvo de protestos de estudantes e até de torcidas organizadas de futebol, como a Gaviões da Fiel. Em diversas escolas técnicas de período integral, alunos estão sem merenda escolar e têm de tocar o dia com biscoitos água e sal. E sem leite.

Agora, constata-se Bragato, fraudou licitação para compra de leite. Faltou empenho da imprensa na divulgação do caso ao longo desse 14 anos em que o deputado do PSDB aguardava sentença. Faltou divulgação da imprensa quando o juiz Carlos Eduardo Lombardi Castilho aplicou a pena de perda do mandato. Parece que a imprensa nacional não aprecia que noticiário policial envolva a turma do PSDB – há menos de duas semanas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso prestou depoimentos por duas horas à Polícia Federal – sobre a mesada que enviava a sua amante Mirian Dutra na Europa, segundo ela, a título de pensão – com direito a total discrição, sem manchetes, e sem espetáculo.

gestão de choque

Alckmin, explique ao MP o fechamento 'escondido' de salas de aula

Reorganização planejada ano passado foi barrada pela mobilização popular, o que fez o governador "improvisar" e fazer do jeito tucano: debaixo dos panos
por Helena Sthephanowitz publicado 04/05/2016 15:18, última modificação 04/05/2016 16:20
Rovena Rosa / ABr

Apesar de derrotado pela mobilização estudantil em 2015 e proibido pela Justiça de colocar em prática a chamada reorganização escolar, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), continua fechando escolas por baixo do pano e sob vistas grossas da grande mídia paulista. Ou seja, está em marcha uma reorganização tucana da rede pública de ensino, silenciosa e planejada com fins de reduzir o investimento público no ano de .

O Ministério Público de São Paulo recebeu denúncias de fechamento de salas, turnos e até mesmo ciclos em escolas estaduais, e deu prazo para o governador tucano detalhar a política de fechamento de salas da rede estadual e provar que não vem realizando uma "reorganização gradual e disfarçada". O governo do PSDB ainda tem de apresentar um cronograma de discussões da medida.

A decisão, proferida pela juíza Carmen Oliveira e divulgada em 27 de abril, afirma que há indícios "gravíssimos" de que Alckmin estaria descumprindo a ordem judicial que vetou a reorganização escolar que seu governo tentou promover no ano passado. Defensoria e Ministério Público são os autores da ação.

Reorganização disfarçada foi mapeada pela Apeoesp

Em 2016, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estados de São Paulo – a Apeoesp – promoveu levantamentos parciais indicando que foram fechadas pelo menos 1.412 classes após o início do ano letivo. Essa “reorganização silenciosa” ou “reorganização disfarçada” foi denunciada ao Tribunal de Justiça do Estado. A entidade solicitou ingresso no processo judicial contra a reorganização e, agora em abril, denunciou o fato ao Ministério Público Estadual, solicitando providências. A divulgação de números oficias pela Secretaria de Estado da Educação – 1.693 turmas fechadas até abril deste ano – já é efeito dessa ação.

No final de 2015, uma ampla mobilização de estudantes, professores, pais e movimentos sociais, com ocupação de mais de duzentas escolas do território paulista, adiou os planos do governador de reorganizar as escolas por ciclos – com consequentes fechamento de dezenas de escolas, fechamento de turnos, superlotação de salas, demissão de milhares de professores temporários, transferências compulsórias de alunos para escolas distantes de seus bairros etc. Como a medida foi barrada pela mobilização popular e os interesses do governo não mudaram, foi necessário "improvisar", fazendo com que a reorganização acontecesse do jeito tucano: tudo escondido.

Alckmin acabou suspendendo a iniciativa em dezembro, vencido pela resistência dos secundaristas, quando a Justiça proibiu a continuidade da reorganização sem que houvesse um amplo debate com as comunidades escolares.

Porém, segundo denúncias, o governador manteve o processo de fechamento de salas, sob argumento de que o número de alunos está caindo. Neste ano já foram fechadas, até abril 1.693 turmas nos anos iniciais, finais e no ensino médio, na comparação com abril de 2015. Os dados são da Secretaria de Estado da Educação.

O Ministério Público pediu informações detalhadas sobre a rede para averiguar se há regiões ou escolas em que esteja ocorrendo uma reorganização às escondidas. A decisão pede que o governo Alckmin entregue um relatório com todas as salas de aula fechadas, por escola e série, além das justificativas para o fechamento.

É sempre bom lembrar que, além do fechamento silencioso das escolas, há também a denúncia de desvio de bilhões de reais destinados à merenda escolar das escolas estaduais. O alto escalão do governo tucano está envolvido em um escândalo de fraudes de licitações de contratos para fornecimento de alimentação aos estudantes, em diversas cidades do estado.

Contra o desrespeito do governo pela educação e pela população é necessário uma nova mobilização de estudantes, de professores, e de toda a comunidade escolar a fim de impedir que mais essas medidas autoritárias do modo PSDB de governar.

seletiva

FHC depõe na PF e imprensa mostra como trata 'gente diferenciada'

Ex-presidente não teve plantão de repórter na porta de casa, entrou e saiu da PF sem ser percebido e conteúdo de seu depoimento segue mantido em sigilo. Prerrogativas negadas a Lula
por Helena Sthephanowitz publicado 02/05/2016 09:25, última modificação 02/05/2016 09:26
Wilson Dias/Agência Brasil
fhc3.jpg

Ex-presidente tucano tem tratamento que a Constituição, além da civilidade, garantem. A Lula, a execração

Não teve circo, jornalistas correndo atrás do carro, cobertura para TVs, não teve helicópteros e quase passou despercebido o depoimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) na Polícia Federal (PF), na sexta-feira (29)

A assessoria da PF explicou que FHC usou a prerrogativa conferida a ele por sua condição de ex-presidente para sair de forma discreta do prédio. A primeira pergunta inevitável. Por que não foi aplicada ao ex-presidente Lula a mesma prerrogativa? Quando os policiais chegaram à casa de Lula às 6h, repórteres já esperavam. Quando chegaram com Lula ao aeroporto, repórteres os antecederam.

"Houve vazamento?" E nada vazou no caso de FHC?

O público só ficou sabendo – e mesmo assim por notinhas em poucos sites de jornais – que o tucano prestou depoimento na sede da PF em São Paulo, muito tempo depois de ele ter deixado o local. E se o conteúdo do depoimento de Lula foi liberado para o bel prazer da "grande" imprensa minutos depois – que fez dele mais um espetáculo, apesar de nada haver contra Lula –, o depoimento de FHC está mantido em sigilo.

Em fevereiro, o Ministério da Justiça determinou à PF a abertura de dois inquéritos para investigar as suspeitas de crimes cometidos pelo ex-presidente envolvendo o envio de dinheiro ao exterior para a jornalista Mirian Dutra, com quem ele teve um filho fora do casamento, por meio de um contrato da empresa Brasif Exportação e Importação S.A

Mirian já afirmou para diversos veículos que o ex-presidente assinou um contrato fictício com a empresa Brasif Exportação e Importação, concessionária à época das lojas duty free nos aeroportos brasileiros para enviar dinheiro para ela entre 2002 e 2006. Segundo a Brasif, a jornalista, que vive na Espanha desde 1991, teria sido contratada para fazer análises de mercado em lojas convencionais e de duty free. Miriam afirma que jamais pisou em uma loja para trabalhar. Mesmo assim, recebia regularmente US$ 3 mil mensais da empresa.

No começo de abril, em depoimento de mais de cinco horas à PF, Miriam Dutra contou que, nos anos 1990, quando FHC presidia o Brasil, o dinheiro era levado por um cunhado a Portugal, onde Mirian morava. Ainda de acordo com esse relato, a jornalista passou a receber o dinheiro na forma de crédito em conta quando foi viver na Espanha.

A outra "investigação" sobre a qual FHC foi chamado a esclarecer trata da propriedade de imóveis no exterior, um apartamento em Paris e outro em Nova York, que não teriam sido declarados por Fernando Henrique à Receita Federal.

É lamentável a omissão da mídia brasileira em relação ao episódio. A imprensa descumpriu seu papel básico de informar à população e volta a desrespeitar o cidadão ao insistir em dar tratamento diferenciado ao ex-presidente tucano. A omissão da imprensa, nos leva a pensar que a cobertura da política brasileira não é equilibrada, como se espera de uma mídia independente, como eles dizem ser.

tela fria

Globo tenta se mostrar 'tolerante', mas quer é empurrar o golpe goela abaixo

Em sua passagem pelo Faustão, o ator José de Abreu lavou a alma de muitos defensores da democracia. Foi autêntico, mas, estando ele na Rede Globo, tudo soava falso
por Helena Sthephanowitz publicado 26/04/2016 13:01, última modificação 26/04/2016 13:17
pragmatismo político / reprodução

Nos protestos contra o golpe e pela democracia, tanto nas cidades brasileiras como em cidades estrangeiras, manifestantes sempre trazem cartazes e faixas contra a Globo. Jornalistas da emissora vêm enfrentando dificuldade para conseguir entrevistar manifestantes sem que a Globo se torne alvo do protesto.

Nas redes sociais, o desgaste de imagem da antes toda-poderosa Globo é maior ainda, o que explica em parte os inusitados 30 minutos que o ator José de Abreu teve para expressar suas opiniões no programa Domingão do Faustão do dia 24, contra o golpe perpetrado por corruptos contra uma presidenta honesta.

O ator foi manifestar-se também contra a intolerância de que ele e sua mulher foram vítimas em um restaurante em São Paulo – no momento em que Zé de Abreu falava ao Brasil, ocorriam atos de intolerância na Avenida Paulista, quando um dos que acampam há semanas em frente à Fiesp para apoiar o golpe partiu para a agressão sobre uma caminha a favor da democracia e em defesa do mandato de Dilma.

José de Abreu lavou a alma de muitos defensores da democracia, dizendo o que muitos gostariam de ver dito mais vezes. Foi autêntico, mas, estando ele na Rede Globo, tudo soava falso.

Desde a cota racionada de alguns minutos para uma voz dissonante – e só concedida após a degradante votação pelo impeachment na Câmara dos Deputados e depois também do ator Ary Fontoura ter se manifestado no mesmo programa a favor do golpe - até uma ala da plateia estranhamente vestida com camisas vermelhas, como que querendo reproduzir em figurantes a representação das manifestações contra o golpe de um lado e as manifestações pró-golpe de outro.

Simbolicamente, ali estava o modelo de "democracia" padrão Globo:  o povo como figurante conformado com o golpe, servindo apenas para aplaudir os poucos minutos consentidos "para espernear".

A apologia da tolerância entre divergentes pregada com honestidade por José de Abreu virou apologia do conformismo para aceitar o golpe Temer-Cunha, sob regência onipotente da TV Globo.

Revirada

Mas a antes chamada "Vênus platinada" começa a despertar a atenção fora das fronteiras locais, justamente pela intransigência com que defende abertamente a destituição de Dilma.

Artigo do jornalista David Miranda, no jornal inglês The Guardian, apontou mais do que mau jornalismo no comportamento da imprensa tradicional brasileira. A linha editorial é parte integrante da sustentação ao golpe do impeachment, como ocorreu no golpe de 1964, fato que levou o próprio Grupo Globo a pedir desculpas recentemente. "Interesses corporativos dos bilionários donos da mídia falam mais alto dentro das redações de suas empresas do que a fidelidade aos fatos. Daí a parcialidade grotesca observada no noticiário dos veículos dos grupos Globo", observou Miranda.

O artigo incomodou João Roberto Marinho, um dos donos do Grupo Globo, que respondeu ao jornal inglês em carta. Não convenceu. Miranda, em outro artigo, no site The Intercept, apontou as inconsistências da carta de Marinho.  Assim, o Grupo Globo sofre forte desgaste de imagem no exterior, vista como golpista reincidente.

Glenn Greenwald, jornalista premiado nos Estados Unidos e no Brasil pela cobertura das revelações do ex-técnico da CIA Edward Snowden, destacou na TV, ao vivo, durante o jornal da CNN: "A mídia global está reportando a crise de maneira radicalmente diferente do que faz o círculo Globo/Abril, dominante no Brasil".

A movimentação da imprensa estrangeira – antes pautada justamente pelo que diziam os jornais brasileiros – acerca do nosso cenário político atual só cresce.

Talvez por perceber que a historia não fecha, os correspondentes dos jornais do exterior no Brasil resolveram prestar mais atenção sobre o que de fato está por trás da tentativa de derrubar o mandato legítimo de uma presidenta eleita. Muitos se perguntavam, por que tantos políticos com processos, ou sendo investigados, e até mesmo réus, caso do deputado paulista Paulo Maluf, se aliaram à oposição e ao vice presidente para derrubar Dilma, recorrendo a teses frágeis como "pedaladas" fiscais.

Por que o PMDB, partido do vice, passou a conspirar e trair para derrubar a presidenta, poucos meses após disputar as eleições coligados?

Não passou muito tempo para a imprensa estrangeira estampar manchetes tratando o processo de impeachment como golpe. Enquanto os noticiosos dedicavam horas e horas mensais para "sangrar" o governo Dilma e o PT, pouco falava sobre quem queria derrubá-la e tomar seu lugar..

Na semana passada, se o Jornal Nacional mantinha manchetes como "um homem que chegou com a comitiva de Lula agrediu manifestantes", jornais estrangeiros, como os três principais dos Estados Unidos – The New York Times, The Wall Street Journal e Washington Post –, deram reportagens de páginas inteiras enfatizando as denúncias contra os líderes de partidos de oposição, e o empenho com têm se dedicado a derrubar Dilma.

Na primeira página, o The New York Times mostrou que as denúncias de corrupção de muitos dos políticos brasileiros defensores do impeachment são mais sérias do que as acusações feitas contra Dilma. Tudo com amplo destaque para Eduardo Cunha e Michel Temer.

O The Wall Street Journal publicou uma longa matéria sobre Eduardo Cunha enfatizando que o presidente da câmara que lidera ataque para impedir Dilma Rousseff" é indiciado por vários crimes pelo Ministério Publico e Polícia Federal

Em seu portal na internet, o Washington Post explicou : "Veja aqui por que algumas pessoas pensam que o Brasil está no meio de um golpe 'soft'".

O jornal Los Angeles Times deu em manchete: "Políticos votando para impedir a presidente do Brasil são acusados de corrupção". Naquele domingo (17), da sessão da Câmara que votou o impeachment, o chamava a atenção para "a crise da democracia" em andamento no Brasil, haja golpe ou não.

Já o francês Le Monde publicou editorial no sábado 23 intitulado “O Le Monde foi parcial?”, em que pergunta a seus leitores sobre um primeiro editorial publicado em 31 de março intitulado “Brasil: isto não é um golpe de Estado”. No novo artigo, assinado por Franck Nouchi, o jornal faz uma severa autocrítica e afirma que não lembrou que “entre os apoiadores da destituição de Rousseff, muitos estão implicados em casos de corrupção, a começar por Eduardo Cunha, o atual presidente da Câmara dos Deputados”. Também considera que o ideal teria sido enviar um repórter ao Brasil para ajudar a “descrever, ademais, as fraturas sociais reveladas durante essa crise”. E conclui, sobre as ameaças à democracia que pairam por aqui. “O país do futuro ainda não terminou com o espectro de um retorno ao passado.”

Coisa antiga

Não é a primeira vez que a imprensa estrangeira mostra o que a imprensa brasileira esconde.

Em 2008, os brasileiros tomaram conhecimento da corrupção no ninho tucano, no caso do escândalo das propinas na compra e manutenção de trens e metrôs dos governos do PSDB em São Paulo, graças a denúncias do Ministério Público suíço, depois de os jornais The Wall Street Journal e o alemão Der Spiegel divulgar as primeiras notícias sobre o caso.

O The Wall Street Journal revelou investigações em 11 países contra a Alstom por pagamento de propinas entre 1998 e 2003. As suspeitas atingiam obras do Metrô e políticos do PSDB. Foi neste ano que o Ministério Público de São Paulo entrou no caso, pedindo informações à Suíça e instaurando seu próprio inquérito.

Só que não deu em nada. A denúncia foi engavetada aqui no Brasil. Nada foi investigado e os tucanos estão todos soltos. E a nossa digníssima imprensa voltou ao silêncio de antes e continuou centrando fogo na derrubada de Dilma, contra a qual, sempre é bom lembrar, não há uma única acusação sequer.

escândalo à vista

Tucanos negociam depoimento de Delcídio para aliviar Aécio. Alguém será preso?

A se confirmar o que diz o jornal 'O Estado de S.Paulo', estamos diante de um caso de reincidência de ilícitos. O que teria Rodrigo Janot a dizer sobre delatados combinarem a denúncia com o delator?
por Helena Sthephanowitz publicado 21/04/2016 13:00, última modificação 21/04/2016 13:09
Geraldo Magela - Ag. Senado / George Gianni -PSDB
delcidio_aecio.jpg

Segundo jornal, Delcídio pode voltar atrás em citações que envolveram relatos de corrupção de Aécio

Na quarta-feira (20), o jornal O Estado de S.Paulo deu uma nota cuja manchete foi "Tucanos negociam recuo de Delcídio em acusação contra Aécio" e que aqui vai resumida: a estratégia, com aval de Aécio Neves, presidente do PSDB, que vem sendo negociada nos bastidores entre membros do PSDB e pessoas ligadas ao senador Delcídio do Amaral, é que este recue das afirmações feitas por ele em delação premiada contra Aécio no caso de corrupção de Furnas e, se possível, aproveitar para que ele faça acusações públicas contra a presidente Dilma Rousseff às vésperas da votação do afastamento dela pelo Senado.

Vale lembrar que: o nome do senador Aécio Neves (PSDB-MG), um dos principais líderes da oposição ao governo Dilma, foi citado durante as investigações da Operação Lava Jato por quatro delatores. O doleiro Alberto Youssef disse ter ouvido do ex-deputado José Janene (que morreu em 2010) que Aécio dividiria a arrecadação de propina de uma diretoria de Furnas com o PP. Em julho de 2015, o operador de valores Carlos Alexandre de Souza Rocha, conhecido como Ceará, disse – em depoimento ligado à sua delação premiada – ter levado R$ 300 mil a um diretor da UTC no Rio e que o dinheiro seria destinado ao senador do PSDB. Os dois casos foram arquivados pelo ministro do STF Teori Zavascki, que alegou insuficiência de informações.

Em fevereiro deste ano, o lobista Fernando Moura, em depoimento ao juiz Sergio Moro, disse ter ouvido relato de uma suposta divisão de propina proveniente da estatal Furnas para Aécio. Em sua delação premiada, o ex-líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, disse que o tucano - na época governador de Minas – atuou para maquiar as contas do Banco Rural durante a CPI dos Correios.

Por fim, a própria delação de Delcídio sobre Aécio Neves, que agora pode ser simplesmente mudada, na linha do "podemos tirar se achar melhor."

E o pior são as circunstâncias em que esta notícia chega. O senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS) delatou já ter combinado com tucanos na CPI dos Correios de 2005 uma manobra para dar tempo ao Banco Rural de maquiar dados financeiros, ou seja, destruir provas, que comprometeriam o então governador Aécio e o tucanato mineiro, todos envolvidos com as empresas de Marcos Valério. Então, pelo que diz o jornal, estamos diante de um caso de reincidência nos ilícitos, o que agrava as condutas dos envolvidos.

O que o procurador-geral da República, doutor Rodrigo Janot, tem a dizer sobre emissários do delatado Aécio Neves procurar o delator Delcídio para combinar depoimento? Como fica aquele papo de obstrução da Justiça, que chegou a levar à prisão preventiva do próprio Delcídio?


é golpe

São todos Cunha: presidente da República vira cargo nomeado por deputado

A maioria da Câmara dinamitou as pontes da democracia representativa e deixou Brasília isolada do povo, num show de horrores que impressionou até a direita. O Senado terá ânimo para reconstruí-las?
por Helena Sthephanowitz publicado 19/04/2016 13:48, última modificação 19/04/2016 14:33
Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
cunhagolpe.jpg

Sessão que votou o impeachment foi espetáculo midiático grosseiro, virou piada mundial e expôs os Cunhas da Câmara

Em 2004, a bancada de deputados do PP apadrinhou Paulo Roberto Costa para a diretoria da Petrobras. Em 2008, a bancada de deputados do PMDB mineiro uniu-se a Eduardo Cunha para apadrinhar Jorge Zelada para presidente da Petrobras. Deu no que deu.

No domingo (17), uma superbancada de 367 deputados lideradas por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se juntou para apadrinhar Michel Temer ao cargo de presidente da República.

É disso que se tratou a votação na Câmara para encaminhar ao Senado o processo de impeachment, sem crime de responsabilidade, da presidenta Dilma. Pedaladas e manifestações golpistas de parte da população foram apenas pretextos para a bancada cunhista apadrinhar Michel Temer ao cargo ao qual jamais alguém poderia chegar sendo nomeado por uma bancada de deputados.

Para isso, dane-se o "estorvo" que é a soberania do voto popular e a democracia. Exatos 367 Cunhas simplesmente golpearam 54,5 milhões de votos populares sem motivo justificável algum.

E não adianta deputado que votou fazendo o jogo de Cunha ter feito discurso contra ele. Entraram para o lixo da história do mesmo jeito, como golpistas. E entraram pior do que os assumidos, pois o discurso soou falso, ao ser incoerente com o voto. Tentam enganar os eleitores duas vezes.

Outro pretexto usado para derrubar Dilma foi a crise política entre os poderes Executivo e Legislativo. Há governabilidade possível com uma Câmara de 367 Cunhas? Só haveria se o presidente da República também fosse um Cunha – o que está infinitamente longe de ser o caso.

E foi isso que assistimos no domingo: 367 deputados disseram ao Brasil nas entrelinhas "somos todos Cunha" para colocar na presidência da República "um dos nossos".

Verdade que o golpe avançou muito, mas ainda tem duas batalhas no Senado. Depende de quantos dos 81 senadores são "Cunhas". Se forem pelo menos 41, que decidirão sobre a admissibilidade do impeachment, Temer já assume interinamente o "governo dos Cunhas", e o golpe avança mais ainda. Se, mais tarde, o plenário do Senado tiver 54 "Cunhas" ou mais, o golpe se consumará definitivamente.

Ainda pode haver uma derradeira batalha no STF, julgando "pedalada" não ser crime de responsabilidade. Mas será que existem pelo menos seis dos ministros do STF capazes de decidir contra a hegemonia da república dos Cunhas em que Brasília se tornou?

A maioria da Câmara dinamitou as pontes da democracia representativa e deixou Brasília isolada do povo. O Senado terá ânimo para reconstruí-las?

Parece difícil.

O processo de golpe reacendeu forte resistência popular contra retrocessos nas conquistas e direitos. O suporte televisivo da Globo e afins cuidou de propagar o sentimento antipolítica no noticiário, para os profissionais do ramo como Eduardo Cunha reinarem no tapetão do Congresso, a ponto de nomear não mais apenas diretores da Petrobras, mas nomear o próprio presidente da República.

Só que erraram a mão ao exibirem a sessão comandada pelo réu Eduardo Cunha, risonho, presidindo uma sessão para derrubar uma presidenta sobre a qual não pesa nem sequer alguma suspeita de desonestidade. Foi repugnante e grotesco o comportamento de centenas de deputados envolvidos em corrupção comemorando o avanço do golpe como se tivessem ganho na mega-sena. Foi talvez a mais infame sessão da Câmara desde o golpe de 1964.

Salvo os fanáticos antipetistas, que são minoria na população, causou calafrios até nos manifestantes pró-golpe pensar no governo Temer que pode sair daquele Congresso de Cunhas. Milhões de telespectadores brasileiros, sobretudo os jovens, se ainda não perceberam, perceberão que ao repudiarem a política, quem toma conta são os Cunhas.

Forças populares, que já se mobilizam contra o golpe, não dispersarão. Pelo contrário, serão engrossadas a cada dia, por todos que se opõem aos Cunhas, e pela percepção de que perderão seus direitos se ficarem quietos e não expuserem em alto e bom som que não aceitarão um governo Temer.

Se o Senado consumar o golpe, praticamente toda a população será contra o governo ilegítimo e Temer ainda ficará com a marca do impeachment estampada em sua testa.

No atual quadro, a solução é Dilma lançar imediatamente um pacto com a nação para uma reforma política feita com ampla participação popular, culminando em novas eleições gerais, se assim o povo decidir, por um plebiscito.

É a mesma agenda que saiu das manifestações de junho de 2013, mas foram inviabilizadas pelo Congresso, que já era composto por centenas de Cunhas.

Haverá enfrentamento com este parlamento, hostil à qualquer proposta partindo de Dilma, mas é melhor lutar ao lado do povo pelas causas certas. Ainda que perca, vale aquela frase de Darcy Ribeiro: "... detestaria ficar no lugar de quem me venceu".

Só o povo pode salvar a si mesmo do governo ilegítimo dos Cunhas em Brasília. Agora só a mobilização e participação popular salva. Dilma pode acelerar o processo e dar fim aos vícios políticos atuais que levam à corrupção, de dar estabilidade política para governar, para recuperar o respeito internacional, e para o povo poder dizer que tanto o governo, como o Congresso lhe representa.

orgulho e preconceito

Ao mudar ordem de votação, Cunha admite não ter votos para impeachment

Medida imposta pelo presidente da Câmara, em parceria com Temer, é simbólica: antes mesmo de consolidar o golpe já mostram que, se chegarem ao poder, Nordeste vai voltar ao "fim da fila"
por Helena Sthephanowitz, para a RBA publicado 14/04/2016 10:41, última modificação 14/04/2016 10:41
Antonio Cruz / ABr
temer-e-cunha.jpg

Temer e Cunha, a dupla que comanda o golpe contra a democracia e o retrocesso institucional

O presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) já começa a discriminar o Nordeste quando joga os parlamentares da região para o fim da fila na votação pela autorização do impeachment.

Em vez de colocar a votação em ordem nominal, critério que respeita o princípio da impessoalidade, Cunha definiu arbitrariamente que iniciará a votação do impeachment contra o mandato de Dilma Rousseff pelos deputados das regiões Sul e Sudeste. O motivo é claro: nessas regiões ele controla mais votos golpistas. Espera com isso pressionar os deputados do Nordeste a também votar contra a legalidade democrática representada por um processo sem base jurídica, como já foi amplamente mostrado por vários juristas.

Mas a manobra de Cunha e Temer só reforça as expectativas negativas do povo nordestino e de seus representantes políticos que têm compromissos com sua população. Afinal, se o golpe passar, o Nordeste voltará à sua histórica discriminação por um governo federal controlado por paulistas, como Michel Temer (PDMB), e tendo como homem-forte de fato o carioca Eduardo Cunha (PMDB) – este será quem efetivamente terá controle sobre ministérios, estatais e o orçamento da União.

O Nordeste que é jogado para o fim da fila na votação, uma clara manobra para seu enfraquecimento político, irá também para o fim da fila na hora de dividir o bolo do Orçamento, nas obras, nos programas que gerem empregos e desenvolvam a região. Os primeiros da fila voltarão a ser São Paulo, Rio e os estados do sul, com Minas a reboque.

Políticas de correção das desigualdades regionais históricas voltarão a ficar no papel e irão para o limbo. Voltará a era em que só os coronéis políticos da região – agora aliados de Cunha e Temer – enriquecerão, enquanto ao povo sobrará o sofrimento com a seca, o subdesenvolvimento, a pobreza, a falta de médicos e professores, o desemprego, a falta de oportunidades.

Junte-se a isso o apoio ao golpe, – com dinheiro, propaganda, patos infláveis, outdoors etc. – pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que volta a patrocinar um golpe contra a democracia, como fez em 1964 e do mercado financeiro, ambos simbolicamente concentrados na Avenida Paulista. Se o impeachment passar, são esses golpistas que darão as cartas em um eventual governo ilegítimo de Temer.

Mas isso só acontece se o golpe passar. E essa própria manobra de Cunha de discriminar o Nordeste indica que ele não tem os votos necessários para o golpe, tendo de recorrer a este tipo de pressão psicológica nefasta. Porém pode virar um tiro no pé. Está dando até motivo para deputados do Nordeste votarem em peso contra o impeachment, ou até mesmo se ausentar da votação.

Afinal quem vai querer enfrentar as urnas tendo de explicar a seu eleitorado que deram um golpe para dar tudo a São Paulo e ao Sul, tirando do Nordeste e detonando o desenvolvimento da região conquistado nos últimos anos.

Outro indicador claro de que Cunha não tem votos suficientes para o golpe, é marcar a votação para a tarde do domingo, para a TV Globo transmitir ao vivo. Acreditam que com isso, haverá maior pressão popular sobre indecisos. Mas colocar a cara de Eduardo Cunha em rede nacional presidindo a sessão que vai decidir a permanência de uma presidenta sobre a qual não pesa uma única acusação pode ser outro tiro no pé. A ficha de muita gente desavisada vai cair. "Trocar Dilma pelo Cunha-Temer? É nisso que esses políticos estão votando?", poderá perguntar quem ainda não percebeu.

Vai render protestos memoráveis nas ruas e nas redes. E cada deputado golpista enrolado com corrupção que der as caras para votar, vai ser intensamente lembrado nas redes sociais de seus "podres" do passado e do presente. Será o maior marketing político negativo espontâneo da história da Câmara.

Se Cunha, em parceria com Temer, fizerem passar o golpe, será o Nordeste que vai pagar o pato da Fiesp. É por isso que, apesar dos esforços da mídia tradicional em dizer o contrário, está difícil para a oposição conseguir votos suficientes para o golpe.

A disputa será duríssima.