Exploração

Perfil de ciclista entregador aponta para a necessidade de regulamentação

Insegurança e vida corrida acompanham aumento da demanda por entrega de comida. Por trás dessa comodidade estão os jovens da periferia que buscam sobreviver ao desemprego

Ronny Santos/Folhapress
"Nossa vida é facilitada pela entrega da comida, mas por trás existe a exploração", destaca Bonduki

São Paulo – Por trás da comodidade da entrega rápida de comida, o perfil dos ciclistas entregadores de aplicativo revela uma nova categoria de trabalhadores altamente explorados e sem direitos. A atividade cresce como alternativa ao desemprego, já que não há processo seletivo e cada um faz a sua própria jornada. Na ciclovia da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul de São Paulo, por exemplo, o número de ciclistas com bolsas térmicas, de aplicativos como Ifood, Rappi, Uber Eats e afins, cresceu mais de cinco vezes entre 2018 e 2019, segundo pesquisa da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike).

Divulgado em agosto, o levantamento revela que eles trabalham em média 9 horas e 24 minutos por dia. A maioria (57%) labuta sete dias por semana. São homens, geralmente moradores na periferia, jovens (50% tem menos de 22 anos). A maioria é de negros ou pardos (71%), com ensino médio completo (53%). Fazem, em média, nove entregas por dia, e recebem R$ 936 por mês.

Para o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), a exploração dos ciclistas é uma faceta triste da realidade das grandes cidades, e chama a atenção para a necessidade de regulamentação da profissão. No quadro Cotidiano na Metrópole, da Rádio USP, ele aponta ainda o esvaziamento dos restaurantes como espaços de sociabilidade.

“A gente tem essa comodidade, como consumidor, mas por trás disso tem um trabalhador profundamente explorado”, pontua o arquiteto. “É um problema muito sério que estão sofrendo esses entregadores ciclistas. A gente precisa regulamentar essa situação. A nossa vida é facilitada pela entrega da comida, mas existe a exploração do trabalhador que vive disso.”