Home Tecnologia Em plena zona sul de São Paulo, o povo da cratera não tem internet

Em plena zona sul de São Paulo, o povo da cratera não tem internet

Telefone celular também é raridade em Vargem Grande, um bairro que as operadoras privadas de telecomunicações não se interessaram em atender
Publicado por João Peres, da RBA
16:40
Compartilhar:   

Nilson e os filhos: computador encaixotado, esperando uma internet que não chega (Foto: Jailton Garcia/RBA)

São Paulo – Nilson guarda o computador novo em folha há quatro meses dentro da caixa, do jeitinho que chegou da loja. Este encarregado de depósito de 43 anos não está com qualquer alteração psicológica. A máquina não veio com defeito, funciona perfeitamente. Falta-lhe apenas um detalhe: uma tal de internet.

O caso de Nilson da Costa Meireles seria relativamente comum em rincões do país – o que não quer dizer que seja normal. Mas é em São Paulo que fica a casa dele. Muitos moradores batem no peito por viverem na maior cidade da América Latina, capital dos bares, dos cinemas, da alta gastronomia, dos serviços 24 Horas. E Nilson se daria por satisfeito com algumas horas de serviço de internet para alimentar seu computador novo. “Tem essa febre de jovens irem para lan house. Aí comprei o computador para segurar os filhos em casa”, afirma, olhando para os meninos de 14 e de 15 anos. 

A história de Nilson não é isolada. Não é por falta de condições financeiras que guarda o computador na caixa, sem uso. Ele mora em Vargem Grande, um bairro da zona sul da capital paulista que tem duas opções quando se trata de internet: comprar a conexão extra-oficial de algum vizinho que tenha contratado um link ou optar pela boa, velha, lenta e irritante conexão discada. Esta, além dos empecilhos convencionais, ganha toques cruéis nesta comunidade, já que as linhas telefônicas caem com frequência e o restabelecimento nem sempre é rápido. “Cheguei a ficar 25 dias sem telefone em casa. A Eletropaulo fez a troca de postes. A Telefônica não reinstalou os cabos dela, falou que era obrigação da Eletropaulo”, conta Nilson.

Celular? Nem

“Estes dias tocou um celular aqui na frente”, noticia, pimpão, um morador de Vargem Grande. Dizem que as grandes alegrias estão guardadas nas pequenas coisas. Conseguir usar um telefone móvel neste rincão paulistano é felicidade para um ano. O problema é que os outros 364 dias são de aborrecimento com um aparelho que não funciona. Celular, aqui, só serve como relógio.

A locomotiva do Brasil, responsável por 11,8% do Produto Interno Bruto nacional, aparentemente não se importa em deixar sem vagão alguns de seus passageiros. Vargem Grande fica no distrito de Parelheiros, que ostenta Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,747 em uma escala que vai de zero a um. É um dos mais baixos IDHs de São Paulo, bem longe de Moema (0,961), Pinheiros (0,960) e Perdizes (0,957). Enquanto moradores destes bairros têm à disposição uma internet de até 100 mega bits por segundo, no extremo sul da cidade é um feito atingir uma velocidade de 300 ou 400 kilobits por segundo, o que nem é considerado banda larga.

Aparentemente, os 42 quilômetros que separam a comunidade da Praça da Sé, marco-zero paulistano, são intransponíveis aos adormecidos interesses do setor privado. Os cabos do Speedy, da Telefônica, chegam até o centro de Parelheiros, a menos de cinco quilômetros, e até Colônia, bairro distante sete quilômetros. Ao longo dos anos, foram florescendo versões sobre o porquê do abandono e cresceu a expectativa da comunidade. “Na Telefônica, disseram que em 2014 vão disponibilizar (banda larga). Há quatro anos disseram que era em 2008”, lamenta Leonardo Silva Malaquias, dono de uma das lan house locais.

Há quem diga que obstáculos técnicos inviabilizam o fornecimento do serviço. Paranoias da cratera? O bairro nasceu, sem saber, no buraco criado há dezenas de milhões de anos pela queda de um meteoro, uma história contada na reportagem “A saga do povo da cratera”, na edição 53 da Revista do Brasil. Mas há telefone. Logo, há cabo. Então, deveria haver banda larga. Outros moradores acreditam em perseguição política da comunidade, muito combativa. Eles apresentaram abaixo-assinados e ligaram várias vezes à operadora, mas nunca receberam uma resposta oficial.

A Rede Brasil Atual tentou saber da Telefônica a explicação técnica para a falta de conexão, mas a empresa não respondeu às perguntas apresentadas uma semana antes da publicação desta reportagem. Na falta de versão oficial, a única explicação que encontra embasamento técnico é a mais comum no país. “O problema de não atendimento na banda larga via solução fixa em infraestrutura cabeada decorre da ausência de investimento nessa infraestrutura. E o investimento é pautado pela questão econômica”, garante Marcus Manhães, pesquisador em radiodifusão e telecomunicações. Em outras palavras, o setor privado não se interessou por Vargem Grande e seus 35 mil moradores – alguns estimam em 50 mil a população local.

A reportagem visitou o local que abriga a estrutura da Telefônica na comunidade. Trata-se de um galpão que, para usar uma gíria bem comum na periferia paulistana, é zoado. Paredes de tijolos sem reboque, cobertura de telhas plásticas e um grande vão ao centro pelo qual seguramente entra chuva. Segundo relatos, são os mesmos “armários”, estruturas de metal, há mais de dez anos, sem que tenha sido feito algum investimento importante na modernização. O material atual não dá conta da demanda no bairro, que cresceu acompanhando a expansão do serviço em todo o país.

Pirata, gatonet, clandestina

Diferentemente do quadro telefônico, a Unidade Básica de Saúde (UBS) de Vargem Grande está com instalações novas, em uma casa ampla, aberta há menos de um ano. Mas faz umas poucas semanas que um antigo problema começou a ser de fato resolvido. A falta de uma conexão confiável prejudica o desenvolvimento da comunidade e até mesmo a prestação de serviços básicos. Por várias vezes o agendamento de consultas ficou indisponível devido à queda da internet. Antes da mudança, a UBS compartilhava rede com uma escola vizinha – há solidariedade na dificuldade –, e o resultado é que não sobrava banda nem para uma, nem para outra. Com a nova conexão, instalada após muita insistência e sem contar com o serviço Speedy, é possível mandar e-mail, mas anexar fotos segue sendo tarefa árdua. Baixar vídeos e outros materiais que poderiam ajudar na formação dos funcionários é um sonho distante.

Ainda pior é a situação de Sônia Cristina, uma antiga moradora que tem um mercado perto dali. Baixar boletos, só na lan house. Serviços bancários sem contar com uma conexão segura, nem pensar. “Meus filhos tentam usar algum telecentro, mas está sempre alguma coisa quebrada. E para imprimir um trabalhinho na lan house é R$ 10, R$ 15. E tem trabalho toda hora.” Ela é uma das pessoas que resistem a utilizar um dos provedores locais improvisados.

Gatonet, pirata, clandestina. Por um custo entre R$ 1.200 e R$ 2.200, é possível contratar de uma operadora privada o chamado link dedicado. Seria uma solução para empresas que precisem de uma conexão confiável, mas, em Vargem Grande, “não tem tu, vai tu mesmo”. Alguns moradores contratam o link, cujo sinal é enviado por ondas de rádio, e repassam a conexão a seus clientes a uma mensalidade de R$ 50 a R$ 55. Quem quiser mais velocidade paga R$ 70. É única maneira de se conectar.

Ainda assim, na prática se trata de uma medida ilegal. Sob os olhos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), quem exerce este papel está fazendo as vezes de um provedor sem gozar de autorização para tal. “Como é via rádio, sempre tem perda de dados, nunca é legal para trabalhar”, conta Leonardo. O atendente de uma lan house tem na cabeça os jogos que se pode e que não se pode carregar por conta da velocidade. Alguns, só durante a madrugada, quando há menos gente fracionando a conexão. É assim, com realidade de Brasil da década passada, que Vargem Grande vai vivendo. Dentro de São Paulo. Tão perto de uma boa conexão. Tão longe dos interesses privados.