À beira do abismo

Pandemia fora de controle: Nicolelis prevê ‘pior março’ da história do Brasil

Cientista aponta para o colapso iminente dos sistemas de saúde nas cinco regiões do país

Pedro Guerreiro/Ag Pará
Entre as capitais, 25 das 27 estão com taxas de ocupação de leitos de UTI covid-19 para adultos iguais superiores à marca de 80%. Destas, 19 estão acima de 90%

São Paulo – De acordo com o neurocientista Miguel Nicolelis, ex-coordenador do Comitê Científico do Consórcio do Nordeste, o Brasil não chegou “nem próximo” do pico da segunda onda da pandemia. Sem a adoção de medidas restritivas de circulação em todo o país, por pelo menos 21 dias, o país pode chegar a um patamar de até 3 mil mortos a cada dia. A atual conjuntura tende a se agravar ainda mais, em função do colapso iminente dos sistemas de saúde, com a ocupação dos leitos de UTIs ultrapassando a casa dos 90% em diversas regiões.

“A situação para março parece ser ainda mais tétrica. Poderemos ter o pior março da história do Brasil de todos os tempos, no que tange a perda de vidas humanas”, afirmou Nicolelis, em entrevista ao programa Revista Brasil TVT, neste domingo (7).

“Não acredito que tenhamos chegado nem próximo do pico ainda. Infelizmente, todas as projeções mostram que a situação brasileira ainda vai pior muito nas próximas semanas”, afirmou o cientista. Com a pandemia fora de controle, ele disse que as condições de atendimento devem ficar “mais do que críticas”, se houver um colapso em São Paulo, tanto na capital como em todo o estado.

“Quando ultrapassa os 85% de ocupação dos leitos de UTI, chegando a 90%, o colapso já ocorreu. É uma questão de horas, ou talvez de um par de dias, para chegar a 100%. As filas de espera já começam a ficar enormes. Como em São Paulo, Natal, Salvador, Rio de Janeiro, Manaus, Fortaleza, Porto Alegre, Florianópolis”, disse Nicolelis. Segundo ele, todas as cinco regiões do país caminham para o abismo.

Fechamento urgente

Sem vacinação em proporções suficientes para conter a disseminação do vírus, a única saída, para Nicolelis, é a adoção de medidas restritivas. Assim como ocorreu em países como o Reino Unido, Alemanha, Israel, Nova Zelândia e China. Ele defende o fechamento de todas as atividades não essenciais, além do controle de circulação de pessoas em aeroportos e rodovias. Outra medida recomendada é a testagem em massa como forma de rastrear o comportamento do vírus, prevendo o avanço da doença. Mas, para tanto, é preciso que o governo federal ou os governos estaduais garantam auxílio financeiro às famílias e setores mais prejudicados.

Pandemônio

Por outro lado, Nicolelis atribui parte do fracasso do combate à pandemia no Brasil à falta de comprometimento do governo federal. “Qualquer nação no mundo atualmente que tivesse um presidente que fala o que esse (Bolsonaro) fala, já teria tomado uma providência institucional. Além da pandemia, nós temos um pandemônio político, causado pelo exemplo do mandatário-mor do país, que não consolas as vítimas, não oferece um plano nacional, nem nenhuma perspectiva de sairmos dessa crise. Pelo contrário. Desdenha e desmerece aqueles que estão tentando trabalhar para o Brasil sair dessa o mais rapidamente possível”, declarou.

Sequelas crônicas

Somado ao avanço no número de casos agudos que demandam tratamento intensivo, Nicolelis chama a atenção para a “demanda reprimida” de pacientes com sequelas crônicas da doença. Além das complicações neurológicas, ele destaca os quadros de insuficiência respiratória, cardíaca e renal como as mais comuns. A necessidade de atendimento médico a esses pacientes agrava ainda mais o quadro de colapso iminente dos sistemas de saúde.

Menu de vacinas

O cientista também disse que é preciso ampliar “de cinco a dez vezes” o número diário de pessoas imunizadas. Além da rapidez no processo de vacinação, é preciso ampliar o “menu de vacinas” disponíveis. “Em particular as vacinas de dose única”, defendeu Nicolelis, “que nos permitem ganhar tempo”. “Se nós tivéssemos entre dois e três milhões de pessoas vacinadas por dia, em 90 dias teríamos um número de pessoas vacinadas grande o suficiente para ter uma queda radical do número de transmissão de vírus e de pacientes infectados”, defendeu.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira. Edição: Glauco Faria


Leia também


Últimas notícias