Escalada da pandemia

Definir igrejas como serviço essencial é ‘constrangedor’, aponta médico

Após novo recorde de mortes pela covid-19 no Brasil, pneumologista destaca urgência de lockdown, incluindo escolas e igrejas

Rovena Rosa/EBC
Médico também cita a importância de apoio financeiro para que a população tenha condições de ficar em casa. E critica a falta de "decisão política" dos governadores em adotar medidas mais radicais

São Paulo – Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e médico pneumologista do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, Ubiratan de Paula Santos rebate a declaração do presidente Jair Bolsonaro e responsabiliza seu governo pelo “genocídio brasileiro” que vem ocorrendo com a pandemia de covid-19. Nesta quarta-feira (3), Bolsonaro mais uma vez transferiu a culpa à imprensa, que disse ter “criado pânico” sobre a doença no país. E defendeu que, se depender dele, “nunca teremos lockdown”. 

Na avaliação do pneumologista, em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual, o presidente e seus ministérios da Saúde e da Economia agem desde o início da maior crise sanitária do último século, em março passado, na contramão das evidências científicas. 

“Não têm sensibilidade para ajudar o povo a sobreviver e enfrentar a pandemia. Isso significa utilizar todos os meios possíveis de proteger a população. Garantir que as pessoas possam ficar distantes umas das outras, o que indica que as pessoas precisam permanecer em casa. E para isso precisa ter apoio e recursos financeiros do poder público para que elas possam sobreviver e comer. Ter condições básicas enquanto o governo toma medidas como, por exemplo, a rápida aquisição de vacinas e das condições necessárias para que elas sejam aplicadas com rapidez”, observa. 

‘Frouxidão’ dos governadores

À medida que o governo Bolsonaro não toma as medidas necessárias, acrescenta Santos, contribui para que o país bata recordes sucessivos de mortes em decorrência da covid-19. No mesmo dia da declaração do presidente, o Brasil registrou pela terceira vez um recorde no número de óbitos pelo novo coronavírus. De acordo com o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), 1.910 pessoas morreram nas últimas 24 horas, elevando para 259.271 o total de vidas perdidas. E a situação que já é dramática pode se agravar, como alertam diversos especialistas. 

O neurocientista Miguel Nicolelis, que coordenou o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a covid-19, já calcula a possibilidade do país cruzar a marca dos 3.000 óbitos diários. Em entrevista ao El País, Nicolelis alertou que aumentar o número de leitos em hospitais “já não adianta”. E que a única saída é decretar um lockdown nacional. Ubiratan concorda com a análise e cita que neste momento é preciso restringir ao máximo a circulação das pessoas por 15 dias a um mês para impedir a transmissão da doença. 

O pneumologista também contesta a “postura lamentável de alguns governadores”. Segundo o médico, se não bastasse a demora na estratégia de aquisição de vacinas e a falta de apoio de Bolsonaro ao Sistema Único de Saúde, há uma “frouxidão, falta de vontade e decisão política” por parte do Executivo dos estados e das cidades. Ele cita como exemplo a posição do governador João Doria (PSDB), que colocou São Paulo na fase vermelha, a mais restritiva, mas anunciou que a estratégia vale somente a partir deste sábado (6). 

Igrejas e escolas devem ser fechadas

O pneumologista observa que “interesses individuais” e de uma “operação empresarial do lucro acima da proteção das pessoas” estão pesando mais que os interesses coletivos. E critica o reconhecimento de atividades religiosas como serviços essenciais por parte do governador de São Paulo João Doria e também de outros governadores. “Essa é uma situação constrangedora. Certamente Deus, para quem tem essa crença religiosa, deve preferir preservar a vida. O que significa as pessoas não se contaminarem”, aponta.

“E isso vale para essas viagens de futebol, que vão ajudando as diversas cepas do vírus a circular. Temos várias mutações circulando com viagens, e nas escolas também. Nesse momento, defendo o lockdown completo. Apenas com exceção da saúde, precisa ter ônibus e aquilo que for essencial para as pessoas sobreviverem, ter o que comer, mas com restrição ao extremo. Temos que abrir quando conseguirmos controlar a pandemia.” 

Restrição é proteger vidas

Ubiratan pondera que esse processo de imposição de medidas restritivas pode representar “desgaste” para os governadores e prefeitos, mas é preciso um pacto pela vida. “Tem uma parte (da população) que se espelha no governo federal, que é essa loucura, e isso é um desgaste para governadores e prefeitos. Mas nós temos que ter dirigentes que sejam capazes de enfrentar isso mesmo às custas de não ser reeleito, isso faz parte da vida. O que não pode é ceder a essa coisa que está predominando em nível federal, e os governadores até agora não conseguiram tomar medidas radicais necessárias”, afirma. 

“A restrição da atividade econômica significa que a restrição da circulação das pessoas vai contribuir decididamente para reduzir a transmissão do vírus enquanto a gente avança com a vacinação. São as duas questões centrais. Atender os interesses do mercado, que é a Berrini (região de negócios da cidade de São Paulo) certamente é uma conversa que foge aos interesse da proteção da vida das pessoas. Ainda mais nesse momento com uma epidemia que mata muita gente”, completa o pneumologista. 

Confira a entrevista

Redação: Clara Assunção


Leia também


Últimas notícias