Morte tem cor e classe

População negra da periferia de São Paulo é a mais afetada pela pandemia

Nessas regiões, idosos morrem quase duas vezes mais do que a população da mesma faixa etária em outras áreas da capital. Para o Instituto Pólis, vacinação precisa considerar a geografia para a imunização ser eficiente

Paula Froes/Gov. Bahia
Ao longo de 2020, morreram 52% mais homens negros do que brancos e 60% mais de mulheres negras do que brancas

São Paulo – Estudo do Instituto Pólis revela que a população negra, residente em áreas da periferia de São Paulo, é a mais afetada pela pandemia de covid-19. Ao longo de 2020, morreram 52% mais homens negros do que brancos e 60% mais de mulheres negras do que brancas. Com base no mapeamento de hospitalizações e óbitos em decorrência do novo coronavírus, o levantamento identificou que essa diferença também pode ser observada entre os idosos negros, que morrem quase duas vezes mais do que o esperado em relação à população total dessa faixa etária na capital paulista. 

Na avaliação do pesquisador do Instituto Pólis, Vitor Nisida, os fatores raça e classe acabam influenciando porque é a população negra e periférica que possui o menor acesso ao sistema de saúde, tem menor renda e está mais exposta ao vírus durante a pandemia. Já que em muitos casos é impossível a realização do isolamento ou do home office. De acordo com o pesquisador, ao traçar as regiões mais afetadas, o estudo evidenciou que vacinar o público prioritário dessas regiões seria mais eficaz para o combate à pandemia. 

Estratégia de vacinação territorial

Entre os distritos que, segundo o Instituto Pólis são os mais expostos, estão Sapopemba, Brasilândia, Freguesia do Ó, Iguatemi e Jardim Helena. As regiões de São Mateus, Cachoeirinha, Jardim Ângela, Grajaú, Jardim São Luíz, Cidade Tiradentes e Cidade Ademar também fazem parte da lista. Em paralelo, distritos com menor proporção de população negra e de maior padrão de renda apresentam baixa ou nenhuma sobremortalidade. Isto é, um número de óbitos observados maior que o de óbitos esperados.

“Estamos propondo uma estratégia localizada para tentar chegar mais próximo e mais rápido possível de alguma imunidade coletiva ainda que localmente. Ao fazer isso, estamos imunizando justamente aquelas pessoas que mais precisam sair de casa para trabalhar e conseguir sua fonte de renda do dia”, explica Nisida.

A infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Raquel Stucchi, analisa que a pandemia evidenciou os problemas sociais do país. Mas, segundo ela, não pode haver “privilégios sociais” no processo de vacinação. Para a médica, o grande problema enfrentado hoje é a falta de vacinas, já que o Brasil tem conhecimento e técnicas de garantir a vacinação para toda a população. “Quanto mais meios você tiver para atingir todas as camadas da população e facilitar que todos tenham acesso é melhor”, defende Raquel.

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