Opostos

Na contramão da Europa e EUA, covid-19 cresce no Brasil. E deve piorar

Mundo registra cinco semanas de queda de casos e mortes de covid-19, resultado da combinação entre isolamento e vacinação. Já no Brasil, surto segue sem controle e provoca pessimismo de especialistas

Pedro Guerreiro/Ag Pará
OMS aponta que o sucesso do combate ao coronavírus na Europa e Estados Unidos tem relação com isolamento social e vacinação. Exatamente o contrário do que faz o Brasil

São Paulo – Enquanto a covid-19 avança no Brasil em uma segunda onda de contágio e mortes, outros países começam a viver uma situação de relaxamento em relação à pandemia. A Europa já soma cinco semanas de redução nos surtos locais. Também os Estados Unidos, há seis semanas com quedas consecutivas de novos casos. Diante do cenário, especialistas divergem sobre o futuro próximo da disseminação do vírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pede cautela.

Curva de mortes pela covid-19 no Brasil em ascensão. Fonte: Conass

O professor Marty Makary, da Universidade Johns Hopkins, referência em epidemiologia, é bastante otimista. Ao observar uma redução de 77% de casos nos Estados Unidos, com a chegada do fim do inverno, o especialista sugere que a pandemia pode estar próxima do fim. Em artigo publicado no Washington Post, ele crava que a circulação do novo coronavírus no mundo se dará em abril.

O otimismo de Makary tem relação com o rápido crescimento no número de vacinados, além da expansão da chamada imunidade coletiva, ou de rebanho. O professor critica essa modalidade como estratégia de política pública de saúde. No entanto, reconhece que é possível que parte da população de uma cidade, por exemplo, desenvolva imunidade depois que uma ampla parcela dos moradores seja infectada. Com isso, “quebra-se a cadeia de transmissão”, defende.


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Entretanto, a realidade da covid-19 no Brasil aponta para o caminho oposto do idealizado por Makary. Em seu artigo, ele chega a citar um estudo realizado na cidade de Manaus, publicado em novembro na revista científica Lancet. No artigo, pesquisadores apontavam que 76% dos manauaras já tinham sido expostos ao vírus. Makary apontou que, a partir daí, os casos começaram a cair expressivamente na capital amazonense.

A previsão do pesquisador, porém, mostra-se incorreta. A redução nos casos e mortes em Manaus durou pouco. Novos estudos indicam que a imunidade de rebanho para o coronavírus é de prazo curto. Novas mutações virais podem derrubar o frágil equilíbrio. Em janeiro, a capital amazonense passou a viver semanas de colapso nos sistemas de saúde e funerário. Mesmo com a ampla exposição da população ao vírus ainda em uma primeira onda, isso não impediu um segundo impacto mais agressivo.

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), que é médico e ex-ministro da Saúde, afirma que “o artigo (de Makary) é muito mais um desejo do que realidade”. Padilha apresenta justamente o caso de Manaus como argumento. “Essa previsão é tão furada que ele cita como exemplo cidades como Manaus”, afirma o parlamentar.

“O colapso de janeiro em Manaus é mais uma evidência de que a imunidade de rebanho não é suficiente para conter a covid-19. Isso, porque a proteção não é duradoura, é transitória. Não impede reinfecção. Manaus teve dois colapsos. Quem acreditou que Manaus estava sob controle liberou aglomeração, aula presencial, atividades comerciais. A conta chegou com o novo colapso”, completou.

Expectativa

O Brasil vive a pandemia de covid-19 fora de controle desde o início de janeiro. São Paulo, estado mais afetado do país, tem maior número de internados desde o início do surto, em março. O cenário se repete em diferentes estados, como Santa Catarina e Paraná. Se por todo o país o cenário é trágico, a Europa e Estados Unidos, mesmo ignorando o posicionamento sobre imunidade de rebanho, estão reduzindo casos e mortes.

A OMS, através de um colegiado de cientistas, argumenta que o sucesso observado tem relação com isolamento social e vacinação. A comunidade europeia, ao observar novas cepas virais e o crescimento de casos ainda em dezembro, retomou em massa medidas rígidas de isolamento. Aliado ao avanço na vacinação, os resultados positivos já estão chegando

Pandemia de covid-19 sem controle no Brasil

O controle da pandemia é observado com clareza em Israel. O país já vacinou com a primeira dose mais de 80% da população e 50%, com a segunda dose. Os novos casos e mortes estão caindo rapidamente, e o país deve superar o surto de covid-19 em breve.

Curva epidemiológica de novos casos em Israel revela tendência de queda. Fonte: Rastreador do covid-19 Microsoft

De acordo com a OMS, pandemia “é a disseminação mundial de uma nova doença e o termo passa a ser usado quando uma epidemia, surto que afeta uma região, se espalha por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa”.

Ou seja, o surto pode acabar em parte do mundo, e seguir letal e destrutivo em outra parte. Países da Europa, Oriente Médio, Ásia, e América do Norte podem superar a covid-19. Mas deve seguir letal em outras partes do mundo, a depender de como é tratada pelos poderes públicos.

Uma dessas partes pode ser o Brasil, para o infectologista Caio Rosenthal. “Pelo ritmo da vacinação, infelizmente minha visão é pessimista e realista. Outros países, como os europeus e os Estados Unidos, já estão muito mais à frente e vão conseguir uma imunidade mais rapidamente. No Brasil, a forma atabalhoada, provisória, desorganizada como está sendo feita a vacinação, inclusive a aquisição das vacinas, não nos permite termos uma visão melhor sobre a covid”, disse.

Colaborou Cláudia Motta


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