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Covid-19: Manaus enfrenta colapso do sistema de saúde e funerário

Cemitérios já não dão conta dos mortos da covid-19 em Manaus. Câmaras frigoríficas são instaladas para manter corpos refrigerados

Alex Pazuello/Semcom
"Autoridades de saúde são responsáveis diretas por transformar o mês de janeiro de 2021 no mês das lamentações e do luto", afirma epidemiologista

São Paulo – Com apenas 11 dias, o mês de janeiro de 2021 já é o segundo com maior número de internações pela covid-19 em Manaus. Faltam leitos e o sistema de saúde já enfrenta colapso. O mesmo ocorre com o sistema funerário. Com a alta na demanda, a prefeitura da capital amazonense prepara câmaras frigoríficas para armazenar corpos sem local adequado para enterro.

O número de mortes pela covid-19 em Manaus subiu 90% desde o início do ano. Domingo (10) foi o recorde de vítimas, com 144 enterros. Especialistas criticam a falta de ação do poder público local para evitar esta nova tragédia. A RBA acompanha a fragilidade de Manaus frente à covid-19 desde outubro. Enquanto isso, o governo federal, do presidente Jair Bolsonaro, segue sem ação. Ao contrário, agora pressiona o sistema de saúde amazonense a receitar cloroquina.

Repercussão

A cloroquina, ou hidroxicloroquina, é um medicamento considerado por inúmeros estudos como ineficaz contra a covid-19. Inclusive da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entretanto, desde o início do surto, Bolsonaro defende a cloroquina, como um “medicamento santo”. Sem formação médica, chegou a receitar a substância em massa em discursos em rede nacional.

Bolsonaro levou o Brasil a produzir mais de 3 milhões de comprimidos do remédio. Mais de 400 mil destes comprimidos estão em estoque sem demanda. Isso pode explicar a pressão para que Manaus distribua o medicamento ineficaz para seus cidadãos. “É inadmissível” não usar a cloroquina, diz comunicado do Ministério da Saúde a autoridades manauaras.

“Os ricos de Manaus estão pegando jatinho para se tratar no Sírio e Einsten (hospitais de elite de São Paulo), onde nenhum toma cloroquina ou ivermectina. Pros pobres, remédio de faz de conta”, resumiu a equipe do podcast Medicina em Debate. Já o presidente da Comissão PCD da OAB no Ceará, Emerson Damasceno, classificou a pressão como “criminoso”. “É inadimissível que esse desgoverno permaneça aí contribuindo com mais centenas de milhares de vidas perdidas”.

Urgência

O epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz Amazonas (Fiocruz) Jesem Orellana já emitiu uma série de alertas sobre a piora do cenário na capital amazonense. E chegou a pedir lockdown. “No dia 11 de dezembro de 2020 recomendei o lockdown em Manaus pela quarta vez em, menos de 90 dias. Deixei claro que se as autoridades sanitárias não fossem contundentes no freio da galopante taxa de contágio do novo coronavírus, elas seriam responsáveis diretas por transformar o mês de janeiro de 2021 no mês das lamentações e do luto”, disse.

Agora, Orellana argumenta que se o conjunto de restrições não for ampliado nos próximos dias, o que inclui o seu prolongamento por ao menos mais 10 dias, “estaremos assistindo ao início de um novo ciclo de adoecimento e mortes em Manaus”. Mas desta vez, alerta ele, a terceira onda pode ocorrer mesmo com a vacinação em curso, “já que a impunidade e a incompetência caminham de mãos dadas, quando o assunto é gestão da epidemia no Amazonas”.

Falta de ação

Mesmo com os alertas, o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), disse hoje (12) que “nesse momento não se faz necessário o lockdown“, mas que não descarta em um cenário futuro. “Porém não descarto a possibilidade do mesmo, muito menos da quarentena caso se agrave a situação”, completou.

Acontece, que a situação já é mais grave do que foi, inclusive nos piores meses da epidemia. “Até quanto estes crimes contra a saúde pública e contra os direitos humanos seguirão sendo praticados? Vamos mesmo consolidar a fama do Amazonas como o lugar onde a prioridade parece ser contar mortos e não salvar vidas? Não basta a abertura de leitos hospitalares ou a construção de sepulturas verticais, temos é que frear o contágio e os gastos milionários nas mais criativas frentes, as mesmas que incham cada vez mais a insaciável indústria da covid-19”, criticou Orellana.

Enem

O Brasil voltou a reportar recordes da covid-19. A curva epidemiológica de contágios é a maior desde o início do surto. Na última semana, foi registrado o dia com mais mortes de toda a série mais de 1.800 em 24 horas. Mesmo assim, o governo federal insiste na realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no próximo fim de semana. Jesem Orellana teme que as aglomerações piorem o cenário em Manaus.

“Mesmo que pareça óbvio, precisamos deixar claro que somos contrários à realização das provas do Enem, previsto para este domingo, 17. Embora seja esperado que o governo, ignore nossas recomendações, não vamos nos omitir e faremos nosso dever de nos manifestar contrariamente a mais esta atitude negligente e descabida que pode infectar e matar ainda mais gente, em cenário marcado por mais de mil mortes diárias por covid-19 no país, em especial em Manaus que está mergulhada no caos há semanas”, diz o epidemiologista da Fiocruz Amazonas.