Gestão tucana

Doria omitiu 2.506 internações por covid-19 para recuar São Paulo apenas à fase amarela

Dados do Censo Covid mostram que havia 12.195 pessoas internadas com covid-19 na rede pública paulista e não 9.689, como informado pelo governador quando recuou o estado para a fase amarela de isolamento, menos restritiva

Governo de SP

São Paulo – O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), omitiu 2.506 internações de pacientes com covid-19 dos dados apresentados na última segunda-feira (30), quando todo o estado foi recuado da fase verde para a fase amarela do Plano São Paulo. A plataforma é usada para coordenar a intensidade da quarentena e a abertura do comércio no estado. Na apresentação do secretário da Saúde, Jean Gorinchteyn, na segunda-feira, foi informado que havia 9.689 pessoas internadas, sendo 5.548 em enfermaria e 4.141 em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Os números representavam uma ocupação de 52,2% dos leitos. Segundo Gorinchteyn, os dados utilizados na avaliação foram consolidados até o último sábado (28).

Porém, dados do Censo Covid-19, organizado pelo próprio governo Doria com informações sobre a ocupação de leitos específicos ocupados por unidade hospitalar pública no Estado de São Paulo, mostram que havia 12.195 pessoas internadas no sábado (28), as 11h47. Destas, 6.508 estavam em enfermaria e 5.687, em UTI. O que representa uma taxa de ocupação de UTI de 71,7% e levaria todo o estado para a fase laranja do Plano São Paulo. Os dados não incluem as internações na rede privada.

Os dados diferem inclusive do boletim diário da covid-19 que o governo Doria divulga à imprensa em São Paulo. No sábado, o boletim atualizado as 12h informava haver 9.755 pessoas internadas, sendo 5.661 em enfermaria e 4.094 em UTI. A taxa de ocupação de UTI informada era de 51,1% no estado.

Todos os dados foram extraídos das plataformas públicas do governo de São Paulo

Redução de dados

Ontem (2), a RBA questionou a Secretaria da Saúde sobre a diferença nos dados apresentados e os dados do Censo Covid, mas até o fechamento desta reportagem ainda não havia recebido resposta.

Porém, duas horas após o envio dos questionamentos, o governo Doria “atualizou” os dados de leitos covid-19 ocupados por unidade hospitalar pública no Estado de São Paulo e desativou a opção que permitia baixar os dados completos. A planilha obtida pela RBA tem 445 linhas de dados. A que foi disponibilizada após o questionamento tem 184 linhas de dados.

Mesmo a planilha com menos dados, mostra diferença de 886 pessoas internadas em relação ao que havia sido anteriormente divulgado pelo governo Doria. No boletim diário publicado ontem (2), a informação é de que havia 10.267 pessoas internadas. No Censo Covid (com dados reduzidos) constam 11.153 pessoas internadas.

Covid-19 em São Paulo é como Doria escolhe

Os dados da pandemia de covid-19 utilizados pelo governo paulista para decretar o recuo de todo o estado para a fase amarela do Plano São Paulo foram apenas os da última semana. Com isso, foi possível criar uma aparência de menor gravidade da situação da pandemia no estado. Se tivesse comparado o cenário desde a última classificação, em 9 de outubro – como o próprio governo estadual havia estabelecido –, toda a Grande São Paulo teria passado para a fase laranja, mais restritiva.

O governo comparou apenas os sete dias da última semana (22 a 28 de novembro) com os sete dias da semana anterior (15 a 21 de novembro), ignorando que as regiões da Grande São Paulo – incluindo a capital –, da Baixada Santista, de Campinas, Piracicaba e Taubaté passaram para a fase 4-verde em 10 de outubro. Naquele mês, Doria informou que as atualizações do Plano São Paulo passariam a comparar um período de 28 dias com os 28 anteriores.

No caso das internações, a comparação apenas dos dados da última semana com a semana anterior resultou num aumento de 7%. Se fosse considerado o intervalo de duas semanas, comparando o período de 15 a 28 de novembro, com o de 1º a 14 de novembro, o aumento seria de 28,6%.

No caso das mortes pela covid-19 em São Paulo, a distorção é ainda maior. Ao comparar apenas as mortes notificadas na última semana, com as da semana anterior, o resultado foi um aumento de 12% em óbitos. Se Doria considerasse o período em que as regiões avançaram para a fase verde, o aumento no número de óbitos seria de 34%.

Descontrole

Essa “escolha” de dados também influenciou a análise do aumento de casos. Os dados utilizados foram apenas os da última semana (22 a 28), quando foram registrados 4.666 novos casos diários, em média. O que resultou numa queda de 14% em relação ao período anterior. Porém, o secretário da Saúde, Jean Gorinchteyn, admitiu que a redução de casos registrados na última semana se deveu a uma redução no número de testes para a detecção do novo coronavírus aplicados na população.

Mesmo com essa redução, o mês de novembro teve 20,59% mais testes positivos (RT-PCR, que detecta a infecção ativa) para o novo coronavírus do que no mês de outubro. Mas o total de exames realizados cresceu apenas 3,64% no comparativo dos dois meses.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), considera-se que os órgãos de saúde governamentais têm a pandemia sob controle quando obtêm uma taxa de 5% de resultados positivos para o novo coronavírus em relação ao total de testes aplicados à população. Porém, em São Paulo, a taxa de resultados positivos ficou em 22,23% em outubro e 25,86% em novembro – cinco vezes acima do máximo estabelecido pela OMS.

Edição: Fábio M. Michel