O lado mais fraco

Governo Covas admite que flexibilização aumentou contágio por covid-19 na periferia

Entrada na fase 3-amarela fez população da periferia de São Paulo voltar os locais de trabalho e se deslocar mais na cidade, aumentando o contágio por covid-19

Eduardo Ogata
Covas e Aparecido (à dir.) admitiram agora que o início da flexibilização da quarentena fez aumentar os casos de covid-19 na periferia

São Paulo – Contradizendo o discurso de controle da pandemia do novo coronavírus, o governo do prefeito Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, admitiu hoje (13) que a flexibilização da quarentena e a reabertura do comércio levaram a um aumento contágio por covid-19 na periferia de São Paulo, sobretudo nas zonas sul e leste da cidade. As duas regiões têm um percentual de população que já contraiu a doença muito mais elevado que o conjunto da cidade. E praticamente o dobro da região centro-oeste, a mais rica. A situação se relaciona diretamente com a necessidade de a população da periferia voltar aos locais de trabalho e utilizar o transporte coletivo diariamente.

“O pico da fase cinco (do inquérito sorológico) coincidiu com a introdução e consolidação da flexibilização na fase amarela do Plano São Paulo (que coordena a reabertura do comércio). Esse início se deu no dia 24 de julho. (E se deu com) os movimentos populacionais de deslocamento casa-trabalho com predomínio nas regiões dormitório do território”, explicou o secretário Municipal da Saúde, Edson Aparecido, em entrevista coletiva para apresentar os dados fa gestão Covas sobre sétima fase do Inquérito Sorológico sobre covid-19.

Na zona sul, o percentual de pessoas que já foram contaminadas por covid-19 chegou a 19,9%, o maior da cidade. Na zona leste, o índice chegou a 19,6%. Já na região centro-oeste, que concentra os bairros mais ricos, a maior prevalência foi de 10,3%. E na região sudeste, a prevalência é de 11,9%. A média da cidade é de 13,6%, com uma prevalência claramente maior de casos de covid-19 na periferia.

Gestão Covas e a Covid-19 na periferia

Os resultados do inquérito mostram uma clara proteção a quem pode fazer home office. Os trabalhadores que tiveram de voltar aos locais de trabalho apresentaram índice de contaminação de até 19%. Já os que puderam permanecer em casa, tiveram índices de até 7,2%. O que mostra que a desigualdade detectada pelos estudos também foi reforçada pelas próprias medidas de flexibilização da quarentena.

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Os dados confirmam isso ao demonstrar a maior contaminação pela covid-19 entre pessoas de baixa renda, baixa escolaridade, pretos e pardos. Justamente as que menos têm possibilidade de fazer o home office. Seja por trabalharem em cargos de menor remuneração, sem curso superior ou posição de chefia. Os negros tiveram o dobro de prevalência dos brancos. E a população das classes D e E tiveram até seis vezes mais chance de ser contaminada pela covid-19.

A situação também se reflete nos índices de morte. Até agosto, os 20 bairros mais pobres da cidade tiveram o dobro de mortes em relação aos 20 mais ricos. As mortes registradas apenas nos 20 distritos mais pobres representavam 41,8% do total de óbitos registrados em toda a cidade de São Paulo. Os distritos com maior número de mortes acumuladas, naquele mês, eram: Sapopemba, com 471, na zona leste; Brasilândia, com 384, e Tremembé, com 306, na zona norte; Jardim Ângela, com 349, Cidade Ademar, 346, Sacomã, 345, Jardim São Luís, 338, Capão Redondo, 334, Jabaquara, 318, e Grajaú, 387, na zona sul da cidade.