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Número 37, Julho 2009

AMBIENTE

Copa verde

O Mundial de Futebol no Brasil poderá ser o primeiro da história a impor a seus projetos conceitos de sustentabilidade
por Roberto Rockmann publicado 04/04/2013 12h26, última modificação 07/05/2018 11h58
O Mundial de Futebol no Brasil poderá ser o primeiro da história a impor a seus projetos conceitos de sustentabilidade
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Projeto

Projeto para um futuro estádio de Brasília, do arquiteto Vicente Castro

Na primeira semana de junho, políticos, ministros e representantes da iniciativa privada criaram um grupo de trabalho com a missão de consolidar um projeto de sustentabilidade para a Copa de 2014, recebendo sugestões para ser postas em prática pelas 12 cidades-sede e também por aquelas que venham a receber a preparação dos jogos das 32 seleções que disputarão o Mundial. “Esse grupo vai trabalhar pela realização de uma Copa do Mundo limpa”, diz a senadora Ideli Salvati (PT-SC). O levantamento sobre as iniciativas sustentáveis deve ser concluído até o fim deste ano para ser apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Sob o conceito de “Copa verde” os estádios são vistos como ecoarenas – para os banheiros e a irrigação do gramado, sistemas de captação da água da chuva; em vez de energia elétrica da rede básica, painéis de energia solar. A aplicação de regras implica ainda compensar com o plantio de árvores a emissão de gás de efeito estufa gerada pelas obras. A rede de transportes também tem de ser pensada para reduzir a circulação de veículos não apenas durante o evento, mas depois dele.

“O Brasil tem grandes possibilidades de se tornar sede da primeira “Copa verde” da história, mas para isso será preciso uma ampla articulação”, diz o arquiteto Vicente Castro de Mello, que trabalha com projetos sustentáveis para alguns dos estádios que pretendem sediar a Copa – como o de Brasília e o maior deles, o Maracanã, que poderá virar uma ecoarena, como prevê o edital de licitação de sua modernização, com a parceria da iniciativa privada. Em Manaus, o governo local tem divulgado a construção de um estádio ecoeficiente. “Queremos reforçar a ideia da ‘Copa verde’ ”, diz o governador Eduardo Braga.

A ideia não é nova. Antes da realização da Copa de 2006, na Alemanha, a Fifa anunciou o programa Green Goal (Gol Verde), uma lista de metas para incorporar ao evento características de sustentabilidade. O governo alemão incentivou o uso de bicicleta, com a construção de estacionamentos gratuitos próximos aos locais dos jogos. Em três estádios, Kaiserslautern, Dortmund e Nuremberg, foram instaladas placas de captação de energia solar. Na África do Sul, algumas obras previam caminho semelhante, mas não saíram do papel.

“Não podemos criar coisas fantásticas, fora da nossa realidade. Precisamos aproveitar o que temos, reciclar nossos estádios”, defende o arquiteto Castro de Mello. Os investimentos para aplicar tecnologias inovadoras de economia de energia e água poderiam ser tocados por empresas privadas e governos. “Vai estar em nossas mãos fazer da ‘Copa verde’ um sucesso, e isso depende dos investimentos que nós, brasileiros, decidirmos realizar”, diz Sergio Boanada, diretor regional para o Rio de Janeiro da Siemens, uma das empresas interessadas nos US$ 60 bilhões de negócios que a Copa deve gerar no Brasil.

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Projeções do futuro estádio de Brasília, do arquiteto Vicente Castro de Mello: espera-se que os empresários tenham iniciativa, o que não aconteceu no Pan do Rio

Pé atrás

A história do Brasil na realização de grandes eventos esportivos não é das melhores. Exemplo recente são os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Relatório do Tribunal de Contas da União apontou falhas graves, de atrasos nas obras a omissão de informações, passando por indícios de irregularidades em licitações e falta de planejamento. O orçamento inicial previa investimentos em torno de R$ 400 milhões, mas foram quase R$ 3 bilhões. Muitos itens omitidos, como estrutura detalhada de segurança, foram sendo incorporados no decorrer da execução. E investimentos privados que não se concretizaram deixaram União, estado e município com o mico. O estádio João Havelange, o Engenhão, custou três vezes mais que os R$ 130 milhões projetados. Promessas como a despoluição da Baía da Guanabara, a construção de linha de metrô ou a herança de parques esportivos para a cidade ficaram apenas na palavra.

Para a Copa, o governo federal quer uma nova gestão de gastos com os contratos. Agora, neste mês de julho, reúne-se com estados e municípios para começar a definir, e posteriormente fazer constar em contratos, as responsabilidades de cada um. A União pretende estimular o setor privado na construção dos estádios e quer, no máximo, investir na infraestrutura. Cuiabá, porém, já frustrou essa expectativa ao admitir que bancará com recursos públicos a sede pantaneira da Copa.

divulgação Engenhão
Engenhão: símbolo abandonado de um evento de alto custo que não trouxe as melhorias prometidas para a cidade
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