Acordo com Irã abre novas portas para Brasil no cenário mundial

Especialistas ressaltam que Estados Unidos se equivocaram ao menosprezar negociação brasileira e apontam interesses econômicos da Casa Branca no país de vastas reservas petrolíferas

Presidente Lula, Mahmoud Ahmadinejad (Irã) e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, comemoram anúncio de acordo nuclear (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

São Paulo – O acordo assinado pelo presidente Lula sobre o programa nuclear iraniano abre novas portas para o Brasil e enfraquece os argumentos dos Estados Unidos sobre a questão, segundo especialistas e fontes do setor. A avaliação é de que o governo de Mahmoud Ahmadinejad mostra disposição em dialogar e que o Itamaraty acertou ao notar que faltava que alguém se apresentasse a essa conversa.

Analúcia Danilevicz Pereira,  professora de História Contemporânea e de Relações Internacionais da ESPM de Porto Alegre, considera que o Itamaraty tem sido coerente em sua conduta, envolvendo-se em questões bastante sensíveis sempre com sucesso. Para ela, o Brasil abre novas frentes de atuação na política mundial e mostra que o caminho é o diálogo, e não a sanção. “Essa visão mostra que o país tem a percepção de que há espaço para atuação, há espaço para o Brasil se colocar como negociador nas grandes questões internacionais”, afirma em entrevista à Rede Brasil Atual.

A proposta aceita pelo Irã prevê que o país entregará o urânio a uma taxa de cerca de 3,5% de enriquecimento e receberá da Turquia urânio enriquecido a 19,9%, que é a taxa necessária para o uso em reatores de pesquisa. É um percentual suficiente para medicina nuclear, com funções de diagnóstico, mas distante dos 90% necessários para a fabricação da bomba. Os Estados Unidos e a maioria dos países europeus colocam-se contra a utilização de energia nuclear pelo Irã por considerarem que pode haver uma aplicação não pacífica por parte da nação asiática.

O pacto firmado em Teerã reafirma algumas linhas gerais da política externa brasileira fortalecidas ao longo do atual governo, em especial o pragmatismo e o não alinhamento. Ao contrariar o interesse dos Estados Unidos, que gostariam de impor rapidamente sanções ao Irã por meio do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), Lula e o chanceler Celso Amorim geraram críticas por parte de setores empresariais e de alguns veículos de comunicação brasileiros. O temor, dizia-se e segue-se dizendo, é que a Casa Branca, ao ser contrariada, poderia se afastar do Brasil.

Do outro lado do oceano, o The Guardian, do Reino Unido, considerou que o país e a Turquia, outra parte importante do acordo, estão emergindo como forças globais voltadas ao diálogo. O esforço no Oriente Médio foi intensificado com as visitas a Brasília, no segundo semestre do ano passado, dos chefes de governo de Israel, da Palestina e do próprio Irã.

No último fim de semana, quando Lula rumou a Teerã, houve quem dissesse que o risco era demasiadamente grande. Quando o presidente afirmou que, de zero a 10, as chances de se alcançar um acordo eram 9,9, ele foi alvo de ironias. A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, chegou a afirmar que a atitude brasileira era “ingênua” e que Lula enfrentaria uma “montanha a ser escalada”. Mas a assinatura do acordo muda o panorama.

Governo Obama

O fato de os Estados Unidos terem duvidado da possibilidade brasileira de conseguir uma saída diplomática para o tema fortalece ainda mais a importância do acordo.  O analista internacional iraniano Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, afirmou à BBC que “Lula calou a boca dos Estados Unidos”, e acrescentou que o mérito da questão é brasileiro, “pois o país arriscou sua reputação e sofreu as maiores críticas ao se aproximar do Irã e ainda conseguiu dar mais ânimo aos turcos para acreditar na possibilidade de se chegar a um acordo”.

Agora, no entanto, o Brasil terá de vencer os obstáculos colocados pelo meio do caminho. Será preciso convencer o Conselho de Segurança da ONU a aprovar a proposta assinada em Teerã. Mas há o desafio de lidar com os Estados Unidos, que têm poder de veto e opõem-se ao tema. A Casa Branca indicou que vai manter a pressão a Ahmadinejad e cobrou ações efetivas que mostrem a disposição iraniana em não promover o uso de energia nuclear para fins não-pacíficos.

Nem mesmo a declaração, no texto do acordo, de que o Irã vai se reunir com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU aplacou as críticas dos Estados Unidos. “A declaração conjunta emitida em Teerã é vaga sobre a disposição do Irã em se reunir com os países do P5 +1 (que reúne os cinco integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas: Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra, além da Alemanha) para resolver as preocupações internacionais sobre seu programa nuclear, como fez em outubro passado”, disse o secretário de Imprensa da Casa Branca, Robert Gibbs.

Prevendo qual seria o tom das críticas, o ministro Celso Amorim havia apresentado alguns argumentos para contra-argumentar a fala dos Estados Unidos. O chanceler pontuou que o acordo é o passaporte para discussões mais amplas nas quais a confiança da comunidade internacional no Irã deve ser o centro e lembrou que a Turquia, destinatária do urânio iraniano, integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), grupo de nações encabeçado pelos Estados Unidos.

“Eu não vejo nenhuma razão (para desconfiança), nem a Turquia, que aliás, é um país membro da Otan, portanto muito ligado, aliado militar até dos Estados Unidos. Claro, cada um fará seu julgamento, mas nós não vemos nenhuma razão para que haja continuidade nesse movimento em favor de sanções”, ponderou Amorim.

Carlos Eduardo Vidigal, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), concorda com a avaliação de Amorim e aponta que pode se configurar um equívoco ao se aprovar novas sanções contra a nação asiática. “Não temos nesse contexto um Irã que pode ser acusado de não estar disposto à cooperação. Temos um país disposto ao diálogo”, destaca à Agência Brasil.

Pensando na importância de convencer os demais membros do Conselho de Segurança com direito a veto, Lula telefonou para o presidente da França, Nicolás Sarkozy, imediatamente após o fechamento do acordo e se reúne com o colega nesta terça-feira (18), esperando conversar também com o russo Dimitri Medvedev.

Será necessário ainda que integrantes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) avaliem os termos do acordo e acompanhem sua execução. A princípio, o Irã se mostrou disposto a aceitar que a AIEA faça o acompanhamento dos 1.200 quilos que serão enviados anualmente à Turquia para o enriquecimento.

Leonam dos Santos Guimarães, consultor da agência e assistente do presidente da Eletronuclear, entende que não paira mais nenhuma dúvida sobre as reais intenções do Irã e que não há qualquer motivo para que a comunidade internacional recuse a proposta. “Acredito que o problema não é a questão nuclear. Há vários interesses geopolíticos em jogo, pois o Irã tem um papel de equilíbrio no Oriente Médio. É um contrapeso a países como Arábia Saudita e Emirados Árabes, aliados locais dos EUA”, ressalta em entrevista ao Opera Mundi.

É a mesma explicação encontrada por Analúcia Danilevicz Pereira. O Irã é uma potência petrolífera, embora não goze atualmente de grande poder de refino. O governo de George W. Bush (de 2001 a 2009) desde o começo colocou o Irã no “Eixo do Mal”, rompendo um diálogo que vinha sendo construído aos poucos. Situação semelhante vive o vizinho Iraque, com um final trágico – foi invadido ante relatórios falsos que o acusavam de ocultar armas químicas.

A professora da ESPM pondera que está em curso no país asiático um processo de privatização de parte das reservas petrolíferas. “Como o Irã se relaciona com muito mais aproximação de países como China, Rússia e Ásia Central, para os Estados Unidos é muito incômodo que esse processo não beneficie o Ocidente de uma maneira geral.”

Com informações da Agência Brasil.