Omissão

Carta da Pfizer confirma descaso de Bolsonaro com vacinação. CPI ouve empresa nesta quinta

Documento assinado pelo presidente mundial da Pfizer alertava o governo brasileiro para a necessidade de “celeridade”, mas ficou “esquecido” pelo presidente e seus principais ministros por dois meses

Reprodução - Marcos Corrêa/PR
"Celeridade é crucial devido à alta demanda de outros países", dizia o documento da farmacêutica ao governo brasileiro, em setembro de 2020. Bolsonaro recusou-se

São Paulo – No dia mais tenso desde que a CPI da Covid começou a funcionar, na semana passada, o ex-secretário de Comunicação (Secom) do governo Jair Bolsonaro, Fábio Wajngarten, foi acusado por senadores de mentir e se esquivar, mas acabou por confirmar a omissão e descaso do Palácio do Planalto em relação à vacinação contra a covid-19. Segundo relatou o próprio ex-chefe da Secom à comissão, a farmacêutica norte-americana Pfizer enviou uma carta ao presidente da República, datada de 12 de setembro de 2020. O documento ficou “esquecido” durante dois meses pelo presidente e sem que nenhum membro do governo a respondesse. Só foi respondida em 9 de novembro por ele próprio, Wajngarten.

“Quero fazer todos os esforços possíveis para garantir que doses de nossa futura vacina sejam reservadas para a população brasileira, porém celeridade é crucial devido à alta demanda de outros países e ao número limitado de doses em 2020”, diz a carta, assinada pelo presidente mundial da Pfizer, Abert Bourla. O documento ficou sem resposta mesmo tendo sido enviado também ao vice-presidente, Hamilton Mourão); ao então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello; ao ministro da Economia, Paulo Guedes; ao chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto; e ao embaixador do Brasil para os Estados Unidos, Nestor Forster.

A celeridade pedida pelo executivo da Pfizer se devia ao fato de o laboratório ter fechado acordo com o governo dos Estados Unidos para fornecer 100 milhões de doses da então “potencial vacina, com a opção de oferecer 500 milhões de doses adicionais”, fora acordos então em andamento com o Reino Unido, Canadá, Japão e União Europeia.

A carta acrescenta que a multinacional apresentou proposta ao Ministério da Saúde de Eduardo Pazuello para fornecer o imunizante, “mas até o momento não recebemos uma resposta”. A CPI ouve nesta quinta-feira (13) o ex-presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, e a atual CEO no país, Marta Díez.

Leia a íntegra da carta da Pfizer ao governo brasileiro:

12 de setembro de 2020

Excelentíssimo Senhor Jair Messias Bolsonaro

Presidente da República Federativa do Brasil

 Excelentíssimo Senhor Presidente da República Jair Bolsonaro,

Na luta contra a COVID-19, uma vacina é parte critica para lidar com a crise de saúde global, diminuindo as taxas de infecção, doença e morte em todo o mundo. A Pfizer tem estado na linha de frente no enfrentamento desta pandemia que afeta brasileiros e pacientes em todo o mundo, desde os primeiros dias desta emergência. A Pfizer foi fundada na cidade de Nova York, está sediada nos Estados Unidos há mais de 170 anos, e opera no Brasil há aproximadamente 70 anos. Junto com nosso parceiro, a empresa alemã BioNTech, estamos aproveitando décadas de experiência científica para desenvolver, testar e fabricar uma vacina de mRNA para ajudar a prevenir a infecção pela COVID-19. Atualmente, estamos conduzindo um ensaio clínico em grande escala de Fase 2/3 com pelo menos 30.000 participantes em um grupo seleto de países em todo o mundo, incluindo dois centros de pesquisa no Brasil com cerca de 2.000 brasileiros voluntários. Estamos no caminho certo para buscar uma revisão regulatória de nossa vacina em outubro de 2020, com centenas de milhares de doses já produzidas.

 A potencial vacina da Pfizer e da BioNTech é uma opção muito promissora para ajudar seu governo a mitigar esta pandemia. Quero fazer todos os esforços possíveis para garantir que doses de nossa futura vacina sejam reservadas para a população brasileira, porém celeridade é crucial devido à alta demanda de outros países e ao número limitado de doses em 2020. Como deve ser do conhecimento de Vossa Excelência, fechamos um acordo com o governo dos Estados Unidos para fornecer 100 milhões de doses de nossa potencial vacina, com a opção de oferecer 500 milhões de doses adicionais. A Pfizer tem o maior contrato com o governo dos EUA em termos de valor para uma vacina contra a COVID-19 até o momento, demonstrando a confiança que a Administração do Presidente Donald Trump tem em nossa ciência e nossa capacidade de produção. O Dr. Moncef Slaoui, Conselheiro Chefe da Operação Warp Speed do Governo dos Estados Unidos, visitou a instalação da Pfizer que está produzindo nossa vacina COVID-19 e que poderia abastecer o Brasil. Temos ainda acordos com o Reino Unido, Canadá, Japão e vários outros países, e estamos em negociações finais com a União Europeia para fornecer 200 milhões de doses, com uma opção de fornecimento adicional de mais 100 milhões de doses.

 Minha equipe no Brasil se reuniu com representantes de seus Ministérios da Saúde e da Economia, bem como com a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Apresentamos uma proposta ao Ministério da Saúde do Brasil para fornecer nossa potencial vacina que poderia proteger milhões de brasileiros, mas até o momento não recebemos uma resposta. Sabendo que o tempo é essencial, minha equipe está interessada em acelerar as discussões sobre uma possível aquisição e pronta para se reunir com Vossa Excelência ou representantes do Governo Brasileiro o mais rapidamente possível.

Finalmente, como Presidente Mundial da Pfizer, estou orgulhoso em assinar um acordo histórico demonstrando um compromisso unificado em manter à integridade do processo científico enquanto trabalhamos para obter os registros regulatórios e aprovações das primeiras vacinas contra a COVID-19. Caso Vossa Excelência ou membros de sua equipe tenham alguma dúvida, não hesitem em entrar em contato comigo diretamente ou com minha equipe no Brasil, incluindo o Presidente de nossa subsidiária no país, Carlos Murillo (Carlos.MurilloO pfizer.com).

 Atenciosamente,

Dr. Albert Bourla