Manipulação barata

Para atacar servidores, Globo e Millenium abusam do ‘terraplanismo econômico’

Salários de professores e médicos foram excluídos dos gastos em Saúde e Educação em “estudo” apresentado para apoiar a reforma administrativa de Guedes e Bolsonaro

Paula Fróes/GOVBA
"No universo paralelo dessa turma, os doentes tratam a si mesmos, nos hospitais"

São Paulo – O Jornal Nacional, da TV Globo, divulgou nesta segunda-feira (10) “estudo” do Instituto Millenium para induzir a população a acreditar que, no Brasil, gasta-se demais com os salários do servidores públicos, em detrimento do investimento em áreas como saúde e educação. No entanto, nos cálculos apresentados, os salários dos professores não são computados como gastos da educação. Nem dos médicos, na saúde.

O dito estudo serve para endossar a chamada “reforma administrativa” do governo Bolsonaro, que inclui “gatilhos” para a redução da renda destes trabalhadores. O Millenium afirma que os salários dos servidores equivalem a 13,7% do PIB, enquanto os gastos com educação ficam em 6% e com saúde, em 3,9%.

O instituto é um centro de promoção do liberalismo econômico. Tem entre seus fundadores os ex-presidentes do Banco Central Armínio Fraga e Gustavo Branco, além do próprio ministro da Economia, Paulo Guedes. O think-tank é financiado, ainda, por empresas como a Gerdau, Porto Seguro e Bank of América.

Segundo o economista e professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Oreiro, as manipulações com os números apresentados são exemplo de “terraplanismo econômico”, mais baseado em dogmas do que na realidade.

“No universo paralelo dessa turma, os doentes tratam a si mesmos, nos hospitais, e os alunos dão aula pra si mesmos, nas escolas e universidades. Os gastos com saúde e educação são gastos apenas com capital físico, não com trabalho. É muita picaretagem ideológica travestida de ‘estudo'”, criticou, em seu blog.

Melhora, JN

Já a economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) Laura Carvalho destacou reportagem da revista Piauí, que faz um perfil dos gastos do funcionalismo, como contraponto à propaganda neoliberal da Globo e do Millenium. Com base em relatório do Banco Mundial e no Atlas do Estado Brasileiro, os dados apontam, por exemplo, que o servidor ganha, em média, 8% a mais do que trabalhador privado. Entretanto, no “estudo” do Instituto Millenium, os servidores recebem “quase o dobro” dos ocupantes de cargos equivalentes na iniciativa privada.

O levantamento publicado pela Piauí mostra ainda que, até 2018, metade do funcionalismo público ganhava até três salários mínimos. E os maiores salários, acima de R$ 19,1 mil, representavam apenas 3% dos servidores.