Patrono da Educação

Depois de ofensa presidencial, Paulo Freire ganhará homenagem no Senado

Parlamentares aprovaram requerimento para realizar uma sessão especial. "Energúmeno é um presidente misógino, preconceituoso, sexista, homofóbico, racista", reagiu senador

Instituto Paulo Freire
Autor da "Pedagogia do Oprimido", educador é referência universal na área de educação

São Paulo – Ofendido por Jair Bolsonaro, o educador Paulo Freire receberá homenagem no Senado, que aprovou nesta terça-feira (17) requerimento do líder do PDT, Weverton (MA), e outros parlamentares – inclusive o líder do governo no Congresso, Eduardo Gomes (MDB-TO), para uma sessão especial ao patrono da educação brasileira, autor da Pedagogia do Oprimido, entre outras obras. “Acho que o presidente tinha que limpar a boca antes de falar no nosso mestre da educação”, reagiu o senador Fabiano Contarato (Rede-AP). A sessão deverá ser realizada em maio, no mês em que a morte de Freire completará 23 anos.

“Energúmeno é um presidente misógino, preconceituoso, sexista, homofóbico, racista, que passa uma reforma da Previdência para aumentar a desigualdade, que só beneficia banqueiros, empresários e a União e que só tem como objetivo tirar direito dos mais pobres. Energúmeno é um presidente que não age como um verdadeiro estadista, que não sabe respeitar as instituições”, acrescentou Contarato, usando o adjetivo que Bolsonaro usou ontem (16) para se referir a Freire. Não satisfeito, ele ainda afirmou que a TV Escola “deseduca os brasileiros”.

Randolfe Rodrigues (Rede-AP) lembrou que o educador de origem pernambucana é referência em todo o mundo e reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Paulo Freire é reconhecido pela Unesco, não como homem, não somente pela sua condição humana, mas, em especial, pela obra que ele empreendeu para a educação, principalmente dando luz a uma teoria nova, chamada Pedagogia do Oprimido. Quem é Paulo Freire? Quem é o senhor Jair Bolsonaro? O lugar de um, o panteão dos heróis da história. O lugar de outro, a lata do lixo da história, para onde ele caminha a passos largos.”

“Homenagear Paulo Freire é reconhecer a própria história do Brasil”, disse Weverton. “Não são os muros das universidades que, apenas para dentro, precisam se indignar com essa tamanha agressão ao mestre da educação, mas qualquer homem e mulher que sabe que, um dia, nós podemos ser melhores se praticarmos o bem. E praticar o bem é apoiar, de forma intransigente, não só a educação, mas também defender os educadores.”

Conflito permanente

No plenário da Câmara, a deputada Luiza Erundina (Psol-SP) se pronunciou em defesa de Freire, que foi secretário da Educação quando ela era prefeita paulistana, ainda pelo PT. “É referência no mundo inteiro, é doutor honoris causa de 29 universidades de todos os países democráticos. E mais que isso, universidades brasileiras e estrangeiras têm cátedras Paulo Freire, exatamente para dar sustentação e respaldo às pesquisas que se fazem em todo o mundo.” Erundina lembrou ainda que o educador foi perseguido pela ditadura e teve de deixar o Brasil. “É intolerável, é insuportável, que o presidente da República esteja a destruir a cultura brasileira, a educação brasileira, e pior, aquele que é símbolo, referência e razão de ser de nosso orgulho, que é Paulo Freire, como tantos outros educadores deste país.”

Para o deputado Henrique Fontana (PT-RS), o governo que agride “um dos maiores educadores do planeta” não tem proposta para o país e tenta desviar a atenção. “Ele governa para os 20% de seus fanáticos seguidores, e quer ver o Brasil em conflito permanente. Não tem um projeto de nação, não busca diálogo, não busca resolver problemas. Ao contrário, busca acusar permanentemente. É um governo de entrega, de concentração de renda.”

“É necessário que esta Casa marque a sua função, ponha a sua digital para corrigir isso, porque um presidente que flerta com AI-5, que não reconhece a ditadura e que ainda ousa falar que, se um ministro dele tiver qualquer conduta desvirtuosa ele deveria ser pendurado num pau de arara — que é comportamento típico de tortura — isso não o credencia a ser um verdadeiro estadista”, disse ainda Contarato. “Eu tenho vergonha do nosso presidente da República.”

Com informações da Agência Senado

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