#FalaLula - parte 4

Lula diz que está brigando com um mentiroso, que não merecia ser juiz

Na última parte da entrevista a Juca Kfouri e Trajano, pela TVT, o ex-presidente falou também das nomeações de ministros do STF, de futebol e de futuro

Reprodução/TVT
"Eu fico irritado porque a desfaçatez com que a imprensa corrobora com as mentiras é uma coisa muito grave"

Continuação da entrevista de Lula a Juca Kfouri e José Trajano, para a TVT. Parte final.

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Juca – O senhor nega aquela frase do ex-governador da Bahia, do PT, Jaques Wagner, que o PT lambuzou-se?

Lula – Eu não sei se lambuzou-se. O (João) Vaccari está preso, e o Vaccari certamente fez o que todo tesoureiro de partido fez. Se você pegar a conta do PSDB, ele arrecadou 300 e poucos milhões, o Vaccari 300 e poucos milhões, e eu sei que naquele momento a prisão do Vaccari era condição sine qua non para a operação ir pra cima do PT. Eu não tô dizendo que eles ah, agora prendemos o Eduardo Cunha… Já tinha que ser preso independentemente da Lava Jato. Todo mundo que faz política sempre soube do comportamento do Eduardo Cunha. O que eu acho é que nós precisamos colocar o país…

Juca – Mas não falta essa autocrítica do PT, que o senhor se recusa, porque os outros fizeram igual, porque os outros…

Lula – Não, não, não, não. Pelo amor de Deus, não, Juca. Vamos ver o seguinte: foi no meu governo e no da Dilma, no meu (cita os ministros da Justiça) com  o Márcio (Thomaz Bastos) e no meu com o Tarso (Genro), e no da Dilma com o Zé Eduardo (Cardoso), que nós criamos todos os mecanismos de apuração. Veja, nós chegamos a criar uma coisa chamada a Lei da Transparência. Que o Bolsonaro acabou. E todo mundo que exigia que o PT fizesse não cobrou do Bolsonaro que ele acabou com a Lei da Transparência. No governo do PT as pessoas sabiam qual era o papel higiênico que a presidenta Dilma utilizava, se ela chupava um chiclete. Porque a gente queria escancarar.

Hoje, porque é que ninguém cobra isso? Então o PT no governo criou mecanismo de proteção da coisa pública. Se alguém do PT cometeu erro, eu vou dizer pra você, tem que pagar. Quando nós fizemos a lei, não foi feita para os outros, foi feita pra nós. Então o que eu quero é o seguinte: querem me punir, ótimo. A lei é para todos, ótimo. Agora todos têm que ser julgados com respeito à Constituição, com respeito à lei e com provas. Eu não posso prender o meu vizinho porque eu não gosto dele.

Então eu tô há um ano e dois meses aqui, só querendo isso. Eu quero que leia, eu quero que analise, eu quero dizer o seguinte: bom, a chácara é do Lula. Ah, o Lula influenciou na compra do avião da Dilma. Eu levei como testemunha o Nelson Jobim, que era ministro da Defesa, o brigadeiro Saito, que era o brigadeiro comandante de Aeronáutica. E algum imbecil lá disse que eu tive influência. Coloquei até o primeiro-ministro da Suécia como testemunha, coloquei o Sarkozy (Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França) como testemunha. A Dilma como testemunha. O governo inteiro como testemunha. Porque de repente um cidadão inventa uma mentira e eu sou obrigado a correr atrás de justificar essa mentira!

Eu na verdade estou cansado de remar contra a maré. Eu queria um pouco a maré pelo menos mansa. Eu tenho bursite não posso nem dar muita braçada. Mas eu fico irritado porque a desfaçatez com que a imprensa corrobora com as mentiras é uma coisa muito grave.

Trajano – Presidente, nós estamos aqui representando algumas outras pessoas também, que não têm essa oportunidade de entrevistá-lo. Trouxe aqui uma pergunta do Frei Betto, por exemplo. Outra do Mário Magalhães que tem a biografia do Marighella, que é exemplar.

Lula – Fantástica, eu li.

Trajano – Aliás o filme foi liberado agora para Paris Filmes, vai estrear em novembro. Pergunta do Mário Magalhães, que está lançando um livro sobre 2018. Um livro muito importante que faz um balanço dos acontecimentos de um ano complicado para nós, brasileiros. Aí ele fala de balanço aqui. Qual seu balanço das nomeações feitas pelo senhor e pela presidenta Dilma para o Supremo Tribunal Federal? Que critérios foram considerados para as nomeações?

Lula – Essa é uma pergunta é importante, extremamente importante. Primeiro porque você quando vai ter que indicar uma vaga, você tem gente que apresenta currículo, você tem entidade que apresenta currículo. Você tem muitas vezes a instituição de advogado que apresenta currículo. É sempre um monte de gente que apresenta currículo. Às vezes vem currículo apresentado por entidade da própria OAB. E você faz uma operação. Nem sempre é um cara só. Às vezes é cinco caras, seis caras, sete caras e todo mundo tem um bom currículo.

Eu não me arrependo das pessoas que eu indiquei. Se a pessoa pensou que eu ia dizer que estou arrependido, não estou. Vou contar o Joaquim (Barbosa), por exemplo. O Joaquim eu tinha interesse de fazer com que a Suprema Corte tivesse um negro. E nós tivemos dificuldade de achar um advogado negro com competência. Achamos o Joaquim. Márcio Thomaz Bastos me traz um currículo do Joaquim, sabe?

Aí surgiu uma matéria de que o Joaquim tinha batido na mulher, uma coisa assim. Eu então recusei. Ficou lá uns seis meses comigo até que eu recebi uma carta dizendo: olhe, a briga que teve é uma briga normal de casal não sei das quantas. Baseado nisso eu conversei com o Márcio: vamos indicar o Joaquim. Ele tinha currículo para ser. Então não tem arrependimento.

Você quando, você não sabe como a pessoa vai ser. A Cármen Lúcia (ministra do STF), eu indiquei a Cármen Lúcia e as pessoas que pediram pela Cármen Lúcia são pessoas importantes que vocês levariam em conta.

O Ayres Britto foi motorista meu quando ele era advogado do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Estatais de Sergipe. Eu fazia tempo que não via ele, quando entra na minha sala (os juristas) o Bandeira de Mello e o Fábio Comparato dizendo: presidente, o senhor tem a chance de indicar o primeiro ministro da Suprema Corte de esquerda. Eu fiquei muito feliz. Aí fomos fazer uma análise e ele tinha currículo para ser ministro. Indiquei. Eu fui alertado depois pelo finado Zé Eduardo e pelo finado Marcelo Déda: tome muito cuidado, porque ele é muito vaidoso, ele gosta muito de si mesmo, ele se escrever um livro o título será “eu me amo”.Eu não levei muito em conta e indiquei.

Eu acho que como eu nunca indiquei pessoas em favor pessoal, eu acho que essas pessoas tiveram papel importante. Na questão da célula-tronco, sabe? Na reserva indígena. Tiveram papel importante na união civil, nas cotas, sabe?

Eu posso não concordar politicamente com alguma coisa, mas eu sinceramente… O (Dias) Toffoli, era um companheiro que eu tinha uma boa amizade. Foi advogado do PT, eleitoral, sabe?

O (Cezar) Peluso aqui de São Paulo era um cidadão conservador, mas com uma conduta que eu não me arrependo. Se o cara vota uma coisa que eu não gosto, paciência. Também não indiquei para votarem para mim. Eu nunca, e vocês podem conversar com ele, eu nunca pedi pra ele: olha, eu vou eleger você, mas você quando eu precisar você… nunca!

Quem fazia isso, que diziam que fazia era o Antônio Carlos Magalhães (ex-governador da Bahia e ex-senador morto em 2007), que juntava o desembargador lá no jantar na casa dele e todo mundo obedecia. Eu nunca fiz. Porque eu aprendi que se a gente respeitar a republicanidade das instituições, a gente só ganha com isso. Agora eu espero que as pessoas pensem no Brasil.

Trajano – Mas esse pacto do qual faz parte o Dias Toffoli te surpreendeu?

Lula – O Toffoli cometeu um pequeno grande engano, aparecendo numa reunião para fazer pacto. O presidente da Suprema Corte, ele não faz pacto. Ele tem é que ficar na expectativa de que o governo faça o pacto com quem quiser e na medida em que houver um processo ele vai julgar como presidente da Suprema Corte. Então ele não pode ser parte do pacto. Ele não pode pactuar a reforma da Previdência.

Juca – Presidente, na hora que o senhor entrou aqui, o senhor quando viu Trajano e eu, não sei se surpreendeu que fossemos nós dois os entrevistadores ou o senhor já sabia que seríamos nós dois. O senhor disse: enfim vou poder falar um pouco do Corinthians. E não falamos ainda do Corinthians. E temos mais 20 minutos aqui pra nossa conversa. O senhor tem visto o Corinthians?

Lula – Eu acho que vou falar do Corinthians, mas eu precisava falar um pouco do povo brasileiro. Porque eu acho que a coisa é grave. O Corinthians é o seguinte: eu não sei o que tá acontecendo com o Corinthians.  O time do Corinthians é o mais fraco dos últimos tempos. O (Fábio) Carille (técnico) consegue fazer milagre realmente. Eu nunca vi um cara fazer tanto milagre com tão pouco santo, sabe? Mas, tá indo. O melhor jogo que o Corinthians fez foi o jogo com o Flamengo, da Copa do Brasil, foi o melhor jogo do ano. Mas eu acho que o Corinthians não tá entra aquele que disputa o título este ano. Nós estamos sem dinheiro, não dá pra comprar grande jogador, vamos levando.

Aliás, o futebol brasileiro está vivendo uma situação engraçada, né? Porque o Palmeiras está comprando jogador, tem dois ou três em cada posição. Ou seja, o Palmeiras se dá ao luxo de comprar jogador para colocar na reserva, sabe? Então é um time que está um pouco acima do nível dos demais, isso é inexorável. Pra minha tristeza, o Palmeiras tá um nível acima. Isso não implica que ele vá ganhar também.

Juca – A exemplo do que o senhor fez na Copa do Mundo, o senhor vai comentar a Copa América?

Lula – Eu não sei.

Trajano – Está convidado a repetir aquilo que foi feito na Copa.

Lula –  Eu vou ver. Eu acho que a seleção também não está… (empolgando, completa Trajano). Eu fiquei triste de ver o estádio do Internacional vazio.

Juca – Dezesseis mil pessoas pra ver a seleção brasileira.

Lula – Eu fiquei triste. Também era preciso pensar bem a seleção brasileira. Sabe que uma vez eu tive uma briga com meu querido companheiro Manoel da Conceição, que ainda mora em Imperatriz, tá bem velhinho. A gente tava em 82, numa reunião do PT lá em Bragança Paulista), e ia começar o jogo do Brasil, acho que era da Copa do Mundo. E eu queria assistir. Mandei colocar a televisão na sala e o Manoel da Conceição, que tinha saído do exílio há pouco tempo: ‘Ah, vou virar as costas’. Falei: querido, você quer virar as costas você vira, você quer sair da sala você sai, eu vou ver esse jogo. Eu gosto de futebol e, veja, eu não quero que a seleção perca nunca. Mas nós estamos fracos, acho que nós estamos fracos. E eu sinceramente acho que a seleção jogou mais solta seu o Neymar.

Trajano – Mas também o adversário era brincadeira, né?

Lula – Obviamente que não dá pra medir nem o Qatar e nem Honduras. Mas vamos ver agora com a Bolívia como é que a gente se comporta.

Juca – Presidente, entre as coisas – curiosidade pessoalíssima – que o senhor sente falta, o senhor nunca negou que gosta de uma cervejinha, que o senhor gosta de uma cachacinha.

Lula – Cervejinha nem tanto.

Juca – Mas um uisquezinho, uma cachacinha. Como é que é um ano e dois meses, presidente?

Lula – Bom, significa que eu vou sair daqui sem beber nada, com uma vontade muito grande.

Juca – Mas isso é uma privação terrível?

Lula – Não, não.

Juca – Estou perguntando pelo seguinte: eu bebo pouco, mas eu bebo todo dia. Acho que eu enlouqueceria se eu não pudesse. Quando vou fazer exame de sangue, três dias que não pode beber pra fazer colesterol, eu fico meio desagradável. Como é que é isso, como é que o senhor conseguiu?

Lula – Eu consigo. Eu nunca fui assim. Mesmo em casa muitas vezes eu bebia só de sexta-feira, sábado e domingo. Não sou alcoólatra. Eu gostava de domingo pegar uma Havanazinha, colocar no congelador e tomar bem gelada. Eu adorava! E depois vendo meu Corinthians jogar tomar um uisquezinho, comendo uma esfiha, um quibe.

Juca – Isso é absolutamente proibido, presidente? Não é possível? Nem no dia do seu aniversário não se faz uma concessão para que o senhor tome uma dose de uísque?

Lula – Nunca aconteceu.

Trajano – Faltou, falando de futebol, uma palavra sobre futebol feminino que nunca teve tanto destaque como agora, apesar da nossa seleção não ser tão forte como as outras (e como já foi, observa Juca). Temos a Marta, a Cristiane fazendo gol. E tá havendo um grande… Milhões de pessoas, bilhões de pessoas no mundo inteiro estão acompanhando essa Copa do Mundo feminina. Mas como é que você vê o futebol feminino?

Lula – Primeiro é o seguinte: ela não tem muita importância no Brasil. Lá fora tem, na Europa tem, nos países nórdicos tem. Nos Estados Unidos tem muito, na Austrália tem, na China tem, sabe? Eu acho que até um conselho para as mulheres, que defendem as mulheres, as feministas mesmo, que precisa valorizar o futebol feminino. Eu acho legal essa ideia de que cada time do brasileiro tem que ter um time feminino. Eu acho um avanço extraordinário. Eu fico até feliz que tem televisão transmitindo (pela primeira vez na TV aberta, lembra Trajano) pela primeira vez na vida transmitindo e não apenas um canal, tem outros canais. Então eu fico feliz. Fico feliz. Acho que a Marta, embora esteja já um pouco com idade, acho que ela ainda continua sendo a mais importante jogadora do Brasil, uma cabeça boa. Eu vi a história dessa esses dias. Olha, quando a pessoa nasce onde ela nasceu, passa o que ela passou e chega a ser o que ela é, é porque tem uma coisa que existe chamada Deus, que muita gente não quer acreditar. Porque eu, sinceramente… eu digo até por mim. Eu fico pensando: como é que pode um cara que só tem o diploma primário, um cara que era torneiro mecânico, um cara que tinha tanta gente disputando a presidência e chega a ser presidente. Só pode ter ajuda de um partido, ajuda de amigos, de eleitores e um dedinho de Deus ali, só pode ser.

Então eu fico muito feliz com o que está acontecendo com o futebol feminino. Aliás, o meu sonho – e Juca, uma coisa é verdade, nós brigamos para trazer as Olimpíadas para o Brasil, mas nós não brigamos para trazer a Copa do Mundo para o Brasil, já estava escolhido.  Porque como teve o rodízio de continentes, depois da África era América do Sul. E América do Sul era o Brasil que tinha feito só em 50.

Uma coisa que eu queria pedir pra você e eu sei que você de vez em quando faz críticas duras… Mas eu queria que você fosse ao Tribunal de Contas da União, procurasse um ex-ministro do Tribunal de Contas chamado Valmir Campelo que foi o ministro designado para apurar corrupção na Copa do Mundo nos estádios. Eu tô dizendo isso, Juca, porque eu o procurei e tem um relatório feito por ele. E ele não aponta denúncia de corrupção nos estádios.

Teve um tempo, essa história não te contei, teve um tempo que eu chamei pra conversar o senhor Roberto Setúbal, que era patrocinador. A Ambev, que era patrocinadora. O senhor João Roberto Marinho, que era o responsável pela transmissão. E depois fui a Brasília conversar com a Dilma. Porque a Copa do Mundo tava sendo avacalhada e ninguém tava defendendo. Eu fui dizer pro pessoal, falava pro banco Itaú: você tá fazendo propaganda pra quê? Por que você não capricha na propaganda para motivar a sociedade. Parecia que havia o objetivo de destruir a Copa do Mundo.

Eu acho que a seleção brasileira tomou aquele sete a um… como é que o jogador recebe o público inteiro mandando uma presidenta aí pra que alugar. Eu nunca tinha visto aquilo. Nunca tinha visto aquilo na minha vida. E não tinha um negrinho pra gente dizer: tem um negro, é plural o estádio.

Como você é um cara muito interessado nisso e sei da tua briga para moralizar o futebol, era importante, porque o Tribunal de Contas designou um ministro para investigar corrupção na Copa do Mundo e o relatório dele é que não tem corrupção. E no imaginário da opinião pública tem corrupção em tudo quanto é lugar. Então eu queria te dizer isso porque eu fui atrás.

Juca – Ok, eu vou atrás.

Trajano – Eu achei um exagero ter aquele número de sedes. Acho que não deveria ter tido tantas sedes assim. Poderia ter um número menor.

Lula – Mais aí foi decisão do Ricardo Teixeira (presidente da CBF) e da Fifa. Eu tenho certeza que o Orlando também não se meteu nisso. Porque, por mim, se entrasse o Mato Grosso, seria o Mato Grosso do Sul onde tem a maioria do Pantanal. Se entrasse um estado do Norte não deveria ter sido a Amazônia, deveria ter sido o Pará que é onde tem muito mais futebol. Você poderia ter colocado Santa Catarina que tinha naquele tempo quatro times no Brasileirão.

Eu acho que oito estádios… (tava de bom tamanho, completa Trajano). Juca, eu nunca quis estádio pro Corinthians da Copa do Mundo (eu sei, afirma Juca). Eu defendi o Morumbi. Eu levei o (José) Serra (então governador de São Paulo), o (Gilberto) Kassab (então prefeito de São Paulo), o Juvenal (Juvêncio, então presidente do São Paulo), o Ricardo Teixeira, o (Joseph) Blatter (então presidente da Fifa). Tem de ser o Morumbi, está pronto o Morumbi. E agora vai servir para a Copa América.

Juca – Eu sei, eu sou testemunha. Faltam 10 minutos e o senhor falou que queria falar sobre o povo brasileiro. Então eu queria que o senhor falasse o povo brasileiro mas eu queria…

Lula – E qual a pergunta do Frei Betto?

Trajano – Tem a ver com Vaza Jato. O senhor considera Vaza Jato um ato de justiça suficiente para você e por quê?

Lula – Olha, deixa eu te falar, qualquer coisa que venha a público que possa fortalecer aquilo que eu venho dizendo – e eu não tô dizendo agora, não é o Intercept que tá me obrigando a dizer isso, eu venho dizendo isso antes de ser julgado, antes de ser condenado e antes de ser preso: eu sou inocente. E desafio meus acusadores a mostrar uma prova concreta. A minha condenação se dá por um crime chamado: ele cometeu um crime de fato indeterminado. Então, o juiz que me julgou não sabe que crime eu cometi. Mas tem que ser condenado por que o nome dele é Lula, tá? Esse é o fato concreto. Quando chega no TRF4 eles nem leram o processo. Era preciso me condenar para me incluir na (lei) Ficha Limpa. Mesmo estando na Ficha Limpa, quando chegou o processo eleitoral, meu caro Frei Betto, eu tinha certeza que eu ganharia as eleições daqui de dentro da cadeia. Quando eu fui pego de surpresa, porque os meus advogados todos me orientavam: olha Lula, não há como pela legislação eleitoral eles evitarem que teu nome vá até a urna. Você vai concorrer sub judice. Se eles quiserem te cassar, vão te cassar depois, antes de você se diplomar. Então essa era a convicção que eu tinha dos meus advogados aqui dentro. Aí veio o Barroso e toma aquela decisão que tomou, que eu não podia concorrer sub judice.

Trajano – Mas de qualquer maneira, respondendo ao Frei Betto, se trata também de um ato de justiça, e que começa a acontecer.

Lula – Veja, como eu vinha dizendo da minha inocência, eu vinha dizendo da minha inocência, tinha gente que achava, Lula, não briga com o Moro. Eu falava, eu não estou brigando com o Moro, eu tô brigando com um mentiroso, ele não merece ser juiz. Ele é pedante. Ele é arrogante, olha a cara dele na televisão. Ele, porque foi fazer um curso em Harvard, pensa que é importante. Ele que cuide do curso dele. Eu quero que ele seja honesto. Eu não sei se ele tem filho, mas eu não sei se ele tiver filho ele tem coragem de olhar pra cara do filho e dizer que ele está sendo honesto. Então, eu não posso perdoar ele. Não, se for o caso eu até perdoo, no futuro, porque, sabe, eu sou um ser humano que perdoa. Mas eu não posso admitir… Quando eu vejo o Dallagnol, com aquele ar de menino messiânico, menino que aprendeu a jogar bolinha de gude num carpete, que aprendeu a empinar papagaio na frente do ventilador, querer ser o porta-voz da honestidade neste país, e depois tava por detrás dos panos fazendo um acordo para pegar 2 bilhões e meio pra criar um fundinho dele. E tem mais, vai chegar a 13 bilhões. Existe documento, existe filme, na hora certa, como aconteceu agora com o Glenn, na hora certa vai acontecer muita coisa neste país. Eu, como vou viver até 120 anos, estou achando que Deus vai me dar uma colher de chá. Um cara que passou pelo que eu passei, um cara que ficou viúvo duas vezes, sou bi-viúvo. Fiquei dois anos com a Lourdes, ela morreu, depois a Marisa, fiquei 43 anos, agora estou pensando em casar outra vez…

Juca – Eu, se fosse essa moça, tomava muito cuidado (risos)…

Lula – Eu acho que ela tem que tomar cuidado. Mas o meu futuro não é mais de 30 anos, meu futuro é pouquinho. Quando a gente é novo, a gente não pensa na morte. Agora, que eu tô com 73 anos de idade, eu fico vendo: ah, morreu Beth Carvalho, 73 anos. Morreu não sei quem.

Trajano – Eu penso igualzinho. Eu tô com 72, eu penso a mesma coisa.

Lula – Eu espero, estou rezando e torcendo, pra estar na margem dos que vão viver 120…

Juca – Eu não posso acompanhar essa conversa, porque sou muito mais moço do que vocês dois. Nós temos cinco minutos, apenas, pra sua fala. Eu queria que o senhor fizesse essa fala, claro, desde que o senhor concorde, porque eu vejo essa sua preocupação: o que a esquerda tem que fazer no Brasil hoje?

Lula – Olha, eu queria dizer ao povo brasileiro que não há na história da humanidade sociedade que consiga vencer seus obstáculos se ela se encolher, se acovardar, se ela deixar de brigar diante das adversidades. Eu sei que tem muita gente assustada com o tipo de governo que o Bolsonaro tá fazendo. E acho que a única coisa que pode consertar isso é povo brasileiro não permitir que eles destruam aquilo que o povo brasileiro construiu ao longo de 500 anos. Se não construiu mais, é porque não foi possível. Mas o que não dá é a gente perceber este país voltar a ser uma república de bananas.
Não dá para ver este país tendo um ministro das Relações Exteriores envergonhando o Brasil em qualquer lugar do mundo. Não dá para ter um ministro da Fazenda que só pensa em vender patrimônio, em construir as coisas que a gente conquistou. Não dá pra você ter um equipe de dirigente que acha que tudo que foi avanço é prejuízo, e que precisa então a gente voltar, trabalhador não tem que ter carteira assinada, tem que ter trabalho intermitente, que não tem que ter emprego fixo, tem que fazer bico, o trabalhador aposentado não tem quer ter aposentadoria solidária, tem que ter uma aposentadoria em que ele sozinho tenha que pagar, sem saber como, sem saber quando ele ficar desempregado quem vai pagar a aposentadoria dele.

E que nós temos que fazer? Nós temos que lutar. Acho que os partidos de esquerda, é muito difícil a gente fazer, é fácil a gente falar, mas precisa construir um programa mínimo. Acho que o programa mínimo se dá em torno de uma coisa chamada soberania nacional. Nós precisamos traduzir para o povo brasileiro o que significa soberania nacional. Significa a defesa dos interesses do seu país, feita pela totalidade da sociedade. Nós temos as nossas fronteiras, dentro das nossas fronteiras temos o nosso povo quer educação, nosso povo quer cultura, quer investimento em ciência e tecnologia, temos as nossas florestas, temos a nossa diversidade, temos a nossa água, temos as nossas riquezas no solo e no subsolo, tudo isso é um patrimônio deste país. Soberania significa você defender tudo isso e colocar tudo isso a serviço da sociedade brasileira.

Quando a gente vende uma Embraer pra Boeing, a gente está se desfazendo de um patrimônio tecnológico do povo brasileiro. Quando a gente começa a entregar o pré-sal, está entregando a possibilidade de esse povo ter um futuro melhor, de utilizar o dinheiro para investir na formação, na educação, em pesquisa, em ciência e tecnologia. Então, o povo precisa se dar conta disso. Não é possível que as pessoas comecem a vender a Petrobras do jeito que está fazendo e não haja… Quando eu cheguei à Presidência, a indústria naval tinha pouco mais de 2 mil trabalhadores, chegamos a 82 mil trabalhadores, pra produzir navio, pra transportar cargas brasileiras. Acabaram com isso, em nome do quê? De que na Coreia é mais barato? Ora, e o nosso país? E a nossa ciência e tecnologia? E o nosso emprego? E o nosso salário? E a qualidade de vida desse povo? Eu, quando vejo o discurso de que vão transformar Angra dos Reis numa Cancún, é de uma aberração… Primeiro, porque turista vai falar, mas em Angra tem usina nuclear. Será que os magnatas que vão pra Cancún vão querer ir para um lugar que tem usina nuclear? Segundo, bando de… Eu não vou falar o que eu pensei. É preciso tomar cuidado. Angra é bonita do que jeito que ela tá, do jeito que o povo gosta. O que precisa, na verdade, é permitir que aquelas ilhas sejam utilizadas e visitadas pelo conjunto da sociedade brasileira.

Então, eu queria dizer, Trajano, de todo coração, não há nenhuma razão para gente não levantar a cabeça e não brigar. Se você tivesse um governo bom… Eu digo sempre o seguinte: era difícil fazer oposição quando a direita elegeu o Fernando Henrique Cardoso. Porque todo mundo… Era um social-democrata, um cara da USP, um cara qualificado, então era difícil a gente ser contra. Mas o Bolsonaro a gente não tem porque não ser contra, ele é tudo diferente do que a gente pensa. Ele não quer conviver democraticamente, ele odeia democracia, ele odeia o PT, odeia o povo brasileiro, odeia a empresa nacional, odeia o desenvolvimento. O que ele na verdade gosta é da ignorância de que ele se cercou, que fica alimentando essa babaquice.

Juca – Presidente Lula, muitíssimo obrigado por essa entrevista. Espero que a próxima a gente possa fazer com o senhor em liberdade.

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