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Morais na TVT: Lula é fenômeno histórico, mas foi republicano com gângsteres

No 'Entre Vistas' com Juca Kfouri, escritor Fernando Morais fala de convivência e preparação de biografia do ex-presidente, que 'foi 'exageradamente democrático' ante deslealdade de adversários
Publicado por Redação RBA
10:09
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TVT/reprodução
Fernando Morais TVT

Jornalista, escritor e biógrafo, Fernando Morais prepara novo livro, agora contando a história de Lula

São Paulo – Convidado desta terça-feira (2) no Entre Vistas, da TVT, o jornalista e escritor Fernando Morais conviveu demoradamente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos tempos, para escrever um livro com foco definido: da prisão do então sindicalista, em 1980, ao término dos dois mandatos como presidente da República, em 2010.

Os acontecimentos deste ano mudaram os planos, conta o autor da biografia, que deve “esticar” a história até 7 de abril, data da segunda prisão de Lula. Para Morais, o ex-presidente tem, entre seus “defeitos”, o de não guardar rancor. “No fundo, vou usar uma expressão que eu não gosto muito, mas está na moda, ele foi republicano com gângsteres.”

Jornalista com passagem por veículos como Veja, Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo, ex-deputado e ex-secretário estadual, o autor de Olga e Chatô, entre outras biografias, acredita que Lula foi “exageradamente democrático” com quem usava “ferradura de burro debaixo da luva”, uma forma de se referir ao comportamento desleal de adversários. Mas, aos 72 anos, diz nunca ter visto um fenômeno semelhante ao do ex-presidente. 

Ele lembra de passagem ocorrida em Londres, onde Lula, já ex-presidente, falaria a um grupo de empresários. “Cobrava caro. Enfiava a faca, o jararaca”, ironiza. Morais estava no quarto do petista quando alguém avisou que Bono estava lá para falar com Lula. O jornalista chegou a pensar que tinha entendido mal, mas era mesmo o vocalista do grupo pop irlandês U2 que tinha interrompido um trabalho para ir lá conversar com o líder brasileiro.

A pedido do ex-presidente, Fernando Morais acompanhou Bono até o saguão do hotel, onde uma multidão de jornalistas esperava. Um deles pediu ao cantor que resumisse o encontro. “Depois da morte do Mandela, só tem uma pessoa no mundo que é capaz de juntar rico e pobre, preto e branco, gordo e magro. Essa pessoa está aqui em cima, e se chama Luiz Inácio Lula da Silva, só ele tem a capacidade de juntar a humanidade”, respondeu Bono, segundo relato do escritor, para em seguida comentar que essa mesma pessoa agora está presa em Curitiba. “O cara está lá trancado numa sala que vai daqui até onde você está. Ele passa o dia zanzando pra lá e pra cá.”

Esticando a corda

A pergunta sobre o “fenômeno Lula”, cuja liderança continua exercendo influência mesmo preso, foi feita pela repórter Ana Rosa Carrara, da Rádio Brasil Atual, uma das convidadas de Juca Kfouri, apresentador do Entre Vistas. A outra foi Joice Bueno, militante do Levante Popular da Juventude. 

Morais destaca a argúcia de Lula na campanha eleitoral deste ano, até a definição da candidatura do PT à Presidência da República. “Muita gente do partido dele achava que ele estava esticando a corda demais para lançar o Fernando Haddad, e que não ia dar tempo para o Haddad ser nacionalizado… E a prova é que deu certo! Ele foi até o limite do possível. Só na cabeça de um cara excepcional você pode imaginar uma saída como esta.”

Joice pergunta de que forma as duas prisões de Lula, uma sob a ditadura e outra no contexto de um golpe institucional, se relacionam. O jornalista e escritor recorre à história brasileira recente. “Eu não tenho muita dúvida do que o que está acontecendo no Brasil é algo que, pra não chegar longe demais, começou em 1954, com o suicídio do Getúlio, em 1955, com a tentativa de impedir Juscelino Kubtischek (JK) de tomar posse…”, diz, citando ainda duas tentativas de golpe contra JK, a renúncia de Jânio Quadros, a “solução” parlamentarista para garantir a posse de João Goulart.

“Eles não conseguem nos vencer, aí o Jango toma posse. Em 64, eles ganham, em 68 eles ganham, eles perdem pela primeira vez em 2002, quando Lula ganha a eleição. Mas achavam que isso ia durar pouco. (…) E o destino não queria a mesma coisa que a elite brasileira”, afirma Fernando Morais, para quem o mensalão “foi uma montagem para derrubar o Lula” – ele aproveita para sugerir à TVT que exiba o documentário AP 470, cujo roteiro foi escrito pelo jornalista Raimundo Pereira. 

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Fernando Morais e Juca Kfouri, no Entre Vistas

Coisa de Ionesco

Mas Lula se reelege em 2006, até que vem a crise econômica mundial em 2008, e o ex-presidente fala, “com uma certa arrogância”, em “marolinha”. O primeiro-ministro Gordon Brown visita o presidente brasileira, lembra Morais, e na saída relata aos jornalistas uma frase de Lula: o responsável pela crise não é preto, não é índio, não é asiático e nem é latino-americano, é loiro e tem olho azul. “Supera a crise fazendo Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos. Ele não só supera, porque ele põe a economia para funcionar de novo. Aquilo que para todo mundo era um problema, ele descobriu que era solução”, lembra Morais, referindo-se ao povo. “Ele sai pelo mundo falando para as pessoas isso que eu estou falando para vocês.”

Juca tem uma curiosidade: por que o candidato Henrique Meirelles (MDB) esconde Michel Temer, o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) esconde Fernando Henrique Cardoso e o candidato Fernando Haddad não esconde Lula – que, por estar preso, “seria o cara a ser escondido”?

“Acho que os cientistas políticos, e os antropólogos, sociólogos vão ter uma enooooorme dificuldade de contar essa história do Brasil pros nossos netos”, responde Morais, esticando o letra o. “Porque é uma coisa de Ionesco (o dramaturgo romeno-francês Eugène Ionesco), é teatro do absurdo. É um processo que se você conta lá fora, as pessoas não acreditam”, acrescenta, lembrando que personalidades internacionais têm vindo frequentemente ao Brasil para ver Lula, casos do ex-premiê italiano Massimo D’Alema, do ex-presidente espanhol José Zapatero e do intelectual norte-americano Noam Chomsky. “Eu brinquei na hora que o Amorim (o ex-chanceler Celso Amorim) me disse que o Chomsky viria: vocês não conseguem, é que nem gato. E ele veio aqui!” E não fez apenas a ponte Nova York-São Paulo: “Foi a Curitiba ver o jararaca na cadeia”.

Em termos históricos, Fernando Morais compara Lula ao ex-presidente Getúlio Vargas. Embora ele e Juca Kfouri ressaltam as diferenças de origem. O petista vem das “classes desfavorecidas”, enquanto Vargas era “filho de estancieiro”. 

A direita ficou profissional

A conversa recai sobre golpes brasileiros. “Se você olhar com Lula, vai ver que alguns personagens são os mesmos. Eu era um moleque quando Getúlio se matou. Já se passaram três gerações, eu tenho netas: os Marinho, os Mesquita… Desta vez, houve uma armação mais bem feita. A direita ficou mais profissional. Eles conseguiram juntar os grandes meios da comunicação, parte do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal. E o Parlamento, claro.”

Juca quer sabe se ao advogado Cristiano Zanin, que defende Lula, cabe o papel histórico que foi Sobral Pinto na ditadura. Conservador e cristão, Sobral foi defensor do líder comunista Luiz Carlos Prestes. “Ele era um cristão de ir a missa todos os dias, de guarda-chuva e chapéu. E um dia um repórter perguntou pra ele: como se explica que um cristão tão fervoroso se dedique a defender um marxista, ateu?”. A resposta, segundo Morais: “Meu filho, eu condeno pecado e absolvo o pecador”. Para o escritor, tanto Cristiano como a também advogada Valeska, sua mulher, se revelaram “dois leões” nesse processo. “Além de uma estratégia que deu certo, eles têm uma disposição física que eu não sei se teria.”

Ele conta que, para a realização do livro, testemunhou vários momentos entre Lula e os advogados. “Como um jogo de xadrez, o Zanin e a Valeska já sabiam o que fazer depois. Na verdade, eles foram os primeiros a descobrir, claramente, que o Judiciário não era uma peça independente nesse jogo, que o Judiciário estava fazendo parte do jogo do lado de lá”, observa, lembrando ainda da estratégia da defesa, de “esticar a corda até onde o Direito permitisse”, inclusive fora do país. “Foram eles que conseguiram que a ONU condenasse o Brasil por estar impedindo Lula de ser candidato, mesmo preso. O Brasil tem obrigação de cumprir essas determinações, porque assinou o tratado.”

Qual é o tamanho de perplexidade de Lula?, pergunta Juca, ao lembrar de tudo o que aconteceu com o ex-presidente, mesmo sendo responsável por um governo em que a própria elite foi foi beneficiada. Para Morais, trata-se de um “espírito de classe”.  

“O problema é que Lula despertou o apetite do tigre, e o tigre deixou de ser vegetariano. O tigre quer comer carne”, diz o escritor, que também destaca o avanço social obtido no governo do petista. “Nenhum país conseguiu tirar da miséria 40 milhões de pessoas sem dar um tiro, sem botar uma pessoa na cadeia, sem dar um tapa na orelha do inimigo. Transformação profunda na sociedade você só consegue com sangue, com violência.” Ele cita as revoluções francesa, russa e cubana, Juca acrescenta a guerra civil nos Estados Unidos. Definem Lula não como revolucionário, mas “um reformista avançado” ou “reformista revolucionário”.

Morais diz que a redução da pobreza sem violência foi um fato novo. “Salvador Allende tentou fazer um negócio parecido com isso e nós sabemos como é que terminou, a gente sabe como terminou!”, diz. O socialista Allende foi derrubado em 11 de setembro de 1973 por um golpe militar, que iniciou uma das mais sangrentas ditaduras sul-americanas. “Em 1973, o que houve no Chile era como se estivesse havendo um golpe no Brasil. E o Allende não matou ninguém!”

Rancor e quebra-cabeça

Ana Rosa retoma o tema do livro que Fernando Morais prepara sobre o ex-presidente. Mesmo lembrando que esse não é recorte da obra, pergunta em que momento, na visão do escritor, o operário Luiz Inácio torna-se Lula, uma liderança política. Depois de muito ler e ouvir, o escritor diz perceber que “aquele peão não estava interessado apenas em melhores condições de trabalho de salário, ele estava achando que o que estava nascendo ali era mais do que um sindicato combativo, mas um sindicalismo novo”. Cita outro documentário, o recém-lançado Chão de Fábrica, além de uma obra lançada anos atrás pela CUT que trata da Conclat, a conferência realizada em 1981 que deu rumos ao movimento sindical. “Você vai pegando pedacinhos daqui e dali… Aquela pessoa não é apenas um grande sindicalista. Ali tem um sujeito preocupado com gente de todos os lugares, todas as profissões.”

A repórter pergunta se, para Morais, depois de tantos acontecimentos, o ex-presidente pode mudar sua postura moderada. “Eu tenho a esperança, a expectativa, de que ele tenha visto o grau de ferocidade da elite brasileira”, responde, contando que pensou em requerer formalmente autorização para entrevistá-lo em Curitiba. O escritor diz que mandou um presente para Lula, um quebra-cabeça com 2 mil peças, em três dimensões, para montar uma miniatura do estádio do Corinthians. 

Juca volta a falar do “rancor”, Morais replica que é preciso, “um pouquinho só”, ao que o apresentador pondera que esse possível defeito pode se apresentar como qualidade do ponto de vista da história, já que Lula poderia “botar fogo no país”, se quisesse. Morais lembra do 7 de abril, dia da prisão, quando militantes não queriam que ele deixasse a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para se apresentar a Polícia Federal. Naquele dia, diz Juca, foi necessário “uma grandeza que certamente nós não temos”.

A crise política vem à tona. O apresentador pergunta se a Constituição brasileira, que nesta sexta-feira completa 30 anos, está em risco, conforme o resultado da eleição. Morais afirma que sim. “Aliás, isso já foi dito com todos os efes e os erres pelo general Mourão (Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro). Que coisa, né? É coisa do destino, é o segundo Mourão na nossa geração…” O outro é o também general Olímpio Mourão, de 1964. “Ele (o atual) já disse com toda clareza que a Constituição pode ser feita sem que o povo dê palpite, ou seja, ele já estava imaginando uma Constituição feita por meia dúzia de luminares. Risco corre. Na verdade, a gente vem empurrando com a barriga”, observa o  escritor, lembrando que se dizia que “não vão derrubar a Dilma”, “não vão prender o Lula”, e tudo isso aconteceu. “Eles cometeram todos os atrevimentos que a gente temia.”

Como resistir? Quem está resistindo, pergunta Joice. “Com todos os traços republicanos que ele (Lula) tem, ele certamente se lembra de uma frase que o doutor Ulysses repetia muito: a única coisa que assusta gente é povo na rua”, diz Morais, lembrando de Ulysses Guimarães. O Brasil talvez não tenha um grau de organização social como a Cuba pré-revolucionária de 1959, mas tem movimentos sociais, centrais sindicais. “Esta entrevista é uma manifestação de resistência”, acrescenta, citando ainda o seu blog, o Nocaute. “É minha forma de resistência, um teclado de computador.”

Logo no início da entrevista, respondendo a uma pergunta de Juca, o escritor diz que o livro sobre Lula é “carregar uma cruz”. Mas, ao mesmo tempo, um presente, de poder falar sobre um personagem como o ex-presidente. “Até agora não escreveram nada do período que virou adulto, depois do período que ele deixa de ser um dos peões e se converte numa liderança política. E, por sorte, eu acompanhei isso aí, porque eu era deputado, jovem deputado na época, e eu ia com um pequeno grupo de outros deputados para o ABC para cobrir as greves, não deixar a PM bater na peãozada, me aproximei dele… Então, tem um bom pedaço da vida dele, que ninguém precisa me contar, eu estava lá.”

Dops e Paulo Coelho

O livro começaria com a prisão pelo Dops em 1980, ainda na ditadura, quando Lula e outros dirigentes foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. “Já tinha pronta a cena, a hora que o Dops chega na casa dele, 6 horas da manhã, e iria até o fim do segundo mandato dele. Eu acompanhando ele esse tempo todo, ouvindo, vendo, ele não me mandava sair, eu não saía…” Morais chegou a ser testemunha do ex-presidente na Operação Lava Jato. Como tinha acompanhado Lula em 18 países, disse a Sérgio Moro que o petista de fato deu palestras em todos esses lugares. “Eu filmei, eu gravei, fotografei ele falando pra operário, empresário, sindicalistas, recebendo título disso, título daquilo.”

Quando o escritor avaliava que já estava na hora de escrever o livro, vem o golpe. “Eu no olho do furacão vendo as coisas acontecendo. Aí combinei com o editor estender o livro até agora… Então, eu acho que o livro vai abrir e vai fechar com prisão.”

Juca lembra que o também escritor e jornalista Ruy Castro, que escreveu sobre Mané Garrincha e Nelson Rodrigues, disse que não deve fazer uma biografia de alguém ainda vivo. Fernando Morais concorda, mas explica: “É que eu não tenho nada na cabeça, eu não tenho juízo. Eu topei pelo enorme tesão… Porque no fundo é um privilégio, é um presente do destino, prum jornalista, você fazer um pedaço da história de um sujeito que provocou essa transformação”. E lembra que já tinha caído na “armadilha” de escrever uma biografia sobre Paulo Coelho, lançada em 2008, chamada O Mago.

“Quando ele leu o livro, ele parou de falar comigo. Não atendia mais telefonema, e-mail, nada”, conta Morais, que considera o livro “respeitoso, mas verdadeiro”. Um dia, resolve esclarecer o assunto com o próprio Paulo Coelho. Vai à casa dele e pergunta o porquê do “sumiço”. Segundo o escritor, o “mago” disse ter se assustado ao ler, porque “não se lembrava” de ser daquele jeito. “Tem coisas escabrosas. O livro é uma sucessão de tragédias religiosas, familiares, sexuais. Deveria se chamar O Sobrevivente.”