Eleições 2018

Debate em São Paulo: agressivo, Doria faz ‘dobradinha’ com candidato de Bolsonaro

Encontro foi o mais 'quente' entre aqueles realizados na disputa pelo governo do estado. Marinho protestou contra a Globo: 'protegeu um candidato'

Divulgação/Rede Globo
debate para governador de são paulo

Debate teve críticas à gestão do PSDB por parte de quase todos os candidatos

São Paulo – Na noite desta terça-feira (2) foi realizado o último e mais “quente” debate entre os candidatos ao governo de São Paulo na campanha. O tucano João Doria se envolveu em diversos embates, embora tenha estabelecido uma “dobradinha” com o candidato do PRTB, partido de Levy Fidelix (do “aerotrem”), coligado com o PSL de Bolsonaro. Sempre que possível, um fez pergunta ao outro com questionamentos amenos.

Nos blocos em que não era obrigatório que todos os candidatos fossem perguntados, o emedebista Paulo Skaf acabou “sumindo”, posição desconfortável para quem lidera as pesquisas.

No primeiro bloco, com tema livre, candidatos fizeram perguntas aos demais. Rodrigo Tavares perguntou a Doria sobre saúde, citando de forma negativa Guarulhos, cidade governada pelo PSB, como ressaltou, em mensagem indireta para Marcio França. O ex-prefeito paulistano citou dados sobre sua gestão na área que são questionados, como o suposto sucesso do programa Corujão da Saúde. Quando teve oportunidade de perguntar, Doria escolheu novamente Tavares, trazendo o tema da segurança.

Marcelo Cândido (PDT) questionou França sobre a questão da segurança pública lembrou uma declaração de João Doria de que a polícia vai “atirar para matar” em um eventual governo tucano. O atual governador defendeu de forma genérica uma “posição firme” por parte da polícia, afirmando que não se tratava de um incentivo à ações violentas. O pedetista falou sobre o alto índice de homicídios de pessoas negras no país. “A polícia não pode ser orientada a matar”, ressaltou. 

Professora Lisete (Psol) escolheu para ser questionado Paulo Skaf, nomeando-o como “candidato do Temer”. Citou o ex-governador Sergio Cabral e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, presos, e o governo Temer, perguntando sua avaliação a respeito da condução do partido. O emedebista se esquivou dizendo que a crise é de “todos os partidos”, e afirmou que as pessoas vão escolher as “pessoas”. Recebeu o troco em seguida: “Você colocou aquele pato na Paulista e quem está pagando o pato somos nós, o povo brasileiro”, disse a candidata do Psol.

Skaf trouxe de volta o tema da segurança pública, em pergunta para Luiz Marinho (PT). Ele aproveitou para criticar a gestão do PSDB. “Você vê candidato falando que vai fazer o que o partido não fez em 24 anos. Falar é fácil, duro é honrar o que fala”, disse, criticando também o candidato do MDB. “Chamo a sua atenção: o Paulo (Skaf) aqui é do governo Temer, fez a reforma trabalhista, queria tirar também a Previdência Social. Paulo é responsável por um reinado à frente da Fiesp, e implantou cobrança no Sesi que era gratuito antes dele.”

Marinho voltou a falar do governo tucano ao perguntar à Professora Lisete. “24 anos de PSDB ninguém aguenta mais, é evidente necessidade de mudança. Nós, sem dúvida, vamos atuar para que na área de educação os professores possam ganhar no estado mais rico dignamente, que as escolas sejam organizadas democraticamente”, afirmou. “70% do orçamento está na mão de terceirizados e sabemos que PSDB só tem uma alternativa: é parceria público-privada.”

Bate-boca e críticas ao PSDB

No segundo bloco, temas foram sorteados para basear as perguntas dos candidatos. O primeiro a perguntar foi Marinho, que questionou Doria a respeito do desemprego e da relação com o governo Temer. O tucano atribuiu a culpa pela atual situação ao governo da ex-presidente Dilma, e citou a promoção do empreendedorismo para criar novos postos de trabalho. Na réplica, Marinho afirmou que o único feito de Doria como prefeito de São Paulo foi ter sido condenado por improbidade administrativa, segundo ele, “um feito inédito”. O ex-prefeito paulistano devolveu que o adversário tinha “problema de amnésia”, falando sobre prisões de integrantes do PT.

Professora Lisete perguntou sobre habitação a Marcio França lembrando que em São Vicente, cidade que teve o governador como prefeito, “está faltando moradia”, propondo “reativar a CDHU para que de fato possamos construir moradia para todos no Estado de SP”. O governador rebateu dizendo que urbanizou a então maior favela do país, México 70. “É possível fazer se ajudar as pessoas. Elas não querem de graça, querem ajuda, um financiamento, ter uma residência é o sonho de muita gente”, pontuou. “Hoje, na minha cidade, tenho mais de 70% dos votos, e faz 15 anos que fui prefeito.”

O tema meio ambiente foi sorteado para Cândido, que perguntou a Marinho. Ele respondeu lembrando que o PSDB “nunca discutiu para valer os comitês de bacias”, criticando a companhia de abastecimento paulista. “A política da Sabesp determinada pelo governo do estado é irresponsável, com 32% de desperdício de água”, lembrando ainda o problema da pulverização aérea no interior paulista.

No terceiro bloco, as perguntas voltaram a ter tema livre. E a segurança pública também retornou na questão de Marcelo Cândido para Skaf, sobre o longo período do PSDB à frente do governo de São Paulo. “Temos um problema seríssimo na segurança pública, com o crime organizado mandando nas penitenciárias. O governo não consegue colocar bloqueadores de celular”, apontou o emedebista. “Um partido que governa 24 anos no estado não ofereceu soluções aos problemas e tira da prefeitura alguém para ser governador e continuar nas mãos do PSDB?”, disse o pedetista.

Doria retrucou à frente Cândido, dizendo que o ex-prefeito de Suzano teve suas contas rejeitadas e tem uma condenação em primeira instância. O pedetista respondeu depois: “Ele (Doria) já foi presidente da Embratur, e foi acusado de desvio de 6,5 milhões de cruzados. Ele fala de uma acusação que sofri baseada em uma lei cinco anos depois de um ato praticado”. 

O tucano voltou a atacar Cândido quando novamente foi perguntado por Rodrigo Tavares, causando reações na plateia. “Tá pegando mal”, gritou alguém, referindo-se à evidente “dobradinha” entre o candidato de Bolsonaro/Levy Fidélix e o pessedebista. “Boa aula de crime é frequentar o Partido dos Trabalhadores”, disse Doria, lembrando que o ex-prefeito de Suzano integrou a legenda petista. Ainda emendou: “Ele está com mandado de prisão, não poderia estar aqui”. Sob protestos, a Globo negou direito de resposta a Marinho e a Cândido.

No quarto bloco, com temas sorteados, o principal momento foi um bate-boca entre Marcio França e João Doria. O governador perguntou ao ex-prefeito sobre sua declaração de que em seu governo a polícia iria “atirar para matar”. Comigo é polícia na rua e bandidos na cadeia”, respondeu o tucano. O pessebista rebateu: “Pessoas te orientam, você repete a frase. Tudo na sua campanha é marketing, não é sincera, muitas coisas que você fala não parecem verdadeiras”, disse. Ao ser interrompido, França ainda completou: “Não fique nervoso, calma, você não manda nas pessoas”.

O tucano voltou a mostrar agressividade quando questionado pela Professora Lisete. “Antes de abandonar a prefeitura, você fez negociação com empresas na qual recebeu a doação de R$ 11 milhões em remédios e os isentou de pagar R$ 66 milhões de impostos”, questionou. “Não entendi essa conta, queria que explicasse, senão vou ter que reprovar você em matemática.”

Doria respondeu como fez em outras oportunidades com a candidata do Psol, pedindo “todo respeito”, mas dizendo que “faltou estudo” da parte dela, que teria que “voltar aos livros”. “O povo e a população de São Paulo estavam sem medicamentos, pedi aos laboratórios a doação”, justificou. “A história não é bem essa, parte dos remédios estava com vencimento praticamente já determinado. Você teve, aliás, nós tivemos que pagar a incineração de grande parte deles que, cá entre nós, ficou mais caro do que se não tivesse concedido essa doação. Na verdade, as farmacêuticas se livraram de um problema que elas tinham.”

Marinho perguntou a Cândido sobre as estradas de São Paulo e o pedetista foi duro com o governo do PSDB. “O Estado foi abrindo mão de seu patrimônio fazendo concessões, o que não considero de todo ruim, já que o governo federal fez concessões de rodovias e os preços calculados, comparados com os de São Paulo, são bem inferiores. Os contratos que determinam concessões precisam ser revisados para que possamos entender se a política de preço de pedágio corresponde à realidade”, disse, lembrando das denúncias de corrupção na construção de uma das obras viárias do estado. “O Rodoanel levou à cadeia membros do PSDB, dirigentes de estatais na condução e na malversação de dinheiro público. Isso sim é prisão, não invencionice.”

Nas considerações finais, Marinho criticou a organizadora do debate por negar um direito de resposta após ataque de Doria ao PT. “Quero registrar um protesto à Rede Globo que protegeu um candidato”, disse.