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Lula pelo Sul

Aclamado na Unipampa, Lula enaltece interiorização e democratização do ensino

Ex-presidente é recebido por multidão na Universidade Federal do Pampa e responde à tentativa de hostilidade por um grupo de ruralistas: “Vocês ainda vão bater palmas para nós, pois vamos consertar este país”
Publicado por Cláudia Motta, para RBA e TVT
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Lula é cumprimentado por populares que o aguardavam na Unipampa, em Bagé <span>(Ricardo Stuckert)</span>Ex-presidente é tietado por pessoas que o aguardavam para ato na Unipampa <span>(Ricardo Stuckert)</span>Lula em Bagé: 'Os ricos nunca se importaram com acesso dos pobres à educação porque mandavam seus filhos estudar no exterior' <span>(Ricardo Stuckert)</span>Lula é homenageado com placa pela criação na Unipampa, que tem dez campi no Rio Grande do Sul <span>(Ricardo Stuckert)</span>

Bagé (RS) – Nem pompa, nem circunstância. A visita de dois ex-presidentes da República respeitados no mundo inteiro à Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em Bagé, teve temperatura de festa. Estudantes, professores e trabalhadores da região. Uma multidão comemorava a visita, primeira parada da Caravana Lula pelo Brasil, na região Sul do país, nesta segunda-feira (19).

“Que dia, que dia!”, exultava a bageense Maíra Araújo Zago. A jovem de 27 anos, que conta já ter morado também no Rio de Janeiro e na Bahia, retornou há pouco tempo ao Sul. Dizia-se feliz “por essa força que traz os jovens unidos hoje aqui, no meio disso tudo que a gente está vendo acontecer no Brasil. O fascismo crescendo cada vez mais, os direitos humanos sendo assassinados”. 

A emoção era a mesma para a dona de casa Iara Farias Colares, de 45 anos, também de Bagé, que foi até a Unipampa para ver o ex-presidente. Como nas tantas histórias colhidas pelos milhares de quilômetros percorridos pela caravana, no Nordeste, Norte de Minas, Rio de Janeiro e Espírito Santo, estava ali, com simplicidade e lágrimas nos olhos, para “olhar e agradecer”.

Ela também fala de Lula sem a reverência habitual dispensada a autoridades. Para essas mulheres, esses homens, velhos, jovens, trabalhadores, estudantes que tiveram suas vidas modificadas por políticas públicas que desconheciam serem possíveis, o ex-presidente é como um amigo, quase um parente. “Adorei, adorei, adorei, meu sonho era ver ele aqui”, comemorava. “Fui contemplada pelo programa Minha Casa Minha Vida e agradeço, sempre. Não posso deixar de lutar aqui no Rio Grande do Sul por ele.”

Feminismo que salva

Maíra ressaltava a presença feminina na caravana. “É importante nós, como mulheres, como jovens, como feministas, que acreditamos na educação pública, em saúde de qualidade, nos unirmos. E estar na presença de grandes mulheres como a deputada Maria (Maria do Rosário – PT-RS), a presidenta do PT Gleisi Hoffman. É um grande dia!”

A irmã de Maíra, Vitória Carneiro, dona de casa de 23 anos, diz sofrer muito preconceito na cidade. “Por isso temos de lutar por um Brasil melhor, pelo nome das mulheres, da Marielle Franco (em referência à vereadora assassinada no último dia 14 no Rio de Janeiro) e de muita gente que fica escondida. Temos de lutar por nossos direitos e não deixar eles tomarem conta.”

A caravana, que trazia ainda os gaúchos Miguel Rossetto, Tarso Genro e Olívio Dutra, foi classificada por Vitória como “a coisa mais incrível do mundo”. “É a melhor coisa da vida poder fazer isso, ainda mais pra nossa sociedade, que tem muita agricultura, e precisa de apoio. Todos os créditos que chegaram para esse povo vieram do presidente Lula e não com Temer.”

Das latinhas às letras

A professora Emili Leite Peruzzo, 23 anos, estudou Letras na Unipampa, entre 2012 e 2015. Hoje dá aulas de Inglês, e credita, ao visitante, a origem da oportunidade conquistada de entrar numa universidade pública. Ela estava com 6 anos quando o pai se mudou para outra cidade e a mãe, “para se virar”, fazia salgados e doces para vender. A ela e ao irmão de 8 anos cabia a tarefa de “catar latinhas e garrafas PET” para reciclagem. Emili estudou toda a vida em escolas públicas e aos 17 anos, via Sisu, ingressou na Unipampa.

Ao longo dos governos Lula e Dilma, somente no estado do Rio Grande do Sul foram criados 20 novos campi universitários e 30 institutos federais. “Isso mudou minha vida. Estar aqui dentro foi formador do meu caráter”, revela. 

Personagens falam sobre passagem da caravana em Bagé

A Unipampa trouxe muita coisa para Bagé. Não só os cursos, as pessoas, mas acesso a eventos e a oportunidade de mudar de vida. Não tem o que pague a visita de uma pessoa como ele e como a Dilma aqui. É muita emoção, é uma coisa que muda a vida da gente”, ressaltou Emili, que a exemplo de tantos outros jovens nas demais etapas da caravana pelo Brasil, identifica e valoriza a chegada de uma universidade a uma cidade como Bagé: a chamada interiorização do ensino, promovida pelos governos petistas.

Democracia para atacar protestos

Sobre o pequeno grupo de ruralistas que protestava na entrada da faculdade, Emili ironizou. “A primeira vez que eles vêm aqui na Unipampa é para fazer um protesto contra o Lula. Nunca botaram o pé no bairro, aqui é periferia. Tantas pessoas que queriam estar aqui, mas não podem, estão trabalhando. Eles, que não precisam trabalhar, vêm aqui fazer protesto. Mas os estudantes estão aqui mostrando sua força.”

Em seu discurso, ainda dentro dos portões da universidade, mas vendo do outro lado o pequeno grupo que hostilizava sua visita, o ex-presidente deu um exemplo de comportamento democrático.

Os 10 campi da Unipampa instalados no Rio Grande do Sul levaram educação pública e de qualidade às populações dos municípios – onde os jovens tinham de deixar seu lugar para fazer faculdade. Filhos de assentados rurais e agricultores familiares estão entre os grandes beneficiados.

“Chile, Argentina, Equador, Uruguai, Peru, Paraguai, Bolívia, todos tiveram universidades já no século 19, e nós só fomos ter a primeira universidade pública no século 20. Isso porque neste país a elite mandava seus filhos estudar nos Estados Unidos e na Europa, enquanto o povo pobre mal conseguia terminar o segundo grau”, disse o ex-presidente, atribuindo as manifestações a um preconceito dos ricos, que não se importam com o acesso dos pobres à educação. “Não tenho nenhuma preocupação com essas pessoas que estão se manifestando contra, porque amanhã baterão palmas. Porque nós vamos consertar este país.”

O gringo da serra

No caminho entre o aeroporto e a Unipampa – Lula chegou na manhã dessa segunda-feira a Bagé – um grupo esperava para saudar o ex-presidente. “Voto nele desde 1989. Esperei anos para vê-lo presidente eleito. E hoje ele estar chegando no Rio Grande do Sul, nessa caravana, pela situação atual, gravíssima, que a gente está passando, estou muito emocionada”, disse a microempresária Nuxa Fagundes, 48 anos. Nuxa atua no setor de alimentação em Santa Maria, a três horas de Bagé, e afirma ter sido obrigada a demitir cinco dos seus 15 funcionários.

“Crescemos durante os tempos dos governo Lula e Dilma e agora a gente sofre com a crise. E aqui, ainda, com o governo Sartori, que não paga professores, funcionários, o que está destruindo nossa economia local.” 

A microempresária também criticou os atos dos ruralistas. “Fizeram moção de repúdio à vinda do presidente (na Câmara dos Vereadores) o que mostra mais uma vez a violação de direitos, o retrocesso que estamos vivendo. O governo Lula levou Luz para Todos para as terras deles, aproveitaram o Pronaf (Programa Nacional de Agricultura Familiar), tratores que vão estar no protesto foram financiados no governo Lula. Assim como o Dallagnol (procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol)  especulou com o Minha Casa Minha Vida, eles especularam com tratores.”

O procurador que pretende levar o ex-presidente à prisão e proibir sua candidatura à Presidência da República adquiriu imóveis pelo programa habitacional destinado a pessoas de baixa renda. Dois apartamentos em Ponta Grossa (PR). “Uma farsa, né?”

O casal Paulo Tavares, 62 anos, e Luizabete Pereira, 61, professores de Santa Maria, vive a realidade da gestão do governador Ivo Sartori (MDB) na pele, às voltas com escalonamentos e frequentes atrasos nos salários. Sartori foi eleito em 2014, “beneficiado” pela onda antipetista desencadeada pela Lava Jato e os meios de comunicação. “Apesar de todos os alertas, o povo gaúcho, que se diz politizado, elegeu o conhecido ‘Gringo da Serra’. O estado está estagnado e o funcionalismo não recebe em dia. Foi um erro muito grande eleger esse governador.”

Dizendo ser “uma honra” estar ali, à beira da estrada, para ver a passagem de Lula, Paulo e Luizabete trataram como “complô” o processo que pode retirá-lo das eleições. “Não existe prova, nem crime, nada. Então temos de dar força e estamos aqui para fazer parte dessa caravana.”

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