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Esperança equilibrista

João Bosco e Aldir Blanc repudiam ação da PF e uso do 'hino à liberdade'

"Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental", diz João, lembrando do hino "pela retomada do processo democrático". Parceiro, com ironia, sugere outros nomes
por Redação RBA publicado 07/12/2017 17h38, última modificação 07/12/2017 17h47
"Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental", diz João, lembrando do hino "pela retomada do processo democrático". Parceiro, com ironia, sugere outros nomes
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Aldir e João, autores do clássico "O Bêbado e a Equilibrista": repúdio e ironia

São Paulo – Autores de O Bêbado e a Equilibrista, canção composta no final dos anos 1970 e que se tornaria um hino informal brasileiro, João Bosco e Aldir Blanc desautorizaram e ironizaram o uso da expressão "esperança equilibrista" no nome de uma operação desencadeada ontem (6) pela Polícia Federal na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental”, disse João Bosco por meio de rede social.

“Isso (a condução coercitiva) seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático”, afirmou João Bosco.

Outra nota, escrita por Aldir, é mais irônica: "Depois da operação "Esperança Equilibrista", João Bosco e eu esperamos que a Polícia Federal prenda também Temereca, Mineirinho Trilhão157, que foi ajudado pela Dra. Carmen Lúcia, e o resto, aquela escória do Quadrilhão que impera, impune, no Plabaixo" (leia as íntegras abaixo, e ouça a canção).

Segundo o compositor, a nova operação se chamaria "De frente por crimes", referência a outra célebre parceria da dupla (De Frente por Crime, de 1975): seria para os "que sempre ficam impunes, com ajudinhas de Gilmares, Moros, PFs etc". 

Aldir se refere implicitamente a episódio recente em outra universidade federal, a de Santa Catarina, que resultou em suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, acusado de obstruir investigações: "Também esperamos que ninguém se suicide ou seja suicidado nessas operações, o que já é marca registrada das forças repressoras que servem aos direitistas do Brasil".

Ao criticar a ação de ontem na UFMG, João Bosco faz referência à condução coercitiva imposta ao reitor da instituição, Jaime Ramirez, à vice-reitora, Sandra Regina Goulart Almeida, e ex-reitores e ex-vice-reitores. A ação faz parte de um processo de investigação sobre a construção do Memorial da Anistia. João Bosco criticou o procedimento dos policiais: "Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania", afirmou.

Na nota, ele recorda a situação de desmonte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e defende a universidade pública brasileira como espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade. “É essa a esperança equilibrista que tem que continuar”, afirma o cantor.

Lançada em 1979, a canção se tornou célebre com a interpretação de Elis Regina e tornou-se um ode à anistia. A ideia original de João Bosco era homenagear Charles Chaplin. A letra traz referências a personagens envolvidos na luta contra a ditadura, como as "Marias e Clarices" (viúvas de Manoel Fiel Filho e Vladimir Herzog, mortos sob tortura), e o "irmão do Henfil" (o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que no retorno ao Brasil após longo exílio foi recebido com essa canção).

Leia a nota de João Bosco na íntegra:

Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.

Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.

Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.

João Bosco

07/12/2017

 

Leia a nota assinada pelos dois:

"Depois da operação "Esperança Equilibrista", João Bosco e eu esperamos que a Polícia Federal prenda também Temereca, Mineirinho Trilhão157, que foi ajudado pela Dra. Carmen Lúcia, e o resto, aquela escória do Quadrilhão que impera, impune, no Plabaixo. 

A nova Operação se chamaria "De frente pros crimes" dos que sempre ficam impunes, com ajudinhas de Gilmares, Moros, PFs, etc.
Também esperamos que ninguém se suicide ou seja suicidado nessas operações, o que já é marca registrada das forças repressoras que servem aos direitistas do Brasil.

Ass. João Bosco/ Aldir Blanc"

 

Ouça a canção na voz de Elis Regina.