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Entrevista

Roberto Requião: ‘O povo tem que se levantar, não é possível’

Em entrevista, senador contesta MP que beneficia petrolíferas estrangeiras e critica Legislativo. 'Parece que o Congresso vive em uma redoma. Não enxerga o país, perdeu a compostura, a dignidade'
Publicado por Redação RBA
12:28
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Pedro França/Agência Senado
Roberto Requião

“Acho que a raiz do golpe, a essência, foi a entrega do petróleo. Mas não foi só isso”

São Paulo – O senador do PMDB Roberto Requião, do Paraná, foi uma das vozes mais contundentes contra a Medida Provisória Nº 795/2017, do governo Temer. Editada em 17 de agosto e aprovada em comissão especial no Senado na quinta-feira, seu suposto objetivo é estimular a participação de empresas nas licitações de blocos das camadas pré-sal e pós-sal que serão realizadas até o final do ano pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Para o parlamentar, no entanto, trata-se de um “crime de lesa-pátria”.

“Tem alguns que abraçaram a ideia da economia liberal, acreditam nessa bobagem que já faliu a Europa, quebrou a Grécia, desgraça a Espanha e está destruindo a Europa toda. Mas outros são corruptos mesmo. E eles aprovaram na comissão essa medida que vai a plenário”, disse o senador em entrevista a Marilu Cabañas e Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Lobby indiscreto

O relator da MP 795 estava sentado na mesa e ao lado dele o representante da Shell que estava soprando medidas que ele deveria tomar e o que deveria dizer.

O pré-sal surgiu como uma redenção da economia brasileira. A cada 10 poços furados, oito ou nove têm petróleo. É como pescar num aquário quando os peixinhos estivessem sem alimentação por dois dias. É a Disneilândia do petróleo, uma Dubai. O custo do barril de petróleo do pré-sal é aproximadamente US$ 7 e está sendo vendido a US$ 60.

Dinheiro por fora

O relator e o líder do governo, durante a comissão, tiveram a petulância de dizer: “tem petróleo no mundo inteiro, se nós não dermos incentivos para as empresas multinacionais, elas não vem explorar no Brasil. É como a indústria automobilística, só cresceu com incentivo”. 

O petróleo tem causado guerras genocidas no mundo, o domínio do subsolo, do petróleo e dos minérios, provocou essa crise na Ásia, com populações imensas abandonando os seus países, guerras, milhões de pessoas mortas. Mas aqui, eles, de uma forma corrupta, provavelmente estão recebendo dinheiro por fora.

Analfabetos políticos

Tem alguns que abraçaram a ideia da economia liberal, acreditam nessa bobagem que já faliu a Europa, quebrou a Grécia, desgraça a Espanha e está destruindo a Europa toda. Mas outros são corruptos mesmo. E eles aprovaram na comissão essa medida que vai a plenário.

Tem alguns que não recebem por fora, recebem, idiotamente, essas emendinhas para sua base e aparecem no seu município, mostrando que conseguiram algum puxadinho pra creche ou mais uma ambulância. Como são analfabetos políticos, vão lá e entregam o petróleo brasileiro, que é a redenção do país.

Eles estão acabando com impostos de importação de material vinculado à indústria petrolífera. Vão poder importar navios sem imposto, e os que comprarem um navio fabricado aqui no Brasil vão ter que pagar imposto. É um crime de lesa-pátria.

Quando o senador Lindbergh (Farias, PT-RJ) percebeu o representante da Shell praticamente ao lado, na mesa diretiva, dizendo o que fazer, um deputado do Rio de Janeiro, isso virou um escárnio total e eu imaginei “a comissão acordou e vai dizer ‘não’ a essa canalhice toda”. Votaram a favor.

Fim do conteúdo nacional

O Temer e o (Pedro) Parente, presidente da Petrobras acabaram com o conteúdo nacional. Os estaleiros, que no começo do governo Temer empregavam 25 a 30 mil pessoas, empregam 2 mil hoje. O Rio Grande do Sul tem cidades que estão sendo destruídas. É uma imoralidade absoluta.

Não sei como esse governo, depois das acusações todas, ainda se mantém. É absolutamente incrível o que acontece no Congresso. O povo tem que se levantar, não é possível.

Entreguismo pelo poder

É um absurdo, é um governo entreguista, estão vendendo tudo para se manter no poder. No início, parecia que era uma grande jogada do capital norte-americano, mas agora, eles fazem qualquer negócio para se manter no poder.

Como é possível que essa gente seja governo ainda? O Senado ainda vota o regresso do Aécio, depois da divulgação da conversa telefônica e do primo dele com as malas de dinheiro. O que está acontecendo com o Congresso? Parece que vive em uma redoma. Não enxerga o país, perdeu a compostura, a dignidade.

O prejuízo ao país no fim da preferência absoluta na indústria nacional é um crime. Eles vão criar muito emprego, mas fora do Brasil.

Modelo de concessões

Em Angola e na Nigéria, eles não conseguem explorar petróleo. Então, fizeram a concessão, mas tem 80% do valor do petróleo. Essa concessão num país pobre até é justificável, desde que se exija a preferência por insumos nacionais, porque estariam abrindo mão do petróleo, mas teriam uma política de curto e médio prazo de desenvolvimento da indústria nacional ligada ao petróleo.

Aqui não, abriram mão, estão comprando tudo de fora. Isso é crime. Num país sério esse pessoal já estava preso e fuzilado.

Temer e o PMDB

Não sou do partido do Temer, ele que é do meu partido. Sou presidente do PMDB do Paraná e aqui é diferente. Aqui o partido nunca se envolveu com corrupção, fez um governo popular, quando governamos tivemos a menor tarifa de energia do Brasil, de água, com programas populares, a educação teve um avanço tremendo… Nacionalmente, a cúpula do PMDB se uniu à corrupção e ao entreguismo, mas a base do partido é diferente.

Para eu participar da comissão, tive que pegar uma vaga do PSB, que foi oferecida pelo Acir Gurgacz (RR). É uma coisa abominável o que está acontecendo, é como na comissão de ética, eles selecionam as pessoas que estão vinculadas a interesses que não são do Brasil.

O plenário do Senado, quando votou a confirmação da sentença do Aécio Neves, 44 senadores votaram pela volta dele, depois de filmes mostrando dinheiro na mala, entregando dinheiro para o primo, a conversa telefônica dele… Isso não é possível. O que está acontecendo com o país?

A raiz do golpe

Acho que a raiz do golpe, a essência, foi a entrega do petróleo. Mas não foi só isso. É a precarização do trabalho, o fim das garantias trabalhistas, a privatização da Previdência para deixar a massa de recursos na mão da banca.

É um projeto contra o Brasil, querem transformar o país em Porto Rico, um estado associado aos EUA e ao grande capital improdutivo. O capital produtivo que investe em fábricas, produz bens e serviços, paga salários, garante a qualidade de vida das pessoas é um capital benéfico. Nessa luta, nós tínhamos que conseguir unir o capital produtivo e o trabalho contra esse capital improdutivo, que é o financeiro e vive de seu próprio emprego na rolagem da dívida pública.

A falsa recuperação econômica

Nós temos empregos no mundo de recuperação do país, como a Alemanha, o New Deal dos EUA, a reforma política do Japão com as grandes empresas. Estamos na mão de liberais –  talvez alguns completamente idiotas – e corruptos.

A mídia está iludindo o Brasil com a história da retomada do desenvolvimento. É uma mentira total. Sem grandes investimentos públicos para fazer girar a economia, não vai acontecer nada. Portugal é o único país que está saindo da crise, mandou a política de austeridade às favas, subiu o salário dos aposentados e trabalhadores e fez grandes investimentos no Estado. Está crescendo de novo e pagando as suas dívidas, é o único país europeu que está saindo da crise. É a mesma política que fez a Alemanha, EUA e Japão.

Consumo interno

Nos EUA, o Roosevelt colocou um conteúdo social no New Deal. Em determinado momento da crise, queriam premiar o (Henry) Ford, porque tinha apropriado as ideias do Taylor e colocou a especialização do trabalho numa linha de montagem, o que aumentou fantasticamente a produção da indústria de automóveis. Depois disso, a indústria inteira entrou nessa proposta.

Queriam premiá-lo, mas ele negou e disse “nessa recessão que estamos vivendo, a especialização do trabalho vão acabar com a economia americana” e explicou: “porque estamos aumentando a produção e não temos consumo”. Roosevelt perguntou: “então o que é que eu faço?”, e ele respondeu “você tem que diminuir a carga horária dos trabalhadores e aumentar o salário, para recuperar a capacidade de consumo”.

As famosas commodities agrícolas e minerais, os grãos e o minério, correspondem a 10% do PIB brasileiro. O Brasil cresce mesmo, quando cresce, é com consumo interno e isso só existe com salário decente e investimento público. Estamos na contramão de tudo que deu certo na retomada da economia de outros países. Mas a mídia, a Globo, SBT, Band, ficam vendendo uma ideia de que estamos crescendo, que vai dar tudo certo Atrás dessa ideia estão forçando a entrega do Brasil. O povo está anestesiado pela mídia. E o pior de tudo é a TV Globo.