caravana 2017

Lula a Temer: ‘Quer reduzir peso da dívida no PIB? Faça o PIB crescer’

Caravana do ex-presidente visita um dos portos mais importantes do país, no Maranhão, e bate duro no governo Temer, “que não sabe fazer o óbvio”. E se despede do Nordeste com multidão no centro de São Luís

Ricardo Stuckert
itaqui

Governador Flávio Dino com Lula e trabalhadores do Porto de Itaqui. Atividade portuária mantém 14 mil empregos

São Luís – Se a caravana Lula pelo Brasil colheu, ao longo dos mais de 4 mil quilômetros percorridos, muitos depoimentos de angústia e aflição por aquilo que o país, sobretudo dos mais pobres, está perdendo, seu dia de encerramento começou com foco em um projeto de sucesso, que continua em franco crescimento. A manhã desta terça-feira (5) foi reservada ao Porto de Itaqui, em São Luís do Maranhão. No início da noite, o último ato da caravana levou milhares de pessoas ao centro da capital maranhense.

A cidade comemora a redução do índice de homicídios em 63%, entre 2014 e 2017 (de 91 para 34), e atribui o fenômeno a investimentos em políticas públicas de educação, saúde e criação de empregos, com investimentos do estado em obras de infraestrutura que influenciam diretamente a economia de São Luís.

Em seu 20º dia de viagens pelo Nordeste, o ex-presidente, na companhia do governador Flávio Dino (PCdoB), visitou um dos principais portos do Brasil e que, em função da amplitude das marés, tem o maior calado (profundidade) para receber grandes embarcações. 

Navios de grande porte, de até 160 mil toneladas, só atracam no Itaqui. Muitos deles, com o combustível que o país poderia estar produzindo via Petrobras, mas hoje é obrigado a importar, principalmente do Texas, nos Estados Unidos, segundo Eduardo de Carvalho Lago Filho, presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap). “O Brasil tem importado muito combustível porque as refinarias não estão refinando o que o país precisa”, criticou Lula. “O que agradece é minha arrecadação de ICMS, já que o desembaraço alfandegário é feito aqui”, brincou Dino. “Mas eu também prefiro nossas refinarias.”

Antes de assistir a uma apresentação sobre Itaqui, Lula e Dino falaram com os trabalhadores e dedicaram alguns minutos, sob sol forte, aos que pediam uma foto com o “seu presidente”. 

Apesar da crise

“Permitir que o Brasil conheça uma empresa pública, eficiente, rentável e que investe hoje, apesar da crise econômica.” Assim o governador Flavio Dino definiu a importância da visita a Itaqui. “E isso serve, neste momento de pessimismo generalizado, como um caminho que se aponta.”

Quinto porto público do Brasil em movimentação de cargas, Itaqui fechou o primeiro semestre de 2016 com R$ 7,3 bilhões de recursos movimentados em mercadorias e lucro líquido de R$ 28,9 milhões, valor superior à soma do lucro total obtido em 2013 e 2014. Abriga o Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram), inaugurado em 2015 pela ex-presidenta Dilma Rousseff, e que em agosto bateu o recorde histórico de exportação com 5 milhões de toneladas de soja.

“Sabemos que é necessário conjugar investimentos públicos e privados. Mas não aceitamos o discurso segundo o qual, para ser eficiente, tem de ser privatizado. Essa empresa pública é exemplo para o Brasil”, ressaltou Dino.

A atividade portuária de Itaqui é responsável por 14 mil empregos diretos e indiretos, incluindo os trabalhadores da empresa responsável pela administração do porto, a Emap. Ao lado dos terminais privativos da Vale e da Alumar, forma o maior complexo portuário do Brasil, responsável por mais de 160 milhões de toneladas de carga.

Flávio Dino lembrou das intervenções para modernização e ampliação feitas no porto com recursos dos Planos de Aceleração do Crescimento (PAC 1 e 2), ainda durante a gestão Dilma. Agora, estão em andamento obras com recursos próprios da Emap. “Claro nós queremos que haja investimento federal, a gente precisa muito. Mas não estamos sentados esperando”, diz o governador.

“Com muita ousadia, estamos investindo dinheiro dessa empresa e gerando 14 mil postos de trabalho. Às vezes, a gente luta por um investimento que vai criar 50 a 100 empregos. Por isso a gente valoriza tanto o porto de Itaqui, que é capaz de multiplicar esses empregos”, destacou Dino, nomeando Lula embaixador do Porto de Itaqui no Brasil e no mundo. “O cargo é gratuito”, brincou, “mas trouxemos o senhor aqui para se imbuir desse espírito fraterno, solidário de ser um porta voz e se lembrar de Itaqui quando estiver na China, em Cingapura, nos Estados Unidos.”

Fazer o óbvio

“Tinha muito medo do segundo mandato (2007-2010). Se não fizer igual o primeiro, já está derrotado. Por isso, quando aceitei a incumbência, reuni a equipe e criamos o PAC. Assumimos o compromisso de prestar contas a cada três meses, fizemos isso e nunca teve uma notícia positiva (na mídia)”, disse, em mais uma alfinetada na imprensa comercial. “Nós não desanimamos por conta disso e foi a coisa mais importante que fizemos. Porque quando você governa uma cidade, um estado, uma nação, se tiver projeto, aparece dinheiro, se tiver só ideia, não”, disse, lembrando os investimentos em ferrovias e portos com o objetivo de transformar o Brasil num grande polo intermodal.

“O sucesso de um governo é fazer o óbvio. E esse moço aqui, quando foi candidato e ganhou as eleições, já sabia o que fazer antes de chegar no governo. Só daria errado se não fizesse aquilo que achava que tinha de fazer”, disse a Dino – que não teve apoio oficial do PT nas eleições de 2014, mas teve da base petista no estado, para enfrentar o chamado “clã” dos Sarney, que dominava a política no estado desde a ditadura. “O óbvio é a coisa mais simples a fazer. Primeiro tem de definir para quem está governando, quem é que precisa do Estado e a quem o Estado deve servir. O Estado não pode ser um ente empresarial. Tem de ser indutor, definir a região onde os investimentos se localizam, qual tem de se desenvolver e aqui vocês têm o porto. Você tem compromisso”, disse Lula, saudando Dino.

“Fico muito triste de ver o Brasil na situação que está hoje. Não sou de ficar choramingando, mas não poderia estar assim e não há nenhuma razão para estar assim”, lamentou. “Um país que tem o mercado interno do tamanho do Brasil, e em que pessoas precisam comprar porque ainda falta muito para elas, mas não têm financiamento, e o governo passa o ano inteiro anunciando que vai apertar mais o orçamento, porque não consegue fechar o caixa, é no mínimo analfabeto político e econômico”, disse.

“Tem um jeito de fazer a dívida pública diminuir em relação ao PIB: é fazer o PIB crescer”, receita o ex-presidente. “Se o governo acredita em suas políticas, tem de ter coragem de dizer ‘estamos numa situação difícil, tenho US$ 380 bilhões de reserva e vou pegar alguns bilhões e vou investir somente em infraestrutura; vou retomar o crescimento, o desenvolvimento, porque a gente pode fazer esse país voltar a crescer’. A dívida pública bruta no meu governo chegou a 34% (do PIB), agora está quase 80%”, observou.

“Se não tiver investimento, não adianta vender o que estão vendendo. Já venderam o Porto de Paranaguá e se não tomar cuidado daqui a pouco vai aparecer um gênio dizendo que é preciso vender o Porto de Itaqui”, ironizou, lembrando as ameaças ao BNDES, ao Banco do Brasil, à Caixa Econômica Federal, à BR Distribuidora, ao sistema Eletrobras. “Tudo para pagar dívida.”