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‘Queremos contar uma história e a legislação proíbe’, diz cineasta

Mário Magalhães e Silvio Tendler criticam exigência de autorização para biografias. ‘Nosso trabalho é garimpar. Não olho a história para iluminar o passado, mas o futuro’, diz Tendler
Publicado por Renata Sequeira, especial para RBA
09:31
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© companhia das letras / reprodução / detalhe
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Capa de ‘Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Brasil’, início do debate sobre autorização para biografias no país

Rio de Janeiro – O tema do debate era “Biografias, Memória e as Armadilhas da História – A vida de Carlos Marighella, o inimigo nº 1 da ditadura”. E o encontro do cineasta Silvio Tendler e do jornalista Mário Magalhães, na noite de segunda-feira (24), acabou rendendo muitas histórias sobre o líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) e também as dificuldades, em plena democracia, de se escrever ou filmar uma biografia. O evento faz parte do ciclo 50 anos do golpe que o Centro Cultural Midrash está organizando até abril.

“Em 2012 comecei a trabalhar em um projeto, para o cinema, que deveria trazer o conceito de patrimônio imaterial e pensei na literatura. Queria filmar o livro de Guimarães Rosa Grande Sertão Veredas. Entrei em contato com a família para usar as imagens e eles foram me enrolando até que chegou a resposta negativa”, conta Tendler.

“Optei por gravar, com Zezé Mota e Milton Nascimento, o falar característico do vaqueiro. Como fui proibido de usar essas imagens coloquei, em toda fotografia que aparecia o escritor, uma sombra branca. Brinco dizendo que é o Alzheimer natural. Acabei filmando o Sujeito Oculto – Na Rota do Grande Sertão e sem qualquer imagem do Guimarães”, explicou o cineasta, que disse sobre autorização de biografias: “É uma bobagem enorme. Nós queremos contar uma história e a legislação nos proíbe. O nosso trabalho é garimpar. Não olho a história para iluminar o passado, mas o futuro”, completou.

Dificuldade que a família de Marighella não impôs a Mário Magalhães, que escreveu Marighella: o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo.  Ele disse que contou com a ajuda da mulher, Clara Charf, com quem mantém contato até hoje, e do filho de Marighella. O resultado foram nove anos se dedicando à escrita da biografia, sendo cinco em regime de exclusividade. Mário entrevistou 256 pessoas e analisou 70 mil páginas de documentos em 32 arquivos do Brasil e do exterior, como Rússia e Estados Unidos. O livro conta com 2.580 notas.

“No nosso primeiro encontro perguntei a ela como tinha sido o primeiro beijo deles. Ela respondeu dizendo que não eram essas perguntas que eu queria fazer a ela. Disse que sim, já que, sobre as outras coisas, eu encontraria em outro lugar”, disse.

“Depois dessa conversa passaram-se cinco anos e eu caminhava com dona Clara, em direção ao Arouche, quando ela disse: ‘Foi assim, eu estava andando com Marighella, nas ruas do Rio de Janeiro, quando nos beijamos pela primeira vez’. Foi um grande momento da pesquisa do livro”, conta Mário, que citou também o momento em que descobriu que o motorista que dirigiu para o militante da ALN era, na verdade, um informante da CIA.

Mário também não fugiu do debate das biografias autorizadas e trouxe um fato curioso: o lançamento da biografia do cabo Anselmo, agente da repressão conhecido por sua participação nos interrogatórios e torturas de presos políticos. “Em 1984 foi lançado um perfil biográfico do cabo Anselmo, e o autor do livro era francamente contrário a ele. O lançamento não causou qualquer constrangimento, mas hoje isso seria impensável. Se hoje, alguém resolve falar sobre o cabo Anselmo, ele tem o direito, de acordo com os artigos 20 e 21 do Código Civil, de tirar o livro de circulação, se considerar que a publicação afetou a sua boa imagem. Essa é a discussão atual”, comentou Mario, que confidenciou ter a vontade de bibliografar três personagens da história do Brasil: Carlos Lacerda, Leonel Brizola e Mario Pedrosa.

A cineasta Maíra Bosi, 27 anos, participou do debate e destacou os processos de pesquisa dos dois. “Como, no caso do Silvio, a criação do filme parte de uma demanda da própria família. Já a colaboração da família do Marighella possibilitou tanto o filme quanto o livro. Gostei muito de ouvir os relatos do Mario sobre as descobertas que ele ia fazendo, como isso fazia ele vibrar. Um processo tão incrivelmente longo e árduo, ao qual ele se dedicou tanto e tão verdadeiramente. Acho emocionante esse tipo de envolvimento”, disse Maíra que, atualmente, faz mestrado na UFRJ.