Máscaras

Ação golpista do presidente de El Salvador tem como pano de fundo sua reeleição

Para Amauri Chamorro, Nayib Bukele não eleva tensão no país por empréstimo, mas visando testar instâncias e angariar apoio para alterar Constituição, que veta novo mandato presidencial

Casa Presidencial de la República de El Salvador
"Ele quer declarar as instâncias do país inconstitucionais para poder modificar a Constituição"

São Paulo – A tentativa de golpe do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tem como pano de fundo sua intenção de se reeleger. A avaliação é do analista e consultor internacional Amauri Chamorro. Neste domingo (9), o Legislativo salvadorenho denunciou que, para forçar a realização de uma sessão extraordinária que aprovasse um empréstimo internacional de US$ 109 milhões para um plano emergencial de segurança, o presidente enviou tropas da Polícia Nacional Civil e do Exército à Assembleia Nacional.

Amauri Chamorro, no entanto, avalia que por trás dessa crise política inaugurada por Bukele sob o argumento do plano de segurança, há na verdade uma investida para testar a capacidade das instâncias do Estado e garantir apoio popular para alterar a Constituição, que veta a reeleição no país.

“Ele quer declarar as instâncias do país inconstitucionais para poder convocar uma assembleia constituinte e assim modificar a Constituição e permitir que ele possa ser reeleito (…) E a Corte Constitucional, faz alguns meses, decidiu que um presidente, para que possa se lançar novamente presidente, tem de esperar pelo menos 10 anos. É isso que ele está tentando, pressionar para que a população saía às ruas e indicar que não existe legitimidade na Corte Constitucional e no parlamento”, explica o analista, na Rádio Brasil Atual.

Após a incitação do golpe por Bukele, que ainda convocou a população a se insurgir contra os parlamentares que se recusaram a votar o projeto a toque de caixa, a Corte Suprema de El Salvador declarou a ação do presidente inconstitucional, proibiu-o de utilizar as forças armadas para pressionar o poder Legislativo e contestou o ministro da Defesa e o diretor da Polícia. Ambos violaram a Carta Magna do país ao invadir o congresso. “Agora Nayib Bukele ficou de mãos atadas, porque a máxima Corte do país parou essa decisão dele”, diz Chamorro.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, Bukele destacou ter dado uma semana de prazo à bancada dos parlamentares da oposição para aprovar o empréstimo, afirmando ainda que “tem todo o apoio para assumir ‘o controle de tudo'” e negando que tenha interesse em se reeleger. “Meu único desejo é deixar um legado e baixar ao mínimo a criminalidade em El Salvador”.

Eleito em primeiro turno por um partido pouco expressivo, em fevereiro de 2019, Bukele tornou-se conhecido pelo uso das redes sociais e seus discursos de combate à corrupção e à criminalidade, e com diversas críticas voltadas à imprensa e sem participação em qualquer debate eleitoral. Ainda no dia no pleito, chegou a ganhar uma infração do Tribunal Superior Eleitoral de El Salvador (TSE) por violar a “lei do silêncio”.

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