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Piñera volta a reprimir estudantes chilenos, que recusam proposta de acordo

Alunos e professores vão dizer não a plano que concede mais financiamento educacional a juros mais baixos, e parlamentares de oposição rejeitam diálogo apenas entre presidente e Congresso
por Redação da RBA publicado , última modificação 04/08/2011 16h40
Alunos e professores vão dizer não a plano que concede mais financiamento educacional a juros mais baixos, e parlamentares de oposição rejeitam diálogo apenas entre presidente e Congresso

As marchas no Chile chegaram a reunir 400 mil pessoas, superando as marcas anteriores, que também eram dos estudantes durante a chamada Revolta dos Pinguins, em 2006 (Foto: Maurício Díaz. El Ciudadano)

São Paulo – O presidente do Chile, Sebastián Piñera, lançou mão de um dispositivo herdado da ditadura de Augusto Pinochet para reprimir duas marchas organizadas nesta quinta-feira (4) por estudantes e professores.

“As marchas se encontram fora da margem da lei, porque não foram autorizadas. Parece-me inconveniente que os movimentos estudantis e o Colégio de Professores se sintam no direito de realizar mobilizações. No Chile, ninguém está sobre a lei”, disse Rodrigo Hinzpeter, ministro do Interior.

O governo Piñera valeu-se de um decreto firmado em 1983 por Pinochet prevendo que as manifestações podem existir, mas devem solicitar permissão ao Poder Executivo. Os organizadores de mais uma marcha contra o atual sistema de educação informaram que fizeram várias tentativas de dialogar com Hinzpeter, mas não foram atendidos. Gás lacrimogêneo e carros lançadores de água foram usados por policiais desde a madrugada contra os manifestantes que tentavam se aproximar da Praça Itália. 

Os representantes dos movimentos por melhoria na educação apresentaram um recurso judicial denunciando a ilegalidade da argumentação do Ministério do Interior. “Um (dos motivos) é o direito à reunião, garantido na Constituição, que foi violado claramente pela autoridade, já que é certo que eles têm o poder para propor alternativa, sempre e quando não reprimam a atividade e tenham razões fundamentadas, o que não ocorre”, afirmou Jaime Gajardo, presidente do Colégio de Professores, entidade que reúne docentes dos três níveis em todo o país. Ele acrescentou que o segundo fator para que se apresente a ação contra o governo Piñera é a tentativa de amedrontamento da população.

Negociações

Esta seria mais uma marcha organizada por alunos e professores, que há três meses estão mobilizados pela aprovação de um novo plano educacional. As manifestações desgastaram a imagem de Piñera, que anunciou recentemente a troca de oito ministros, entre eles o da Educação, que caiu em descrédito após ser desautorizado pelo próprio presidente.

Isso ocorreu após uma primeira tentativa de enfraquecer o movimento mediante o oferecimento de US$ 4 bilhões em créditos educacionais. A questão é o sistema chileno, outra herança de Pinochet. No início da década de 1980, o governo decidiu promover a abertura ao modelo privado de educação. A visão era de que a criação de uma rede particular forte provocaria uma melhoria das escolas públicas. A lógica era simples: receberiam mais financiamento as unidades que conseguissem atrair mais estudantes, supondo-se que uma quantidade maior seria a consequência de um ensino de mais qualidade. Com isso, os alunos passaram a escolher entre as escolas públicas ou as privadas subsidiadas. No ensino superior, não há instituição gratuita, o que resulta em endividamento dos jovens, um modelo que duas décadas de governo da Concertação, uma coalizão de centro, não foram capazes de enfrentar.

Esta semana, frente à manutenção das marchas, as maiores desde a redemocratização do país, Piñera decidiu fazer novas concessões. Anunciou 21 pontos que basicamente reafirmam a opção por conceder mais verbas ao subsídio do sistema e juros mais baixos para os empréstimos feitos aos estudantes. 

Os manifestantes devem dar uma resposta até a sexta-feira (5), mas a Confederação dos Estudantes do Chile emitiu nota adiantando qual será o teor da posição apresentada ao Executivo. Para a entidade, a proposta apenas aprofunda um sistema no qual eles não acreditam, e que está forçando os jovens a perderem anos preciosos trabalhando pelo pagamento das dívidas. A entidade pontua que Piñera acredita em uma solução tomada entre quatro paredes, que em nada respeita as insatisfações políticas e sociais do atual modelo, enxergando a educação como um sistema econômico, e não como um direito humano fundamental.

"Queremos ressaltar que seguimos muito mobilizados. Vamos tomar uma posição na sexta-feira sobre a entrega da resposta para o ministro (da Educação), mas este movimento não vai ficar em um estado de status quo”, acrescentou Camila Vallejo, presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (Fech).

Além disso, a oposição ao governo no Congresso rejeitou o convite ao diálogo, afirmando que o debate deve se dar com a população – 52 parlamentares firmaram apoio ao projeto apresentado por professores e estudantes, que gostariam, entre outras coisas, que se realizasse um plebiscito sobre o assunto. Deputados e senadores ressaltaram que os pontos destacados pelos manifestantes demonstram que há maturidade no movimento e que, por isso, é preciso respeitar o processo democrático, ignorando o pedido de Piñera para uma discussão que envolva apenas os atores políticos formais. “É um sinal muito claro para que o Ministério da Educação avance ainda mais nas propostas que precisam apresentar”, disse Guillermo Teillier, líder da bancada comunista.

Com informações do Opera Mundi, do Sul21 e do El Ciudadano

 

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