#AdiaEnem

Haddad: se não adiar Enem, governo cassará acesso das pessoas à universidade

Educadores e movimento estudantil insistem em adiamento do Enem e promovem manifestação na sexta. Governo federal ignora pandemia e quer manter exame

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"Tirar a concorrência é impedir que o jovem possa sonhar com um futuro melhor", disse Haddad

São Paulo – “Não fazer o Enem corretamente é como caçar o passaporte das pessoas. É impedir que o jovem possa sonhar com um futuro melhor para ela e sua família.” A crítica é do ex-ministro da Educação Fernando Haddad, que participou na noite de ontem (11) de uma conversa com educadores mediada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Haddad falou sobre a necessidade de adiamento do Enem.

Foi durante sua gestão no MEC (2005-2012) que o Exame Nacional do Ensino Médio passou gradativamente de sistema avaliação para mecanismo de acesso dos secundaristas à universidade. Sobretudo às públicas federais, e com preferência aos formados no ensino público.

O atual ministro da Educação, Abraham Weintraub, insiste em manter o calendário de realização do Enem. Não leva em conta que, sob tempos de pandemia do novo coronavírus, o sistema de ensino vem sendo drasticamente afetado. Tanto para quem não tem estrutura para ministrar, quanto para receber aulas por meio do ensino à distância (EaD).

“Nossa luta é para garantir o mínimo de igualdade. Entendo a angústia. Considero justa a reivindicação de quem tem essa preocupação (com a necessidade de adiamento). Precisamos de tempo para que todos possam se preparar”, disse o ex-ministro. Durante sua gestão, além de se tornar instrumento de ingresso em universidades o Enem passou a contar para acesso ao Programa de Financiamento Estudantil (Fies), ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Na sexta-feira, 15 de maio, entidades como União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) promovem manifestação nas redes pelo adiamento do Enem. As entidades já recolheram 150 mil assinaturas para a campanha #AdiaEnem, que segue em andamento.

Crise sem precedentes

Falando como mediador, o ex-presidente Lula argumentou sobre a ausência de uma estratégia governamental contra os efeitos da maior crise sanitária dos últimos 100 anos.

“O inimigo coronavírus é muito mais perigoso do que qualquer outro. É um inimigo invisível. Se não tivermos cuidado, o que está acontecendo com os profissionais da saúde vai acontecer com os da educação. A responsabilidade é grande. Só poderemos dizer que as crianças voltarão para as aulas com responsabilidade do Estado”, disse.

Já sobre a realização do Enem, Lula defendeu o adiamento, diante de uma estratégia eficiente; algo distante do que o país vive sob comando da lógica bolsonarista. “Nós não temos noção de quando isso vai acabar. Não será uma coisa fácil. Não há previsão de vacina. Pode ser, mas não há previsão. Temos que ter coragem de afirmar que o melhor remédio é o isolamento. Somente com coesão, liderada por um governo democrático, poderia garantir uma saída mais rápida para essa crise.”

Adiamento necessário

A presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo, Maria Izabel Noronha, a deputada estadual Professora Bebel, lembrou que os setores de saúde e educação já vinha sendo atacados. Depois da pandemia, a situação se agravou. “Temos de proteger a vida para pensarmos como tratar a juventude, os estudantes. A pauta foi invertida. Acredito que a injustiça do ‘quem puder fazer’, da educação à distância, já é a desigualdade. Sabemos que os alunos e alunas da escola pública dificilmente têm acesso à rede da internet”, disse.

A posição do sindicato é de adiamento do Enem. “Entendemos que não dá para fazer se não tem o que é essencial, que é o mínimo da base curricular. Mesmo que torta, ela tem que ser igual para todos. Base curricular é o conteúdo que não pode faltar para nenhum aluno.”

A deputada estadual por Minas Gerais Bia Cerqueira (PT), presidenta da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa, reforça. “Nosso posicionamento é pelo adiamento do Enem. Estamos em uma situação excepcional. Nunca tivemos de passar por nada do que estamos vivendo. Preocupação com leitos, vidas, interrupção do estudo, falta de prazo para retorno das atividades essenciais. Diante da excepcionalidade, é preciso que tenhamos sensibilidade. Precisamos de gestores que tratem a situação de forma especial. Por isso o adiamento do Enem.”

Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo, a luta pelo adiamento do Enem é conjunta de profissionais e estudantes. “Precisamos do adiamento do calendário de aplicação dos testes. Estamos sem aulas, estamos sem condições para que os alunos de escolas públicas acessem o conhecimento necessário para executar o Enem. Por isso, é importante respeitar o ser humano, a pandemia e o isolamento social”, disse.