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Future-se pretende impor às universidades a mesma lógica do sistema financeiro

Instituições serão forçadas a só atuar naquilo que traga rentabilidade, critica representante dos professores da Unifesp
Publicado por Helder Lima, da RBA
07:35
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Reprodução

Feldman: "Querem transformar a universidade em uma grande empresa, estimulando a concorrência entre professores, entre departamentos"

São Paulo – Após promover diversos desmontes na educação pública, como corte de verbas e bloqueio de bolsas de estudo, o governo de Jair Bolsonaro apresentou seu primeiro projeto para a área, o Future-se, que na prática privatiza universidades e institutos federais.

O programa visa a atrair investimentos para a universidades e institutos por meio da iniciativa privada. O governo alega que o programa fortalece as instituições de ensino, mas na prática não é bem assim, explica o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Daniel Feldman, que também é presidente da associação de docentes dessa universidade.

“É uma proposta, na nossa avaliação, muito perigosa para as universidades. Esse fundo, que vai atuar na mesma lógica do mercado financeiro, evidentemente vai exigir como contrapartida, ou para que ele possa financiar a atividade, que as universidades serão forçadas a só atuar naquilo que traga rentabilidade financeira”, diz, em entrevista a Dayane Ponte para o Seu Jornal, da TVT.

Um dos itens polêmicos do Future-se é a cobrança de mensalidades. Atualmente, mais de 70% dos alunos das universidades federais são de baixa renda. E caso as instituições públicas passem a cobrar mensalidade essa realidade mudará drasticamente.

É o caso da Andressa Valério, que quer fazer medicina e não pode arcar com as despesas do curso. “Não tenho condições nenhuma, nas particulares o preço é extremamente elevado e não tem como bancar o curso”.

O programa ainda prevê um fundo de R$ 102 bilhões para atrair investimentos de instituições privadas, mas na prática isso deve acabar com a pluralidade e liberdade acadêmica.

“Em vez de um local de produção de conhecimento e cultura, de pesquisa autônoma, dialogando com a sociedade, você quer transformar a universidade em uma grande empresa, estimulando a concorrência entre professores, entre departamentos, para desesperadamente receber o financiamento desses fundos que vão funcionar na lógica privada”, afirma Feldman.

Para o professor Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli, o Future-se tem muitos problemas desde a sua criação e não corresponde à realidade das universidades públicas.

“O projeto não é um programa de investimentos, mas um programa de desresponsabilização estatal. Ele fala em utilização dos recursos públicos na universidade, sem licitações, e vai ter de mexer na lei 8666, que trata disso”, diz. O professor também diz que o programa fala da ocupação de espaços ociosos nas universidades, “mas nós sabemos que as universidades não possuem esses espaços ociosos, é um programa desatrelado da realidade da universidade”.