Pandemia e recessão

É preciso pensar em modelo pós-pandemia, pelo desenvolvimento e sem a ‘seita’ financeira

Para economista, é “insano” imaginar que o setor privado puxará a recuperação

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Adriana e Guilherme: recuperação vai demorar, mas depende do Estado e da sociedade

São Paulo – Enquanto se tenta reduzir os danos causados pela pandemia, o país e a sociedade precisam pensar em um novo modelo econômico, com planejamento e presença maior do Estado, que será o principal responsável pela saída da crise. Em linhas gerais, essa reflexão foi feita durante debate realizado na noite de ontem (6) entre a socióloga Adriana Marcolino, técnica do Dieese, e o economista Guilherme Mello, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Enquanto isso, alguns “estragos” ainda serão sentidos pela população.

Adriana lembra que a economia já vinha mal antes mesmo do surgimento da pandemia, embora se falasse, sem base sólida, em crescimento acima de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. “O mercado comemorava isso como resultado muito positivo. Dificilmente chegaria, e se chegasse seria insuficiente para os problemas que a gente acumulou desde 2015”, observa.

Mas rapidamente os indicadores começaram a se deteriorar, diz a técnica do Dieese. Ela lembra, inclusive, que a atual taxa de desemprego (12,2%) ainda não reflete o período mais agudo da crise, porque inclui janeiro e fevereiro. E traça alguns cenários, todos ruins, para 2020.

Precarização e informalidade

No mais “otimista”, o PIB cairia 2% e, no mais provável, 4%. No mais pessimista, 8,1%, com uma taxa de desemprego em torno de 18% e aproximadamente 17 milhões de desempregados. “Lembrando que o mercado de trabalho sempre foi fortemente precarizado, mas neste último período a precarização e a informalidade aumentaram consideravelmente. Parte considerável não tem acesso ao seguro-desemprego.”

Por isso, é fundamental pensar em medidas para proteger renda, emprego e saúde, aumentando a capacidade do Estado de financiar políticas públicas. Não é bem o que acontece agora, acrescenta. “As medidas (do governo) ou são tímidas ou têm dificuldade de chegar na ponta, para quem efetivamente precisa, ou retiram direitos. Ou a soma de todas essas alternativas.”

Adriana lembra ainda que a avaliação inicial do governo é de que seria uma crise passageira. Por isso, a primeira medida foi antecipar recursos que seriam gastos no segundo semestre, como abono salarial. Mesmo no auxílio emergencial, a princípio o Executivo queria pagar apenas R$ 200. Soma-se a isso uma crise política instalada.

Transformação da sociedade

“As próximas medidas têm que pensar na transformação da sociedade, em um novo Estado. O primeiro debate é sobre qual modelo de desenvolvimento nós queremos. Precisamos fortalecer as ferramentas ainda disponíveis (estatais, SUS, BNDES). Adensar as cadeias produtivas, reduzindo a dependência externa.”

É preciso mesmo “pensar no pra frente”, diz o professor Guilherme, ao observar que se trata de uma crise diferente das anteriores. “Atinge a economia primeiramente no setor produtivo e vai se transferindo para os mercados financeiros. Diferente também porque paralisa os fluxos de renda. As empresas não podem produzir, os comércios e os serviços não podem funcionar. Empresas param de ter faturamento e os empregados são demitidos ou têm o salário cortado.”

E novamente será o Estado o responsável por atenuar os efeitos da crise. Se na crise financeira de 2008 “estatizou os estoque de riqueza”, agora tem que estatizar os fluxos de renda, garantindo um nível mínimo de funcionamento da economia. “A crise é muito mais ampla e exige um papel muito maior de coordenação do Estado”, diz Guilherme. Ao mesmo tempo, ele lamenta que o Brasil viva este período com “talvez o pior governo desde a República, o mais despreparado”.

Religião do capital

E a equipe econômica tem com o dito mercado uma espécie de “seita” e não apenas desconhece o setor público, observa o professor da Unicamp. “Odeia, na verdade. E com traços religiosos: a religião do capital financeiro. O Guedes (ministro da Economia, Paulo Guedes) é incapaz de entender a profundidade dessa crise. Além do que Guilherme chama de “descolamento da realidade” por parte de Guedes e sua equipe, as medidas apresentadas até agora representam os que americanos chamariam de too little, too late (“Muito pouco, muito tarde”).

“O setor privado já vinha fragilizado”, afirma o economista, que considera uma “insanidade” a ideia de Guedes de que a recuperação será puxada pela iniciativa privada. “É absolutamente insano, mas é no que o governo está apostando. O Chile, do Piñera (o presidente Sebástian Piñera), que é liberal, tem um pacote maior que o nosso.”

Segundo ele, para começar a sair da crise será preciso muito investimento público, juros baixos e uma reforma tributária progressiva, para distribuir renda. Mello observa que os juros já caíram ontem e provavelmente terão novas reduções, já que a inflação não é motivo de preocupação neste momento. “Provavelmente teremos deflação.”

Negociação coletiva

Ao se referir a ações do governo como a Medida Provisória 936, que permite acordos individuais para redução de direitos, Adriana avalia que as negociações coletivas poderiam ampliar a produtividade e manter um nível maior de remuneração. “O movimento sindical tem um desafio, porque com o isolamento social é difícil promover a mobilização dos trabalhadores, mas por outro lado pode inovar e buscar formas alternativas de contato, inclusive com aqueles informais”, observa, citando o exemplo do 1º de Maio, cuja audiência teria sido de aproximadamente 10 milhões de pessoas.

Guilherme identifica novas formas de trabalho, mas pouco seguras ou vantajosas para o empregado. “Pode levar a aumento do trabalho fora do ambiente de trabalho.” Se por um lado a empresa teria redução de despesas, por outro o funcionário em casa tem aumento de gastos com alimentação, internet, luz, limpeza. “E você acaba criando um trabalho quase contínuo.”

Por um viés mais otimista, ganha força a ideia da renda básica de cidadania, não apenas no Brasil. “Vai demorar a ser como era. Novas formas de trabalho têm de ser regulamentas pelo Estado”, diz o economista. Não se trata de “planificação total” da economia, “mas a falta de planificação é delírio, uma seita que não consegue reconhecer a complexidade dos problemas reais”.

Adriana e Guilherme destacam o papel de estados e municípios neste momento, além do Congresso. “Quem precisa retomar mesmo o protagonismo é a sociedade. Sejam os sindicatos, sejam os movimentos sociais, a sociedade precisa mostrar vitalidade, senão vai virar o cada um por si.”