História

De ‘Cabra Marcado para Morrer’, Elizabeth Teixeira é vacinada para viver

Protagonista de documentário de Eduardo Coutinho, ex-líder camponesa, de 96 anos, recebe a primeira dose da vacina contra a covid-19

Wyliana Teixeira/Reprodução/Montagem RBA
Vacinada no último dia 19 em João Pessoa, Elizabeth foi filmada em 1964 e reencontrada por Coutinho em 1981

São Paulo – Cabra Marcado para Morrer é um documentário que juntou pedaços da história brasileira e de sua própria história para ser concluído. Filmado por Eduardo Coutinho, conta a trajetória do líder camponês João Pedro Teixeira, morto com um tiro pelas costas em 1962, no interior da Paraíba. O trabalho de Coutinho teve de ser interrompido em 1964, por causa do golpe – parte da equipe chegou a ser presa. E só recomeçou em 1981, para ser concluído em 1984, 20 anos depois.

No filme, se destaca a figura de Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro. Agora, aos 96 anos (que completou seis dias antes), a ex-líder rural recebeu, no último dia 19, a primeira dose da vacina contra a covid-19, em imagem registrada por Wyliana, sua neta, e publicada nesta quarta-feira (24). Ela mora atualmente no bairro de Cruz das Armas, em João Pessoa. O registro também foi divulgado pelo Memorial das Ligas Camponesas, e até compartilhado pelo cineasta Kleber Mendonça Filho, um dos diretores do filme Bacurau, que se referiu a Elizabeth como “uma das grandes brasileiras da História”.

Violência no campo

O golpe ainda não havia se consumado, mas os conflitos de terra sempre foram uma realidade no país. O cabra marcado João Pedro, líder das Ligas em Sapé, na Paraíba, foi assassinado durante o governo João Goulart. E Elizabeth foi várias vezes ameaçada de morte. Viúva e com 11 filhos, trocou de nome e foi viver clandestinamente no interior do Rio Grande do Norte. As filmagens de Cabra nos anos 1960 foram feitas no engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão (PE). O filme “recomeça” em São Rafael (RN).

Na época, Eduardo Coutinho ainda trabalhava para o programa Globo Repórter. A carreira de documentarista deslancharia anos depois, com filmes como Santo Forte (1999), Edifício Master (2002), Peões (2004) e Jogo de Cena (2007), entre outros. Tornou-se referência brasileira e internacional. Morreu de forma trágica em 2014, aos 80 anos. Elizabeth continua fazendo história.


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