Memória

Carolina Maria de Jesus, a improvável escritora da realidade, ganha título universitário

UFRJ concede título de doutora Honoris Causa à autora de “Quarto de Despejo”

Audálio Dantas
Moradora de uma favela em São Paulo, ela foi descoberta por jornalista em 1958

São Paulo – Moradora de favela, catadora de papel, negra, Carolina Maria de Jesus recebeu o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A homenagem póstuma – ela morreu em 1977, aos 62 anos – foi aprovada na última quinta-feira (25), por unanimidade, pelo Conselho Universitário da instituição.

Uma autora improvável, como assinalou texto da própria UFRJ. Que escreveu com a realidade, conforme definiu Clarice Lispector, uma de suas admiradoras.

Carolina foi “descoberta” pelo jornalista Audálio Dantas. Ele trabalhava em uma reportagem sobre a favela do Canindé, à beira do rio Tietê, na zona norte de São Paulo. Foi lá que, em 1958, Audálio descobriu a moradora que vivia “de apanhar papéis no lixo para vender”. E tinha um diário iniciado três anos antes.

“Trastes velhos”

Com pouco estudo formal, Carolina, chamada de Bitita na infância, sempre gostou de ler. Nascida em 1914 em Sacramento (MG), perto de Araxá, foi para São Paulo depois da morte da mãe. Em 1947, estava no Canindé. Tornou-se conhecida até fora do Brasil com o lançamento do livro Quarto de Despejo, em 1960. A expressão se referia à própria favela, onde ficavam os pobres, “os trastes velhos”. Ela teve outros livros publicados, inclusive póstumos.

“Uma reparação histórica do esquecimento produzido sobre a história dos negros e de personalidades negras marcantes, como é o caso de Carolina de Jesus”, disse o professor Vantuil Pereira, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH/UFRJ), sobre a homenagem. “Essa reparação tem um papel didático em sociedades como a brasileira, que durante muito tempo viu o negro de forma negativa pelo completo desconhecimento histórico”, acrescentou.


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