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Teresa Cristina: ‘Enquanto artista, a gente tem o dever de se posicionar’

Em participação no programa Hora do Rango, da Rádio Brasil Atual, cantora e compositora diz que não se deve ter medo de 'usar o microfone' e perder público. “Se perder, é que aquele público não é o seu”

Reprodução/Youtube
'Não se pode agir como se tudo estivesse às mil maravilhas no Brasil, tudo incrível, como se a gente vivesse em uma democracia plena. Não estamos'

São Paulo – Como artista, tenho um microfone. Minha voz é amplificada em alguns momentos da minha vida e tenho de falar sobre o que está rodeando a gente. A gente não pode ter medo de perder público. A opinião é da cantora e compositora Teresa Cristina. Em participação no programa Hora do Rango, da Rádio Brasil Atual (no dia 31 de agosto de 2019), onde lançou novo CD dedicado à obra de Noel Rosa, uma das principais vozes do samba fez questão de se posicionar politicamente.

Clique aqui para ouvir a íntegra do programa com a sambista. Na noite da mesma sexta-feira, Teresa fez uma apresentação única no Sesc Pinheiros, acompanhada de Carlinhos Sete Cordas.

“Se você fala alguma coisa importante, sobre alguma ação importante, política, e isso faz você perder o seu público, é porque você está com o público errado. Você não merece esse público. Deixa esse público ir embora. Não é para essas pessoas que eu quero cantar. Eu quero mostrar minha arte para quem tem sensibilidade ao que eu canto e o que minha voz representa”, enfatizou durante conversa com o jornalista Colibri Vitta.

Segundo destacou, é impossível escolher os ouvintes, assim como “entrar na cabeça das pessoas e colocar a nossa posição política”. “Mas isso nunca vai fazer com que a gente mude as escolhas, que a gente não se posicione. A gente tem esse dever de se posicionar enquanto artista, porque não dá para chegar com um microfone a sua frente e agir como se tudo estivesse às mil maravilhas no Brasil, tudo incrível, como se a gente vivesse em uma democracia plena. Não estamos. Não está favorável. Vai ficar, mas não está”, disse.

Na avaliação da sambista, o desmonte da cultura e educação é um projeto do governo – não uma fatalidade. “Esse desmonte da cultura, da educação, é para que essas pessoas sem cultura e sem educação ouçam esses discursos vazios e completamente desprovidos de inteligência, de muitos candidatos à presidência, inclusive. Sem educação e cultura elas vão achar que aquilo faz algum senso, algum sentido. Porque só você não tendo nenhum conhecimento de história, de geografia, de cultura, você pode entender um discurso de raiva e que usa a palavra de Deus para pregar a pena de morte. É uma coisa bizarra”.

Teresa Cristina não poupou críticas a Michel Temer, sem pronunciar o nome. “Esse vampiro que deu o golpe, que está no poder sustentado por uma linha mais tênue do que aquela que separa os idiotas das pessoas normais, é uma coisa absurda. Até o Romero Jucá, aquele do ‘Com Supremo, com tudo, é só tirar a Dilma’, achou que era demais para ele e saiu do governo. Eu fico imaginando: acho que ele (Temer) não deve ter mordomo, gente. Ele não deve ter nem quem o sirva. Os funcionários não estão em volta dele. Ele está completamente abandonado. Ele está abandonado pelas pessoas físicas, mas ele está lá para sustentar o golpe, né? É por isso que ele não cai. Se caísse, o golpe cairia.”

Após o sucesso do álbum Teresa canta Cartola, a sambista dedica um CD a Noel. Com direção musical de Caetano Veloso, o álbum resgata o talento de letrista do poeta da Vila Isabel. É o segundo da trilogia proposta por ela em homenagem os grandes sambistas. O terceiro será Nelson Cavaquinho.

De origem pobre, Teresa exerceu várias profissões antes de começar carreira artística. Em mais de 20 anos de carreira, a cantora premiada tem lotado shows no Brasil e no exterior.

Reveja integra do programa gravado em 31 de agosto