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Longa ‘Os Pobres Diabos’ homenageia a tríade circo, cordel e sertão

Filme de Rosemberg Cariry traz no elenco os atores Chico Diaz, Sílvia Buarque e Gero Camilo, membros de uma companhia mambembe que dribla a pobreza para levar arte ao povo
Publicado por Xandra Stefanel, especial para RBA
17:36
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Fotos: Divulgação
picadeiro

Apesar da pobreza, a trupe trabalha para dividir com o povo a beleza artística e a tradição circense

A trupe do Gran Circo Teatro Americano chega ao descampado relativamente longe da cidadezinha de Aracati, no litoral do Ceará. Na bagagem, há uma cabra, uma galinha, alguns gatos e a esperança de que talvez ali o grupo consiga levar a arte circense para um bom público. Lona rasgada, o vestuário simples, estrutura precária, pagamento escasso e falta de comida são alguns dos entraves do dia a dia dos artistas, personagens do longa-metragem Os Pobres Diabos, que estreia nesta quinta-feira (6) nos cinemas.

Com direção de Rosemberg Cariry, o filme faz uma singela homenagem à arte circense, à literatura de cordel e à vida sertaneja. O elenco composto por Chico Diaz, Sílvia Buarque, Everaldo Pontes, Gero Camilo, Zezita Matos e Sâmia Bittencourt tem trama marcada por um ritmo que lembra o da literatura de cordel. Este gênero é homenageado com rimas e encenações no picadeiro e fora dele.

Em referência clara à Santa Ceia, trupe divide tapioca e café

Uma das peças apresentadas pela trupe é uma espécie de auto sobre uma cômica relação entre o cangaceiro Lampião e Satanás. E esta não é a única referência bíblica do filme: na cena mais emblemática do longa, a trupe recém-chegada à cidade de Aracati se reúne em uma longa mesa para dividir a tapioca e o café, em uma clara alusão à Santa Ceia. Antes de começar a refeição, o dono do circo lamenta: “Hoje nós temos o que comer, meus queridos. Amanhã, não sabemos”. Na verdade, Os Pobres Diabos parece ser uma fábula sobre a luta pela sobrevivência por meio da arte, ainda mais difícil para os artistas pobres e periféricos.

A batalha deles é contra a própria miséria, mas também contra a pobreza do povo, sem dinheiro para apreciar atrações culturais pagas e muitas vezes sem paciência para um circo que não conseguiu acompanhar as mudanças tecnológicas atuais. Apesar de tudo, todos ali trabalham para dividir com o povo a beleza artística e a tradição circense.

'E o palhaço, o que é?'Mesmo com um ritmo inusitado e alguns lugares comuns, a trama é cheia de bons momentos, especialmente no que se refere à fotografia de Petrus Cariry, que mostra a beleza dura e ao mesmo tempo alegre do Nordeste. Segundo a divulgação do filme, Rosemberg não tinha a intenção de “revelar um universo fechado ou pitoresco da cultura nordestina, por perceber que muitas vezes isso pode resvalar para estereótipos e clivagens muito próximas do preconceito”. O diretor afirma que “a discussão sobre o significado de cultura e especificidade cultural é um desafio para o qual devemos estar sempre atentos. Nesse sentido, como artistas de circo, os personagens têm em comum a característica de viajantes e nômades: com o passar do tempo, eles vão adquirindo características de tantos lugares por onde passaram e/ou viveram, que já não é possível identificar de onde eles vieram, ou que lugar ou cultura representam. Esta decisão está refletida na escolha que fizemos dos atores e atrizes de Os Pobres Diabos, vindos de várias regiões do país”.

Chico Diaz, que na vida real é casado com a atriz Sílvia Buarque (da qual é amante na trama), ressaltou o prazer de poder trabalhar em família em um longa independente. “Poder trabalhar em um ambiente autoral e regional é um privilégio, ainda mais nos dias que correm, onde a voz única de mercado e de superfície condenam qualquer voz dissonante. Poder trabalhar em um tema que versa sobre a condição do artista, ambientado em um pequeno circo onde glória, amor, poder e arte se misturam é uma sorte. Poder trabalhar em família é uma bênção. A minha, a do Rosemberg, a do circo. Devemos muito à família circense reunida.”

CartazDireção: Rosemberg Cariry
Elenco: Chico Diaz, Sílvia Buarque, Everaldo Pontes, Gero Camilo, Zezita Matos, Sâmia Bittencourt, Nanego Lira, Georgina de Castro, Reginaldo Batista Ferro, Letícia Sousa Perna e Sávio Ygor Ramos
Produção executiva: Bárbara Cariry
Direção de produção: Teta Maia
Roteiro: Rosemberg Cariry
Fotografia: Petrus Cariry
Montagem: Rosemberg Cariry e Petrus Cariry
Som: Yures Viana e Érico Paiva (Sapão)
Desenho sonoro e mixagem: Érico Paiva (Sapão)
Direção de arte e figurino: Sérgio Silveira
Cenografia: Sérgio Chaves
Trilha sonora original: Herlon Robson
Participação musical especial: Son da Madera (México)
Coordenação de Produção: Willa Lima
Assistente de direção: Frazão