De qualidade

Vinho de inverno: técnica da dupla poda permite colheita da uva no período mais seco

Na região da Serra da Mantiqueira, cresce uma uva cuja colheita é feita no inverno, para fugir das chuvas de verão. Dessa uva, nasceu um vinho que vem ganhando o mundo

Divulgação
Dupla poda rende frutos excepcionais na região de Minas Gerais

São Paulo – Tanto no Hemisfério Sul quanto no Hemisfério Norte, a uva é colhida no verão. No entanto, já faz alguns anos que o Brasil aprimorou uma técnica que ajudou a modificar o ciclo da videira, permitindo que, em vez de no verão, ela seja colhida no inverno. Trata-se da dupla poda ou poda invertida, uma técnica aprimorada por pesquisadores da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) há alguns anos, que permite que os produtores colham a uva no período mais seco e, assim, possam garantir a qualidade de seus vinhos.

Essa técnica já era usada na produção de uva de mesa, mas os pesquisadores da Epamig testaram-na para a produção de uva fina, destinada ao vinho fino. Vem dando muito certo. Tanto que tornou o Sudeste, mais especialmente as vinícolas dos arredores da Serra da Mantiqueira, com Minas Gerais de um lado e São Paulo do outro, uma bem-sucedida região produtora de vinho. Alguns deles inclusive premiados internacionalmente. É lá que ficam, por exemplo, Guaspari, Casa Geraldo, Maria Maria e Luiz Porto, só para citar algumas.

Longevidade e qualidade

No entanto, essa técnica de manejo tem ampliado seus tentáculos para outras localidades, como o Centro-Oeste (Goiás) e a Chapada Diamantina (BA), que também têm obtido resultados bastante promissores.

Para saber mais sobre o assunto, a coluna entrevistou, por telefone, a Isabela Peregrino, 35 anos, enóloga e pesquisadora respeitadíssima à frente da Epamig.

Sobre os vinhos de inverno, ela diz: “Nós temos açúcar e acidez e, ao mesmo tempo, taninos (que são bons para a estrutura) e cor. Por tudo isso, os vinhos produzidos aqui têm como característica a longevidade e a qualidade”.

Isabela Peregrino

Confira a entrevista

Como você começou no mundo do vinho?

Nasci em Lavras e cresci em Juiz de Fora (Minas Gerais), onde cursei Farmácia na Universidade Federal de Juiz de Fora. Durante a faculdade, fiz um estágio na J. Lohr, vinícola localizada na Califórnia (EUA). Foi na área de análise e controle de qualidade, por meio de um programa do Caep Brasil (Communicating for Agriculture Education Program). Fiquei cinco meses lá e voltei alucinada, com a certeza de que era isso que queria fazer para o resto da minha vida.

Depois você estudou enologia?

Sim. Eu voltei do estágio, falei com o meu pai que queria seguir na área de alimentos. Eu me interessava pela área de medicamentos, mas depois do estágio esqueci isso (risos). Fiz uma pesquisa de onde tinha o curso de enologia e descobri o Instituto Federal de Bento Gonçalves (RS). Passei no vestibular e cursei Tecnologia em Viticultura e Enologia. No último ano do curso, voltei à J. Lohr para fazer o estágio lá. Ou seja, quatro anos depois, em 2012, eu voltei para lá.

Na Epamig

Como começou sua trajetória na Epamig?

Eu conheci o Murillo Regina (ex-coordenador de pesquisas da Epamig) em 2010, quando fazia um trabalho na graduação. Escolhi falar sobre cultivo de uvas em Minas Gerais. A dupla poda estava no início ainda. Vi que tinha muita coisa da Epamig e mandei e-mail perguntando se podia vir conhecer. Em 2011, fiquei dois dias conhecendo as pesquisas, a unidade, e ele me ofereceu estágio. Houve uma movimentação por uns oito meses, mas o convênio entre as duas instituições não saía. Até que não pude aguardar mais, aí decidi fazer o estágio na J. Lohr novamente.

Em 2013, quando voltei do estágio, surgiu a oportunidade de uma bolsa na Epamig por seis meses. Então, colei grau em uma sexta-feira e na segunda-feira seguinte já estava aqui trabalhando (risos). Passado esse tempo, ele me indicou para trabalhar na Luiz Porto (vinícola mineira). Fiquei um ano e quatro meses. Quando uma pesquisadora daqui saiu, cobri a vaga dela. Estou aqui há seis anos como enóloga.

Como foi o desenvolvimento desse trabalho com a dupla poda?

Surgiu no início dos anos 2000 para uva fina. O primeiro artigo desse experimento foi publicado em 2005, pelo Murillo e a equipe de pesquisadores da Epamig. Essa segunda poda já existia para uva de mesa, na região de Jundiaí (interior de São Paulo). O Murillo desenvolveu o manejo para vinho fino, porque o inverno daqui é bastante seco, com dias ensolarados e noites frias, fatores essenciais para uma uva de qualidade.

Nesse sistema, a poda tradicional é feita no fim do inverno (em setembro), com corte de galhos para formação dos ramos. A segunda é feita entre meados de janeiro e de fevereiro. Uma poda produtiva, para maturação e colheita no inverno. Assim foge-se da colheita no verão bastante chuvoso.

Os primeiros

Quando surgiu o primeiro vinho com essa técnica?

O primeiro parreiral foi implantado num parceiro, a vinícola Estrada Real, em Minas. E o primeiro vinho lançado foi o Primeira Estrada, um Syrah safra 2010, que chegou ao mercado em 2012. Anos depois, lançamos o Maria Maria (projeto do viticultor Eduardo Junqueira Nogueira Junior, que é amigo do cantor Milton Nascimento, e homenageou o vinho com a música dele), que foi premiado em 2017 pela Decanter (prestigiosa revista inglesa sobre vinhos). A partir da premiação virou um boom, começou a sair parreiral para tudo quanto é lado, gerando uma falta crônica de mudas de Syrah (risos).

Desde aquela época, quanto cresceu a área plantada de uva por aí?

Contando Sudeste e Centro-Oeste, estamos saindo de uns 200 hectares para uns 400 hectares. Antes era só cultivo tradicional (sem dupla poda) de uva. Agora temos projetos até na Chapada Diamantina (BA).

Parreiral da Epamig: lançamento do Maria Maria, premiado em 2017, fez uvas virarem boom

É sabido que a dupla poda tem resultados diferentes entre as variedades de uva. Para quais ela se dá melhor?

A Sauvignon Blanc e a Syrah são as mais estabelecidas, mas estamos com ensaios para testar 11 novas variedades. Estamos no terceiro ano de avaliação, e tem algumas que estão despontando, como a Tempranillo, a Grenache, a Marselan. Mas só vamos ter certeza na quarta avaliação, que é no ano que vem. A Merlot e a Cabernet Sauvignon não respondem bem à dupla poda. A qualidade do fruto é boa, mas economicamente não é viável ainda. (Há um experimento da Epamig testando oito novos porta-enxertos para essas duas variedades, na tentativa de melhorar a resposta delas à dupla poda).

Força das pesquisas

Quanto tempo leva para fazer uma pesquisa desse tipo?

Leva três anos para a planta começar a produzir, depois avaliamos por mais três anos. Nós tivemos o lançamento de dois clones de uva Bordô (Paco e Bocaina), para vinho e suco de mesa. Esses clones aumentaram muito a produção da uva e levamos 20 anos realizando os ensaios.

E como se escolhe o clone que vai ser reproduzido?

No caso da uva Bordô, fez-se a prospecção de plantas. Há parreiras com mais de 70 anos, então verificou-se a planta mais bonita, que dá cachos diferentes, se não tem doenças, a capacidade produtiva (queríamos uma capacidade maior que quatro quilos por planta, então escolhemos aquelas mais produtivas). Nós fomos afunilando até chegarmos a três clones.  Dois desses clones foram lançados comercialmente (Paco e Bocaina).

E aí vocês comercializam os clones?

Sim, nós os reproduzimos aqui e os produtores podem comprá-los.

Gostaria que você contasse um pouco da história da Epamig.

A Epamig é uma empresa agropecuária estadual, voltada à pesquisa, como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Há várias unidades espalhadas pelo estado, voltadas ao café, leite, gado, aos grãos… A daqui de Caldas é voltada à viticultura e enologia. Essa unidade completa 84 anos em 2020. A área foi doada por produtores de uva da região, com o propósito de se fazer uma fazenda experimental, em 1936, durante o governo de Getúlio Vargas. À época, pertencia ao Ministério da Agricultura. Ela foi entregue à Embrapa quando foi fundada e, depois, cedida à Epamig quando ela foi fundada. Desde sempre foi voltada à pesquisa em viticultura.

Buscando alternativas

Houve uma época em que a viticultura caiu no ostracismo aí, não?

Sim. A cultura da videira entrou em declínio, pois nosso verão é muito chuvoso, não propício para a colheita de uva. Há 30 anos, a Epamig tirou todo o parreiral e começou a buscar alternativas para trazer de volta essa cultura. O primeiro foco foi a prospecção de fazer um clone produtivo da Bordô. Havia um problema de abortamento de flores (o que diminuía a produção das plantas). Buscou-se, então, os clones que não tinham essa característica para resolver o problema da baixa produtividade. Depois disso, a Epamig (o Murillo Regina era o coordenador) trouxe para o Brasil a técnica de enxertia de mesa. Até então, os produtores importavam suas mudas enxertadas ou faziam trabalho de enxertia de campo. Na sequência veio a dupla poda e, por último, o espumante da Serra da Mantiqueira.

Fazemos pesquisa para produção de espumante no método tradicional. Ou seja, a Epamig solucionou vários problemas. Os clones selecionados de Bordô favorecem a produção de uma das principais uvas plantadas no Brasil inteiro. A enxertia de mesa desobrigou os produtores de importar as mudas. A dupla poda resolveu problema da elaboração de vinho fino no Sudeste. E, por último, desenvolvimento de espumante para regiões que não são aptas à dupla poda.

Como todo o trabalho da Epamig é mantido?

Os salários são mantidos pelo governo (de Minas Gerais). As fazendas são mantidas pelo dinheiro obtido com a venda de mudas, café, grãos. Ou seja, a Epamig vende a sua tecnologia para bancar as suas despesas. As pesquisas são financiadas por agências de fomento, como CNPQ, Capes. Aqui, também vendemos os vinhos que produzimos e prestamos serviços de vinificação para produtores que estão começando.

Estrutura

Qual é a produção de vocês atualmente?

Hoje atendemos 26 produtores. Neste inverno, processamos 30 toneladas, menos do que normalmente processamos, que é 50 toneladas.

Quantas pessoas trabalham com você?

Somos eu e o cantineiro. Temos também alguns estagiários e bolsistas. Mas na pandemia ficamos só nós dois.

Mulheres na enologia

Sendo uma mulher bastante respeitada no mundo da enologia, você já foi vítima de preconceito ou sentiu alguma dificuldade no trabalho?

Aqui eu não senti. No Rio Grande do Sul, senti um pouco mais de dificuldade, porque lá a enologia é um mundo mais masculino. Eram poucas meninas na minha sala de aula. Porém, nunca senti alguém duvidando da minha capacidade.

Mas sabemos que o mundo do vinho tem muito trabalho pesado…

Tem coisas que a gente não consegue fazer mesmo. Sou mulher, independente, pago minhas contas, mas sei que tenho minhas limitações para subir num tanque carregando um balde pesado, virar caixa de uva na desengaçadeira (risos). Nessa parte eu sei que preciso da ajuda dos meninos. Mas eu sempre digo às meninas que fazem estágio aqui comigo, para que não deixem os meninos ficarem fazendo as coisas para elas.

Nova safra

Sobre a safra deste ano, que acabou faz pouco tempo aí: o que podemos esperar dos vinhos que chegarão em alguns anos ao mercado?

A qualidade da uva desta safra foi muito boa, tivemos boa estiagem, com dias quentes e noites frias. A pandemia afetou um pouco o enoturismo da região, mas a produção não foi impactada.

Para quem não conhece, como você descreveria os vinhos produzidos nessa região?

O principal fator é a sanidade da uva, que tem muito bom grau de maturação. A dupla poda permite que a uva amadureça plenamente, tendo boa estrutura e cor. No tempo seco a maturação é longa, então o teor alcoólico é alto. As noites frias permitem a manutenção da acidez, então, nós temos açúcar e acidez e, ao mesmo tempo, taninos (que são bons para a estrutura) e cor. Por tudo isso, os vinhos produzidos aqui têm como característica a longevidade e a qualidade, tudo isso trazido pelo manejo da dupla poda.

Glossário

Enxertia: as mudas de uvas finas (espécie Vitis vinifera) são enxertadas nas uvas americanas, pois estas são mais resistentes à filoxera, inseto que dizimou vinhedos na Europa no século 19. Ela pode ser feita na mesa (mesa mesmo!) ou no campo, quando as mudas já estão plantadas.

Dupla poda: modifica o ciclo natural da planta, fazendo-a maturar e ser colhida no inverno. Consiste em duas podas, pois a primeira, de formação de ramos, ocorre normalmente em setembro. A segunda, de produção, ocorre em janeiro ou fevereiro. Na colheita tradicional é feita uma poda só, de produção, em agosto ou setembro, para colheita no verão (janeiro ou fevereiro).

Método tradicional: trata-se do método Champenoise, uma técnica francesa adotada com muito sucesso aqui no Brasil. Por esse método, a segunda fermentação, para a formação de bolhas do espumante, é feita na própria garrafa.

Desengaçadeira: equipamento que tira as bagas da uva, separando-as do engaço ou ‘esqueletinho’ da uva. É necessária essa separação porque o engaço tem sabor muito amargo e pode estragar o gosto do vinho.


Adriana Cardoso é jornalista com mais de 20 anos de estrada, além de enóloga formada pelo Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia de São Paulo, campus São Roque. Fez estágio na Villa Francioni, vinícola localizada na região conhecida como Vinhos de Altitude, na Serra Catarinense, e hoje aventura-se a escrever e falar sobre vinhos, além de dar consultoria em comunicação para vinícolas e outros negócios do vinho. Acompanhe também o podcast Taninos e Afins nas plataformas Anchor, Breakers, Google Podcasts, Pocket Casts, RadioPublic e Spotify.